🟣 Irmã do melhor amigo / Holly Wheeler
Pizzas, Ciúmes e Verdades Descobertas
A mentira pesava no seu polegar enquanto ele pairava sobre o botão de enviar. *Não, não a vi.* Três pequenas palavras que eram simultaneamente uma traição e um ato de proteção. Mark sentiu uma pontada de culpa misturada com a adrenalina persistente do seu encontro com Holly no balneário. O cheiro dela, uma mistura de chuva, do seu próprio blusão de moletom e de um perfume floral subtil, ainda parecia pairar no ar, mesmo por cima do odor a cloro e a suor. Ele enviou a mensagem. O jogo perigoso, como ele o chamara, acabara de subir de nível.
Ele guardou as suas coisas no saco de desporto, o coração a martelar um ritmo irregular contra as costelas. Cada som no corredor deserto do lado de fora parecia uma ameaça. O zelador a arrastar um caixote do lixo. Um cacifo a fechar-se ao longe. Ele saiu do balneário, sentindo-se exposto, como se a sua felicidade secreta estivesse estampada na sua cara para que todos a vissem.
A Pizzaria do Gino era um farol de normalidade barulhenta na noite húmida de Hawkins. As janelas estavam embaciadas pelo calor e pela conversa, e o cheiro a queijo derretido e orégãos atingiu Mark como um abraço familiar. Ele empurrou a porta, o sino acima dela a anunciar a sua chegada.
Numa mesa grande no centro, o seu grupo estava reunido. Mike ergueu a mão ao vê-lo, um sorriso de genuína camaradagem no rosto.
— Finalmente! Pensámos que tinhas decidido morar no balneário! — gritou Mike por cima da música que saía da jukebox.
Mark forçou um sorriso, caminhando até à mesa.
— Tive de receber os parabéns do treinador. Sabes como ele é — mentiu ele, a desculpa a sair mais facilmente do que esperava. Ele sentou-se no espaço vazio ao lado de Dustin, que já estava a meio de uma fatia de pepperoni.
— Cara, aquele último lance livre… — começou Lucas, os olhos a brilhar. — Foi épico! Digno de Larry Bird!
— Foi o meu cartaz — disse uma voz suave e familiar.
Mark virou-se. Holly estava a chegar à mesa, vinda da direção das casas de banho. O seu cabelo ainda estava ligeiramente húmido, mas ela trocara o blusão encharcado por uma camisola de malha seca que ele nunca vira antes. Ela parecia inocente. Normal. Ninguém diria que, há menos de meia hora, ela estava nos seus braços, debaixo de um chuveiro a jorros, num balneário masculino.
Ela sentou-se entre Mike e Eleven, evitando cuidadosamente o seu olhar.
— O meu cartaz lembrou-o de dobrar os joelhos — continuou ela, pegando num copo de água. — Foi puramente instrucional.
Max bufou.
— Sim, claro. Porque todos os teus outros cartazes ao longo dos anos foram tão "instrucionais". Lembro-me de um com corações de glitter no oitavo ano.
Holly corou, um vermelho adorável que se espalhou pelas suas bochechas.
— Eu era jovem e impressionável.
— Onde é que te meteste? — perguntou Mike, passando um braço pelos ombros da irmã. — Desapareceste das bancadas.
— Fui apanhada pela chuva quando fui ao carro buscar um casaco — disse Holly, sem hesitar. A sua capacidade de mentir sob pressão era impressionante. Talvez fosse um efeito secundário de ter crescido em Hawkins. — Tive de ir a casa trocar de roupa rapidamente. Não queria apanhar uma gripe antes dos exames.
A desculpa era perfeita. Plausível. Fechava todas as pontas soltas. Mark sentiu uma onda de alívio tão forte que quase o deixou tonto. Ele finalmente ousou olhar para ela. Os seus olhos encontraram-se por cima da cabeça de Dustin por uma fração de segundo. Nesse breve instante, um universo de coisas foi dito: *Estás bem? Conseguimos. Foi por pouco. Eu amo-te.*
— Bem, agora que a equipa está toda aqui, um brinde! — anunciou Mike, erguendo a sua coca-cola. — Aos Tigres de Hawkins, campeões do condado! E ao nosso MVP, Mark, que nos salvou o rabo mais uma vez!
Todos ergueram os seus copos, gritando "Mark!". Ele sentiu o rosto a aquecer, mas desta vez era de orgulho e afeto pelo seu grupo de amigos. Enquanto bebia, o seu olhar encontrou o de Holly novamente. Ela sorria para ele, um sorriso genuíno e radiante. E ele soube, naquele momento, que arriscaria tudo de novo, mil vezes, só para ser a razão daquele sorriso.
***
A celebração na pizzaria transformou-se numa festa improvisada. O velho Gino, feliz com o negócio, ligou as luzes de discoteca que guardava para ocasiões especiais e colocou uma compilação de sucessos dos anos 80 a tocar. Outros estudantes, atraídos pelo barulho e pela promessa de pizza grátis paga pela equipa, começaram a chegar, enchendo o espaço com uma energia caótica e festiva.
O grupo de Mark conseguiu garantir uma mesa mais isolada num canto, um refúgio da multidão crescente. A conversa fluía facilmente, saltando entre análises pós-jogo, planos para o verão e piadas internas que só eles entendiam.
Mark estava sentado ao lado de Lucas, mas a sua atenção estava do outro lado da mesa, em Holly. Ela estava inclinada para a frente, a rir de algo que Eleven sussurrara ao seu ouvido. A luz roxa da bola de espelhos dançava no seu cabelo, criando um halo etéreo à sua volta. Ele estava a observá-la descaradamente, perdido na forma como o seu nariz se enrugava quando ela ria, quando sentiu um cutucão nas costelas.
— Cara, disfarça um pouco — murmurou Lucas, com um sorriso conhecedor. — Vais queimar um buraco na cabeça dela com esse olhar.
Mark sobressaltou-se, desviando o olhar rapidamente.
— Não sei do que estás a falar.
— Pois não — disse Lucas, revirando os olhos. — Ouve, eu não sei o que se passa entre vocês os dois, e sinceramente, não quero saber dos detalhes porque ela é a irmã do Mike e isso é esquisito. Mas… fico feliz por ti, cara. Por vocês os dois.
Mark olhou para o amigo, surpreendido.
— O quê? Como é que tu…
— Mark, por favor. Eu tenho olhos. E a Max tem uma boca. Ela reparou na "tensão estranha" há semanas. Eu só demorei um pouco a acreditar nela. Mas hoje, no jogo… o teu olhar para as bancadas, o cartaz dela… não é preciso ser o Sherlock Holmes.
O coração de Mark saltou para a garganta. Se Lucas e Max sabiam, quem mais sabia? Será que o segredo deles era tão transparente assim?
— O Mike sabe? — perguntou Mark, a voz um sussurro tenso.
Lucas fez uma careta.
— Nah, acho que não. O Mike pode ser um génio em certas coisas, mas quando se trata da Holly, ele ainda a vê como a miúda de cinco anos que desenhava nas paredes. Ele é cego para isso. E é melhor que continue assim, se não quiseres que ele te arranque a cabeça.
A conversa foi interrompida pela chegada de um grupo de raparigas da equipa de cheerleaders, lideradas por Jessica Vance. Jessica era a personificação do cliché da rapariga popular: loira, bronzeada e com um sorriso que podia ser tanto encantador como perigoso. Hoje à noite, ela usava um top minúsculo que mal continha o seu peito, deixando muito pouco à imaginação, e uns calções de ganga tão curtos que eram mais um conceito do que uma peça de vestuário.
— Mark! Aí estás tu! — arrulhou ela, abrindo caminho até à mesa deles. Ela ignorou completamente todos os outros, os seus olhos fixos em Mark. — Estava à tua procura! A tua performance hoje foi absolutamente incrível!
Ela colocou uma mão no seu ombro, os seus dedos a traçarem o músculo do seu bíceps por cima da t-shirt.
— Obrigado, Jessica — disse Mark, sentindo-se subitamente desconfortável. Ele podia sentir o olhar de toda a mesa sobre ele, mas um em particular queimava-o. Do outro lado da mesa, o riso de Holly morrera. A sua postura estava rígida, os seus braços cruzados sobre o peito, e os seus olhos, antes cheios de alegria, eram agora duas lascas de gelo azul.
— "Obrigado, Jessica"? É só isso que dizes? — continuou ela, fazendo beicinho. — Salvaste o jogo! Mereces uma celebração a sério. Há uma festa em casa do Steve Harrington mais tarde. Sabes, uma festa de verdade, não esta reunião de clube de nerds.
A farpa foi claramente dirigida ao resto do grupo. Max ergueu uma sobrancelha, parecendo pronta para ripostar, mas Lucas colocou uma mão no seu braço, abanando a cabeça.
— Eu estou bem aqui, com os meus amigos — respondeu Mark, tentando manter a voz neutra. Ele tentou afastar-se subtilmente do toque dela, mas ela apenas se inclinou mais, o seu perfume a invadir o seu espaço.
— Oh, vá lá, Mark. Não sejas tão aborrecido. Tu és o herói da noite. Mereces divertir-te. Podemos ir juntos. O meu carro está lá fora.
O olhar de Mark disparou para Holly. A sua expressão era indecifrável, uma máscara fria que escondia a tempestade que ele sabia que se estava a formar por baixo. Ela estava a olhar para as suas próprias mãos, entrelaçadas com força em cima da mesa. O branco dos seus nós dos dedos era o único sinal da sua fúria.
Ele sabia que tinha de pôr um fim àquilo, e depressa.
— Jessica, agradeço o convite, mas eu vou ficar aqui — disse ele, a voz mais firme desta vez. Ele retirou fisicamente a mão dela do seu ombro. — A minha noite já está perfeita.
A rejeição pareceu surpreendê-la. O seu sorriso vacilou por um segundo.
— Como queiras. A tua perda — disse ela, com um encolher de ombros forçado. Ela deu-lhe um último olhar de cima a baixo, depois virou-se e afastou-se com o seu séquito, deixando um silêncio constrangedor na sua esteira.
O silêncio foi quebrado por Dustin.
— Uau. Isso foi… intenso. Acho que ela queria devorar-te vivo.
— Ela pode tentar — resmungou Max, olhando para a figura de Jessica a desaparecer.
Mark não disse nada. Ele estava demasiado focado em Holly. Ela ainda não se movera, ainda a olhar para as suas mãos. Ele precisava de consertar isto. Precisava de lhe mostrar, a ela e a todos os outros, onde estava a sua lealdade.
Mas antes que ele pudesse formular um pensamento ou proferir uma palavra, Holly moveu-se.
Com uma fluidez e determinação que o apanharam completamente de surpresa, ela levantou-se. Não disse uma palavra. Os seus olhos, agora fixos nos dele, ardiam com uma emoção que ele não conseguia decifrar completamente — raiva, mágoa, e algo mais… um desafio.
Ela contornou a mesa, os seus movimentos deliberados e silenciosos. O barulho da festa pareceu desvanecer-se. Todos na mesa pararam de falar, os seus olhos a seguir o seu progresso. Mike franziu o sobrolho, confuso.
— Holly? O que estás a fa…
Ele não terminou a frase.
Porque Holly parou em frente a Mark. E sem quebrar o contacto visual, ela sentou-se.
No colo dele.
O choque foi tão súbito e avassalador que Mark esqueceu-se de respirar. O peso dela era uma presença sólida e quente. Uma das suas mãos veio para o seu ombro para se equilibrar, a outra pousou na sua perna. Ela sentou-se de lado, de frente para a mesa, uma rainha a reclamar o seu trono. Foi o ato mais ousado, mais possessivo e mais incrivelmente sexy que ele já testemunhara.
A mesa ficou em silêncio absoluto. Até a jukebox pareceu calar-se. O tempo parou.
O primeiro instinto de Mark foi o pânico. Ele olhou para Mike, o cérebro a preparar-se para o grito, para a acusação, para o soco que ele tinha a certeza que estava para vir. O seu melhor amigo. A sua irmã mais nova. No seu colo. Em público. Era a receita para um desastre de proporções bíblicas.
Mas a reação de Mike não foi a que ele esperava.
Mike olhou para Holly no colo de Mark. Olhou para Mark. Olhou de volta para Holly. Uma série de emoções passou pelo seu rosto: confusão, compreensão, choque… e depois, algo que se parecia perigosamente com um sorriso. Um sorriso lento e largo.
Ele virou-se para Lucas, que tinha a boca aberta.
— FINALMENTE! — gritou Mike, batendo na mesa com um estrondo que fez os copos de papel saltarem. — Já não era sem tempo!
Mark piscou. O quê?
— Demorou, hein? — disse Max, com um sorriso sarcástico, erguendo o seu copo na direção deles. — Eu já tinha apostado com o Lucas há três semanas. Deves-me vinte pratas, Sinclair.
Lucas, ainda a parecer atordoado, mas a sorrir de orelha a orelha, tirou uma nota de vinte dólares do bolso e atirou-a para o outro lado da mesa.
— Pagos com gosto!
Dustin parecia ser o último a processar.
— Espera aí… então, o olhar, e o cartaz, e o desaparecimento dela, e o facto de o Mark estar a agir como um cachorrinho perdido há meses… está tudo ligado? OH MEU DEUS! ESTÁ TUDO LIGADO!
Eleven, ao lado de Mike, simplesmente sorria, um sorriso sereno e sábio, como se soubesse o tempo todo. O que, Mark percebeu com um sobressalto, ela provavelmente sabia.
A bravata de Holly, que a levara até ao colo dele, evaporou-se instantaneamente sob o escrutínio e a celebração barulhenta dos seus amigos. O vermelho que subiu pelo seu pescoço e rosto era tão intenso que Mark quase podia sentir o calor. Ela soltou um pequeno gemido de pura mortificação e fez o que qualquer pessoa faria quando o seu grande gesto de ciúmes se transforma numa celebração pública da sua vida amorosa secreta.
Ela escondeu o rosto na curva do pescoço de Mark.
O seu cabelo fez-lhe cócegas no queixo e o seu hálito quente contra a sua pele enviou um arrepio por todo o seu corpo. Ele podia senti-la a tremer ligeiramente, fosse de vergonha ou de riso reprimido, ele não tinha a certeza.
O pânico de Mark foi substituído por uma onda avassaladora de amor e ternura. Ela tinha feito aquilo. Por ele. Para o reclamar. E agora, o segredo deles estava exposto, não com um estrondo de raiva, mas com uma explosão de alegria e aceitação.
Ele envolveu-a instintivamente com os braços, puxando-a para mais perto, um gesto protetor. Ela sentia-se pequena e vulnerável contra ele.
— Está tudo bem — sussurrou ele no seu cabelo, a sua voz um murmúrio que era só para ela.
Ela estava desajeitadamente empoleirada na sua perna, a sua saia subindo perigosamente. Sem pensar, a sua mão desceu e agarrou a parte de trás da sua coxa. A pele dela era macia e quente sob o seu toque. Com uma ligeira pressão, ele puxou-a, ajudando-a a ajustar-se, a aninhar-se mais confortavelmente e firmemente no seu colo.
Holly suspirou contra o seu pescoço, o seu corpo a relaxar contra o dele com o seu gesto. A sua mão, que antes estava no seu ombro, deslizou para a sua nuca, os seus dedos a entrelaçarem-se no seu cabelo. Era uma rendição. Uma aceitação.
— Odeio-vos a todos — murmurou ela contra a pele dele, mas a sua voz estava abafada pelo riso.
— Nós também te amamos, Holly! — gritou Mike do outro lado da mesa, radiante. — Mas a sério, Mark, se a magoares, eu ainda te mato. Sou o padrinho do vosso namoro, mas continuo a ser o irmão mais velho dela.
— Não te preocupes, Mike — disse Mark, a sua voz cheia de uma confiança que ele não sentia há semanas. Ele olhou por cima da cabeça de Holly para o seu melhor amigo. — Eu esperaria o mesmo.
Ele sentiu Holly sorrir contra o seu pescoço. Ela levantou a cabeça lentamente, a sua bravata a regressar a pouco e pouco. O seu rosto ainda estava corado, mas os seus olhos brilhavam com felicidade.
— Então… — começou ela, olhando para o grupo. — Ninguém está zangado?
Max bufou.
— Zangados? Holly, nós vimos o Mark a suspirar por ti desde que tinhas tranças. A única coisa zangada aqui sou eu por ter demorado tanto tempo. Era doloroso de assistir.
— Sim! — concordou Dustin. — Foi como ver um filme muito, muito longo onde sabes que os personagens principais vão ficar juntos, mas eles continuam a tomar decisões estúpidas!
Holly riu, um som claro e feliz que encheu o coração de Mark. Ele apertou-a um pouco mais.
— Então, há quanto tempo? — perguntou Mike, a sua curiosidade a levar a melhor sobre ele.
Mark e Holly trocaram um olhar. O olhar continha a memória de uma camisa de basquete, de beijos roubados numa noite silenciosa, de mensagens de texto secretas e de um encontro a vapor num balneário.
— Três semanas — disse Mark, simplesmente.
— Três semanas! — exclamou Mike. — E conseguiram esconder isso de mim durante três semanas? Na minha própria casa? Eu estou ofendido! E um pouco impressionado.
— Nós somos bons a guardar segredos — disse Holly, e havia um peso naquelas palavras, um reconhecimento de tudo o que eles, como grupo, tinham passado. Lutar contra monstros de outra dimensão ensinava-te uma ou duas coisas sobre discrição.
Mark inclinou-se e beijou-a. Não foi um beijo faminto e desesperado como os que eles tinham partilhado em segredo. Foi um beijo suave, público e cheio de promessas. Foi um beijo que dizia *és minha* e *sou teu* e *finalmente*.
A pizzaria irrompeu em aplausos e assobios da sua mesa.
Quando eles se separaram, Holly estava a sorrir tão amplamente que ele pensou que o seu coração poderia explodir.
— Sabes — sussurrou ela, só para ele, enquanto o barulho da festa os envolvia novamente. — Acho que afinal gosto de ser o centro das atenções.
— Habitua-te a isso — respondeu ele, a sua mão ainda a descansar protetoramente na coxa dela. — Porque eu não planeio largar-te tão cedo.
O jogo perigoso terminara. Não com uma derrota, mas com a vitória mais doce que ele alguma vez conhecera. Ali, no meio do caos de uma pizzaria barulhenta, rodeado pelos seus amigos, com a rapariga que amava no seu colo, Mark percebeu que já não precisava de ser um herói no campo de basquete. O seu maior troféu estava nos seus braços. E, pela primeira vez em muito tempo, tudo em Hawkins parecia estar exatamente no seu devido lugar.