Itaca
O Horizonte de Cinzas e o Sangue dos Uchiha
O salão de jantar do palácio de Ítaca estava sufocante. Não pelo calor do verão grego, mas pela presença dos homens que se amontoavam nas mesas laterais, nobres de terras vizinhas e pequenos proprietários de terras que, sob o pretexto de oferecer "apoio" à Rainha Rin, devoravam as provisões do reino como gafanhotos.
Tatsuyo apertava o cabo de sua faca de prata com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Ao seu lado, Rin mantinha a postura impecável, embora o brilho de exaustão em seus olhos castanhos fosse evidente para quem a conhecesse bem.
— Majestade — começou um homem gordo, de túnica excessivamente adornada, chamado Antínoo. — As notícias de Troia são claras. A cidade caiu, o espólio foi dividido. Os navios de Menelau e Agamenon já foram vistos passando por Creta. Se o Rei Obito não retornou, é porque as águas do Hades já o reclamaram. Ítaca não pode ser governada por uma viúva e uma criança para sempre.
Tatsuyo levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando no chão de pedra com um som estridente que silenciou a sala.
— Minha mãe não é viúva e eu não sou uma criança — sua voz saiu baixa, perigosa como o estalar de uma tempestade. — Se meu pai não chegou, é porque os deuses têm inveja de sua glória e tentam atrasá-lo. Mas ele virá. E quando ele cruzar aquele portal, a primeira coisa que fará será chutar os ratos que estão roendo a sua mesa.
Antínoo soltou uma risada seca, olhando para os outros nobres.
— Tanta beleza e tanto fogo. Uma pena que seja desperdiçado em fantasias. Princesa, você precisa de um marido que saiba empunhar o cetro de Ítaca. Por que não aceita o convite para a cúpula em Pilos? Grandes generais e veteranos de Troia estarão lá para o tratado de paz. Talvez lá, vendo a realidade dos homens que voltaram, você aceite que seu pai é apenas uma sombra entre os mortos.
Tatsuyo não respondeu com palavras. Ela apenas olhou para Rin, que assentiu levemente, um sinal silencioso de que a paciência da rainha também havia chegado ao fim. A princesa virou as costas e saiu do salão, seus passos ecoando com autoridade.
Kuro Hatake a seguiu imediatamente. Ele estivera encostado em uma coluna, observando a cena com a mão no punho da espada, seus olhos castanhos fixos em qualquer um que ousasse olhar para Tatsuyo com desejo excessivo.
— Você não vai mesmo para Pilos, vai? — perguntou Kuro, alcançando-a nos corredores externos, onde o ar do mar era mais puro. — Aquilo é um ninho de víboras. Nobres querendo alianças, generais querendo esposas troféu... e as notícias de lá nem sempre são gentis.
— Eu vou, Kuro — afirmou Tatsuyo, parando e encarando o amigo. — Mas não vou para encontrar um marido. Vou porque lá é o único lugar onde os relatos da guerra são oficiais. Se meu pai foi visto pela última vez em Troia, alguém em Pilos saberá para onde o navio dele seguiu. Eu cansei de ouvir boatos de mercadores de rua. Eu quero a verdade.
Kuro suspirou, passando a mão pelos cabelos brancos e repicados. Ele sabia que, quando Tatsuyo colocava uma ideia na cabeça, nem mesmo os raios de Zeus a fariam mudar de ideia.
— Se você vai, eu vou — disse ele, com um sorriso de canto que tentava aliviar a tensão. — Alguém tem que garantir que você não decapite um príncipe estrangeiro só porque ele te chamou de "querida".
— Eu não prometo nada — murmurou ela, mas seus olhos suavizaram ao olhar para ele. — Obrigada, Kuro.
Três dias depois, uma embarcação ágil, com o brasão da família Uchiha, cortava as águas em direção ao continente. Rin ficara em Ítaca; o reino precisava de sua mão firme para impedir que os pretendentes tomassem o palácio à força. No convés, Tatsuyo observava a espuma branca deixada pelo navio. Ela vestia uma armadura leve de couro sobre sua túnica escura, a espada que Obito lhe dera antes de partir presa à cintura.
— Você está nervosa? — Kuro aproximou-se, entregando-lhe uma caneca de vinho diluído em água.
— Estou com raiva — confessou ela. — Raiva de como todos falam dele no passado. Como se dez anos de feitos heróicos pudessem ser apagados por quatro anos de silêncio. Ele é o Obito Uchiha, Kuro. Ele me ensinou a nunca recuar, mesmo quando o inimigo é maior. Como podem acreditar que ele simplesmente... parou de existir?
— As pessoas temem o que não podem controlar, Tatsuyo — Kuro encostou-se na amurada ao lado dela, seu corpo alto e forte servindo de escudo contra o vento frio. — Seu pai é uma lenda. Enquanto ele estiver "morto", eles podem tentar ser grandes. Se ele aparecer, todos voltam a ser sombras.
— Eu sinto ele — disse ela, colocando a mão sobre o coração. — Às vezes, quando o vento sopra do norte, eu sinto o cheiro de fumaça e couro... o cheiro dele. Minha mãe sente também. Eles dizem que ela está louca, mas o amor deles é algo que esses nobres nunca entenderiam.
Kuro olhou para ela, o perfil de Tatsuyo iluminado pela luz do entardecer. Ela era a criatura mais bela que ele já vira, mas era sua força que o prendia a ela mais do que qualquer juramento de proteção.
— Eu entendo — sussurrou ele, quase para si mesmo.
A chegada a Pilos foi um choque de realidade. A cidade estava fervilhando. Diferente da paz melancólica de Ítaca, Pilos era o centro do mundo pós-guerra. Carruagens passavam a todo momento, e o porto estava apinhado de navios de guerra com velas rasgadas e cascos remendados.
Assim que Tatsuyo e Kuro desembarcaram, foram conduzidos ao grande palácio de Nestor, o rei ancião que sobrevivera a Troia. O salão principal estava repleto de fumaça de incenso e o cheiro de carne assada. Homens com cicatrizes profundas nos rostos bebiam e contavam histórias de massacre.
Quando a princesa de Ítaca entrou, o silêncio se espalhou como uma onda. Sua beleza era estonteante, mas a aura de perigo que ela e Kuro emanavam mantinha os comentários audíveis à distância.
— A filha do Grande Obito — murmurou um veterano, cujo braço esquerdo terminava em um toco de carne cicatrizada. — Tem os olhos do pai. Que os deuses tenham piedade de quem cruzar o caminho dela.
Eles foram levados à mesa central, onde um príncipe de Micenas, chamado Kaelan, estava sentado. Ele era jovem, arrogante, e seus olhos percorreram o corpo de Tatsuyo com uma insolência que fez Kuro rosnar baixinho.
— Então a pequena herdeira decidiu sair de sua ilha — disse Kaelan, levantando sua taça de ouro. — Veio procurar um substituto para o pai que os peixes comeram? Ou veio implorar por migalhas da vitória que Ítaca não ajudou a conquistar nos momentos finais?
Tatsuyo não se sentou. Ela caminhou até a mesa e apoiou as mãos sobre a madeira, inclinando-se para frente.
— Eu vim em busca de fatos, não de insultos de um príncipe que passou a guerra escondido atrás das muralhas de suprimentos — rebateu ela. — Onde está o registro dos navios que partiram de Troia após o incêndio?
Kaelan estreitou os olhos, a diversão sendo substituída pela irritação.
— O Rei Obito liderou a retaguarda no último dia. Todos viram o navio dele ser atingido por uma tempestade logo após as rochas de Cila. Ninguém sobrevive àquela fúria, princesa. Ele se foi. Aceite e talvez eu possa considerar Ítaca como parte das minhas terras quando nos casarmos.
Kuro deu um passo à frente, a mão já no cabo da espada, mas Tatsuyo o impediu com um gesto. Ela deu um sorriso frio, que não chegou aos seus olhos negros.
— Casar com você? Eu preferiria ser devorada pela própria Cila.
— Você é atrevida — rosnou Kaelan, levantando-se. — Mas está longe de casa. Aqui em Pilos, as leis de proteção de Ítaca não se aplicam. Se eu decidir que você será minha concubina esta noite, quem me impediria? Esse garoto de cabelo branco?
Kuro soltou uma risada curta e sombria.
— Eu adoraria que você tentasse, "majestade" — disse Kuro, sua voz mudando do tom brincalhão para algo cortante como navalha. — Eu não fui para a guerra porque o sorteio me manteve em casa para proteger a herdeira. E eu levo meus juramentos muito a sério. Se der mais um passo, o sangue azul de Micenas vai manchar este chão de mármore.
A tensão era palpável. Guardas de Pilos começaram a se aproximar, mas um grito vindo do fundo do salão interrompeu o confronto.
— Deixem-nos! — Era o Rei Nestor, o ancião, caminhando com a ajuda de um cajado. — Kaelan, cale a boca. Você fala de um homem que salvou sua vida quando os troianos tentaram queimar os navios.
Nestor aproximou-se de Tatsuyo, seus olhos cansados analisando a jovem.
— Você tem a coragem dele, menina. E a beleza da sua mãe. Venha, vamos conversar em um lugar mais calmo.
Eles foram levados para um terraço privativo, longe da multidão. O velho rei sentou-se com dificuldade.
— Obito era o melhor de nós — disse Nestor, sua voz falhando. — Ele não era apenas um general, era o coração da estratégia. Mas a verdade é que, desde a queda de Troia, o mar se tornou estranho. Monstros que pensávamos ser mitos voltaram. Tempestades que surgem do nada.
— O senhor o viu morrer? — perguntou Tatsuyo, a voz firme, embora seu coração batesse forte.
— Não — admitiu Nestor. — Vi o navio dele ser levado por uma névoa negra. Mas ouça-me, Tatsuyo... se há um homem capaz de lutar contra o próprio destino e voltar do submundo, esse homem é seu pai. Mas ele tem inimigos. Não apenas aqui, entre os homens, mas entre os deuses.
— Por que os deuses o odiariam? — perguntou Kuro, confuso.
— Porque ele desafiou a lógica da guerra — suspirou Nestor. — Ele poupou vidas que deveriam ter sido sacrificadas. Ele amava demais a família, e os deuses são ciumentos de tal devoção.
Tatsuyo olhou para o mar de Pilos, o mesmo mar que a levava de volta para Ítaca.
— Ele está vivo — afirmou ela. — E eu vou continuar treinando. Vou continuar protegendo minha mãe. E se ele demorar demais, eu mesma construirei uma frota e irei buscá-lo, nem que tenha que remar até o fim do mundo.
Nestor sorriu, um sorriso triste e cheio de admiração.
— Ele já está voltando, de certa forma. Ele vive em você.
Naquela noite, Tatsuyo e Kuro ficaram no terraço observando as estrelas. O encontro com Kaelan deixara claro que a posição de Ítaca era frágil. Sem Obito, o reino era visto como uma presa.
— Você sabe que isso significa que teremos que lutar mais do que nunca, não sabe? — perguntou Kuro, aproximando-se dela. O vento soprava seus cabelos brancos, e ele parecia mais velho, mais sério.
— Eu sei — respondeu Tatsuyo. — Eles virão para Ítaca. Eles virão atrás do trono e atrás de mim.
Kuro virou-a delicadamente pelos ombros, forçando-a a olhar para ele.
— Eles terão que passar por mim primeiro. E eu não sou apenas um guarda, Tatsuyo. Eu sou seu amigo, seu aliado... e eu nunca vou deixar ninguém tirar sua liberdade.
Tatsuyo sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, algo que ia além da amizade de infância. Ela colocou a mão no peito de Kuro, sentindo a batida firme de seu coração.
— Eu sei que posso confiar em você, Kuro. Meu pai confiava em você. Minha mãe confia em você.
— E você? — perguntou ele, a voz baixa. — Você confia em mim?
— Com a minha vida — sussurrou ela.
Por um momento, o mundo ao redor deles desapareceu. Não havia Troia, não havia pretendentes gananciosos, não havia deuses cruéis. Havia apenas a princesa e seu guardião, unidos por uma promessa de lealdade e algo mais profundo que ainda não ousavam nomear.
Mas a paz foi interrompida pelo som de um sino no porto. Um novo navio chegava, trazendo mais veteranos, mais histórias e mais sombras.
— Precisamos voltar para Ítaca amanhã ao amanhecer — disse Tatsuyo, recuperando sua postura de guerreira. — Minha mãe precisa saber o que descobrimos. E precisamos preparar as defesas. Se a guerra de Troia acabou para o mundo, a guerra por Ítaca está apenas começando.
— Estaremos prontos — afirmou Kuro.
Enquanto se preparavam para partir, a centenas de milhas dali, em uma ilha envolta em magia e esquecimento, um homem de pele parda e olhos negros como o abismo lutava contra as correntes que o prendiam. Ele sentia o chamado de sua linhagem. Sentia o grito de sua filha e o amor de sua esposa.
— Esperem por mim — murmurou Obito Uchiha, suas mãos calejadas sangrando contra a rocha. — Eu estou voltando para casa.
O destino estava traçado. O sangue dos Uchiha não se rendia, e em Ítaca, a rainha e a princesa continuariam a ser o farol que guiaria o rei através da escuridão, enquanto Kuro Hatake seria a lâmina que cortaria qualquer mão que tentasse apagar aquela luz.