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Itaca

O Voo da Garça e o Salto do Lobo

A noite em Ítaca tinha um peso diferente quando o plano era a traição por amor. Tatsuyo Uchiha não se sentia uma rebelde, mas sim uma peça necessária em um tabuleiro que estava sendo jogado por homens covardes. No silêncio de seus aposentos, ela apertava as tiras de couro de sua armadura leve, sentindo o frio do metal contra o peito. Ela não levaria vestidos de seda ou joias; sua herança era a espada de aço forjado que seu pai, Obito, lhe deixara antes de partir para Troia.

— Ele não está morto — sussurrou ela para o próprio reflexo no bronze polido. — E eu vou provar isso.

Ela deslizou pela janela, usando as saliências da pedra que conhecia desde a infância. O palácio de Ítaca era uma fortaleza, mas para Tatsuyo, era um playground que ela dominava. No entanto, ao atingir o solo gramado perto dos estábulos, uma sombra alta e familiar se desprendeu da escuridão.

— Fugindo no meio da noite, princesa? Isso é muito pouco digno de uma futura rainha.

Tatsuyo congelou por um milissegundo antes de relaxar os ombros. Kuro Hatake estava encostado em uma árvore, os braços cruzados sobre o peito largo e um sorriso presunçoso que nem a penumbra conseguia esconder. Seus cabelos brancos brilhavam sob a luz da lua.

— Saia do meu caminho, Kuro — disse ela, mantendo a voz baixa. — Há um barco pequeno no porto sul. Eu vou para Pilos. Preciso ouvir o que os generais estão dizendo na cúpula, longe dos sussurros venenosos dos pretendentes da minha mãe.

Kuro descruzou os braços e caminhou até ela, sua presença de 1,80m bloqueando a passagem de forma casual, mas firme.

— Pilos? Onde metade dos homens está bêbada de glória e a outra metade faminta por poder? Você não dura dois dias sem que algum príncipe tente te levar como troféu — ele suspirou, balançando a cabeça. — E você sabe que eu não posso deixar você ir sozinha. Se algo acontecer com você, sua mãe me executa e seu pai volta do Hades só para me matar de novo.

— Eu sei me cuidar — rebateu ela, tentando passar por ele. — Eu treino com você todos os dias!

Kuro a segurou pelo pulso, não com força, mas com uma seriedade que raramente mostrava.

— Eu não disse que você não sabe lutar, Tatsuyo. Eu disse que você não vai sozinha. Se você vai desafiar os deuses e o conselho, eu vou ser o escudo que segura os golpes pelas suas costas.

Tatsuyo olhou nos olhos castanhos dele. Havia uma lealdade ali que transcendia o dever. Ela assentiu, uma única vez.

— Então ande logo. O vento está a nosso favor.

O mar estava agitado, como se os próprios deuses estivessem descontentes com a partida da herdeira de Ítaca. Kuro manobrava a pequena embarcação com uma habilidade que surpreendeu Tatsuyo. Ele não era apenas o "engraçadinho" do pátio de treinos; ele era um homem que levava a sério a promessa feita a Rin.

Enquanto isso, em Ítaca, o sol começava a iluminar as colinas. Rin Uchiha entrou nos aposentos da filha, carregando uma túnica nova que os mercadores haviam trazido. O quarto estava vazio. A cama, intocada. Na mesa, apenas um pedaço de pergaminho com o selo de cera dos Uchiha.

"Não procure por mim nas sombras do palácio, mãe. Procure por mim no rastro do meu pai. Voltarei com a verdade."

Rin sentou-se na beira da cama, o pergaminho tremendo levemente em suas mãos. Uma serva entrou apressada, ofegante.

— Majestade! A princesa... e o jovem Kuro... o barco de pesca desapareceu do porto sul! Os guardas dizem que viram dois vultos partindo antes da aurora!

Rin fechou os olhos por um momento. Ela imaginou Tatsuyo no mar, com aquele temperamento impetuoso e os olhos pretos que brilhavam com a mesma determinação de Obito. Uma lembrança a atingiu: ela mesma, aos dezesseis anos, desafiando as ordens dos anciãos para curar feridos em campos de batalha que não deveria visitar.

— Deixe-os ir — disse Rin, sua voz saindo firme, surpreendendo a serva.

— Mas majestade... o perigo... os piratas do mar...

— Minha filha é uma Uchiha — Rin levantou-se, a postura ereta e o olhar castanho-claro cortante. — E ela tem um Hatake ao seu lado. Se o mundo pensa que Ítaca está fraca porque o rei está ausente, eles estão prestes a descobrir que as mulheres desta casa e aqueles que as protegem são feitos de ferro e fogo.

Rin sentiu um orgulho doloroso. Ela sabia que Tatsuyo estava certa em não aceitar a morte de Obito. No fundo do seu coração, onde o vínculo de anos de casamento e amor absoluto residia, Rin sentia a chama de Obito ainda acesa. Ele estava em algum lugar, lutando. E agora, sua filha estava indo ao encontro dessa chama.

A viagem para Pilos levou dois dias de navegação intensa. Quando as colinas da cidade finalmente surgiram no horizonte, Tatsuyo sentiu o peso da responsabilidade. Pilos era o centro nervoso da política pós-guerra. Nobres de todas as partes se reuniam ali para discutir o que fazer com as terras deixadas vazias pelos mortos de Troia.

— Mantenha a guarda alta — avisou Kuro, enquanto atracavam em um ponto discreto do porto. — Aqui, as palavras ferem tanto quanto as espadas.

Eles entraram na cidade disfarçados com mantos de viagem, mas era difícil esconder a presença de ambos. Tatsuyo, com sua beleza divina e porte de rainha, e Kuro, com seu cabelo branco e a mão sempre próxima ao punho da espada.

O grande salão de Pilos estava lotado. O cheiro de vinho, suor e incenso era quase insuportável. Homens como o Príncipe Kaelan de Micenas falavam alto, gesticulando sobre mapas.

— Ítaca é um porto estratégico que não podemos perder para esses "povos do mar" que estão atacando o litoral — dizia Kaelan, um homem de traços finos e olhos gananciosos. — Se o Rei Obito não retornou após quatro anos do fim da guerra, o trono deve ser ocupado. A princesa Tatsuyo é jovem e precisará de um marido que saiba comandar homens, não apenas brincar de espadas no pátio.

Tatsuyo sentiu o sangue ferver. Ela deu um passo à frente, jogando o capuz para trás. O silêncio caiu sobre o salão como um manto pesado.

— Se o trono de Ítaca precisa de um rei que saiba comandar homens — a voz de Tatsuyo ecoou, clara e autoritária —, então ele deve esperar pelo retorno de Obito Uchiha. Pois nenhum homem neste salão tem metade da experiência ou da honra dele.

Kaelan virou-se, surpreso, um sorriso cínico surgindo em seus lábios.

— A princesa de Ítaca. Você percorreu um longo caminho para nos dar o prazer de sua beleza. Mas a guerra não se vence com beleza, criança. Os veteranos aqui presentes viram o navio de seu pai ser engolido por uma tempestade nas rochas de Cila. Ninguém sobrevive àquilo.

— Meu pai sobreviveu a dez anos de cerco — rebateu ela, aproximando-se da mesa de mapas, com Kuro logo atrás dela, uma sombra ameaçadora. — Ele sobreviveu aos muros de Troia e à fúria de Alahnanom. Uma tempestade é apenas água e vento para um homem como ele.

— O povo está assustado, Tatsuyo — disse um veterano de guerra, um homem com uma cicatriz profunda no rosto, que olhava para ela com certa pena. — Os ataques dos invasores do mar são reais. Precisamos de um exército unido. Ítaca sem um rei é uma porta aberta para o desastre.

— Ítaca tem uma Rainha — disse Kuro, sua voz grave cortando a conversa. — E tem uma herdeira que desarmou o melhor instrutor da ilha na semana passada. Se vocês querem falar de defesa, falem conosco. Se querem falar de sucessão, esperem o Rei.

Kaelan soltou uma risada debochada.

— E quem é você? O guarda-costas? Ou o amante que ela trouxe para se divertir nas noites de mar?

O movimento de Kuro foi tão rápido que poucos viram. Num piscar de olhos, a ponta de sua espada estava encostada na garganta de Kaelan. Os guardas de Pilos sacaram suas armas, mas Tatsuyo já estava com a mão no punho de sua própria espada, os olhos negros brilhando com uma fúria ancestral.

— Peça desculpas — disse Kuro, o tom de voz calmo, o que o tornava ainda mais perigoso. — Agora.

— Kuro, abaixe a arma — ordenou Tatsuyo, sem desviar o olhar de Kaelan. — Não viemos aqui para derramar sangue de tolos. Viemos para buscar informações.

Kaelan engoliu em seco, sentindo o frio do aço. Kuro recolheu a espada com uma elegância irritante e voltou para o lado de Tatsuyo.

— Eu ouvi algo — disse o veterano com a cicatriz, quebrando o silêncio tenso. — Um mercador que veio das terras do sul falou de um homem. Um gigante de ombros largos, com o brasão de um leque vermelho e branco desbotado na capa. Ele disse que esse homem estava lutando em arenas de escravos para conseguir um navio.

O coração de Tatsuyo falhou uma batida. O leque vermelho e branco. O símbolo dos Uchiha.

— Onde? — perguntou ela, a voz tremendo pela primeira vez.

— Nas ilhas de Creta. Mas é uma viagem perigosa, princesa. Aquelas águas estão infestadas pelos piratas que mencionamos.

Tatsuyo olhou para Kuro. Ela não precisou dizer nada. O entendimento entre eles era absoluto.

— Vamos para Creta — disse ela.

— Tatsuyo, pense bem — disse Kuro, aproximando-se dela enquanto saíam do salão sob os olhares de ódio de Kaelan. — Sua mãe vai nos matar. Isso não é mais uma viagem de reconhecimento. É uma missão de resgate em território inimigo.

— Você está com medo, Hatake? — provocou ela, embora houvesse um brilho de gratidão em seus olhos.

Kuro sorriu, aquele sorriso de lado que sempre fazia o coração dela acelerar de um jeito que o treino de combate nunca conseguia.

— Medo? Eu estou ansioso. Mal posso esperar para ver a cara do seu pai quando eu disser que tive que salvar a pele da filha dele em Pilos.

Enquanto se preparavam para zarpar novamente, Tatsuyo olhou para o horizonte. Ela sentia a presença de Obito mais forte do que nunca. Ele estava lá fora, e ela não pararia até que Ítaca estivesse completa novamente.

Em Ítaca, Rin Uchiha caminhava pelas muralhas, olhando para o sul. Ela sentia o movimento das peças no tabuleiro do destino. Suas mãos tocaram o amuleto que Obito lhe dera, um pequeno entalhe de madeira que ele mesmo fizera.

— Volte para mim, Obito — sussurrou ela ao vento. — E traga nossa filha de volta com você.

A odisseia de Tatsuyo e Kuro estava apenas começando, e o mar, em sua fúria e mistério, guardava os segredos que poderiam mudar o destino de Ítaca para sempre. Mas uma coisa era certa: ninguém subestimaria os Uchiha novamente. Nem os nobres de Pilos, nem os deuses, nem o próprio mar.