Ítaca
O Voo do Falcão e o Mar de Incertezas
As tábuas do convés rangiam sob o peso leve de Tatsuyo, um som que, no silêncio da madrugada, parecia tão alto quanto um trovão. O porto de Ítaca estava mergulhado em uma névoa densa, um véu cinzento que ocultava a traição da princesa contra as ordens de sua mãe. Ela ajustou a capa de viagem sobre a armadura leve de couro, sentindo o frio úmido do Mar Jônico arrepiar sua pele parda.
— Você realmente achou que eu deixaria você soltar as amarras sem mim? — A voz veio das sombras, carregada de um sarcasmo familiar e uma ponta de irritação.
Tatsuyo estancou, a mão instintivamente buscando o punho da espada. De trás de um mastro, Kuro Hatake surgiu, os cabelos brancos brilhando fracamente sob a luz da lua minguante. Ele estava cruzado de braços, com sua própria bolsa de suprimentos jogada ao ombro.
— Kuro, volte para o palácio — sussurrou Tatsuyo, os olhos pretos faiscando. — Isso não é um treinamento. Se Antinous descobrir que o trono está vazio de herdeiros, ele vai dobrar a pressão sobre minha mãe.
— Exatamente por isso eu vou — rebateu Kuro, aproximando-se com passos silenciosos. — Se você sumir, ele dirá que você fugiu por medo ou que morreu. Se eu estiver com você, pelo menos haverá uma testemunha de que a linhagem Uchiha ainda tem dentes. Além disso, eu jurei proteger você. Não posso fazer isso do cais enquanto você navega para o ninho de cobras que é Pilos.
Tatsuyo suspirou, sabendo que era inútil discutir. Kuro era teimoso como uma mula e fiel como um cão de caça. Ela desamarrou a última corda e o pequeno barco, batizado de *Andorinha*, começou a se afastar lentamente da margem, impulsionado pela maré vazante.
— Pilos não é apenas um ninho de cobras — disse ela, enquanto Kuro assumia o remo para ajudar na manobra. — É onde os veteranos se reúnem. Se os boatos sobre os "Povos do Mar" são reais, e se meu pai realmente foi visto após a queda de Troia, é lá que encontrarei a verdade. Eu não vou deixar que Antinous use o medo de uma invasão para usurpar o trono de Ítaca.
Kuro olhou para o horizonte, onde a escuridão começava a dar lugar a um azul profundo.
— Eles dizem que esses invasores queimam cidades inteiras antes mesmo que os reis possam vestir suas armaduras. Os nobres estão apavorados, Tatsuyo. E homens apavorados fazem coisas estúpidas, como confiar em alguém como Antinous.
Enquanto o *Andorinha* ganhava o mar aberto, o sol começou a despontar em Ítaca. No palácio, Rin Uchiha caminhava em direção ao quarto da filha para o desjejum habitual. Ao encontrar o leito vazio e uma nota curta sobre a mesa de carvalho, a rainha sentiu o mundo girar por um breve segundo.
"Mãe, não posso mais ouvir as mentiras deles em silêncio. Vou buscar a verdade em Pilos. Kuro está comigo. Proteja Ítaca até eu voltar com notícias do Rei. Eu te amo."
Rin apertou o pergaminho contra o peito. Uma serva entrou no quarto, notando a palidez da rainha.
— Majestade? Aconteceu algo com a princesa?
Rin respirou fundo, endireitando a coluna. A preocupação de mãe lutava contra o orgulho da rainha. Ela se lembrou de sua própria juventude, da impetuosidade que a levava a seguir Obito mesmo quando o perigo era evidente. Tatsuyo tinha o fogo dos Uchiha correndo nas veias; era impossível mantê-la enjaulada enquanto o legado de sua família era ameaçado.
— Diga aos guardas que a princesa está em retiro espiritual no templo de Atena — ordenou Rin, sua voz recuperando a autoridade de aço. — Ninguém deve entrar nos aposentos dela. Se algum nobre perguntar, diga que ela está orando pelo retorno do pai.
— Mas, senhora... e se descobrirem? — perguntou a serva, trêmula.
— Se descobrirem, eu lidarei com isso — afirmou Rin, olhando para o mar através da janela. — Ela foi buscar o pai. E, pelos deuses, ela tem a coragem que falta a todos aqueles homens no salão de jantar.
No entanto, as paredes do palácio tinham ouvidos. Escondido atrás de uma tapeçaria pesada, um dos informantes de Antinous ouviu o suficiente. Não demorou para que o líder dos pretendentes estivesse reunido em uma taberna escura perto das docas com três mercenários de aparência brutal.
— A pequena deusa fugiu — disse Antinous, um sorriso cruel distorcendo seus lábios finos. — Ela e o bastardo do Hatake estão em um barco pequeno, rumo a Pilos. É a oportunidade perfeita.
— O que você quer que façamos, senhor? — perguntou um dos homens, limpando uma adaga suja de gordura.
— Matem o garoto. Não quero que o corpo dele seja encontrado. Quanto à Tatsuyo... tragam-na de volta. Mas não para o palácio. Levem-na para a fortaleza abandonada na costa sul. Se ela desaparecer por tempo suficiente, e se o "protetor" dela for morto, o povo de Ítaca exigirá um novo rei para protegê-los dos piratas. Eu aparecerei como o salvador que a resgatou de um sequestro terrível.
— E a Rainha Rin? — questionou outro mercenário.
— Rin é uma mulher forte, mas uma mãe destruída é uma mulher fraca — Antinous riu, o som seco e sem vida. — Quando ela vir a filha "traumatizada" e eu ao seu lado, ela não terá escolha a não ser abençoar nossa união. Vão agora! O mar está calmo, vocês os alcançarão antes do anoitecer.
Enquanto isso, a milhas de distância, o *Andorinha* cortava as ondas com agilidade. Tatsuyo observava Kuro, que parecia estranhamente concentrado em ajustar a vela.
— Você está muito quieto — comentou ela, sentando-se ao lado dele.
— Estou pensando no que vamos encontrar em Pilos — admitiu Kuro, sem desviar os olhos do mar. — Se o Rei Nestor confirmar que seu pai partiu de Troia, mas não sabe onde ele está... o que faremos?
— Continuaremos procurando — respondeu Tatsuyo com firmeza. — Eu não volto para Ítaca sem meu pai ou, pelo menos, sem a prova de que ele está a caminho. Aqueles nobres... eles falam dele como se fosse uma sombra do passado. Mas eu me lembro do calor das mãos dele, Kuro. Eu me lembro de como ele olhava para minha mãe. Um homem com tanto amor para dar não morre simplesmente em um naufrágio.
Kuro sorriu de lado, um brilho de admiração nos olhos castanhos.
— Você é igualzinha a ele. A mesma teimosia cega.
— E você é o mesmo pessimista de sempre — brincou ela, empurrando o ombro dele.
— Não é pessimismo, é realismo. — Kuro de repente ficou tenso, seus olhos estreitando-se para o horizonte atrás deles. — Tatsuyo, pegue o remo. Agora.
— O que foi?
— Tem uma galera negra vindo rápido na nossa direção. Não é um barco de mercadores e certamente não é da guarda de Ítaca.
Tatsuyo olhou para trás e sentiu um calafrio. O barco que surgia da névoa era maior, equipado com múltiplos remos que batiam na água com uma cadência militar. Não havia bandeiras, apenas a silhueta de homens armados no convés.
— Antinous — sibilou Tatsuyo, a fúria substituindo o medo. — Ele deve ter descoberto assim que saímos.
— Eles estão armados com bestas — observou Kuro, empurrando Tatsuyo para o fundo do barco. — Fique abaixada!
Uma flecha zuniu sobre suas cabeças, cravando-se na madeira do mastro com um estalo seco. Kuro desembainhou sua espada, a lâmina de aço polido refletindo a luz do sol. Ele se posicionou na popa, protegendo Tatsuyo com o próprio corpo.
— Eles não querem me matar — disse Tatsuyo, tentando se levantar com sua própria espada em punho. — Eles querem me levar de volta como um troféu!
— Mas a mim eles querem morto — respondeu Kuro, sua voz agora fria e desprovida de qualquer humor. — Tatsuyo, escute-me. Se eles abordarem, você pula na água e nada para a costa. Estamos perto das ilhas de recife.
— Eu não vou deixar você, Kuro!
— Isso não é uma discussão! — gritou ele, enquanto outra saraivada de flechas caía ao redor deles. — Se você for capturada, Ítaca cai. Se eu morrer... bem, eu terei cumprido minha promessa.
— Sua promessa era me proteger, e você não pode fazer isso se estiver no fundo do oceano! — Tatsuyo se levantou, ignorando os projéteis. — Vamos lutar juntos. Como treinamos.
O barco perseguidor colidiu com a lateral do *Andorinha*, o impacto quase jogando os dois na água. Quatro homens saltaram para o convés pequeno, suas faces cobertas por capuzes de couro.
— A princesa vem conosco! — rosnou o líder, avançando com uma maça pesada. — O garoto de cabelo branco pode alimentar os peixes.
Kuro não esperou. Com um movimento fluido que teria deixado Obito orgulhoso, ele se lançou contra o primeiro atacante. O som do metal colidindo ecoou pelo mar aberto. Kuro era mais rápido, uma mancha branca de agilidade, desviando de golpes brutos e devolvendo estocadas precisas.
Tatsuyo, por sua vez, enfrentou dois mercenários de uma só vez. Sua estatura menor era uma vantagem no espaço confinado do barco. Ela se esquivou de um golpe de espada larga, deslizando por baixo do braço do oponente e cravando sua adaga na coxa dele. Quando o segundo homem tentou agarrá-la pelos cabelos, ela girou o corpo, usando o peso do adversário contra ele mesmo e lançando-o contra a borda do barco.
— Nada mal para uma "deusa", não é? — provocou ela, arquejante, enquanto bloqueava um novo ataque.
Kuro desferiu um chute poderoso no peito de seu oponente, jogando-o para fora da embarcação, mas o líder dos mercenários aproveitou a distração. Ele sacou uma rede pesada, comum entre os gladiadores, e a lançou sobre Kuro.
— Kuro! — gritou Tatsuyo.
O jovem Hatake ficou emaranhado, os pesos de chumbo da rede puxando-o para o chão do convés. O mercenário levantou a maça para o golpe final, um brilho assassino nos olhos.
— Adeus, cachorrinho da rainha.
Tatsuyo não pensou. Ela lançou sua espada como se fosse uma lança. A lâmina atravessou o ombro do mercenário, fazendo-o soltar a arma e recuar com um urro de dor. Aproveitando a brecha, ela saltou sobre ele, desferindo um soco preciso na têmpora que o deixou inconsciente.
Rapidamente, ela começou a cortar as cordas da rede que prendia Kuro. Ele se libertou, tossindo e tentando recuperar o fôlego, o braço sangrando por causa de um corte superficial.
— Você... você salvou minha pele — disse ele, olhando para os mercenários derrotados ou gemendo no chão.
— Estamos quites — respondeu ela, ajudando-o a se levantar. — Mas tem mais vindo no outro barco.
Kuro olhou para a galera inimiga, que se preparava para uma segunda abordagem.
— Não vamos conseguir vencer todos eles em mar aberto. Tatsuyo, olhe! — Ele apontou para uma formação de rochas pontiagudas à frente. — Os recifes de Sereia. O barco deles é grande demais para passar por lá sem rasgar o casco. O nosso é pequeno e raso.
— É suicídio, Kuro! A correnteza ali é mortal.
— É a nossa única chance. Pegue o remo direito, eu fico com o esquerdo. No meu sinal, reme como se sua vida dependesse disso... porque depende!
Eles se sentaram, os músculos tensos. O *Andorinha* mergulhou no labirinto de pedras negras e águas brancas e espumantes. Atrás deles, os mercenários gritaram ordens, mas o capitão da galera hesitou, vendo as ondas quebrarem violentamente contra os rochedos.
— Eles pararam! — gritou Tatsuyo, lutando contra a força da água.
— Continue remando! — comandou Kuro, o suor escorrendo pelo rosto.
Por dez minutos excruciantes, eles lutaram contra a natureza. O barco rangia, a madeira sofrendo sob a pressão, mas finalmente, eles emergiram do outro lado, em águas calmas e protegidas por uma enseada natural.
Exaustos, eles deixaram o barco flutuar até a areia de uma praia deserta. Tatsuyo desabou na areia, o coração batendo tão forte que ela podia ouvi-lo nos ouvidos. Kuro caiu ao lado dela, olhando para o céu que agora começava a escurecer com as cores do crepúsculo.
— Nós estamos vivos — murmurou ele, uma risada nervosa escapando de seus lábios.
— Antinous não vai parar — disse Tatsuyo, sentando-se e olhando para o mar. — Ele atravessou uma linha hoje. Ele tentou matar o herdeiro de um clã nobre e sequestrar a princesa. Isso é traição.
— Quando voltarmos, ele pagará — prometeu Kuro, sua voz tornando-se sombria. — Mas primeiro, precisamos chegar a Pilos. Estamos a apenas um dia de caminhada daqui.
Tatsuyo olhou para Kuro. Suas roupas estavam rasgadas, ele estava ferido e exausto, mas seus olhos ainda brilhavam com aquela lealdade inabalável que a fazia se sentir segura, mesmo no meio do caos.
— Kuro... por que você realmente veio? Não pela promessa ao meu pai. A verdade.
Kuro ficou em silêncio por um momento, observando as primeiras estrelas surgirem.
— Ítaca é um lugar bonito — disse ele baixinho. — Mas para mim, Ítaca não é a terra, nem o palácio, nem as oliveiras. Ítaca é você e a Rainha Rin. Se eu perdesse vocês, eu não teria para onde voltar. Eu não vim porque o General Obito me pediu. Eu vim porque eu não saberia quem eu sou sem você para proteger.
Tatsuyo sentiu um calor que nada tinha a ver com o sol. Ela se inclinou e encostou a cabeça no ombro dele.
— Vamos encontrar meu pai, Kuro. E quando voltarmos, vamos garantir que homens como Antinous nunca mais ousem olhar para o nosso trono.
Enquanto os dois descansavam na praia, longe dali, em Pilos, um homem encapuzado entrava em uma estalagem. Ele carregava um arco longo e tinha o porte de um guerreiro que vira o inferno e retornara. Ele se sentou em um canto escuro, pedindo apenas água.
— Ouviu as notícias? — perguntou o estalajadeiro. — Dizem que os Povos do Mar estão a dois dias de navegação. Os reis estão se borrando de medo.
O homem encapuzado levantou ligeiramente a cabeça. Uma cicatriz cruzava parte de seu rosto, mas seus olhos pretos eram afiados.
— Deixe que venham — disse Obito Uchiha, sua voz como o rosnar de um trovão distante. — Eu tenho um reino para retomar e uma família que me espera. E nada, nem deuses, nem monstros, vai me impedir de chegar a Ítaca.
O destino estava convergindo. A princesa e seu guardião, a rainha em seu trono de espera e o rei que cruzava as sombras. A odisseia dos Uchiha estava longe do fim, mas o sangue de Ítaca fervia com a promessa de vingança e reencontro.