Voltar ao resumo

Ítaca

O Reencontro sob a Sombra de Ares

O ar dentro do templo de Ares era denso, carregado com o cheiro metálico de sangue antigo e o perfume acre de incenso de mirra. Diferente dos templos de Atena, onde a sabedoria e a estratégia eram celebradas em mármore branco e luz, o santuário do Deus da Guerra em Pilos era uma construção de pedras escuras, iluminada apenas por tochas que projetavam sombras dançantes e ameaçadoras nas paredes.

Tatsuyo Uchiha estava ajoelhada diante da imponente estátua de bronze do deus. Ares era seu patrono, a divindade que, segundo os sacerdotes, reclamara sua devoção no momento de seu nascimento. Ela estava imóvel, os cabelos negros caindo como uma cascata sobre os ombros, as mãos unidas em uma prece silenciosa. Ela não pedia por riquezas ou glória; pedia força para proteger sua mãe e sabedoria para encontrar o rastro de seu pai, que parecia se dissipar como névoa a cada nova informação que recebia em Pilos.

Atrás dela, Kuro Hatake permanecia como uma sentinela silenciosa. Seus olhos castanhos escuros não paravam de vigiar as entradas laterais. O encontro com o Rei Nestor e os outros generais veteranos fora produtivo — a confirmação de que a guerra terminara e que as frotas haviam partido —, mas o clima de conspiração que sentiam em Ítaca parecia ter seguido seus passos até ali.

O silêncio do templo foi quebrado pelo som rítmico de passos pesados contra o chão de pedra. Um homem, envolto em uma capa de viagem gasta que cobria todo o seu corpo e ocultava seu rosto sob um capuz profundo, entrou no recinto principal.

Kuro reagiu instantaneamente. Sua mão envolveu o punho da espada, o metal emitindo um som agudo ao ser parcialmente desembainhado.

— Pare onde está — ordenou Kuro, sua voz ecoando nas abóbadas de pedra. — O templo está fechado para peregrinos comuns nesta hora. Quem é você e o que busca aqui?

Tatsuyo interrompeu sua oração. Ela não se levantou de imediato, mas sua postura ficou tensa, pronta para o combate. Ela sentiu uma pressão estranha no ar, uma aura que não era de um assassino comum, mas de algo muito mais vasto.

O homem parou a poucos metros deles. Ele não parecia intimidado pela lâmina de Kuro ou pela hostilidade do ambiente. Lentamente, ele levou as mãos ao capuz.

— O tempo não foi gentil com a paciência dos jovens de Ítaca — disse o homem. Sua voz era profunda, rouca como o som de pedras sendo esmagadas pelo mar, carregada de um cansaço que só décadas de batalha poderiam forjar.

Quando o capuz caiu, Tatsuyo sentiu o fôlego escapar de seus pulmões. Kuro, por sua vez, congelou, a espada tremendo levemente em sua mão.

A pele parda, os cabelos pretos repicados e, acima de tudo, o olhar. Um olho preto, profundo como o abismo, e o outro marcado pelas cicatrizes de guerra que contavam a história de um homem que desafiara a própria morte.

— Pai? — O sussurro de Tatsuyo foi quase inaudível, uma mistura de descrença e esperança.

— General Obito... — Kuro baixou a guarda, os olhos arregalados. — Como...? Nós ouvimos que...

Obito Uchiha deu um passo à frente, a luz das tochas revelando a imponência de seus 1,82m de altura. Ele parecia maior do que as estátuas, mais real do que qualquer lenda. Ele olhou para Tatsuyo, e por um breve momento, a dureza de sua expressão se quebrou, dando lugar a uma dor e um amor tão intensos que a princesa sentiu vontade de chorar.

— Você cresceu, minha pequena deusa — disse Obito, usando o apelido que lhe dera na infância. — Você tem os olhos de sua mãe, mas carrega a espada com a postura de um Uchiha.

Tatsuyo se levantou e correu para os braços do pai. O abraço de Obito era sólido, quente e cheirava a mar e ferro. Por quatro anos, ela imaginara esse momento, mas a realidade era muito mais avassaladora.

— Nós achamos que você estava perdido — disse ela contra o peito dele, sentindo a armadura pesada que ele vestia. — Os boatos diziam que sua frota tinha sido engolida pelas tempestades.

Obito a afastou levemente, segurando seus ombros com mãos calejadas. Sua expressão tornou-se urgente.

— Os boatos não mentiram totalmente, Tatsuyo. Eu estive em lugares que a luz do sol não alcança. Fui ao submundo de Hades para encontrar o caminho de volta. Os mortos me avisaram que eu seria o único de minha embarcação a retornar... e me avisaram de algo mais imediato.

Ele olhou para Kuro, que se aproximou, ainda atordoado.

— Kuro Hatake. Você cumpriu sua promessa. Ficou para trás para proteger o que é mais valioso. Eu vi o que você fez no mar hoje cedo contra os homens de Antinous.

— O senhor sabe sobre Antinous? — perguntou Kuro, surpreso.

— As sombras falam, Kuro — respondeu Obito, sua voz tornando-se gélida. — Antinous não quer apenas o trono. Ele quer o sangue da linhagem Uchiha para que ninguém possa contestar sua usurpação. Ele soube que vocês viriam ao templo de Ares. Ele armou uma emboscada. Vocês não estão seguros aqui.

— Mas como o senhor chegou aqui tão rápido? — Tatsuyo perguntou, sua mente tentando processar tudo.

— Eu não tive navios luxuosos ou exércitos me acompanhando — disse Obito, olhando para a entrada do templo. — Eu vim sozinho em um pequeno barco de guerra, movido pela fúria e pela saudade. Mas não temos tempo para histórias. Eles estão aqui.

Como se fosse uma resposta às suas palavras, o som de botas marchando e o tilintar de escudos metálicos cercaram o templo. Das sombras das colunas, homens armados com armaduras negras e cristas de elmos escuros emergiram. Eram os mercenários de elite de Antinous, homens que não serviam a Ítaca, mas ao ouro.

— Obito Uchiha... — a voz de um dos mercenários ecoou. — O fantasma de Troia. Antinous disse que você poderia estar vivo, mas não importa. Um rei morto ou um rei assassinado em um templo estrangeiro dá no mesmo. Matem o velho e o garoto. Tragam a garota viva, se puderem.

Obito soltou um suspiro longo, quase entediado, mas seus olhos brilharam com uma intenção assassina que fez os mercenários da linha de frente hesitarem.

— Kuro — chamou Obito, sem desviar o olhar dos inimigos. — Proteja as costas dela. Tatsuyo, mostre-me se o treino que lhe dei antes de partir valeu a pena.

— Com prazer, pai — respondeu Tatsuyo, desembainhando sua espada curta. O aço brilhou sob a luz das tochas.

Os mercenários avançaram em uma onda de metal. Obito se moveu primeiro. Ele não era apenas um soldado; ele era uma força da natureza. Com um movimento circular de sua espada larga, ele partiu o escudo do primeiro atacante ao meio, seguindo com um chute que quebrou as costelas do homem. Ele se movia com uma economia de movimento brutal, cada golpe era definitivo.

Kuro e Tatsuyo lutaram lado a lado. Kuro era como um raio branco, sua agilidade permitindo que ele flanqueasse os inimigos enquanto Tatsuyo mantinha o centro. Ela lutava com uma graciosidade feroz, desviando de lanças e devolvendo cortes precisos nos pontos desprotegidos das armaduras.

— À sua esquerda, Kuro! — gritou Tatsuyo, abaixando-se para evitar uma flecha e chutando a perna de um mercenário que tentava cercar o amigo.

Kuro girou no ar, sua lâmina encontrando a garganta do atacante.

— Obrigado! — ele exclamou, voltando para a formação.

Obito, no centro do salão, era o epicentro da destruição. Ele agarrou um dos mercenários pelo pescoço e o arremessou contra outros três, derrubando-os como peças de um jogo. Ele não usava apenas a força; ele usava o medo. Os homens de Antinous começaram a recuar, percebendo que não estavam enfrentando apenas dois jovens e um veterano cansado, mas o próprio espírito da guerra.

— É tudo o que Antinous tem a oferecer? — rugiu Obito, sua voz preenchendo o templo como um trovão. — Enviem homens de verdade, não ratos que se escondem em templos!

O líder dos mercenários, vendo sua vantagem numérica desaparecer, tentou uma última carga desesperada contra Tatsuyo, julgando-a o elo mais fraco. Obito percebeu o movimento. Em um piscar de olhos, ele se posicionou à frente da filha. Ele não usou a espada. Ele parou o golpe de machado do homem com o antebraço protegido pela braçadeira de bronze e desferiu um soco devastador que rachou o elmo e o crânio do mercenário instantaneamente.

O silêncio voltou ao templo de Ares, quebrado apenas pela respiração ofegante dos três e pelo som do sangue pingando nas pedras frias. Os mercenários restantes, vendo seu líder morto, fugiram para a noite de Pilos.

— Precisamos ir — disse Obito, limpando a lâmina na capa de um dos mortos. — Mais deles virão, e o governador de Pilos não vai querer se envolver em uma guerra civil de Ítaca dentro de seus muros.

— Onde está o seu barco? — perguntou Kuro, embainhando sua espada e verificando se Tatsuyo estava ferida.

— Na enseada sul, escondido sob os salgueiros — respondeu Obito. — É um barco de incursão rápida. Pequeno, mas forte o suficiente para cruzar o canal se o vento estiver a nosso favor.

Eles saíram do templo, movendo-se pelas ruelas escuras de Pilos com a furtividade de predadores. Obito liderava o caminho, seu conhecimento do terreno e sua intuição de guerreiro guiando-os para longe das patrulhas da cidade.

Ao chegarem à praia isolada, Tatsuyo viu a embarcação. Não era o navio real de um general, mas uma casca de carvalho escuro, reforçada com bronze na proa, projetada para velocidade e silêncio. Parecia uma extensão do próprio Obito: marcada pelo tempo, mas perigosa.

Kuro ajudou a empurrar o barco para a água rasa, enquanto Tatsuyo subia a bordo, olhando para trás, para as luzes distantes de Pilos.

— Pai — começou ela, enquanto Obito subia no barco e assumia o leme. — Ítaca está um caos. Minha mãe... ela está resistindo, mas os nobres estão consumindo tudo. Antinous acha que você está morto e que eu sou apenas um prêmio.

Obito olhou para o horizonte, na direção de casa. O ódio em seus olhos era temperado por uma determinação inquebrável.

— Rin é a mulher mais forte que já conheci — disse ele, sua voz suavizando apenas ao mencionar o nome da esposa. — Ela manteve o reino unido por quatro anos contra todos os prognósticos. Mas o tempo dos abutres acabou.

Ele olhou para Kuro e depois para Tatsuyo.

— Vocês dois provaram seu valor hoje. Ítaca não caiu porque vocês ficaram de pé. Mas a verdadeira batalha começa quando cruzarmos as águas de volta para casa. Não entraremos como mendigos, mas como a tempestade que eles tanto temem.

Kuro sentou-se junto aos remos, sentindo o peso da responsabilidade, mas também uma confiança que não sentia há anos. Ter Obito ao lado deles mudava tudo.

— O senhor tem um plano? — perguntou Kuro.

Obito deu um sorriso sombrio, o tipo de sorriso que costumava preceder a queda de cidades.

— O plano é simples, Kuro. Vamos retomar o que é nosso. E vamos garantir que Antinous se arrependa de cada dia que passou cobiçando minha coroa e ameaçando minha família.

O barco balançou suavemente nas águas da enseada, ainda protegido pelas sombras das árvores. Eles não partiriam imediatamente; precisavam de um momento para recuperar as forças e planejar a abordagem silenciosa a Ítaca.

Tatsuyo sentou-se ao lado do pai, sentindo a presença imponente dele. A odisseia de Obito terminara, mas a guerra pela alma de Ítaca estava apenas em seus preparativos finais. No pequeno barco de guerra, sob o céu estrelado da Grécia antiga, o Rei, a Princesa e o Guardião formavam uma aliança que nem mesmo os deuses do Olimpo poderiam ignorar.

— Logo, Rin — sussurrou Obito para o vento noturno. — Logo estaremos juntos novamente.

E nas águas calmas da enseada, o eco de sua promessa pareceu fazer o próprio mar silenciar em respeito.