Ítaca
O Peso do Silêncio e a Honra de um Pai
O sol de Ítaca brilhava com uma intensidade generosa, refletindo-se nas águas cristalinas que banhavam as encostas rochosas da ilha. Dois meses haviam se passado desde que o sangue dos pretendentes manchara o mármore do palácio, e a vida, aos poucos, retomava sua cadência natural. Os campos de oliveiras voltavam a ser cuidados, o comércio no porto florescia sob a bandeira legítima dos Uchiha e, acima de tudo, o riso voltara a ecoar nos corredores que antes eram assombrados pela ganância de Antinous.
Obito Uchiha caminhava por uma trilha estreita que levava a um platô isolado, no topo de uma falésia que oferecia a melhor vista do Mar Jônico. Ele não estava sozinho. Ao seu lado, com o passo leve e a postura sempre atenta, estava Kuro Hatake. O jovem agora vestia o manto oficial de Comandante da Guarda, mas, para Obito, ele ainda era o rapaz de cabelos brancos que cuidara de sua família no momento mais sombrio.
Eles carregavam ferramentas de caça e alguns suprimentos. Obito decidira que aquele dia seria dedicado a uma atividade que eles não faziam há anos: apenas os dois, longe das responsabilidades do trono e das formalidades da corte.
— O vento está mudando — comentou Obito, parando para observar o horizonte. — As tempestades de outono chegarão cedo este ano.
— O palácio está pronto, senhor — respondeu Kuro, limpando o suor da testa. — Reforçamos os telhados das alas leste e os depósitos de grãos estão cheios. Rin e Tatsuyo garantiram que nada falte ao povo.
Obito assentiu, um brilho de satisfação nos olhos pretos.
— Elas são as verdadeiras administradoras desta ilha. Eu e você, Kuro... nós somos apenas os cães que guardam o portão.
Kuro soltou uma risada curta, sentindo-se confortável na presença do sogro — ou quase sogro. Nesses últimos dois meses, o relacionamento dele com Tatsuyo florescera de forma oficial. Eles não sentiam pressa para o casamento; a liberdade de apenas estarem juntos, sem o peso do segredo ou da ameaça de morte, era um presente que eles saboreavam a cada dia.
Eles se sentaram à sombra de uma oliveira centenária para descansar e beber um pouco de vinho. O silêncio era agradável, preenchido apenas pelo canto das cigarras e o som distante das ondas quebrando lá embaixo.
— Como estão as coisas entre você e minha filha? — perguntou Obito, de repente, mantendo o olhar fixo no mar.
— Estão ótimas, General. Tatsuyo está mais feliz agora que a senhora Rin não precisa mais se preocupar com os nobres. Nós treinamos todas as manhãs e, bem... nós aproveitamos o tempo que temos.
Obito tomou um longo gole de seu odre de vinho e limpou a boca com as costas da mão calejada. Ele se virou para Kuro, e o jovem sentiu aquele familiar arrepio na espinha que surgia sempre que o olhar do Uchiha se tornava analítico demais.
— Você se lembra daquela conversa que tivemos no barco? — começou Obito, sua voz baixando de tom, mas carregando uma nota de divertimento perigoso. — No dia em que voltamos de Pilos?
Kuro engoliu em seco. Ele se lembrava perfeitamente. Lembrava-se do susto, da vergonha e da permissão implícita que Obito lhe dera.
— Sim, senhor. Eu me lembro.
— Naquela noite, você me jurou que nunca tinha tocado nela. Que era tudo uma questão de respeito e honra — Obito inclinou a cabeça, um sorriso de canto surgindo em seu rosto cicatrizado. — Mas dois meses é muito tempo para um jovem vigoroso e uma princesa teimosa. Então, vou perguntar de novo, Kuro... você e Tatsuyo já transaram?
O vinho que Kuro acabara de colocar na boca pareceu se transformar em fogo. Ele se engasgou violentamente, tossindo e batendo no peito enquanto seu rosto passava de sua palidez natural para um tom de vermelho carmesim que faria inveja às uvas mais maduras de Ítaca.
— General! — exclamou Kuro, a voz saindo dois tons acima do normal. — Por todos os deuses! O senhor não pode simplesmente... de novo?! Aqui?!
— Por que não? — Obito riu abertamente, achando a reação do rapaz hilária. — Estamos sozinhos. Não há rainhas ou herdeiras para nos ouvir. É uma conversa entre homens, Kuro. Além disso, eu sou o pai dela. Tenho o direito de saber se o meu Comandante da Guarda está cumprindo bem todos os seus deveres.
Kuro cobriu o rosto com as mãos, sentindo as orelhas queimarem. Ele se contorceu no lugar, tentando encontrar algum buraco no chão para se esconder.
— Isso é tortura! O senhor está fazendo isso de propósito para me ver sofrer! — Kuro gesticulava freneticamente. — É uma pergunta extremamente invasiva! Ela é sua filha, Obito!
— Exatamente por ser minha filha, eu sei o quanto ela pode ser persuasiva quando quer algo — rebateu Obito, cruzando os braços sobre o peito musculoso. — E conhecendo o jeito que vocês se olham durante o jantar, eu diria que a "honra" que você defendia no barco já foi colocada à prova algumas vezes.
Kuro respirou fundo, tentando acalmar as batidas do coração. Ele olhou para Obito, que agora exibia uma expressão mais calma, quase compreensiva, embora o brilho de provocação ainda estivesse lá. O jovem Hatake sabia que não conseguiria mentir para aquele homem. Obito tinha o dom de ler as pessoas como se fossem pergaminhos abertos.
— O senhor não vai me deixar em paz até que eu responda, não é? — perguntou Kuro, a voz ainda trêmula de vergonha.
— Eu tenho todo o tempo do mundo, Kuro. E o vinho ainda não acabou.
Kuro soltou um suspiro longo, desviando o olhar para as botas cheias de poeira. Ele começou a mexer em um graveto no chão, o rosto ainda tingido de vermelho, mas a postura mais resignada.
— Sim — murmurou Kuro, tão baixo que quase foi abafado pela brisa.
— O quê? Eu não ouvi. O General de Troia está ficando um pouco surdo com a idade — provocou Obito.
— Sim! — Kuro disse de forma mais clara, embora estivesse se contorcendo de constrangimento. — Sim, senhor... nós já... nós já fizemos isso.
Houve um silêncio momentâneo. Kuro esperou pelo impacto. Esperou que Obito sacasse a espada, ou que o jogasse do penhasco, ou que, no mínimo, lhe desse um sermão épico sobre a santidade da linhagem Uchiha. Em vez disso, o que ele ouviu foi uma gargalhada genuína e sonora.
Obito deu um tapa forte nas costas de Kuro, quase o derrubando para a frente.
— Eu sabia! — exclamou Obito. — Eu vi o jeito que ela estava andando na semana passada, toda confiante e com aquele brilho nos olhos que a Rin sempre tem quando eu volto de uma longa viagem.
— General, por favor, pare — implorou Kuro, escondendo o rosto entre os joelhos. — Eu sinto que vou desmaiar de vergonha. Eu a amo, senhor. Mais do que qualquer coisa. Não foi... não foi algo sem importância.
Obito parou de rir e sua expressão tornou-se suave, quase nostálgica. Ele colocou uma mão firme no ombro de Kuro, desta vez sem violência.
— Eu sei que não foi, Kuro. Se eu achasse por um segundo que você estava apenas brincando com ela, você não estaria aqui conversando comigo. Você estaria pendurado pelos calcanhares em algum mastro no porto.
Kuro levantou a cabeça devagar, encontrando o olhar sério de Obito.
— O senhor não está bravo? — perguntou o jovem, incrédulo.
— Bravo? Kuro, eu sou um homem que passou dez anos em uma guerra sangrenta e outros quatro tentando voltar para os braços da mulher que amo. Eu sei o valor da conexão humana. Eu sei que a vida é curta e que o prazer e o amor que encontramos nos braços de alguém especial são as únicas coisas que realmente valem a pena no final.
Obito suspirou, olhando para o horizonte.
— Tatsuyo passou anos com medo, com a responsabilidade de um reino nas costas e a ausência de um pai. Você foi a âncora dela. Se agora ela encontrou felicidade e intimidade com você, eu fico em paz. Além disso... — Obito deu um sorriso malicioso — ... eu e Rin não fomos muito diferentes. Na verdade, se você perguntar para a sua sogra sobre a nossa juventude nos jardins de Ítaca, ela provavelmente vai corar tanto quanto você.
Kuro relaxou os ombros, sentindo um peso imenso sair de suas costas. A vergonha ainda estava lá, mas a aceitação de Obito era um bálsamo que ele não esperava.
— Ela é incrível, senhor — disse Kuro, sua voz agora cheia de uma ternura genuína. — Eu faria qualquer coisa por ela.
— Eu sei que faria. E é por isso que eu permito isso. Mas escute bem, Comandante — a voz de Obito voltou a ter aquele tom de autoridade que fazia exércitos tremerem. — Se eu ouvir um único soluço de tristeza vindo do quarto dela por causa de algo que você fez... se você for descuidado com o coração dela...
— O senhor me mata. Eu sei — completou Kuro, com um sorriso fraco.
— Não — disse Obito, os olhos brilhando intensamente. — Eu farei você desejar que eu tivesse te matado.
Kuro engoliu em seco, mas assentiu com firmeza.
— Eu entendo, General. E aceito as condições.
Obito deu um último tapa amistoso no ombro de Kuro e se levantou, limpando a poeira da túnica.
— Bom. Agora que tiramos isso do caminho e você já derreteu de vergonha o suficiente para um dia, vamos caçar aquele javali que vi mais cedo. Rin está esperando por carne fresca para o jantar.
Kuro se levantou, sentindo as pernas um pouco bambas, mas com a alma leve. Eles começaram a caminhar de volta para a trilha, o sol começando sua descida em direção ao mar.
— General? — chamou Kuro, após alguns minutos de caminhada.
— Sim?
— O senhor vai contar para a Rainha Rin sobre... sobre essa conversa?
Obito parou e olhou para Kuro por cima do ombro, um brilho divertido nos olhos.
— Contar para a Rin? Kuro, minha esposa é a mulher mais inteligente desta ilha. Ela provavelmente já sabia antes mesmo de você saber. Ela só estava esperando para ver quanto tempo eu levaria para te fazer surtar com a pergunta.
Kuro soltou um gemido de frustração, fazendo Obito rir novamente.
— Eu odeio essa família às vezes — resmungou Kuro, embora o sorriso em seu rosto dissesse o contrário.
— Bem-vindo aos Uchiha, garoto — respondeu Obito, apontando para a mata à frente. — Agora silêncio. O javali não vai se entregar sozinho.
Enquanto mergulhavam na floresta, o som da risada de Obito e os resmungos envergonhados de Kuro se perderam na brisa de Ítaca. A guerra ficara para trás, e ali, entre o mestre e o aprendiz, entre o pai e o futuro filho, a vida pulsava em sua forma mais pura: bruta, honesta e protegida pelo laço inquebrável da lealdade.
Ítaca estava em boas mãos. E o coração da princesa, como Obito agora tinha certeza absoluta, estava em mãos ainda melhores. Mesmo que essas mãos às vezes tremessem de medo diante do sogro.