Ítaca
O Retorno do Rei e o Sangue da Justiça
O ar em Ítaca estava pesado, saturado com o cheiro de vinho barato e o som de risadas vulgares que emanavam do grande salão do palácio. Rin Uchiha permanecia sentada em seu trono, as mãos apertando os braços de madeira entalhada com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. À sua frente, Antinous e uma dúzia de outros nobres banqueteavam-se com as últimas reservas de carne e grãos da ilha, agindo como se o luto da rainha fosse apenas um entretenimento para suas tardes de ócio.
— Vamos, Rainha Rin! — exclamou Antinous, levantando uma taça de ouro. — Sua filha desapareceu há dias. O "garoto Hatake" provavelmente a levou para o fundo do mar em sua fuga covarde. Ítaca precisa de um rei que possa realmente protegê-la. Por que não escolhe um de nós agora e acaba com esse teatro de fidelidade a um cadáver?
Rin levantou-se, sua figura pequena emanando uma autoridade que silenciou momentaneamente os bêbados.
— Meu marido não é um cadáver. E minha filha tem mais coragem em seu dedo mindinho do que todos vocês juntos em suas armaduras polidas. Saiam do meu salão. Agora.
Antinous riu, um som seco que foi acompanhado pelos outros. Ele se levantou, caminhando em direção ao estrado real com uma insolência predatória.
— O tempo das ordens acabou, Rin. Se Tatsuyo não voltar até o pôr do sol, tomaremos o trono à força. E você... bom, talvez você descubra que um novo casamento pode ser muito proveitoso.
Antes que ele pudesse dar mais um passo, um som estrondoso ecoou pelas imensas portas de carvalho do salão. Não foi uma batida, mas o estrondo de madeira sendo partida ao meio. As portas voaram para dentro, atingindo dois guardas traidores que vigiavam a entrada.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som metálico de passos pesados contra o mármore.
Da névoa de poeira e luz solar, três silhuetas emergiram. No centro, um homem cuja mera presença parecia sugar o oxigênio do ambiente. Ele vestia uma armadura negra de Troia, marcada por mil batalhas, e sua capa esfarrapada balançava como a asa de um corvo. À sua direita, Tatsuyo Uchiha, com o olhar em chamas e a espada desembainhada. À sua esquerda, Kuro Hatake, com uma expressão de gelo e a lâmina pronta para colher almas.
Rin sentiu as pernas fraquejarem. O ar escapou de seus pulmões em um soluço sufocado.
— Obito... — sussurrou ela, as lágrimas transbordando finalmente.
Obito Uchiha caminhou pelo corredor central, ignorando os nobres que recuavam em terror. Seus olhos pretos estavam fixos em Antinous, que empalidecera a ponto de parecer um espectro.
— Eu ouvi dizer que alguém estava procurando por um Rei — disse Obito, sua voz ressoando como o trovão antes da tempestade. — Pois bem, o Rei de Ítaca está em casa. E ele não está satisfeito com o estado de seu salão.
Antinous, movido pelo desespero e pela arrogância, tentou recuperar a compostura.
— Isso é um truque! Obito Uchiha morreu em Troia! Guardas! Matem esses impostores!
Os guardas e mercenários que haviam sido comprados pelos nobres avançaram, mas não estavam preparados para o que viria a seguir. Obito não desembainhou sua espada imediatamente; ele avançou como um moinho de vento de destruição física. Com um soco, ele quebrou o esterno do primeiro soldado, usando o corpo do homem como escudo para avançar contra os próximos.
— Kuro! Tatsuyo! — rugiu Obito. — Limpem o lixo!
Tatsuyo não esperou um segundo comando. Ela saltou sobre uma das mesas de banquete, chutando pratos e taças para o alto. Dois nobres tentaram sacar suas adagas, mas ela foi mais rápida. Com um movimento fluido, ela cortou a garganta do primeiro e cravou sua lâmina no coração do segundo.
— Isso é por cada insulto que minha mãe teve que ouvir! — gritou ela, girando para enfrentar um terceiro atacante.
Kuro Hatake era uma mancha branca de letalidade. Ele se movia entre os mercenários com uma agilidade que desafiava os olhos. Sua espada não apenas cortava; ela dançava. Ele protegia os flancos de Tatsuyo, garantindo que nenhum traidor se aproximasse dela por trás.
— Você está lenta hoje, Tatsuyo! — provocou Kuro, enquanto decapitava um mercenário que tentava cercá-la.
— Menos conversa e mais sangue, Kuro! — respondeu ela, desferindo um chute no rosto de um nobre que implorava por misericórdia.
O salão de banquetes transformou-se em um abatedouro. Obito finalmente sacou sua espada larga, uma relíquia de guerra que brilhava com um tom sinistro. Ele não lutava como um homem comum; ele lutava como um deus da vingança. Cada golpe de sua lâmina partia escudos, armaduras e ossos. Ele caminhava em direção a Antinous, deixando um rastro de corpos desfeitos para trás.
— Por favor! — gritou um dos nobres, escondendo-se debaixo de uma mesa. — Nós fomos enganados! Antinous nos prometeu riquezas!
Obito parou por um segundo, olhando para o homem com um desprezo profundo.
— A traição não tem desculpas. Ela tem apenas um preço.
Com um movimento descendente, ele atravessou a mesa e o homem abaixo dela, silenciando os gritos de uma vez por todas.
Antinous tentou fugir em direção às escadarias que levavam aos aposentos reais, na esperança de usar Rin como refém. Mas Rin não era uma donzela em perigo. Quando ele se aproximou, ela sacou uma pequena adaga escondida em suas vestes e a enterrou no ombro do nobre.
— Você nunca mais tocará em nada que pertence a este clã — disse Rin, seus olhos castanhos brilhando com uma fúria fria.
Antinous caiu para trás, rolando pelos degraus até parar aos pés de Obito. O general o agarrou pelos cabelos, levantando-o do chão como se ele não pesasse nada.
— Você se sentou no meu lugar — rosnou Obito, aproximando o rosto do de Antinous. — Você cobiçou minha esposa. Você tentou roubar o futuro da minha filha.
— Eu... eu sou um nobre de linhagem! — gaguejou Antinous, o sangue escorrendo de sua boca. — Você não pode me matar como a um cão!
— Você tem razão — disse Obito, seus olhos tornando-se sombrios. — Eu vou matá-lo como ao verme que você é.
Sem hesitação, Obito cravou sua mão livre no peito de Antinous, sentindo o último batimento cardíaco do traidor antes de lançar o corpo sem vida contra a parede de mármore, onde o brasão dos Uchiha estava manchado de sangue.
Tatsuyo e Kuro finalizaram os últimos focos de resistência. O salão, antes barulhento com a devassidão dos infiéis, agora estava mergulhado em um silêncio pesado, interrompido apenas pelo som da chuva que começava a cair lá fora e pela respiração ofegante dos combatentes.
Kuro limpou sua lâmina na túnica de um morto e olhou para Tatsuyo. Ela estava coberta de sangue, mas nunca parecera tão majestosa.
— Você está bem? — perguntou ele, aproximando-se e colocando uma mão em seu ombro.
Tatsuyo olhou para ele, o fogo da batalha ainda em seus olhos, mas suavizando-se ao encontrar os dele.
— Estou. Graças a você.
Obito subiu os degraus do estrado lentamente. Suas botas deixavam pegadas de sangue no tapete púrpura. Ele parou diante de Rin, que ainda segurava a adaga ensanguentada, tremendo de emoção.
Nenhum dos dois disse nada por um longo tempo. As palavras eram desnecessárias. Obito abriu os braços e Rin se lançou neles com um grito que misturava dor, alívio e um amor que sobrevivera a dez anos de separação e quatro anos de guerra brutal.
— Eu disse que voltaria — sussurrou Obito, enterrando o rosto nos cabelos ondulados dela.
— Você demorou muito, seu idiota — respondeu Rin entre soluços, apertando-o como se temesse que ele pudesse desaparecer se ela o soltasse.
Tatsuyo e Kuro observavam de longe, respeitando o momento. A princesa sentiu uma lágrima escorrer, mas sorriu. Ítaca estava limpa. O ninho de cobras fora destruído.
— E agora? — perguntou Kuro, guardando sua espada.
— Agora — disse Tatsuyo, olhando para os pais — nós reconstruímos. E garantimos que ninguém nunca mais esqueça quem governa esta ilha.
Obito separou-se levemente de Rin, mantendo uma mão em sua cintura, e olhou para o salão. Ele viu sua filha e o jovem que a protegera com a própria vida.
— Kuro! Tatsuyo! — chamou o Rei. — Venham aqui.
Os dois subiram ao estrado. Obito olhou para Kuro com uma seriedade que fez o jovem Hatake endireitar a coluna.
— Kuro, você provou ser mais do que um guardião. Você é um Uchiha em espírito, se não em sangue. A partir de hoje, você não é apenas o protetor de Tatsuyo. Você é o Comandante da Guarda Real de Ítaca. E, se minha filha assim desejar... você terá um lugar à mesa como parte desta família.
Kuro olhou para Tatsuyo, que sorria abertamente para ele. Ele se ajoelhou diante de Obito e Rin.
— É a maior honra da minha vida, meu Rei.
Rin se aproximou e tocou a cabeça de Kuro com carinho.
— Obrigada por trazê-los de volta para mim, Kuro.
A noite caiu sobre Ítaca, mas desta vez não era uma noite de medo. O palácio foi limpo dos traidores, e o povo, ao saber do retorno do General Obito, acendeu fogueiras por toda a costa.
Horas depois, nos jardins suspensos, longe do cheiro de morte do salão, Tatsuyo e Kuro estavam sozinhos sob o luar. A adrenalina da batalha fora substituída por uma paz profunda.
— Meu pai me disse uma coisa no barco — começou Tatsuyo, aproximando-se de Kuro até que seus peitos quase se tocassem.
— O que ele disse? — perguntou Kuro, sentindo o coração acelerar novamente.
— Ele disse que eu tenho a teimosia dos Uchiha. E que, se eu quisesse algo, eu deveria simplesmente tomar.
Kuro sorriu, a mão subindo para acariciar o rosto dela.
— E o que você quer, Tatsuyo?
— Eu quero que você pare de ser tão respeitoso por um momento — sussurrou ela.
Kuro não precisou de mais nenhum convite. Ele inclinou a cabeça e finalmente selou seus lábios nos dela em um beijo que carregava quatro anos de espera, promessas silenciosas e a certeza de que o futuro deles estava apenas começando. Não era um beijo de contos de fadas; era um beijo de guerreiros, intenso e cheio de vida.
Lá dentro, Obito e Rin observavam a cena da varanda superior, abraçados.
— Você vai ser um sogro difícil, Obito — comentou Rin, encostando a cabeça no ombro do marido.
— Eu vou ser um pesadelo — concordou Obito com um sorriso satisfeito —. Mas ele é o único homem nesta Grécia que eu confio para estar ao lado dela quando eu não puder.
A odisseia terminara. O Rei voltara, a Rainha triunfara, a Herdeira encontrara seu par e o traidor fora punido. Sob as estrelas de Ítaca, a paz finalmente retornara ao lar dos Uchiha, forjada no sangue e selada pelo amor.