Itália - lcdp
O Peso da Prata e o Som do Pânico
O som da própria respiração dentro da máscara de Dalí era ensurdecedor. Para Itália, cada inspiração parecia arrastar o ar quente e plástico para seus pulmões, enquanto o visor de vidro embaçava levemente com o calor de sua pele. O mundo lá fora havia desaparecido. Não existia mais o sol de Toledo, nem o cheiro de café fresco da manhã; agora, o universo se resumia ao mármore frio da Casa da Moeda da Espanha e ao eco metálico dos fuzis sendo destravados.
Ela sentiu um tremor fino nas pontas dos dedos, as mesmas mãos que, horas antes, haviam conferido cada selo holográfico das identidades falsas que agora repousavam em seus bolsos internos. O plano estava em curso. A adrenalina, que deveria ser um combustível, agia como um ácido em seu estômago.
— Respira, Itália. Se você desmaiar agora, o Berlim vai te usar como tapete de entrada. — A voz soou baixa, vinda de algum lugar à sua direita.
Ela virou a cabeça e viu Rio. O garoto parecia jovem demais para o peso do fuzil que carregava, mas seus olhos, através da máscara, brilhavam com uma determinação que ela invejava. Ele se aproximou, fingindo ajustar a posição de guarda, mas encostou o ombro no dela por um segundo.
— Eu tô bem, Rio. Só é... real demais — sussurrou ela, tentando estabilizar o tom de voz.
— É pra ser real. O Professor não treinou a gente pra um teatro de escola — Rio disse, dando um sorriso que ela pôde sentir, mesmo sem ver. — Você é a melhor que eu já vi com sistemas e papéis. Se a rede cair ou se precisarmos de uma saída burocrática, você é a nossa deusa. Foca nisso. O resto é barulho.
— Obrigada, garoto.
Do outro lado do saguão, Tóquio observava a interação. Ela não disse nada, mas a forma como apertou o cabo de sua arma e o olhar afiado que lançou na direção de Itália diziam tudo. Havia uma possessividade crua em Tóquio, uma eletricidade que não aceitava interferências na órbita de Rio. Itália percebeu o desconforto e recuou um passo, voltando sua atenção para o setor de reféns que começava a ser organizado sob os gritos de Nairóbi.
— Vamos, vamos! Todo mundo de joelhos! Mãos na cabeça! — a voz de Nairóbi cortava o ar como um chicote. — Eu quero ordem nessa bagunça!
Foi nesse momento que o caos encontrou um rosto: Arturo Román. O diretor da Casa da Moeda, com sua camisa social suada e o ego ferido, começou a se levantar, balançando as mãos de forma errática.
— Isso é um erro! Vocês não sabem com quem estão mexendo! — gritou Arturo, a voz oscilando entre o pavor e a arrogância. — Tem alarmes silenciosos, a polícia já deve estar cercando o prédio! Vocês são apenas crianças brincando de bandido!
Itália caminhou em direção a ele. O controle de danos era sua especialidade, e o pânico de um refém era o incêndio mais perigoso em um assalto.
— Senhor Román, por favor, ajoelhe-se — disse ela, mantendo a voz firme e desprovida de emoção. — O senhor está tornando as coisas mais difíceis para si mesmo e para os seus funcionários. Ninguém quer que sangue suje esse mármore hoje.
— E quem é você? — Arturo cuspiu as palavras, tentando peitar a mulher de máscara. — Acha que esse pedaço de plástico me assusta? Vocês são patéticos!
Itália sentiu a paciência escorrer. Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância, a ponta do cano da arma apontada para o chão, mas sua postura era de absoluto domínio.
— Eu sou a pessoa que decide qual de vocês vai ter água e quem vai passar a noite no escuro — ela disse, a voz gélida. — Agora, cale a boca e obedeça.
Mas Arturo não era conhecido por sua prudência. Ele tentou se desvencilhar, empurrando um dos funcionários para o lado e criando um início de tumulto. Os outros reféns começaram a murmurar, o medo se transformando em uma onda de agitação incontrolável.
— ABAIXA ESSA PORRA DESSA BOLA AGORA! — O grito veio como um trovão.
Denver irrompeu pelo corredor lateral, o macacão vermelho aberto até o meio do peito, o rosto tenso de uma forma que Itália nunca tinha visto em Toledo. Ele chutou uma cadeira de escritório, fazendo-a voar contra a parede com um estrondo violento.
— Você tá surdo, seu merda? — Denver avançou sobre Arturo, agarrando-o pelo colarinho e levantando-o do chão com uma força bruta. — Você quer ser o herói? Quer um funeral com banda de música e bandeirinha? Porque eu posso resolver isso agora mesmo!
— Denver, para! — Itália interveio, colocando-se entre ele e o refém aterrorizado. — Você vai causar um ataque cardíaco no homem ou incitar uma revolta. O Professor disse...
— O Professor não tá aqui vendo esse otário desrespeitar a gente! — Denver se virou para ela, os olhos injetados. — E você, Itália, para de ser tão educadinha! Isso aqui não é um chá de bonecas, caralho! A gente tá num assalto! Se esse bosta não entender quem manda, a gente perde o controle!
— O controle se mantém com autoridade, não com selvageria! — rebateu ela, sem recuar. — Você está assustando as pessoas certas pelos motivos errados. Solta ele. Agora.
Denver bufou, a respiração pesada batendo contra a máscara dela. A tensão entre os dois era palpável, uma faísca pronta para incendiar o oxigênio do saguão. Ele soltou Arturo de forma brusca, fazendo o homem cair sentado, tremendo como uma folha.
— Você se acha muito esperta, né? — Denver rosnou, aproximando o rosto do dela. — Acha que porque sabe falsificar um passaporte, sabe lidar com a vida real. Mas aqui dentro, o que vale é o sangue quente, não a tinta da sua caneta.
— E o seu sangue quente vai acabar matando a gente antes do primeiro milhão ser impresso — Itália respondeu, a voz baixa e cortante.
Denver abriu a boca para retrucar, mas Berlim passou por eles, caminhando com a elegância de um predador em um jardim botânico.
— Crianças, crianças... — Berlim disse, a voz aveludada e perigosa. — Se quiserem brigar, façam isso depois que o dinheiro estiver nos sacos. No momento, a performance de vocês está deixando a desejar. Denver, volte para o carregamento. Itália, ajude a Nairóbi a catalogar os celulares. E tentem não se matar. Seria um desperdício de munição.
Berlim seguiu seu caminho, deixando um rastro de desconforto. Denver olhou para Itália, o peito ainda subindo e descendo com a raiva adrenalizada. Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente frustrado, e soltou um grunhido.
— Que merda... — ele resmungou, chutando o ar. — Que lugar de merda.
Ele se afastou alguns metros, encostando-se em uma coluna. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som rítmico das máquinas de impressão que já haviam começado a trabalhar no subsolo, um batimento cardíaco industrial para o crime que cometiam.
Itália se aproximou dele, hesitante. Ela viu a forma como as mãos dele tremiam levemente, a mesma vibração que ela sentira minutos antes.
— Denver — chamou ela, suavemente.
Ele não olhou.
— O quê? Vai me dar outra aula de boas maneiras?
— Eu vi você falando com o Rio antes da entrada — disse ela, mudando de assunto. — Você estava preocupado com o seu pai.
Denver congelou. Ele virou o rosto lentamente, a máscara de Dalí parecendo grotesca sob a luz fria das lâmpadas fluorescentes.
— O que tem o meu pai? O velho tá bem. Ele tá lá embaixo, cavando. Ele é o melhor nisso.
— Eu sei. Só estou dizendo que... o estresse faz a gente agir como idiotas. Eu quase tive um colapso quando a porta se abriu. E você... você explode porque tem medo de que algo dê errado para ele.
Denver soltou uma risada repentina. Não era uma risada de alegria, mas aquele som peculiar, agudo e entrecortado que Itália aprendera a reconhecer em Toledo.
— *A-ha-ha-ha-ha!* — Ele balançou a cabeça, o som ecoando de forma estranha no saguão vazio. — Medo? Eu não tenho medo de nada, garota. Eu só... eu só não quero que o velho se foda por minha causa. De novo. Entende? Se eu fizer barulho, se eu gritar, talvez os policiais foquem em mim e esqueçam que ele está lá no buraco.
Ele deu um passo em direção a ela, a agressividade desaparecendo para dar lugar a uma vulnerabilidade desajeitada.
— Eu sou um burro, Itália. Eu sei disso. Não sei falar bonito como você ou o Professor. Eu só sei ser assim. E quando eu vi você conversando com o Rio, todo calminho, parecendo que tavam num encontro no parque... eu perdi a linha. A gente tá na guerra, caralho.
Itália sentiu um aperto no peito. Não era apenas raiva ou estresse; era a percepção de que Denver, em sua impulsividade bruta, estava tentando protegê-la à sua maneira torta, enquanto lutava contra seus próprios demônios.
— O Rio é meu amigo, Denver. Ele é o único que não me olha como se eu fosse um código de barras — explicou ela, dando um passo corajoso para mais perto. — E você não é burro. Você só é... intenso demais.
Denver olhou para os próprios pés, o peso do fuzil parecendo maior agora.
— É. Intenso. Meu pai diz que eu sou um trator sem freio. — Ele voltou a olhar para ela, e por um breve momento, a tensão sexual e emocional entre eles superou o medo do assalto. — Desculpa pelo grito. Com você. O refém que se foda, ele merecia um soco, mas... desculpa.
Itália sorriu por trás da máscara, uma expressão que ele não viu, mas que pôde sentir na suavidade do olhar dela.
— Tudo bem, trator. Só tenta não quebrar as paredes antes da hora.
Denver soltou outro riso, mais curto.
— Vou tentar. Mas não prometo nada.
Nairóbi apareceu no topo da escada, gritando ordens sobre os reféns e o tempo de impressão. O momento de trégua acabou.
— Vamos, Itália! — chamou Nairóbi. — O circo tá só começando e eu preciso de você pra organizar esses palhaços!
Itália acenou para Denver e começou a se afastar. Ela sentiu o olhar dele em suas costas enquanto caminhava. O ar na Casa da Moeda continuava pesado, o som das máquinas continuava incessante, e o perigo estava apenas começando. Mas, de alguma forma, o peso do macacão vermelho parecia um pouco mais leve do que antes.
Ela sabia que o caos viria. Sabia que Berlim seria um problema, que Arturo Román tentaria algo novamente e que a polícia não ficaria assistindo por muito tempo. Mas enquanto Denver estivesse por perto, com sua risada metralhada e seu coração exposto, Itália sentia que, talvez, eles tivessem uma chance de sair dali vivos. Ou, pelo menos, de não se perderem completamente no escuro.