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Itália - lcdp

O Labirinto de Cédulas e o Eco de uma Promessa

O som das máquinas de impressão no subsolo da Casa da Moeda era o coração de um monstro de metal que nunca dormia. Para Itália, aquele ritmo constante — *clack-clack-clack-clack* — era ao mesmo tempo hipnótico e desesperador. Ela estava sentada em uma mesa improvisada em uma das salas administrativas, cercada por pilhas de documentos de identidade dos reféns e formulários que o Professor exigira que fossem catalogados. O cheiro de tinta fresca e papel químico impregnava o ar, misturando-se ao odor metálico das armas e ao suor frio do medo que emanava do corredor.

Ela retirou a máscara de Dalí por um momento, deixando-a sobre a mesa. O rosto estava marcado pelo elástico, e alguns fios de cabelo escuro grudavam em sua testa. Itália fechou os olhos, tentando se desligar do pânico silencioso que preenchia o edifício. O plano estava funcionando, mas a tensão era uma corda esticada ao limite.

A porta rangeu. O passo era pesado, desajeitado, e ela nem precisou abrir os olhos para saber quem era.

— O Professor disse que a gente não devia tirar a máscara perto das câmeras que não foram isoladas ainda — disse Denver, a voz rouca ecoando no teto alto.

Itália abriu os olhos e o viu encostado no batente da porta. Ele ainda usava a máscara no topo da cabeça, os cachos rebeldes saltando para fora. Ele carregava um fuzil atravessado no peito e dois sanduíches embrulhados em papel alumínio.

— Eu verifiquei o ângulo morto dessa sala, Denver. Estou segura por cinco minutos — respondeu ela, esticando os braços e sentindo as vértebras estalarem. — E você? Não deveria estar vigiando o túnel com o seu pai?

Denver entrou, chutando a porta para fechar atrás de si. Ele caminhou até a mesa e jogou um dos sanduíches na frente dela.

— O velho me mandou sair. Disse que eu estava deixando ele nervoso com o meu jeito de andar. Dá pra acreditar? O cara tá lá cavando como se fosse uma toupeira e eu que sou o nervoso? — Ele soltou aquela risada curta e aguda, *a-ha-ha-ha-ha*, que fez Itália sorrir involuntariamente. — Ele só queria que eu comesse alguma coisa. E como eu sou um cara legal, trouxe pra você também.

— Obrigada. — Ela pegou o sanduíche, mas não o abriu imediatamente. — Como ele está? O Moscou?

Denver se sentou em cima da mesa, ao lado das pilhas de passaportes, fazendo os papéis balançarem.

— Ele tá bem. Tossindo um pouco por causa da poeira daquela parede, mas o velho é duro na queda. Ele tá feliz, sabe? — Denver olhou para o teto, um brilho de orgulho e melancolia cruzando seus olhos castanhos. — Ele acha que, depois disso, a gente vai abrir uma oficina ou algo assim. Ele não quer mais saber de lama e carvão. E eu... eu só quero que ele pare de se preocupar se eu vou acordar na cadeia ou num necrotério.

Itália observou o perfil de Denver. Havia uma beleza crua na forma como ele se importava, uma lealdade que não era filtrada por lógica ou estratégia. Era puro instinto.

— Você se cobra demais, Denver. O Moscou sabe quem você é. Ele não precisa de uma oficina para ter orgulho de você.

Denver virou-se bruscamente, a expressão mudando para uma defensiva irritada.

— Ah, é? E o que eu sou, Itália? Um cara que mal terminou a escola, que viveu de trambique e que agora tá aqui, trancado com o maior bando de loucos da Espanha? — Ele gesticulou com o sanduíche na mão. — Eu sou o músculo. O cara que grita. Eu não sou como você, que olha pra um papel e vê um futuro. Eu olho pra esse dinheiro e só vejo uma chance de não ser um merda pro resto da vida.

— Você não é um merda — disse ela, a voz firme, levantando-se para ficar de frente para ele. — Você é o coração desse grupo, mesmo que não perceba. O Berlim é o cérebro frio, a Tóquio é o impulso perigoso, mas você... você é o que mantém a humanidade aqui dentro. Você se importa com os reféns, se importa com o seu pai, e até se importa se eu comi ou não.

Denver soltou um suspiro pesado, a raiva evaporando tão rápido quanto surgira. Ele desceu da mesa, ficando a poucos centímetros dela. O espaço entre eles parecia subitamente carregado, o som das impressoras lá embaixo tornando-se apenas um ruído de fundo distante.

— Você tem esse jeito de falar... — ele sussurrou, a voz perdendo a aspereza. — Parece que tá lendo um manual de instruções da minha cabeça. É irritante pra caralho.

— É o meu trabalho, lembra? — Itália deu um passo à frente, desafiando a distância. — Eu vejo as falhas, as marcas d'água, o que é verdadeiro e o que é falso. E em você, Denver, quase tudo é verdadeiro demais. Por isso você sofre tanto.

Denver engoliu em seco. Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou uma mecha do cabelo dela que estava solta. Seus dedos eram calosos, marcados pelo trabalho bruto, mas o toque foi surpreendentemente leve.

— E você? O que é verdadeiro em você, Itália? — perguntou ele, os olhos fixos nos dela. — Porque você tá sempre tão calma, tão... no controle. Mas eu vi sua mão tremer quando o Berlim deu aquele discurso hoje cedo.

Itália sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ninguém mais havia percebido aquele detalhe.

— Eu tenho medo, Denver. O tempo todo. Medo de que o Professor tenha errado algum cálculo, medo de que a polícia perca a paciência, medo de que... de que eu não seja a pessoa que eu finjo ser.

— Você é melhor do que finge — ele disse, com uma convicção que a desarmou. — Você é a única pessoa aqui dentro que não me olha de cima pra baixo. Nem meu pai faz isso, ele sempre me olha como se eu fosse quebrar alguma coisa. Mas você... você me olha como se eu fosse alguém.

Ele riu de novo, mas desta vez foi uma risada baixa, quase um suspiro de autodepreciação.

— Que porra eu tô falando? Eu sou um bandido com um fuzil e você é uma falsificadora de elite. A gente devia tá conferindo as munições, não filosofando sobre a vida.

— Às vezes, filosofar é o que impede a gente de enlouquecer — rebateu ela, com um meio sorriso.

Denver inclinou a cabeça, observando os lábios dela. A tensão era quase insuportável agora. Ele era impulsivo, agia antes de pensar, e Itália sabia que aquele era o momento em que a lógica deveria assumir o controle. Eles estavam no meio do maior assalto da história. Havia câmeras, havia reféns, havia o Professor ouvindo tudo através dos microfones ocultos (embora ela soubesse que aquela sala era um ponto cego acústico que ela mesma testara).

Mas Denver não era feito de lógica.

— Itália... — ele murmurou, o nome dela soando como uma prece em seus lábios.

Antes que ela pudesse responder, ele reduziu o espaço final. O beijo foi como tudo em Denver: intenso, urgente e sem filtros. Tinha gosto de adrenalina e da ansiedade dos últimos dias. Itália sentiu as mãos dele em sua cintura, puxando-a para perto com uma possessividade que, em qualquer outra situação, seria assustadora, mas ali, naquele labirinto de concreto e incerteza, parecia uma âncora.

Ela correspondeu, enterrando as mãos nos cabelos cacheados dele, sentindo a batida acelerada do coração de Denver contra o seu peito. Por alguns segundos, a Casa da Moeda não existia. Não havia Berlim, não havia polícia, não havia o peso do crime. Havia apenas o calor da pele e a confirmação silenciosa de que não estavam sozinhos naquele caos.

Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes. Denver encostou a testa na dela, fechando os olhos.

— Se o Professor descobrir, ele mata a gente — sussurrou ele, um sorriso travesso começando a surgir no canto da boca.

— O Professor tem planos para tudo, Denver. Mas acho que nem ele previu isso — respondeu Itália, tentando recuperar o fôlego.

— É... — Denver soltou a risada característica, o som preenchendo a sala administrativa. — *A-ha-ha-ha-ha!* Eu sou um desastre, Itália. Eu te disse. Eu estrago tudo com minha impulsividade.

— Você não estragou nada — disse ela, segurando o rosto dele com as duas mãos. — Você só tornou as coisas... reais.

Denver a olhou com uma seriedade súbita, o brilho brincalhão desaparecendo por um momento.

— Eu vou te tirar daqui, Itália. Eu, meu pai e você. A gente vai pra uma ilha, ou pra uma montanha, sei lá. Mas eu não vou deixar nada acontecer com você. Se as coisas ficarem feias, você fica atrás de mim. Entendeu?

— Eu sei me cuidar, Denver.

— Eu sei que sabe. Mas eu sou o músculo, lembra? Deixa eu fazer o meu trabalho.

Ele se afastou, pegando a máscara de Dalí e colocando-a de volta no rosto, transformando-se novamente no assaltante que o mundo temia. Mas, antes de sair, ele parou na porta e olhou para trás.

— Come o sanduíche. Você precisa de energia pra continuar sendo a pessoa mais inteligente desse prédio.

E com um aceno rápido, ele desapareceu no corredor, o som de seus passos ecoando até sumir.

Itália ficou sozinha na sala, o silêncio retornando, apenas quebrado pelo eterno *clack-clack-clack* das impressoras. Ela pegou o sanduíche, o papel alumínio ainda morno, e sentiu um calor diferente em seu peito. Ela sabia que os dias seguintes seriam um inferno. Sabia que o sangue seria derramado e que a lealdade de todos seria testada até o ponto de ruptura.

Mas agora, enquanto olhava para as pilhas de identidades falsas, ela percebeu que a única identidade que realmente importava ali dentro era aquela que Denver tinha enxergado. Ela não era apenas Itália, a falsificadora. Ela era a mulher que encontrara beleza na risada de um homem quebrado.

Ela colocou sua própria máscara de volta. O plástico frio tocou sua pele, mas por dentro, o fogo que Denver acendera continuava queimando.

— Vamos lá, Professor — sussurrou ela para as paredes de concreto. — Vamos ver quem sobrevive a esse jogo.

Lá fora, no saguão, o som de um tiro ecoou, seguido pelos gritos de pânico dos reféns e pelas ordens ríspidas de Berlim. O tempo de paz havia acabado. O assalto estava entrando em sua fase mais sombria, e Itália sabia que, a partir de agora, cada decisão poderia ser a última. Mas, ao longe, ela ainda podia ouvir, ou talvez apenas imaginar, o eco daquela risada estranha e contagiante, lembrando-a de que, mesmo no meio do roubo do século, ainda havia algo pelo qual valia a pena lutar.