James Fraser no futuro
O Crepúsculo das Sombras e o Alvorecer da Liberdade
O vento soprava frio sobre as colinas de Gorthleck, trazendo consigo o aroma de turfa úmida e o cheiro distante de maresia que subia do Beauly Firth. Jamie Fraser estava parado no limite da propriedade, observando o horizonte onde o céu de 1961 começava a se tingir de um roxo profundo. Em sua mão, ele segurava um pequeno objeto de plástico e metal — uma lanterna moderna — que Brianna lhe dera. Ele a girava entre os dedos, maravilhado com a leveza de algo que podia produzir uma luz tão clara quanto a de dez velas.
— É estranho, não é? — A voz de Ian surgiu às suas costas, calma e firme. — Ter a terra sob os pés e saber que nenhum oficial do rei virá batendo à porta com ordens de despejo ou cobranças de impostos de guerra.
Jamie virou-se para o cunhado. Ian caminhava com uma desenvoltura que Jamie ainda achava milagrosa, graças à nova prótese que Claire e Brianna haviam conseguido em Edimburgo.
— É mais do que estranho, Ian — respondeu Jamie, guardando a lanterna no bolso do casaco. — É um peso que eu não sabia que carregava até que ele fosse retirado. Sinto-me como se estivesse flutuando, como se a gravidade deste século fosse menor do que a do nosso.
— Talvez seja a falta de aço nas costas — brincou Ian, aproximando-se. — Passamos vinte anos esperando o golpe de uma espada ou o disparo de um mosquete. Aqui, o maior perigo parece ser aquele rádio da Jenny que insiste em chiar quando ela quer ouvir as notícias.
Os dois riram, um som que ecoou pelo vale silencioso. Dentro da casa, as luzes elétricas brilhavam através das janelas, criando quadrados de um dourado artificial sobre a grama. Era uma visão que Jamie ainda associava a contos de fadas, mas que agora era a sua realidade cotidiana.
— Brianna e Roger estão voltando de Inverness — comentou Ian, olhando para a estrada de asfalto que serpenteava ao longe. — Eles trazem os papéis finais. O advogado disse que Randall-Forester desistiu oficialmente. A linhagem dele não pode competir com a prova física que você guardou naquela caverna.
Jamie assentiu, sentindo uma satisfação profunda. O fato de ter derrotado um Randall não com sangue, mas com a preservação da própria história, era uma vitória poética que ele saboreava.
— Vamos entrar — disse Jamie. — Claire deve estar preocupada com o frio, e Jenny provavelmente já preparou chá o suficiente para afogar um exército.
Ao entrarem na cozinha, foram recebidos pelo calor reconfortante do fogão moderno e pelo burburinho da família. Jenny estava sentada à mesa, examinando um catálogo de sementes com uma concentração feroz. O pequeno Jamie e o jovem Ian estavam no canto da sala, debruçados sobre um tabuleiro de xadrez que Brianna lhes ensinara a jogar.
— Jamie, Ian — saudou Claire, levantando-se de sua poltrona perto da lareira. Ela usava um suéter de lã macia que realçava o brilho de seus olhos. — Vocês perderam a transmissão de rádio. Londres está falando sobre um novo tratado, mas o que importa é que o tempo está mudando. Teremos uma geada amanhã.
— Deixe que venha a geada, Sassenach — disse Jamie, aproximando-se dela e depositando um beijo em sua testa. — Temos lenha, temos teto e temos uns aos outros.
O som de um motor se aproximando interrompeu o momento. O jipe de Brianna subiu a ladeira e parou com um solavanco. Momentos depois, Brianna e Roger entraram na casa, ambos com os rostos iluminados por sorrisos triunfantes.
— Está feito! — exclamou Brianna, levantando uma pasta de couro preta. — O juiz assinou. Gorthleck é oficialmente dos Fraser. E não apenas a casa, mas todas as terras que Randall-Forester tentou reivindicar.
Roger, que vinha logo atrás carregando algumas caixas de provimentos, colocou-as sobre o balcão.
— É um precedente histórico interessante — disse Roger, ajustando os óculos. — O tribunal reconheceu que os documentos de 1745 tinham prioridade sobre as vendas de terras confiscadas ilegalmente após a revolta que... bem, a revolta que nunca aconteceu da forma que os livros diziam.
Jamie pegou a pasta das mãos da filha. Seus dedos traçaram o brasão oficial de 1961 impresso na capa.
— Obrigado, Roger — disse Jamie seriamente. — Sei que você e Brianna trabalharam horas naquelas bibliotecas empoeiradas. Um homem que luta com livros é um aliado poderoso.
— Eu faria qualquer coisa pela família de Brianna, Sr. Fraser — respondeu Roger, encontrando o olhar de Jamie com uma firmeza que o Highlander respeitava cada vez mais.
— Ora, parem de falar de papéis e venham comer! — interrompeu Jenny, levantando-se e começando a distribuir pratos. — Se o futuro é feito de documentos, o presente é feito de ensopado de carne. E o meu está esfriando.
O jantar foi uma celebração silenciosa, mas carregada de significado. Eles conversaram sobre os planos para a primavera, sobre quais campos seriam arados e como integrariam as técnicas de agricultura que Ian e Jamie conheciam com as máquinas que Brianna prometera ensiná-los a operar.
— Eu vi um trator na cidade — comentou o jovem Ian, os olhos brilhando. — O vendedor disse que ele faz o trabalho de dez cavalos. Tio Jamie, imagine o que poderíamos fazer em Lallybroch com uma coisa dessas!
— Lallybroch está no passado, rapaz — disse Ian gentilmente, colocando a mão no ombro do filho. — Gorthleck é a nossa Lallybroch agora. E o trator será bem-vindo, contanto que seu tio não tente desmontá-lo para ver se há um duende lá dentro fazendo o motor girar.
— Eu não sou tão ignorante assim, Ian! — protestou Jamie, embora com um sorriso. — Eu já entendi que é o "petróleo" que faz a mágica acontecer. Só não entendo por que ele cheira tão mal.
Após a refeição, enquanto Roger e os rapazes limpavam a mesa — uma prática moderna que Jenny ainda achava escandalosa, mas que secretamente apreciava —, Jamie e Claire saíram para a pequena varanda nos fundos da casa.
O ar estava cristalino, e as estrelas pareciam mais próximas do que nunca.
— Você está bem, Jamie? — perguntou Claire, abraçando-o por trás.
— Estou pensando na linha do tempo, Claire — confessou ele, olhando para o céu. — Você disse que, na sua história original, eu morri em Culloden. Que os clãs foram destruídos e as Highlands ficaram vazias.
— Sim, foi o que eu estudei — sussurrou ela. — Mas vocês mudaram tudo. Ao impedir aquele dinheiro de chegar, ao manter os clãs unidos e evitar a batalha... vocês criaram um novo mundo.
— E no entanto, aqui estamos nós — disse Jamie, virando-se para ela. — Em 1961. O mundo ainda seguiu em frente. A tecnologia ainda avançou. A Escócia ainda faz parte desta União. Parece que o destino é como um rio; você pode mudar o curso de um riacho aqui e ali, mas a correnteza principal continua fluindo para o mar.
— Talvez — disse Claire. — Mas olhe para as vidas que você salvou. Jenny não é uma viúva amarga. Ian tem suas pernas e seu riso. Seus sobrinhos estão vivos e educados. E Brianna... Brianna tem o pai dela. Isso não é um riacho, Jamie. É um oceano de diferença.
Jamie suspirou, sentindo a verdade nas palavras dela. Ele olhou para a aliança em seu dedo, a mesma que ele lhe dera tantos anos antes, e depois para a aliança de ouro que ela usava no outro dedo, o legado de Frank Randall.
— Sabe, Claire, eu costumava odiar o fantasma do seu primeiro marido — admitiu Jamie em voz baixa. — Mas hoje, vendo Brianna, eu sinto apenas gratidão. Ele a criou. Ele a protegeu quando eu não pude. Ele a preparou para ser a mulher que ela é hoje. Sem ele, ela não teria tido a força para nos aceitar quando atravessamos as pedras.
— Frank amava Brianna mais do que qualquer coisa — disse Claire, os olhos marejados. — Ele ficaria feliz em saber que ela encontrou você. Ele sempre soube que havia uma parte dela que pertencia a outro tempo.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo o som do vento nas árvores e o murmúrio das vozes dentro da casa. Era uma paz que Jamie nunca acreditara ser possível para um homem como ele.
— O que faremos amanhã, Sassenach? — perguntou ele.
— Amanhã — disse ela, sorrindo — eu vou te ensinar a dirigir o jipe. Brianna disse que você já tem coordenação suficiente com a forja, então as marchas não devem ser um problema.
Jamie soltou uma risada nervosa.
— Dirigir aquela fera de metal? Eu prefiro enfrentar um urso com uma faca cega.
— Oh, deixe de ser covarde, James Fraser — provocou ela. — Um homem que sobreviveu a duzentos anos de história não pode ter medo de um pedal de embreagem.
— Veremos — respondeu ele, puxando-a para mais perto. — Mas se eu acabar em uma vala, você terá que me tirar de lá.
— Eu sempre tiro você das valas, Jamie. É o meu trabalho principal.
Eles voltaram para dentro, onde a família agora estava reunida ao redor do rádio. Roger estava sintonizando uma estação que tocava música folclórica escocesa. Uma gaita de foles começou a soar, uma melodia antiga e lúgubre que parecia atravessar os séculos.
Jamie sentou-se em sua cadeira, observando o rosto de cada pessoa naquela sala. Jenny estava ensinando o pequeno Jamie a tricotar — uma habilidade que ela insistia ser útil para qualquer homem. Ian e o jovem Ian conversavam em voz baixa sobre a linhagem dos cavalos que pretendiam comprar. Brianna e Roger compartilhavam um livro, as cabeças encostadas uma na outra.
Ele percebeu que, embora o mundo ao seu redor fosse feito de aço, eletricidade e conceitos que ele mal compreendia, o que realmente importava não mudara. A lealdade, o amor, o sangue e a terra ainda eram os pilares de sua existência.
— Jamie? — chamou Brianna, olhando para ele. — Roger e eu estávamos pensando... No próximo mês, haverá um encontro de clãs em Inverness. Eles fazem jogos, competições de força e dança. Você gostaria de ir?
Jamie olhou para Ian, que deu de ombros com um sorriso.
— Jogos de força, hein? — Jamie perguntou, os olhos brilhando com o velho fogo de Lallybroch. — Eles ainda arremessam o tronco?
— Sim — riu Roger. — Chamam de *caber toss*. Mas aviso que os competidores modernos são bem treinados.
— Treinados? — Jamie levantou-se, esticando os ombros largos que anos de trabalho pesado e batalhas haviam forjado. — Eles podem ter o treinamento, MacKenzie. Mas eu tenho duzentos anos de teimosia escocesa nas minhas costas. Acho que podemos mostrar a eles como um Fraser de verdade se comporta.
— Isso mesmo! — gritou o jovem Ian. — Vamos mostrar a eles, tio!
A sala explodiu em risos e conversas animadas. Por um momento, a barreira entre 1761 e 1961 desapareceu completamente. Eles não eram viajantes do tempo, nem anacronismos, nem fantasmas. Eram apenas uma família escocesa, unida pela providência e protegida pelo amor.
Tarde da noite, quando a casa finalmente mergulhou no silêncio, Jamie e Claire deitaram-se em sua cama. O colchão era macio demais, os lençóis eram de um algodão fino que ele ainda achava estranho, mas o calor do corpo dela ao seu lado era a única constante que ele precisava.
— Claire — sussurrou ele na escuridão.
— Sim?
— Eu te amo. Não importa o século, não importa o tempo. Se eu tivesse que atravessar aquelas pedras mais mil vezes e enfrentar mil exércitos ingleses apenas para estar aqui agora, nesta cama, ouvindo sua respiração... eu faria tudo de novo. Sem hesitar.
Claire apertou a mão dele sob as cobertas.
— Eu sei, Jamie. Eu também.
Ele fechou os olhos, sentindo o peso do sono chegar. Pela primeira vez em sua vida, Jamie Fraser não sonhou com batalhas, nem com cavernas úmidas, nem com o frio da solidão. Ele sonhou com o sol sobre os campos de Gorthleck, com o riso de sua filha e com o som de um martelo batendo em brasa, forjando não espadas, mas ferramentas para um novo amanhã.
O passado era uma sombra que se dissipava. O presente era um presente que ele abraçava. E o futuro... o futuro era uma estrada aberta, esperando para ser percorrida por um homem que aprendera que o tempo pode ser dobrado, mas o coração humano, quando ancorado no amor verdadeiro, é eterno.
Lá fora, as pedras de Craigh na Dun permaneciam em silêncio, suas superfícies cinzentas guardando os segredos de quem entrava e saía do fluxo temporal. Mas para os Fraser e os Murray, o zumbido das pedras era agora apenas um eco distante. Eles haviam encontrado o seu lugar. Eles haviam encontrado a sua paz. E nas Highlands de 1961, o nome Fraser de Lallybroch continuaria a ecoar, não como uma lenda de livros de história, mas como uma realidade vibrante, forte e imortal.