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James Fraser no futuro

O Alvorecer da Justiça e as Raízes da Memória

A névoa matinal sobre as Highlands em 1961 não era diferente daquela que Jamie Fraser conhecia em 1743. Ela se agarrava às encostas das colinas com a mesma tenacidade silenciosa, escondendo o mundo sob um manto de prata e mistério. No entanto, quando o sol finalmente rompeu o horizonte, ele não iluminou o brilho de espadas ou o movimento de casacas-vermelhas, mas sim o brilho cromado do jipe de Brianna e as janelas de vidro da nova casa que a família agora chamava de lar.

Jamie estava parado na varanda, observando o vale. Ele vestia uma camisa de flanela xadrez e calças de brim, roupas que Claire garantira serem "práticas", mas que ele ainda achava estranhamente leves. Em sua mão, ele segurava uma caneca de cerâmica com café quente — uma bebida que ele aprendera a apreciar pela sua capacidade de despertar os sentidos de forma quase tão eficaz quanto um uísque matinal.

— Você parece um lorde inspecionando suas terras, Jamie — disse Claire, saindo para a varanda e envolvendo a cintura dele com um braço. — Ou talvez um filósofo tentando decifrar o amanhã.

— Sou apenas um homem, Sassenach — ele respondeu, baixando a voz para não acordar os outros dentro de casa. — Um homem que ainda se surpreende ao ver que o sol nasce da mesma forma, mesmo quando o mundo abaixo dele mudou tanto que mal o reconheço.

— Mas você está se adaptando — Claire comentou, encostando a cabeça no ombro dele. — Ontem vi você consertando a bomba d'água com Ian. Você não pareceu nem um pouco intimidado pelas engrenagens.

— Ferro é ferro, Claire. Seja em uma espada ou em uma máquina, ele obedece às mesmas leis. Mas as leis dos homens... essas parecem ter ficado mais complicadas.

Eles foram interrompidos pelo som de passos pesados. Ian Murray saiu para a varanda, ajustando sua prótese moderna sob a calça. Ele parecia mais descansado do que Jamie jamais o vira no passado. Sem a ameaça constante de sentinelas inglesas ou a pressão de impostos impagáveis, Ian florescera em uma calma produtiva.

— Bom dia, Jamie. Claire — saudou Ian. — Jenny já está na cozinha travando uma guerra contra a torradeira. Ela insiste que o pão fica melhor se for tostado no fogo, mas o pequeno Jamie quer porque quer usar a máquina.

— Jenny é uma força da natureza, Ian — riu Claire. — A tecnologia de 1961 não tem chance contra ela.

— Falando em tecnologia e complicações — Jamie disse, mudando o tom de voz —, Brianna e Roger devem chegar de Londres hoje. O telegrama dizia que eles tinham as provas finais contra aquele Randall-Forester.

— Roger tem sido uma ajuda inestimável — observou Ian. — Um MacKenzie que usa livros como armas. Quem diria que o clã de Colum produziria alguém tão útil em um tribunal?

— Ele tem o fogo dos MacKenzie, Ian — Jamie admitiu, embora ainda com uma pontada de ciúme paterno. — Só que o fogo dele queima em bibliotecas, não em campos de batalha.

O café da manhã foi uma confusão alegre. Jenny, apesar de suas reclamações sobre a torradeira, servia ovos e bacon com a eficiência de quem alimentara gerações em Lallybroch. O jovem Ian e o pequeno Jamie discutiam sobre o que aprenderiam na escola naquele dia, enquanto o pequeno Jamie tentava explicar ao pai o que era um "foguete espacial".

— É uma carruagem que voa até a lua, pai! — exclamou o menino, os olhos arregalados. — Sem cavalos! Só com fogo!

— Se houver fogo o suficiente, qualquer coisa voa, rapaz — respondeu Ian com um sorriso irônico. — Mas eu prefiro manter meus pés no chão de Gorthleck por enquanto.

O som de um motor se aproximando silenciou a mesa. O carro vermelho de Roger parou diante da casa, e Brianna saltou antes mesmo que o motor morresse. Ela corria em direção à porta, segurando uma pasta de couro preta como se fosse um tesouro sagrado.

— Nós conseguimos! — gritou ela, entrando na cozinha. — Papai, mamãe, está resolvido!

Roger entrou logo atrás, parecendo exausto, mas com um sorriso triunfante. Ele carregava um maço de documentos oficiais.

— O juiz em Londres assinou a ordem de restrição definitiva — explicou Roger, recuperando o fôlego. — Os documentos que Jamie guardou na caverna foram aceitos como prova histórica irrefutável. Randall-Forester não pode mais contestar a propriedade. Gorthleck e as terras ao redor são legalmente dos Fraser e dos Murray por direito de sucessão ininterrupta.

Um silêncio solene caiu sobre a sala. Jamie levantou-se lentamente, caminhando até a mesa onde Roger colocara os papéis. Ele passou os dedos calejados sobre o selo oficial de 1961, que agora validava um testamento escrito com tinta de galha em 1745.

— Então acabou — murmurou Jamie. — A perseguição dos Randall... finalmente terminou.

— Terminou, Jamie — disse Claire, aproximando-se e colocando a mão sobre a dele. — Desta vez, a justiça não precisou de sangue para ser feita.

— Graças a Deus — sussurrou Jenny, benzendo-se. — Finalmente poderemos plantar sem medo de que alguém venha colher o que não semeou.

Para comemorar a vitória, Jamie decidiu que o dia seria dedicado a marcar os limites da propriedade, não com cercas de arame, mas com a tradição. Ele chamou Ian e os meninos, e juntos subiram até o ponto mais alto de Gorthleck.

Enquanto caminhavam, o jovem Ian observava o tio.

— Tio Jamie, agora que a terra é nossa de verdade... o que vamos fazer?

Jamie parou no topo de uma crista, olhando para a extensão verde abaixo.

— Vamos fazer o que os Fraser sempre fizeram, Ian. Vamos cuidar dela. Vamos criar ovelhas, plantar cevada e garantir que este lugar seja um refúgio. O mundo lá fora pode estar correndo em direção à lua, mas aqui... aqui o tempo vai correr no ritmo das estações.

— E as pedras? — perguntou o pequeno Jamie, apontando para o círculo distante de Craigh na Dun. — Elas ainda estão zumbindo?

Jamie sentiu um arrepio. Ele sabia que o portal ainda estava lá, uma ferida aberta no tecido do tempo.

— Elas sempre zumbirão, pequeno. Mas elas nos trouxeram para onde deveríamos estar. Não olhe para trás, rapaz. O passado é um mestre severo, mas o futuro... o futuro é uma página em branco.

Ao voltarem para casa, encontraram Claire e Brianna no jardim. Elas haviam plantado algumas mudas de ervas medicinais que Claire trouxera de Inverness — sálvia, alecrim e lavanda. O cheiro era familiar, um elo entre os séculos.

— Jamie — chamou Claire —, Roger está nos convidando para ir à cidade amanhã. Há um festival de música folclórica. Ele diz que gostaria que você ouvisse algumas das canções que ele resgatou.

— Canções, é? — Jamie sorriu. — Desde que ele não me peça para dançar aquelas coisas estranhas que vi na televisão, eu irei.

Naquela noite, após o jantar, a família se reuniu ao redor da lareira. Roger pegou seu violão e começou a tocar uma melodia suave. Era uma canção de ninar antiga das Highlands, uma que Jamie reconheceu imediatamente.

— Minha mãe cantava essa — disse Jamie, fechando os olhos. — Mas as palavras eram diferentes.

— O tempo muda a letra, Sr. Fraser — disse Roger suavemente —, mas a alma da música permanece a mesma.

Enquanto Roger cantava, Jamie olhou para cada rosto na sala. Viu Ian e Jenny de mãos dadas, finalmente em paz. Viu os sobrinhos, jovens com um mundo de possibilidades diante deles, livres das correntes do feudalismo e da guerra. Viu Brianna, sua filha, uma mulher que pertencia a dois mundos e que encontrara o amor em um homem que respeitava o passado.

E viu Claire.

Sua Sassenach. A mulher que o encontrara em uma floresta em 1743 e que o guiara através das sombras da história até aquele momento.

— Claire — sussurrou ele, aproximando-se dela enquanto a música de Roger preenchia a sala.

— Sim, Jamie?

— Eu estava pensando... se eu tivesse morrido em Culloden, como a história dizia que eu deveria... eu nunca teria visto isso. Nunca teria conhecido minha filha. Nunca teria visto Jenny e Ian em segurança.

Claire segurou a mão dele com força.

— Mas você não morreu, Jamie. Você lutou contra o tempo, contra o destino e contra a própria morte para nos manter juntos.

— Não fui eu quem lutou, Sassenach. Foi o amor. O amor é a única coisa que atravessa as pedras sem se quebrar.

Jamie levantou-se e caminhou até a janela. Lá fora, as luzes de Inverness brilhavam ao longe, como estrelas caídas na terra. O século XX era barulhento, estranho e às vezes assustador, mas era o tempo deles.

— Sabe o que eu mais gosto neste tempo, Claire? — perguntou ele, olhando para o reflexo dela no vidro.

— O quê?

— O fato de que, amanhã, eu sei que você estará aqui quando eu acordar. E depois de amanhã também. Pela primeira vez em vinte anos, eu não tenho medo do amanhã.

Claire abraçou-o por trás, sentindo o calor do corpo dele.

— Eu também, Jamie. Eu também.

A música de Roger terminou com uma nota longa e vibrante. O silêncio que se seguiu não era o silêncio do vazio, mas o silêncio da plenitude. No coração das Highlands, em 1961, os Fraser de Lallybroch haviam finalmente encontrado o seu lugar. O círculo de pedras continuava lá, guardando seus segredos, mas para Jamie e sua família, a maior viagem já havia sido concluída. Eles haviam atravessado o tempo para descobrir que o lar não era um lugar no mapa, nem um ponto na história.

O lar era o abraço de quem se ama, o riso de uma criança e a certeza de que, não importa o século, o sangue Fraser sempre encontraria o caminho de volta para a luz.

Jamie olhou para o céu noturno e fez uma promessa silenciosa aos seus ancestrais. Ele cuidaria daquela terra. Ele honraria o nome deles. E ele viveria cada dia daquele futuro desconhecido com a mesma coragem com que enfrentara o passado.

— Vamos dormir, Sassenach — disse ele, voltando-se para Claire com um brilho travesso nos olhos. — Amanhã você tem que me ensinar a usar aquele rádio de novo. Eu ainda não entendi como o homem pequeno entra dentro da caixa para falar com a gente.

Claire riu, um som que Jamie achava mais belo que qualquer canção de Roger.

— É eletrônica, Jamie. Não há homens pequenos lá dentro.

— Se você diz, eu acredito — ele respondeu, apagando a luz da sala com um interruptor que ele ainda achava um tanto milagroso. — Mas que é feitiçaria, ah, isso é.

Enquanto subiam as escadas, a casa mergulhou no repouso. O amanhã viria com seus desafios modernos e suas maravilhas tecnológicas, mas para o Laird de Lallybroch, nada era mais importante do que o calor da mão de sua esposa na sua, guiando-o, como sempre, através da escuridão para um novo dia.