James Fraser no futuro
O Labirinto de Vidro e o Som do Amanhã
A manhã em Inverness começou com um som que Jamie Fraser ainda não conseguia classificar como natural: o toque estridente do telefone na parede da cozinha. Ele saltou da cadeira, a mão buscando instintivamente o punhal que não carregava mais na cintura, enquanto Jenny derrubava uma colher de prata no chão.
— Pelos dentes do diabo! — exclamou Jenny, benzendo-se. — Claire, essa caixa está gritando de novo! Vai acordar os mortos até em Culloden!
Claire entrou na cozinha apressada, secando as mãos em um pano de prato. Ela lançou um olhar tranquilizador a Jamie, que ainda estava em posição de guarda, e atendeu o aparelho.
— Residência Randall... quer dizer, Fraser — corrigiu-se Claire, com um sorriso rápido para Jamie. — Sim, Joe? Oh, entendo. Estarei aí em vinte minutos.
Ela desligou e virou-se para a família, que a observava como se ela tivesse acabado de realizar um exorcismo.
— Preciso ir ao hospital. Uma emergência com um paciente. Brianna, você prometeu levar seu pai e o tio Ian para resolver as questões das ferramentas, lembra-se?
Brianna, que terminava de tomar seu café enquanto lia um jornal — outra coisa que fascinava Jamie pela rapidez com que as notícias viajavam —, assentiu com entusiasmo.
— Claro, mãe. Vamos fazer um "tour" tecnológico. Papai, você está pronto para ver onde os homens do século vinte compram suas espadas?
Jamie relaxou os ombros, embora a menção a "espadas" tenha feito seus olhos brilharem.
— Se as espadas deste tempo forem tão barulhentas quanto as vossas caixas de pão, receio que ficarei surdo antes do pôr do sol, moça.
Uma hora depois, Jamie e Ian estavam sentados no banco de trás do carro de Brianna. Jenny insistira em ficar para "limpar a casa de verdade", o que significava que ela provavelmente passaria o dia tentando entender como o aspirador de pó funcionava sem um cavalo para puxá-lo.
À medida que entravam no centro de Inverness, Jamie sentia-se sufocado. Onde antes havia ruas de terra e o cheiro de esterco e fumaça de turfa, agora havia labirintos de asfalto, prédios de vidro que refletiam o sol de forma ofuscante e centenas de pessoas caminhando com pressa, vestidas com cores vibrantes e tecidos sintéticos.
— É muita gente, Brianna — comentou Ian, a voz baixa, observando a multidão. — Para onde estão todos indo? Há uma guerra começando?
— Não, tio Ian — riu Brianna, manobrando o volante com uma perícia que Jamie ainda achava desconcertante para uma mulher. — Estão apenas indo trabalhar. O tempo aqui corre mais rápido, eu acho. As pessoas sentem que estão sempre atrasadas.
— Atrasadas para quê? — Jamie franziu a testa. — Para a morte? O homem não deveria correr tanto se não estiver sendo caçado.
Eles estacionaram diante de uma enorme loja de ferragens e suprimentos industriais. Ao entrar, Jamie parou na soleira. O cheiro de óleo, aço e serragem era familiar, mas a escala era avassaladora. Corredores infinitos de prateleiras carregavam objetos que ele não conseguia identificar.
— Olhe isso, Jamie — disse Ian, apontando para uma fileira de motosserras. — Parecem dentes de ferro presos em uma corrente.
Um vendedor jovem, usando um avental azul, aproximou-se deles. Ele olhou para Jamie e Ian — que, apesar das roupas modernas de Frank, ainda carregavam a postura imponente e o olhar selvagem de guerreiros das Highlands — com uma mistura de curiosidade e cautela.
— Posso ajudar os senhores? Procuram algo específico?
Jamie deu um passo à frente, sua voz profunda comandando o espaço como se estivesse no salão principal de uma propriedade.
— Procuro aço, rapaz. Aço que possa ser moldado pelo fogo e que não quebre sob o peso de uma viga de carvalho. E procuro ferramentas que não precisem de... — ele hesitou — desses "raios capturados" que vocês chamam de eletricidade, se possível.
O vendedor piscou, confuso. Brianna interveio rapidamente, colocando a mão no braço do pai.
— Meu pai é um restaurador de tradições, Harry. Ele está reconstruindo uma propriedade antiga e quer usar métodos manuais, mas também precisamos de alguns equipamentos elétricos de ponta para a fundação.
— Ah, entendo! — O vendedor relaxou. — Estilo rústico. Temos as melhores talhas e marretas de forja aqui no corredor quatro.
Enquanto Ian se perdia examinando polias e cabos de aço, Jamie caminhou sozinho por um corredor de ferramentas manuais. Ele pegou um formão de carpinteiro. O cabo era de plástico, algo que ele achava repulsivo ao toque, mas a lâmina... a lâmina era de um aço tão puro e afiado que ele sentiu um arrepio.
— O mundo mudou, Jamie Fraser — sussurrou para si mesmo —, mas o corte do metal ainda é o mesmo.
De repente, ele sentiu que estava sendo observado. Virou-se e viu um homem idoso, sentado em um banco de descanso da loja, observando-o com olhos astutos. O homem usava uma boina de lã e tinha as mãos apoiadas em uma bengala de madeira de lei.
— Você tem o jeito de quem sabe usar isso — disse o idoso em um gaélico impecável, embora com um sotaque que Jamie reconheceu como sendo das ilhas.
Jamie sentiu um choque de prazer ao ouvir sua língua materna ser falada por um estranho naquele lugar estéril.
— — Sei — respondeu Jamie, também em gaélico. — O metal e eu temos um entendimento de longa data.
O velho sorriu, revelando poucos dentes.
— Você fala como os homens das canções, rapaz. De onde você vem? Não vejo um olhar como o seu desde que meu avô me contava histórias sobre os homens que lutaram antes das estradas serem feitas de pedra preta.
— Venho de um lugar onde o tempo não era medido por relógios de pulso — disse Jamie, enigmático.
— Pois aproveite este tempo — o velho tossiu. — Ele é mais suave que o antigo, mas tem dentes escondidos. A paz torna os homens fracos, mas o conforto os torna cegos. Não perca sua visão.
Jamie assentiu solenemente, sentindo uma conexão momentânea com aquele estranho que parecia ser o último vestígio de seu mundo ali.
— Papai? — Brianna chamou, aproximando-se com Ian, que carregava uma caixa cheia de parafusos e porcas com uma expressão de triunfo. — Encontramos o que precisávamos para a forja. Vamos?
Eles voltaram para o carro, mas antes de partirem, Jamie pediu que Brianna parasse em uma livraria. Claire lhe dissera que ele precisava entender a história do mundo que agora habitava.
Enquanto Brianna e Ian esperavam no carro, Jamie entrou na loja silenciosa. O cheiro de papel e tinta o acalmou. Ele caminhou até a seção de "História da Escócia". Seus dedos tremeram ao passar pelas lombadas dos livros. Ele puxou um volume grosso intitulado *A Ascensão e Queda dos Clãs*.
Ele abriu o livro ao acaso e sentiu o sangue congelar. Lá, em uma ilustração de uma gravura antiga, estava o rosto de Jack Randall. O texto abaixo falava sobre a tirania dos oficiais ingleses nas Highlands. Jamie fechou o livro com força, o som ecoando como um tiro.
— Senhor? Está tudo bem? — perguntou a balconista, uma jovem de óculos.
— Sim — disse Jamie, a voz rouca. — Eu apenas... reconheci um fantasma.
Ele comprou o livro, além de um mapa detalhado da Escócia moderna e um dicionário de termos técnicos. Ao sair, ele olhou para o céu. Um avião a jato deixava um rastro branco sobre Inverness.
— Você está bem, Jamie? — perguntou Ian quando ele entrou no carro. — Você parece ter visto o Kelpie.
— Vi algo pior, Ian. Vi que o passado é uma lição que este mundo guarda em prateleiras, mas não sente mais na pele.
De volta a Lallybroch — ou à promessa dela —, a tarde foi dedicada a descarregar o material. Jenny saiu de casa, segurando um espanador como se fosse um cetro.
— Claire ligou — anunciou ela. — Disse que vai trazer algo chamado "comida chinesa" para o jantar. Ela disse que não precisamos cozinhar.
— Não cozinhar? — Ian riu. — Jamie, este mundo é um paraíso para preguiçosos ou um inferno para os estômagos.
— Veremos — disse Jamie, já começando a organizar as ferramentas no galpão que seria sua forja provisória.
Enquanto o sol se punha, Jamie e Brianna sentaram-se nos degraus da entrada. Ela lhe ensinava a usar um rádio de pilha. Após alguns chiados, uma melodia suave começou a tocar. Era uma canção popular, algo que Jamie nunca ouvira, mas o ritmo era melancólico e belo.
— Chama-se "Yesterday", papai — disse Brianna suavemente. — É sobre como as coisas mudam de repente.
Jamie ouviu a letra, embora não entendesse todas as palavras. Ele olhou para as próprias mãos, sujas de graxa e poeira de 1961.
— Brianna — começou ele —, você disse que sua mãe lhe contou tudo sobre mim. Ela lhe contou sobre a caverna? Sobre os sete anos em que vivi como um animal porque não tinha mais um mundo ao qual pertencer?
Brianna olhou para ele, os olhos cheios de uma compaixão que o desarmou.
— Ela contou. Ela disse que você era o homem mais corajoso que ela já conheceu, não por causa das batalhas, mas porque você continuou vivendo quando não tinha mais nada.
Jamie balançou a cabeça.
— Eu tinha a memória dela. Agora, eu tenho vocês. Mas às vezes... às vezes eu sinto que sou um impostor. Que este Jamie Fraser de calças de brim e sapatos de borracha não é o homem que deveria estar aqui.
— Você é o único homem que poderia estar aqui — afirmou Brianna. — Porque você é o único que atravessaria o tempo por nós. Não importa a roupa, papai. O fogo nos seus olhos é o mesmo que mamãe descreveu. E esse fogo não pertence a um século, ele pertence a nós.
Jamie sentiu uma lágrima solitária queimar seu rosto, mas a limpou antes que pudesse ser vista. Ele se levantou e estendeu a mão para a filha.
— Vamos entrar. Quero ver essa tal "comida chinesa". Se ela for tão estranha quanto o resto deste lugar, vou precisar de uma cerveja forte para acompanhar.
— Temos cerveja na geladeira! — Brianna riu, levantando-se. — Mas aviso logo, ela é bem gelada.
— Gelada? — Jamie fez uma careta. — Por que alguém iria querer beber algo que dói nos dentes?
O jantar foi uma celebração barulhenta. Claire chegou exausta, mas feliz, e todos se reuniram ao redor da mesa, comendo com pauzinhos de madeira — o que gerou uma série de insultos cômicos da parte de Jenny, que acabou desistindo e usando as mãos.
— Claire — disse Jamie, observando a esposa sob a luz quente das lâmpadas elétricas —, hoje eu vi um homem que falava nossa língua. Ele disse que este tempo é suave, mas tem dentes.
Claire parou com o copo de vinho a meio caminho da boca.
— Ele tem razão, Jamie. O século vinte pode ser cruel de formas que você ainda não imagina. Não há espadas, mas há solidão, há máquinas que substituem o coração e há uma pressa que consome a alma.
— Mas temos uns aos outros — interveio Ian, levantando seu copo. — Sobrevivemos a Culloden, à fome e a duzentos anos de separação. Se o século vinte quiser nos morder, vai descobrir que os Fraser têm a pele dura.
— Aos Fraser! — exclamou o jovem Jamie, erguendo sua lata de refrigerante.
— Aos Fraser — repetiu Jamie, olhando para Claire.
Naquela noite, Jamie não conseguiu dormir imediatamente. Ele saiu para o jardim, caminhando até o limite da propriedade onde o asfalto encontrava a terra. Ele olhou para as luzes distantes de Inverness. O mundo de 1961 era um labirinto de vidro e metal, um lugar onde ele era um anacronismo vivo.
Mas então ele ouviu o som do vento passando pelas árvores. Era o mesmo vento que soprava em 1743. O cheiro da terra úmida era o mesmo. E, no andar de cima, sua filha e seus sobrinhos dormiam em segurança, longe das forcas e dos mosquetes.
Ele cravou os calcanhares no solo e respirou fundo.
— Que venham os teus dentes, século vinte — sussurrou Jamie Fraser para a escuridão. — Eu ainda sou o Laird deste pedaço de terra.
Ele voltou para dentro, trancando a porta com uma fechadura moderna que ele já aprendera a manusear. Enquanto subia as escadas, ele percebeu que a verdadeira viagem no tempo não era atravessar as pedras, mas aprender a amar o novo mundo sem esquecer quem se era no antigo. E, com Claire esperando por ele sob os lençóis de algodão, Jamie sabia que qualquer tempo era o tempo certo.