James Fraser no futuro
O Despertar da Forja e as Sombras do Passado
O som do martelo batendo contra o metal em brasa ecoava pelo vale, um ritmo constante e ancestral que parecia ancorar Jamie Fraser ao presente. Naquela manhã de 1961, o ar estava fresco, e o cheiro de carvão e ferro aquecido preenchia o galpão que ele e Ian haviam transformado em uma forja funcional. Jamie limpou o suor da testa com o antebraço, observando a cor do aço. Não era exatamente o carvão de turfa a que estava acostumado, mas o calor era honesto.
— Você ainda tem o braço forte, Jamie — comentou Ian, sentado em um banco de madeira próximo, polindo uma peça de engrenagem que Brianna trouxera de um ferro-velho. — O tempo pode ter saltado, mas o seu ritmo não mudou.
— O ferro não sabe em que século está, Ian — respondeu Jamie, mergulhando a peça incandescente em um balde de água. O chiado do vapor subiu, envolvendo-o em uma névoa branca. — Ele apenas obedece ao fogo e à vontade do homem.
Ele colocou a ferramenta de lado e olhou para as próprias mãos, calejadas e agora manchadas com a fuligem moderna.
— Às vezes — continuou Jamie, a voz mais baixa — eu sinto que se eu parar de bater, o mundo ao meu redor vai se dissolver. Como se o barulho do martelo fosse a única coisa que me impede de ser levado pelo vento de volta para as pedras.
Ian suspirou, ajustando a prótese de perna que agora era presa por tiras de um material sintético muito mais confortável que o couro antigo.
— Eu sei o que quer dizer. Ontem, Jenny passou meia hora gritando com aquela caixa de lavar roupas porque ela começou a pular sozinha. Ela diz que o futuro é preguiçoso, mas eu vejo o medo nos olhos dela, Jamie. O medo de que não sejamos mais necessários.
A conversa foi interrompida pelo som de um motor se aproximando. Era o jipe azul de Brianna, que subia a trilha de terra com uma confiança que sempre fazia Jamie prender a respiração por um segundo. Claire estava no banco do carona, o cabelo castanho-claro preso em um lenço que balançava ao vento.
— Homens de Lallybroch! — gritou Brianna, saltando do veículo antes mesmo que ele parasse totalmente. — Trouxemos suprimentos. E por suprimentos, quero dizer hambúrgueres e notícias.
Claire desceu mais devagar, sorrindo ao ver o marido coberto de fuligem. Ela caminhou até ele, ignorando a sujeira, e depositou um beijo rápido em seus lábios.
— Você cheira a 1743, Jamie — disse ela, os olhos brilhando de afeição.
— E você cheira a hospital e a esse sabonete de flores que custa uma fortuna — ele brincou, envolvendo a cintura dela com um braço. — O que trazem além de carne entre pães redondos?
O rosto de Claire ficou subitamente sério. Ela olhou para Brianna, que retirava algumas pastas do banco de trás.
— Jamie, estivemos na biblioteca da universidade e no cartório de registros de Inverness — começou Claire. — Brianna encontrou algo que precisamos discutir. Sobre as terras e sobre o que aconteceu depois que partimos.
Eles se reuniram ao redor da mesa de trabalho de Jamie, entre ferramentas e pedaços de ferro. Brianna abriu um mapa antigo, amarelado, e o sobrepôs a um mapa moderno da região.
— Papai, você disse que a história mudou porque vocês impediram o dinheiro de chegar ao Príncipe Charles — começou Brianna, apontando para uma área marcada em vermelho. — E você tem razão. Não houve a carnificina de Culloden como eu estudei originalmente. Mas a repressão inglesa aconteceu de outra forma. Eles não usaram apenas espadas; usaram leis.
Jamie inclinou-se sobre o mapa, as sobrancelhas ruivas franzidas.
— Leis de confisco — murmurou ele. — Eu conheço o sabor delas.
— Sim — continuou Brianna. — Mas veja isto. Há um registro de 1780. Lallybroch não foi destruída, mas foi vendida para pagar dívidas de impostos criadas artificialmente pela coroa. E o comprador... o nome no registro é um descendente direto dos Randall.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Jamie sentiu uma onda de frio percorrer sua espinha. O nome Randall era uma cicatriz que nunca parava de latejar.
— Eles estão em todo lugar — disse Ian, a voz carregada de amargura. — Como erva-daninha que não morre.
— Mas há algo mais — disse Claire, tocando o braço de Jamie. — O atual proprietário das terras adjacentes à nossa, aquelas que queremos comprar para expandir a fazenda... ele é um advogado de Londres. O nome dele é Jonathan Randall-Forester.
Jamie levantou a cabeça, o olhar endurecendo.
— Ele está aqui? Neste tempo?
— Ele tem uma casa de veraneio a poucos quilômetros daqui — explicou Brianna. — E, pelo que soube na cidade, ele está tentando embargar a nossa restauração. Ele alega que esta casa é um patrimônio histórico e que não temos o direito de habitá-la ou alterá-la.
— Ele quer nos expulsar de nossa própria casa novamente — rosnou Jamie. — Só que desta vez ele usa papéis em vez de mosquetes.
— Jamie, precisamos ter cuidado — alertou Claire. — No século vinte, você não pode simplesmente resolver isso com um duelo ao amanhecer. Se você o atacar, você vai para a cadeia, e eu não poderei te tirar de lá tão facilmente quanto em Wentworth.
— Eu sei, Sassenach — disse Jamie, embora sua mão estivesse fechada em um punho tão apertado que os nós dos dedos estavam brancos. — Mas se esse homem tem o sangue de Jack Randall, ele não vai parar até nos ver de joelhos.
— Então não ficaremos de joelhos — declarou Brianna, com uma determinação que fez Jamie sentir um orgulho imenso. — Eu sou uma estudante de história e direito. Se ele quer uma guerra de papéis, ele vai ter uma. Mas papai... você vai precisar se encontrar com ele. Há uma reunião da associação de preservação histórica amanhã em Inverness. Ele estará lá.
— Eu irei — disse Jamie. — Mas não irei como um camponês pedindo clemência. Irei como o Laird de Lallybroch.
Naquela noite, a casa estava agitada. Jenny, ao saber da notícia, passou horas polindo os botões de latão de um casaco que Brianna comprara para Jamie — um blazer de veludo escuro que, embora moderno, tinha um corte que lembrava a nobreza escocesa.
— Se você vai enfrentar um Randall, James Fraser, faça-o parecer o rei que ele nunca será — disse Jenny, entregando o casaco ao irmão.
Jamie vestiu a peça. No espelho do corredor, ele viu um homem que era uma ponte entre dois mundos. O cabelo ruivo, agora com fios de prata, estava preso em um rabo de cavalo elegante. As calças de sarja e as botas de couro engraxadas davam-lhe uma aparência de autoridade que transcendia os séculos.
— Você está magnífico — sussurrou Claire, aparecendo atrás dele. Ela usava um vestido verde-escuro que realçava seus olhos. — Está pronto para enfrentar o futuro?
— Estou pronto para proteger o que é meu, Claire. Em qualquer tempo.
A reunião aconteceu em um prédio antigo em Inverness, com tetos altos e painéis de madeira que rangiam. Jamie sentia-se deslocado entre os homens de terno cinza e mulheres com colares de pérolas, mas manteve a cabeça erguida. Brianna caminhava ao seu lado, carregando uma pasta cheia de documentos.
No centro da sala, um homem de cerca de quarenta anos conversava com um grupo de oficiais. Ele era magro, com feições afiadas e olhos frios, de um azul pálido que fez Jamie estacar. A semelhança física com o Capitão Jonathan "Black Jack" Randall era diluída pelo tempo, mas a essência — a arrogância na postura, o modo como ele olhava para os outros como se fossem insetos — era idêntica.
— Aquele é ele — sussurrou Brianna. — Jonathan Randall-Forester.
Jamie respirou fundo, controlando o instinto de avançar. Ele caminhou lentamente em direção ao homem. Quando Randall-Forester se virou e viu Jamie, ele franziu a testa, uma sombra de confusão cruzando seu rosto, como se uma memória genética estivesse tentando emergir.
— Sr. Randall-Forester? — disse Brianna, sua voz firme ecoando na sala. — Sou Brianna Fraser. E este é meu pai, James Fraser, o proprietário de Gorthleck.
O homem sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.
— Ah, os novos ocupantes da ruína. Eu estava esperando por vocês. Devo dizer que sua petição para a reforma da propriedade é... ambiciosa. Mas, infelizmente, totalmente ilegal sob os novos códigos de preservação.
Jamie deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele era muito mais alto e largo que o advogado, e sua presença parecia drenar o ar da sala.
— O senhor fala de leis e códigos, Sr. Randall — disse Jamie, sua voz profunda e calma, mas carregada de uma ameaça latente. — Mas eu falo de terra e sangue. Aquela casa pertence à minha família há gerações. Eu não a estou reformando para o senhor olhar; estou reconstruindo-a para que ela viva.
Randall-Forester soltou uma risada curta e seca.
— "Sua família"? Sr. Fraser, os registros mostram que aquela terra foi abandonada e revertida para o estado há décadas. O fato de o senhor ter o mesmo sobrenome de antigos rebeldes não lhe dá direitos ancestrais no século vinte. Eu pretendo transformar aquela área em um parque de preservação nacional. Sem... habitações rústicas.
— Rebels? — Jamie inclinou a cabeça, os olhos brilhando perigosamente. — É interessante que use essa palavra. O senhor parece ter um grande interesse na história das Highlands para alguém que vive em Londres.
— Eu valorizo o passado, Sr. Fraser. Especialmente quando ele serve para limpar o presente de elementos... desordenados.
Jamie sentiu o cheiro do medo emanando do homem, apesar de sua arrogância. Randall-Forester não sabia por que, mas estava apavorado com o homem à sua frente.
— Ouça bem — disse Jamie, baixando a voz para que apenas o advogado ouvisse. — Eu já vi homens como o senhor caírem. Homens que achavam que podiam possuir a alma da Escócia com um pedaço de papel ou uma lâmina de aço. O senhor carrega um nome que fede a traição e dor nestas colinas. Não tente repetir a história de seus antepassados, pois desta vez, eu não estou sozinho.
Jamie virou as costas antes que o homem pudesse responder e saiu da sala, seguido por uma Brianna boquiaberta. Claire os esperava do lado fora, no ar frio da noite.
— Como foi? — perguntou ela, lendo a tensão nos ombros de Jamie.
— Ele é um Randall — respondeu Jamie, respirando o ar puro. — Ele usa palavras em vez de chicotes, mas o coração é o mesmo. Ele quer a terra, Claire. Ele quer apagar o que sobrou de nós.
— Ele não vai conseguir — disse Brianna, abrindo a pasta. — Durante a reunião, eu consegui falar com o arquivista-chefe. Papai, há uma brecha. Se conseguirmos provar que a linhagem de Lallybroch nunca foi legalmente extinta no século dezoito — se houver um testamento ou um registro de sucessão que nunca foi processado — o confisco original pode ser anulado.
— Mas como encontraríamos isso agora? — perguntou Ian, que esperava junto ao carro. — Passaram-se duzentos anos!
Jamie olhou para Claire. Um entendimento silencioso passou entre eles.
— As pedras — sussurrou Jamie. — Não para atravessar, mas para o que elas guardam.
— O que quer dizer? — perguntou Brianna.
— Quando eu estava na caverna, escondido — começou Jamie —, eu guardei os documentos de Lallybroch em uma caixa de metal, selada com cera. Eu a escondi sob uma pedra específica na base de Craigh na Dun. Eu esperava que, se eu morresse, Ian ou Jenny a encontrassem.
— Mas eles nunca a encontraram — disse Jenny, aproximando-se. — Nós achamos que os soldados tinham levado tudo quando revistaram a casa.
— Se ninguém a encontrou — disse Claire, o coração acelerado —, ela ainda pode estar lá. Enterrada sob duzentos anos de terra e raízes.
— É a nossa única chance — disse Brianna. — Se encontrarmos esses papéis, podemos provar que a venda para os Randall em 1780 foi ilegal. Podemos derrubar o caso dele no tribunal amanhã.
Eles não esperaram pelo amanhecer. O jipe de Brianna cortou a escuridão em direção à colina de Craigh na Dun. O caminho que antes Jamie percorria a cavalo ou a pé, agora era vencido em minutos pela máquina. No entanto, ao chegarem à base da colina, o sentimento de reverência era o mesmo.
As pedras se erguiam contra o céu estrelado, sentinelas silenciosas de um tempo que Jamie conhecia intimamente. Ele pegou uma pá e uma lanterna elétrica, mas seus pés o guiaram pelo instinto.
— É aqui — disse ele, parando diante de uma formação rochosa que parecia um joelho dobrado. — Eu me lembro do ângulo da luz da lua naquela noite.
Jamie começou a cavar. O som da pá atingindo a terra úmida era o único ruído além do vento. Claire, Brianna, Ian e Jenny observavam em silêncio, uma família unida através dos séculos, esperando por um milagre enterrado.
Após quase uma hora, a pá atingiu algo sólido e metálico. Jamie ajoelhou-se e começou a remover a terra com as mãos. Ele puxou uma caixa pequena, corroída pela ferrugem, mas ainda selada.
Com um esforço, ele quebrou o selo de cera. Dentro, envoltos em couro curtido, estavam os papéis. Jamie os desdobrou com cuidado extremo sob a luz da lanterna de Brianna.
— É o testamento de meu pai, Brian Fraser — disse Jamie, a voz trêmula. — E a escritura de sucessão assinada por mim e por Ian antes de Culloden. Há um selo real aqui, Claire.
— Isso muda tudo — disse Brianna, examinando o documento com olhos de historiadora. — Isso prova que a propriedade não estava "vaga". Ela pertencia a herdeiros legais que nunca foram notificados.
Na manhã seguinte, o tribunal de Inverness testemunhou algo sem precedentes. Jonathan Randall-Forester estava confiante, cercado por seus assistentes, até que Brianna e um advogado local entraram com os documentos originais de 1745.
A expressão de Randall-Forester quando viu os papéis — e o modo como Jamie Fraser o observava do fundo da sala — foi de um colapso lento e silencioso. A autoridade dele, baseada em tecnicalidades e mentiras históricas, dissolveu-se diante da verdade física do passado.
O juiz, um homem idoso que apreciava a história local, olhou para Jamie por cima dos óculos.
— Estes documentos são extraordinários, Sr. Fraser. É quase como se tivessem sido guardados em uma cápsula do tempo apenas para este momento. A corte reconhece a validade da sucessão. O embargo está levantado, e a propriedade de Gorthleck, assim como as terras adjacentes de Lallybroch, retornam ao nome Fraser.
Ao saírem do tribunal, o sol brilhava intensamente sobre a cidade. Randall-Forester passou por eles, pálido e apressado, sem ousar olhar para trás.
Jamie parou no topo da escadaria, respirando o ar da vitória.
— Acabou, Jamie — disse Claire, segurando sua mão. — Você venceu a batalha dele neste século.
— Não — disse Jamie, olhando para a família reunida ao seu redor. — Nós vencemos.
Eles voltaram para a fazenda. Naquela tarde, Jamie não voltou para a forja. Em vez disso, ele levou Claire para o campo de urze que agora era legalmente deles.
— Sassenach — disse ele, sentando-se na grama e puxando-a para o seu colo. — Eu passei muito tempo fugindo, ou lutando, ou esperando. Naquele tempo e neste. Mas hoje, pela primeira vez, eu sinto que o chão sob meus pés não vai se mover.
— Você é o Laird de novo, Jamie — sorriu Claire. — O Laird de 1961.
— Um Laird sem exército e sem castelo — ele brincou, beijando-a. — Mas com uma mulher que atravessa o tempo e uma filha que luta como uma leoa. Acho que sou o homem mais rico que já viveu na Escócia.
Lá embaixo, na casa, Jenny gritava com o jovem Ian para que ele tirasse as botas sujas antes de entrar na cozinha "do futuro", enquanto Brianna tentava ensinar o pequeno Ian a usar um rádio de pilha.
O som do riso e da vida preenchia o ar. O passado e o presente haviam finalmente se fundido em um único caminho. Jamie Fraser fechou os olhos, sentindo o calor do sol e o peso reconfortante de Claire em seus braços. A jornada através das pedras fora longa e dolorosa, mas ali, no coração das Highlands modernas, ele finalmente encontrara o que o tempo nunca pôde destruir: um lar.