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O Efeito colateral da Proximidade
A Pearson Hardman era um organismo vivo, movido a café, adrenalina e segredos. Mike Ross, com sua mente capaz de processar informações mais rápido do que qualquer computador da IBM, estava começando a notar padrões que iam além das jurisprudências e dos contratos de fusão. Ele havia notado que, após a intervenção de Clara na semana anterior, Harvey Specter estava... diferente. Menos propenso a arremessar grampeadores e mais propenso a olhar para o relógio por volta das seis da tarde.
Curioso por natureza e grato pela salvação de sua pele, Mike começou a frequentar a sala de pesquisa com mais regularidade. Não era apenas por causa da eficiência de Clara, embora ela fosse, sem dúvida, a melhor pesquisadora que o escritório já vira. Havia algo nela que trazia uma leveza necessária àquele ambiente estéril de vidro e aço.
— Sabe, Clara — começou Mike, apoiando-se no batente da porta da sala dela, observando-a organizar uma montanha de documentos sobre um caso de propriedade intelectual —, eu nunca te agradeci formalmente por não deixar o Harvey me triturar.
Clara levantou os olhos, ajeitando os óculos. Aos vinte e cinco anos, ela possuía uma calma que Mike invejava. Enquanto ele corria como um filhote assustado tentando impressionar o dono, ela parecia mover-se em seu próprio ritmo, confortável em sua própria pele, apesar das pressões constantes da firma.
— Não foi nada, Mike. O Harvey só precisa de um lembrete ocasional de que ele não é o centro do universo. — Ela sorriu, um sorriso que iluminava seu rosto redondo e fazia suas bochechas corarem levemente. — Além disso, eu gosto de você. Você é o único associado que não me trata como uma enciclopédia com pernas.
— É difícil tratar você como uma enciclopédia quando você usa cardigãs que parecem abraços — brincou Mike, entrando na sala e pegando um dos post-its coloridos dela. — Onde você aprendeu a lidar com ele daquele jeito?
Clara deu de ombros, voltando a digitar.
— Paciência e uma total falta de medo de ser demitida. Quando você não tem medo do monstro, ele para de rosnar.
Mike riu, mas a observação ficou gravada em sua mente. Nos dias seguintes, ele se viu passando cada vez mais tempo com Clara. Eles almoçavam juntos na pequena copa dos associados, onde Mike descobriu que ela era apaixonada por filmes antigos e tinha um humor ácido que rivalizava com o de Donna. A diferença de idade entre eles era pequena — apenas alguns anos —, o que tornava a conversa fluida e natural.
Naturalmente, Mike começou a levar esse novo entusiasmo para o escritório principal.
— Harvey, você não vai acreditar na referência que a Clara achou para o caso McKernon — disse Mike, entrando na sala de Harvey com um brilho nos olhos. — Ela desenterrou uma decisão de 1974 que invalida o argumento principal deles. Ela é um gênio, sério.
Harvey, que estava revisando um contrato, nem sequer levantou a cabeça.
— É o trabalho dela, Mike. É para isso que eu a pago.
— Sim, mas a forma como ela pensa... é diferente. E ela é engraçada. Sabia que ela faz uma imitação perfeita do Louis quando ele está tentando ser intimidador? — Mike riu sozinho da lembrança.
Harvey parou a caneta no ar. Um pequeno vinco apareceu entre suas sobrancelhas.
— Você tem passado muito tempo na pesquisa, Ross. Não tem trabalho para fazer?
— Estou fazendo o trabalho com ela. É muito mais produtivo — respondeu Mike, sem perceber o terreno perigoso em que estava pisando.
Do lado de fora, Donna Paulsen observava a cena através do vidro. Ela viu o exato momento em que a mandíbula de Harvey se contraiu. Ela sabia que, para o mundo, Clara era apenas uma funcionária eficiente de vinte e cinco anos. Para Harvey, no entanto, ela era o segredo mais bem guardado e a posse mais territorialmente protegida de sua vida. Harvey tinha trinta e nove anos, uma carreira consolidada e uma reputação de predador, mas Clara, com sua juventude vibrante e curvas que o deixavam sem fôlego, era o seu calcanhar de Aquiles.
Dois dias depois, Mike atacou novamente.
— Eu e a Clara vamos pedir pizza hoje à noite para terminar o levantamento dos ativos da Folsom. Ela disse que conhece um lugar no Brooklyn que entrega aqui e que é a melhor pepperoni da cidade. Você quer, Harvey?
Harvey finalmente levantou os olhos, largando a pasta com uma força desnecessária.
— Não, eu não quero pizza, Mike. E por que você e a "Clara" estão planejando jantares de escritório?
— Não é um jantar, é só... comida. Ela é ótima companhia. É relaxante conversar com alguém que não está tentando me esfaquear pelas costas o tempo todo. — Mike sorriu, parecendo genuinamente feliz. — Ela tem aquela energia, sabe? É jovem, é inteligente...
— Eu sei quantos anos ela tem, Mike — rosnou Harvey, sua voz baixando uma oitava. — E sei que ela é inteligente. Agora saia da minha sala antes que eu encontre uma forma de fazer você trabalhar no arquivo morto pelo resto do mês.
Mike saiu, confuso com a súbita mudança de humor do mentor. Assim que a porta se fechou, Harvey se levantou e caminhou até a janela, bufando.
— Algum problema, Harvey? — A voz de Donna veio pelo interfone, carregada de ironia.
— Mike está sendo um idiota — respondeu ele, caminhando até a mesa dela.
— Mike está sendo um jovem de vinte e poucos anos passando tempo com uma mulher de vinte e poucos anos que é bonita, inteligente e simpática — corrigiu Donna, sem olhar para ele. — O que, exatamente, te incomoda nisso? O fato de eles terem assuntos em comum ou o fato de ela não estar aqui em cima com você?
— Ela é minha, Donna — ele disse, a voz baixa e possessiva, esquecendo-se por um segundo de manter as aparências.
— Ela não é um objeto, Harvey. E ela não sabe que você se sente assim. Para ela, vocês têm um "caso". E para o resto do escritório, ela é apenas a Clara da pesquisa. Se você não gosta da atenção que o Mike está dando a ela, talvez devesse deixar claro que a vaga de acompanhante oficial já está ocupada.
Harvey não respondeu. Ele simplesmente deu meia-volta e caminhou em direção ao elevador. Ele não foi para casa. Ele desceu três andares, até a área de apoio.
O andar estava silencioso, a maioria dos funcionários já havia ido embora. A luz da sala de Clara era uma das poucas ainda acesas. Harvey parou na porta, observando-a. Ela estava sentada no chão, cercada por caixas, com o cabelo preso em um coque desleixado e um pedaço de pizza na mão. Mike não estava lá; aparentemente, ele tinha ido buscar refrigerantes ou algo do tipo.
— Aquela pizza parece gordurosa e barata — disse Harvey, encostando-se no batente.
Clara deu um pulo, quase derrubando a comida.
— Pelo amor de Deus, Harvey! Quer me matar do coração?
— O que você está fazendo aqui a esta hora com o Mike? — Ele entrou na sala, fechando a porta atrás de si. O espaço parecia subitamente pequeno demais com a presença dele.
Clara revirou os olhos e deu uma mordida na pizza.
— Trabalhando. Algo que você costumava valorizar. O Mike é um querido, ele está me ajudando a organizar a cronologia do caso Miller.
— "Um querido"? — Harvey repetiu, a palavra soando como um insulto em sua boca. — Ele é um associado que deveria estar redigindo petições, não comendo pizza no chão com você.
Clara se levantou, limpando as mãos em um guardanapo. Ela caminhou até ele, notando a tensão nos ombros dele, o brilho de ciúmes mal disfarçado nos olhos escuros.
— Harvey Specter, você está com ciúmes do Mike Ross? — Ela perguntou, um sorriso travesso surgindo em seus lábios.
— Eu não sinto ciúmes — ele mentiu, a voz firme. — Eu apenas não gosto que meus associados percam tempo. E eu odeio que ele fique falando de você o dia todo.
Clara riu, uma risada clara e honesta que sempre desarmava Harvey. Ela colocou as mãos nas lapelas do terno dele, puxando-o para baixo até que seus rostos estivessem a poucos centímetros de distância.
— Ele fala de mim porque somos amigos. Ele tem a minha idade, Harvey. Temos coisas para conversar.
Harvey segurou a cintura dela com força, puxando-a contra seu corpo. A diferença de quatorze anos entre eles nunca pareceu tão vasta e, ao mesmo tempo, tão irrelevante quanto naquele momento. Ele sentia a maciez das curvas dela sob suas mãos, o calor que ela emanava.
— Eu não quero que você tenha "coisas para conversar" com ele — murmurou ele contra o pescoço dela. — Eu não quero que ele ache que pode ter sua atenção.
— Você é tão possessivo — sussurrou ela, fechando os olhos quando sentiu os lábios dele em sua pele. — E tão arrogante.
— E você adora isso.
— Adoro — confessou ela. — Mas você está sendo injusto com o Mike. Ele te admira. Ele só acha que eu sou uma pessoa legal.
— Você não é uma pessoa legal, Clara. Você é uma distração perigosa. E você é minha distração.
Antes que ela pudesse responder, a maçaneta da porta girou. Harvey soltou Clara instantaneamente, dando um passo para o lado e fingindo analisar um gráfico na parede no exato momento em que Mike entrou com duas latas de refrigerante.
— Voltei! Clara, você não vai acreditar, o cara da conveniência... — Mike parou abruptamente, olhando de Clara para Harvey. — Harvey? O que você está fazendo aqui embaixo?
Harvey virou-se, sua máscara de indiferença perfeitamente no lugar, embora seus olhos ainda estivessem nublados pelo desejo e pela irritação.
— Eu vim conferir o progresso do caso Miller — disse Harvey, a voz fria. — E parece que vocês estão mais focados em sódio e gordura trans do que em jurisprudência.
— Nós já terminamos a maior parte, Harvey — defendeu-se Mike, colocando os refrigerantes na mesa. — Clara é incrivelmente rápida.
— Ótimo. Então você pode levar esses documentos para a minha mesa agora. E Clara... — Harvey olhou para ela, um aviso silencioso brilhando em seu olhar. — Você terminou por hoje.
— Mas eu ainda ia ajudar o Mike com... — começou Clara.
— Eu disse que você terminou — interrompeu Harvey, o tom de comando não deixando espaço para discussões. — Vá para casa. Agora.
Mike olhou de um para o outro, sentindo uma eletricidade estranha no ar que ele não conseguia identificar.
— Tudo bem, eu levo os papéis, Harvey. Boa noite, Clara. A gente se fala amanhã?
— Com certeza, Mike — disse ela, lançando um olhar desafiador para Harvey.
Mike saiu apressado, sentindo que, se ficasse mais um segundo, poderia ser incinerado pelo olhar de seu mentor. Quando os passos do associado desapareceram no corredor, Harvey voltou sua atenção para Clara.
— Você gosta de me provocar, não gosta? — Perguntou ele, aproximando-se novamente.
— Eu gosto de ver você perder o controle, Specter. É uma visão rara. — Ela pegou sua bolsa, apagando a luz da sala. — Agora, se você me der licença, eu vou para casa. Sozinha.
Harvey bloqueou o caminho dela na porta, sua mão espalmada contra a madeira acima da cabeça dela.
— Você não vai para casa sozinha. O carro está lá embaixo.
— E o que aconteceu com "manter as aparências"? — Ela provocou, olhando para o relógio. — Ainda é cedo. Alguém pode nos ver.
— Eu não ligo — ele disse, e pela primeira vez, ele parecia estar falando a verdade. — Se o Mike mencionar seu nome mais uma vez amanhã, eu vou ser obrigado a contar para ele exatamente por que ele deve ficar longe da minha pesquisadora.
Clara sorriu, passando a mão pelo rosto dele, sentindo a leve aspereza da barba que começava a surgir no final do dia.
— Você não faria isso. Destruiria sua reputação de solteiro cobiçado.
Harvey inclinou-se, capturando os lábios dela em um beijo profundo, possessivo e carregado de toda a frustração e desejo que ele vinha acumulando durante o dia. Quando se afastaram, ambos estavam levemente ofegantes.
— Minha reputação pode ir para o inferno — murmurou ele. — Vamos.
Eles caminharam pelo escritório agora deserto. Ao passarem pela mesa de Donna, a secretária nem sequer levantou os olhos de sua revista, mas um sorriso satisfeito cruzou seu rosto.
— Boa noite, Harvey. Boa noite, Clara — disse ela, calmamente.
— Boa noite, Donna — respondeu Clara, tentando manter a compostura enquanto Harvey a guiava pelo braço em direção ao elevador privativo.
Dentro do elevador, o silêncio era carregado. Harvey não soltou o braço dela. Ele a manteve por perto, um lembrete constante de que, apesar das modelos, dos ternos caros e do jogo de poder da Pearson Hardman, havia uma única pessoa que realmente tinha as chaves do seu reino.
No dia seguinte, Mike Ross chegou ao escritório radiante, pronto para continuar sua conversa com Clara. No entanto, ao passar pela mesa de Donna, ele foi interceptado.
— Mike, um conselho de amiga — disse Donna, sem tirar os olhos do computador.
— O que foi?
— Vá para sua baia, foque nos seus processos e, se precisar de pesquisa, peça ao Harold.
Mike franziu a testa.
— Por que? A Clara é muito melhor.
— A Clara está ocupada. E o Harvey está com um humor especialmente territorial hoje. Se você valoriza sua vida, ou pelo menos sua sanidade, vai parar de falar da "energia jovem" da Clara para o seu chefe.
Mike piscou, a compreensão começando a surgir lentamente em sua mente. Ele lembrou da tensão na sala de pesquisa, do jeito que Harvey olhava para ela, da forma como Clara parecia desarmada, mas poderosa ao mesmo tempo.
— Espera... Você está dizendo que o Harvey e a Clara...?
Donna finalmente olhou para ele, baixando os óculos de leitura.
— Eu não estou dizendo nada, Mike. Mas se eu fosse você, guardaria minhas opiniões sobre pizza e filmes antigos para alguém que não tenha o poder de te mandar para o Alasca.
Mike engoliu em seco, olhando para a porta fechada da sala de Harvey e depois para o corredor que levava à pesquisa.
— Entendido. Harold é um ótimo pesquisador.
— Bom menino — disse Donna, voltando ao trabalho.
Lá dentro, Harvey Specter observava a cidade, um leve sorriso no rosto enquanto olhava para uma pequena mancha de batom que Clara havia deixado em seu colarinho antes de ele sair do carro naquela manhã. Ele sabia que o segredo não duraria para sempre, e que a diferença de idade e posição social ainda traria complicações. Mas, enquanto Clara estivesse disposta a mandá-lo calar a boca e ele estivesse disposto a ouvir, o resto do mundo poderia esperar.
Afinal, Harvey Specter sempre vencia seus casos. E Clara era, sem dúvida, a vitória mais gratificante de sua vida.