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O Preço da Curiosidade

A manhã na Pearson Hardman começou com um sol radiante refletindo nas vidraças de Manhattan, mas para Mike Ross, o brilho estava em outro lugar. Ele se sentia invencível. O caso Miller estava praticamente ganho, Harvey não o tinha insultado nas últimas doze horas e, o melhor de tudo, ele sentia que finalmente tinha feito uma amiga de verdade em Clara.

Apesar dos avisos enigmáticos de Donna no dia anterior, Mike não conseguia evitar a sensação de que havia algo de errado naquelas entrelinhas. "Territorial"? Harvey? O homem que trocava de modelos como quem troca de gravata? Mike balançou a cabeça enquanto caminhava pelo corredor, segurando uma pasta de couro e um café extra. Ele acreditava que Harvey apenas estava sendo o velho rabugento de sempre, descontando o estresse em quem estivesse por perto.

— Donna, ele já está recebendo? — perguntou Mike, parando diante da mesa da secretária.

Donna levantou os olhos, sua expressão era uma mistura de tédio e uma advertência silenciosa que Mike, em sua empolgação juvenil, decidiu ignorar.

— Ele está em uma "reunião de alinhamento", Mike. Eu sugeriria que você fosse organizar seus clipes de papel por cor.

— É urgente, Donna. Encontrei uma discrepância nos registros fiscais que o Louis deixou passar. Harvey vai adorar esfregar isso na cara dele — Mike insistiu, já se movendo em direção à porta de vidro fosco.

— Mike, eu estou falando sério. Não entre aí — disse Donna, mas seu tom tinha aquela nota de "eu avisei, agora arque com as consequências" que ela reservava para desastres iminentes.

Mike, movido pela adrenalina da descoberta e pela sua memória fotográfica que gritava por validação, ignorou o último sinal de alerta. Ele não bateu. Afinal, Harvey sempre reclamava que bater era perda de tempo de faturamento. Ele girou a maçaneta e empurrou a porta com força.

— Harvey, você não vai acreditar no que o Louis...

As palavras morreram na garganta de Mike. O café em sua mão balançou perigosamente.

A cena dentro do escritório de canto não tinha nada a ver com leis, contratos ou tribunais. Harvey Specter, o homem mais controlado e impecável de Nova York, estava prensado contra a lateral de sua imensa mesa de mogno. Mas ele não estava sozinho.

Clara estava sentada sobre a mesa, com as pernas envoltas na cintura de Harvey. O cardigã azul que ela usava estava jogado em uma cadeira próxima, e os primeiros botões de sua blusa de seda branca estavam abertos, revelando a curva generosa de seus seios e a renda de um sutiã escuro. A mão de Harvey, aquela que geralmente segurava canetas Montblanc de mil dólares, estava possessivamente espalmada sobre o peito de Clara, sentindo o calor da pele dela.

Harvey estava sem o paletó e, o que era mais chocante para Mike, sem a gravata. O colarinho de sua camisa Tom Ford estava desabotoado e amassado. Mas o detalhe final, o golpe de misericórdia na inocência de Mike, era o rosto de Harvey: sua boca e o canto do seu maxilar estavam borrados com o batom cor de vinho que Clara usava.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O único som era o tique-tique do relógio de parede e a respiração pesada dos dois.

Harvey não se afastou imediatamente. Ele congelou por um segundo, seus olhos escurecendo de uma fúria fria enquanto ele lentamente virava o rosto para olhar para Mike. Clara, por outro lado, escondeu o rosto no pescoço de Harvey, os ombros subindo enquanto ela tentava recuperar o fôlego e a compostura.

— Mike — a voz de Harvey saiu rouca, perigosa e carregada de uma promessa de morte lenta. — Eu vou te dar exatamente três segundos para sair desta sala, fechar a porta e esquecer que tem olhos.

— Eu... eu... o Louis... os impostos... — Mike gaguejou, os olhos arregalados, fixos na mão de Harvey que ainda não tinha soltado o corpo de Clara.

— Um — contou Harvey, a mandíbula travada.

— Desculpa! Meu Deus, desculpa! — Mike deu um passo trôpego para trás, quase tropeçando nos próprios pés.

— Dois — a voz de Harvey subiu um tom, e ele finalmente soltou Clara, mas apenas para se colocar entre ela e a visão de Mike, protegendo-a como um escudo humano.

Mike praticamente se jogou para fora da sala, batendo a porta com tanta força que o vidro vibrou. Ele ficou parado no meio do escritório, o coração batendo na garganta, enquanto Donna o observava com uma sobrancelha arqueada.

— Eu disse para você organizar os clipes, não disse? — perguntou ela, calmamente.

— Ele... ela... a mão dele... o batom... — Mike apontava para a porta, incapaz de formular uma frase completa.

— Bem-vindo ao mundo real, Mike. Onde o Harvey é um homem e não uma estátua de gelo — Donna voltou a digitar. — Agora, se eu fosse você, correria para o arquivo morto e ficaria lá até o Natal. Ou até ele decidir que não vale a pena ser preso por assassinato.

Dentro da sala, o clima era uma mistura explosiva de luxúria interrompida e irritação. Clara soltou um suspiro longo, descendo da mesa e tentando fechar os botões da blusa com as mãos ligeiramente trêmulas.

— Eu te disse que o Mike não tem filtro, Harvey — disse ela, soltando uma risada nervosa. — Ele vai ficar traumatizado por uma semana.

Harvey passou a mão pelo cabelo, que estava completamente bagunçado, algo que ele nunca permitia em horário comercial. Ele olhou para Clara, vendo-a tentar se recompor, e a raiva pelo interrupção foi rapidamente substituída por aquele sentimento possessivo que só ela despertava.

— O Mike é um idiota que não sabe o significado de privacidade — rosnou Harvey, caminhando até ela. — E você... você não deveria estar rindo.

— O que você quer que eu faça? Chore? — Clara finalmente fechou a blusa e pegou o cardigã. — Você está borrado de batom, Harvey. Parece que acabou de sair de um filme de romance barato.

Harvey se olhou no reflexo do vidro. Ele viu a marca da paixão de Clara em seu rosto e, em vez de se limpar imediatamente, sentiu um estranho orgulho. Ele se aproximou dela novamente, prendendo-a entre ele e a mesa.

— Deixe que ele veja. Deixe que todos vejam. Talvez assim parem de flertar com você no elevador.

Clara revirou os olhos, mas colocou as mãos nos ombros dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa fina.

— Você é impossível. Agora limpe esse rosto e coloque a gravata. Temos trabalho a fazer.

— Eu não terminei com você — murmurou ele, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dela, aspirando o cheiro de baunilha que o acalmava.

— Terminou, sim. Pelo menos por agora. Se o Mike entrar aqui de novo e nos pegar, ele vai ter um colapso nervoso permanente.

Harvey soltou um suspiro de frustração, mas sabia que ela tinha razão. Ele pegou um lenço de papel de sua gaveta e começou a limpar o batom, enquanto Clara ajeitava o cabelo diante do espelho da sala.

— Clara? — chamou ele, quando ela já estava perto da porta.

— Sim, Harvey?

— O jantar de hoje. Mudei de ideia sobre o restaurante.

— Ah, é? E para onde vamos?

— Para lugar nenhum. Vou pedir para o Ray buscar comida e vamos direto para o meu apartamento. Eu quero você onde ninguém, especialmente o Mike Ross, possa nos interromper.

Clara sorriu, aquele sorriso que fazia Harvey sentir que ele era o homem mais sortudo de Nova York, apesar de toda a sua arrogância.

— Combinado, Specter. Mas tente não matar o garoto no corredor. Ele é útil para a firma.

— Vou pensar no caso — mentiu ele.

Quando Clara saiu da sala, ela passou por Mike com a cabeça erguida, um sorriso tranquilo no rosto e apenas uma leve vermelhidão nas bochechas que denunciava o que tinha acontecido. Mike, sentado em sua mesa a poucos metros de distância, enterrou o rosto em um processo, fingindo que era a coisa mais interessante do mundo.

Alguns minutos depois, a porta de Harvey se abriu novamente. Ele estava impecável. A gravata estava no lugar, o cabelo perfeitamente penteado e o rosto limpo. Ninguém diria que, momentos antes, ele estava perdendo o controle com a pesquisadora do escritório.

Ele caminhou lentamente até a mesa de Mike. O silêncio no escritório era absoluto; até Louis Litt parecia ter sentido a mudança na pressão atmosférica e se escondido em sua toca.

Harvey parou diante de Mike e bateu levemente com os nós dos dedos na mesa de madeira.

— Mike.

O associado levantou o rosto devagar, parecendo um réu esperando a sentença de morte.

— Sim, Harvey?

— Se você mencionar uma única palavra, um único detalhe, ou até mesmo pensar sobre o que viu nos próximos dez anos... — Harvey inclinou-se para frente, sua voz baixando para um sussurro letal. — Eu vou pessoalmente garantir que sua carreira jurídica termine antes do almoço. E eu vou fazer você processar o próprio Louis por assédio só para me divertir. Fui claro?

— Cristalino, Harvey. Eu já esqueci. Eu nem sei quem é Clara. Quem sou eu? Onde estou? — Mike disparou, as palavras saindo em uma velocidade absurda.

Harvey deu um tapinha no ombro dele, um gesto que era metade ameaça e metade reconhecimento.

— Bom garoto. Agora, sobre esses registros fiscais que você mencionou... leve-os para a sala de conferências. Temos trabalho.

Harvey se afastou, voltando para sua sala com sua caminhada de predador. Mike soltou o ar que nem sabia que estava segurando.

— Ele vai me matar um dia, Donna — sussurrou Mike para a secretária.

— Provavelmente — concordou Donna, sem tirar os olhos da tela. — Mas olhe pelo lado positivo: pelo menos agora você sabe por que ele odeia quando você traz pizza para a Clara.

Mike olhou para o corredor onde Clara tinha desaparecido e depois para a sala de Harvey. Ele finalmente entendeu. Não era sobre trabalho, não era sobre eficiência e certamente não era sobre o caso Miller. Era sobre o fato de que, por trás de toda aquela armadura de três mil dólares, Harvey Specter tinha encontrado alguém que o fazia humano.

E Mike Ross, com sua memória fotográfica, sabia que aquela imagem de Harvey borrado de batom e desarmado pela simplicidade de Clara era algo que ele nunca, por mais que tentasse, conseguiria esquecer. Mas ele também sabia que, se quisesse sobreviver na Pearson Hardman, aquele seria o único segredo que ele levaria para o túmulo.

Lá dentro, Harvey sentou-se em sua cadeira de couro, olhando para a vista. Ele ainda conseguia sentir o calor de Clara em suas mãos. Ele sorriu. O mundo podia ser um lugar caótico e cheio de tubarões, mas ali, entre as paredes de vidro e o caos do direito, ele tinha algo real. E ele destruiria qualquer um que tentasse tirar isso dele. Inclusive o seu associado favorito.