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O Segredo de Olhos Castanhos
A Pearson Hardman era, por definição, um ambiente proibido para crianças. O som predominante era o do tilintar de gelo em copos de uísque, o farfalhar de papéis de seda e o estalar seco de saltos agulha contra o mármore. No entanto, naquela terça-feira nublada, um som novo e agudo cortou o ar do quadragésimo andar: uma risada cristalina e curta, seguida pelo som de pequenos passos rápidos e desajeitados.
Harvey Specter caminhava pelo corredor principal com uma postura que desafiava qualquer um a questioná-lo. Em seu braço esquerdo, ele carregava uma pasta de couro com documentos da fusão Darby. Em seu braço direito, perfeitamente equilibrada contra o quadril coberto pelo terno Tom Ford, estava uma menina de dois anos.
Ela tinha os cabelos castanhos cacheados presos em duas "mariquinhas" laterais e vestia um vestido de veludo azul-marinho que combinava, quase que propositalmente, com a gravata de Harvey. Mas eram os olhos que entregavam tudo: grandes, expressivos e de um castanho profundo e inteligente. Eram os olhos de Clara.
— Harvey? — Mike Ross parou no meio do caminho, deixando uma pilha de processos quase cair. Ele piscou várias vezes, limpando os óculos. — O que... o que é isso? Você sequestrou uma criança para ganhar um caso de custódia?
Harvey nem sequer diminuiu o passo.
— Mike, se você não tem nada produtivo para dizer sobre o caso Hessington, sugiro que encontre um buraco para se esconder. E não é "isso". É a Maya.
— Maya? — Mike o seguiu, tropeçando nos próprios pés. — De onde ela veio? Ela é... ela é sua? Harvey, você tem uma filha?
Donna Paulsen surgiu de trás de sua mesa como se estivesse esperando por aquele momento a vida toda. Ela não parecia surpresa; na verdade, ela estendeu os braços e a pequena Maya saltou para o colo da secretária com uma familiaridade que fez o queixo de Mike atingir o chão.
— Oi, meu amor! — Donna arrulhou, ignorando completamente o caos que se formava ao redor. — O papai está sendo um chato hoje?
— Papai chato — repetiu Maya, com uma dicção surpreendentemente clara para a idade, apontando o dedinho gordo para Harvey.
— Ela fala! — Mike exclamou, ganhando um olhar mortal de Harvey.
— Ela é um ser humano, Mike, não um papagaio — rosnou Harvey, ajeitando os punhos da camisa. — A babá teve uma emergência, a mãe dela está enterrada em uma auditoria no subsolo e eu tive que buscá-la. Agora, volte ao trabalho.
Mike ficou parado, processando a informação. "A mãe dela está no subsolo". A pesquisa ficava no subsolo. A sala de Clara ficava no subsolo.
— A Clara... — Mike sussurrou, a compreensão finalmente iluminando seu rosto. — A Clara é a mãe? Vocês têm uma filha de dois anos e ninguém sabia?
— Donna sabia — disse Harvey, entrando em sua sala e sinalizando para que a secretária trouxesse a menina.
— Donna sabe até o que eu vou comer no café da manhã em 2025 — rebateu Mike, entrando logo atrás. — Mas Harvey, isso muda tudo! Por que vocês não estão... sabe, juntos?
Harvey parou diante da janela, observando o reflexo da filha brincando com um dos carrinhos de miniatura da sua coleção de prateleira no colo de Donna. Sua expressão amoleceu por um milésimo de segundo antes de a máscara de gelo retornar.
— Relacionamentos são complicados, Mike. Especialmente quando envolvem duas pessoas que são teimosas demais para admitir que precisam uma da outra. Nós tentamos. Não deu certo da forma tradicional. Mas Maya é a prioridade.
A verdade era mais dolorosa do que Harvey admitiria para o associado. Após o "incidente" na mesa de mogno meses atrás, as coisas entre ele e Clara escalaram rapidamente. O caso casual tornou-se algo profundo, intenso e, eventualmente, assustador para um homem que construiu sua vida evitando vulnerabilidades. Quando Clara engravidou, o pânico de Harvey e a independência feroz dela colidiram. Eles decidiram criar Maya juntos, mas em casas separadas, mantendo o profissionalismo no escritório — ou o máximo de profissionalismo que Harvey conseguia ter quando via Clara no elevador.
— Onde ela está? — Uma voz firme e levemente ofegante veio da porta.
Clara entrou na sala. Ela não usava um dos seus cardigãs coloridos hoje; vestia um terno cinza chumbo que a fazia parecer a advogada que ela tecnicamente era por formação, embora preferisse a pesquisa. Seus olhos varreram o ambiente até encontrarem Maya.
— Mamãe! — A menina se contorceu nos braços de Donna, descendo e correndo para abraçar as pernas de Clara.
Clara a pegou no colo, beijando-lhe a bochecha com força. Depois, ela olhou para Harvey. Havia uma faísca ali — algo entre a gratidão e a irritação constante que eles nutriam um pelo outro.
— Eu disse que podia dar um jeito, Harvey. Você não precisava desfilá-la pelo escritório como se fosse um troféu de golfe.
— Eu não a desfilei — disse Harvey, cruzando os braços. — Eu a trouxe porque a babá ligou para mim, não para você. E eu tinha uma reunião. Ela se comportou melhor que o Mike.
— Ei! — protestou Mike, ainda no canto da sala.
Clara olhou para Mike e deu um sorriso triste.
— Oi, Mike. Desculpe por você ter descoberto assim. Nós queríamos protegê-la do... bem, do ambiente corporativo tóxico.
— Eu entendo — disse Mike, genuinamente tocado. — Ela é linda, Clara. Tem os seus olhos.
— E o temperamento do pai — Clara suspirou, ajeitando o cabelo da filha. — Ela já tentou processar o urso de pelúcia hoje de manhã porque ele não queria dividir o chá.
Harvey soltou uma risada curta, um som que raramente era ouvido naquelas paredes.
— Ela tem um argumento sólido. O urso foi negligente.
O momento de leveza foi interrompido pelo som de passos pesados. Louis Litt apareceu na porta, segurando uma pasta de arquivos e com sua expressão habitual de quem cheirou algo estragado. Ele parou, olhando para a criança, para Clara, para Harvey e depois para Donna.
— Por que há uma miniatura de ser humano na sala do sócio sênior? — perguntou Louis, estreitando os olhos. — E por que ela está vestida como se fosse uma Specter mirim?
Harvey se adiantou, sua voz assumindo aquele tom de autoridade inquestionável que ele usava nos tribunais.
— Louis, esta é a Maya. Ela está passando o dia conosco por motivos de força maior.
Louis aproximou-se, analisando a menina como se fosse uma evidência forense. Maya, sem se intimidar, olhou para Louis, esticou a mão e puxou a ponta da gravata dele.
— Gato — disse Maya, apontando para o rosto de Louis.
Houve um silêncio mortal. Donna tossiu para disfarçar o riso. Mike cobriu a boca com a mão.
— Ela... ela me chamou de gato? — Louis perguntou, sua expressão transformando-se instantaneamente de irritação para um deleite absoluto. — Harvey, essa criança tem uma percepção estética impecável!
— Ela quis dizer que você se parece com o gato dela, Louis. O que não é necessariamente um elogio, considerando que o gato é um persa rabugento — explicou Clara, tentando não rir.
— Não importa! — Louis estufou o peito. — Ela é uma delícia. De quem é? Alguma cliente importante?
Harvey olhou para Clara. Por um momento, o peso do segredo pareceu desnecessário. Eles estavam ali, no centro do império que construíram, e a coisa mais importante que já haviam feito estava nos braços dela.
— Ela é minha, Louis — disse Harvey, a voz firme e carregada de um orgulho que ele nunca sentira por nenhuma vitória legal. — Minha e da Clara.
Louis congelou. A pasta de arquivos deslizou de sua mão, espalhando papéis pelo chão. Ele olhou para Harvey, depois para Clara, depois para a menina.
— Você... e a pesquisadora? Vocês... o Specter e a... — Louis parecia estar tendo um curto-circuito. — E ninguém me contou? Eu sou o padrinho? Eu exijo ser o padrinho! Eu posso ensinar a ela sobre ópera e cuidados com roedores!
— Louis, menos — interveio Donna, pegando os papéis do chão. — Ninguém é padrinho de nada ainda.
— Maya, diga tchau para o tio Louis — disse Clara, sentindo que a situação estava prestes a sair do controle.
— Tchau, gato — Maya acenou, fazendo Louis quase derreter no tapete.
Clara caminhou em direção à porta, mas parou ao lado de Harvey. Por um breve instante, a barreira entre eles caiu. Ele colocou a mão nas costas dela, um gesto protetor e íntimo que não era para o escritório ver, mas que ele não conseguia evitar.
— Você a leva para baixo? — perguntou ele, a voz mais suave.
— Vou deixá-la na sala de descanso com a Rachel por uma hora até eu terminar o relatório — respondeu Clara. — Depois vamos para casa.
— Eu passo lá — disse Harvey. — Para levar vocês.
Clara hesitou, olhando nos olhos dele.
— Harvey, as aparências...
— Pro inferno com as aparências, Clara. O Mike já sabe, a Donna sabe e o Louis agora acha que é um tio da Disney. O segredo acabou.
Clara deu um pequeno sorriso, um daqueles que atingia os olhos e desarmava Harvey completamente.
— Tudo bem. Mas se você chegar com o motorista e o carro preto, ela vai querer dirigir de novo.
— Ela já sabe onde fica a buzina — Harvey comentou com um brilho de diversão.
Clara saiu da sala, deixando para trás um rastro de baunilha e uma sensação de vazio súbito. Mike e Louis ainda estavam lá, parados como estátuas.
— O que vocês ainda estão fazendo aqui? — Harvey perguntou, voltando à sua mesa e recuperando a postura de tubarão. — Mike, o caso Hessington. Louis, pare de sorrir para o nada, é perturbador.
— Eu vou comprar um pônei para ela — sussurrou Louis, saindo da sala em transe.
Mike olhou para Harvey, que já estava fingindo ler um contrato, embora estivesse segurando o papel de cabeça para baixo.
— Harvey? — chamou Mike.
— O que é agora, Ross?
— Você está feliz, não está?
Harvey levantou os olhos. Ele pensou na noite anterior, quando Maya adormeceu em seu peito enquanto Clara lia um livro de pesquisa ao lado deles no sofá. Ele pensou na complexidade de amar uma mulher que se recusava a ser apenas um acessório em sua vida e na alegria pura de ver uma parte de si mesmo crescendo com tanta personalidade.
— Eu estou ocupado, Mike. Vá trabalhar.
Mike sorriu e saiu. Donna, que permanecia à porta, trocou um olhar cúmplice com o chefe.
— Você foi bem, Harvey — disse ela.
— Eu não fiz nada, Donna.
— Você admitiu a verdade na frente do Louis. Isso é mais do que você fez em dez anos.
Harvey não respondeu, mas quando Donna fechou a porta, ele finalmente virou o contrato para a posição correta. No canto da página, havia um pequeno desenho feito com giz de cera que Maya tinha deixado ali mais cedo. Era apenas um borrão azul, mas para Harvey Specter, era a obra de arte mais valiosa de toda a sua coleção.
Ele sabia que o relacionamento com Clara ainda era um campo minado de egos e teimosia, mas ver Maya correndo pelos corredores da Pearson Hardman tinha mudado algo fundamental. Ele não era mais apenas o melhor fechador de Nova York. Ele era o pai da menina de olhos castanhos. E, pela primeira vez na vida, Harvey sentiu que não precisava de um blefe para vencer o jogo.