Jinbe e Chopper
O Porto Seguro de Algodão-Doce e Águas Profundas
O silêncio no Thousand Sunny era uma raridade que beirava o sobrenatural. Geralmente, o convés de grama era o palco de correrias frenéticas de Luffy, as explosões de raiva de Sanji contra Zoro, ou as invenções barulhentas de Usopp e Franky. Mas, naquele dia, o navio parecia respirar em um ritmo lento e pausado. Nami, Robin e o restante da tripulação haviam desembarcado em uma ilha próxima para uma expedição de suprimentos e exploração que duraria quatro longos dias.
Ficaram para trás apenas dois: Jinbe, o timoneiro e ex-Shichibukai, e Tony Tony Chopper, o médico da tripulação.
O sol da tarde banhava o convés com uma luz dourada e quente. Jinbe estava sentado encostado no mastro principal, lendo alguns mapas, enquanto Chopper organizava ervas medicinais em pequenos cestos, concentrado o suficiente para que a ponta de seu nariz azul se movesse ritmadamente.
Jinbe observou o pequeno médico por cima do papel. Um sorriso sutil e paternal cruzou suas feições de homem-peixe. Desde que se juntara oficialmente ao bando, Jinbe sentia uma necessidade instintiva de proteger e cuidar dos mais jovens, e Chopper, com sua inocência e tamanho reduzido, despertava nele um lado que poucos conheciam — o de um pai coruja e, por vezes, um tanto provocador.
— Sabe, Chopper-kun — começou Jinbe, sua voz profunda ressoando como um trovão distante e calmo —, eu estava pensando... se continuarmos sozinhos assim por quatro dias, você corre um sério risco.
Chopper parou de separar as folhas de hortelã e olhou para cima, os olhos grandes e brilhantes de curiosidade.
— Risco? Que risco, Jinbe? Algum inimigo está vindo? O Log Pose mudou? — O médico já começava a tremer levemente, as orelhas de rena se agitando.
— Não, nada disso — Jinbe fechou o mapa com uma lentidão dramática. — É que, sem o Luffy aqui para roubar sua comida, você corre o risco de crescer cinco centímetros. E se você crescer, talvez não caiba mais no meu colo. O que eu faria sem o meu pequeno "Tanuki de Bolso"?
Chopper inflou as bochechas, o rosto ganhando um tom de carmim instantâneo.
— Eu já disse que não sou um tanuki! Sou uma rena! — Ele gritou, mas o elogio disfarçado de ironia já tinha feito efeito. Ele começou a dançar aquele seu passinho típico de quando estava envergonhado. — E não diga essas coisas, seu bobo! Isso não me deixa nem um pouco feliz, seu idiota!
Jinbe soltou uma risada curta, um som gutural e caloroso.
— Venha aqui, doutor. Você está trabalhando demais. As plantas não vão fugir.
Chopper hesitou por um segundo, mas a tentação do conforto era maior que seu orgulho médico. Ele caminhou a passos curtos e saltitantes até o homem-peixe. Jinbe, sem aviso, estendeu os braços enormes e envolveu a pequena rena, puxando-a para perto de sua barriga vasta e firme.
— Uwaa! Jinbe, está apertado! — reclamou Chopper, embora estivesse se aconchegando contra a pele azul e fresca do timoneiro.
— É para garantir que você não saia voando com o vento — brincou Jinbe, começando a fazer um cafuné vigoroso entre as galhadas de Chopper. — Você é tão macio que às vezes acho que o Franky te encheu com algodão-doce em vez de músculos.
— Pare com isso! — Chopper tentou esconder o rosto, mas acabou se entregando ao carinho, fechando os olhos enquanto a mão grande de Jinbe massageava o topo de sua cabeça. — Eu sou um médico temível... um monstro...
— Sim, sim. Um monstro terrível — Jinbe sussurrou, a ironia transbordando afeto. — O monstro mais perigoso que já conheci. Capaz de derrotar inimigos apenas com a fofura. É um golpe baixo, Chopper-kun.
O timoneiro inclinou-se e depositou um beijo sonoro no topo da cabeça de Chopper, entre as orelhas. O médico estremeceu, o rosto agora parecendo um tomate maduro.
— Jinbe! Você é muito meloso! — Chopper protestou, mas suas patinhas agarraram o quimono do mais velho, puxando-o para mais perto.
— É o privilégio de ser o mais velho — respondeu Jinbe, ajeitando Chopper para que ele ficasse sentado confortavelmente contra sua barriga, como se o pequeno fosse uma extensão natural de seu próprio corpo. — E você é o caçula. É meu dever certificar que você seja devidamente "perturbado" com carinho.
Eles ficaram assim por algum tempo, observando o mar. O balanço do Sunny era como um berço. Chopper, que geralmente estava sempre alerta com a saúde de todos, sentia que, na presença de Jinbe, ele podia finalmente ser apenas... pequeno.
— Jinbe? — a voz de Chopper saiu abafada contra o peito do homem-peixe.
— Diga, pequeno médico.
— Você acha que os outros estão bem? Quatro dias é muito tempo. E se o Luffy comer algo venenoso? Ou se o Zoro se perder em uma linha reta?
Jinbe soltou um suspiro longo, sentindo a preocupação genuína que emanava da pequena rena. Ele apertou o abraço, encostando o queixo no chapéu de Chopper.
— Eles são fortes, Chopper-kun. Mas, mais importante que isso, eles sabem que têm o melhor médico do mundo esperando por eles aqui. Se algo acontecer, você os consertará em um piscar de olhos. Mas, por agora... — Jinbe deu um tapinha leve na bochecha de Chopper e depois deu um beijinho estalado ali. — Por agora, sua única missão é descansar.
— Você está me tratando como um bebê de novo! — Chopper reclamou, embora estivesse ronronando baixo.
— E você não é? — Jinbe arqueou uma sobrancelha, um brilho travesso nos olhos. — Eu jurava que tinha visto um berço com seu nome no consultório.
— Mentira! Isso era uma cama de descanso para pacientes pequenos! — Chopper se levantou, apontando o casco para Jinbe, tentando parecer indignado, mas falhando miseravelmente devido ao rabo que abanava freneticamente.
— Ah, entendi. Peço desculpas, Doutor Bebê — Jinbe disse, usando o apelido com uma seriedade fingida que fez Chopper explodir em um novo protesto de "não me chame assim!".
Rindo, Jinbe puxou-o de volta, desta vez fazendo cócegas na barriga de Chopper. O convés foi preenchido pela risada aguda e cristalina da rena, um som que aqueceu o coração do timoneiro.
— Tudo bem, tudo bem! Eu me rendo! — Chopper ofegava, rindo entre as lágrimas de alegria.
Jinbe parou, mas manteve a mão sobre as costas do pequeno, sentindo os batimentos cardíacos dele se acalmarem. Ele olhou para o horizonte, onde o sol começava a mergulhar no oceano.
— Sabe, Chopper... — a voz de Jinbe tornou-se suave, desprovida de qualquer ironia agora. — Às vezes, o mar é um lugar muito frio e solitário. Ter alguém como você por perto, com esse coração tão grande, faz com que até o homem mais velho se sinta em casa.
Chopper olhou para cima, surpreso com a mudança de tom. Ele viu nos olhos de Jinbe uma profundidade que falava de anos de luta, mas também de uma paz recém-encontrada. O médico encostou a cabeça no ombro do timoneiro, sentindo o cheiro de sal e mar que sempre acompanhava Jinbe.
— Eu também gosto de estar com você, Jinbe — admitiu Chopper em um sussurro. — Você é como um porto seguro. Mesmo quando fica me provocando.
Jinbe sorriu e, com uma ternura infinita, envolveu Chopper em seus braços novamente, cobrindo-o com uma parte de seu quimono para protegê-lo da brisa noturna que começava a soprar.
— Ainda faltam três dias e meio, pequeno — disse Jinbe, fechando os olhos. — Prepare-se. Tenho muitos apelidos novos para testar e muitas histórias para contar.
— Se você me chamar de "Algodãozinho" na frente do Zoro, eu vou te dar um remédio com gosto de chulé! — ameaçou Chopper, embora estivesse fechando os olhos também, completamente entregue ao calor do "Pai Jinbe".
— Anotado — riu o timoneiro. — Mas "Algodãozinho" combina tanto com você...
— Jinbe!
O Sunny continuou a deslizar pelas águas calmas, levando consigo dois tripulantes que, naquele momento, não eram apenas um timoneiro e um médico, mas uma família que encontrava, um no outro, o conforto de um lar em meio à imensidão do oceano. E, pelos próximos quatro dias, o silêncio do navio seria preenchido não por ordens ou batalhas, mas por risadas, carinhos e o doce som de uma amizade que era tão profunda quanto os sete mares.