Jinbe e Chopper
O Banquete de Estrelas e o Pequeno Grande Médico
O segundo dia de solidão no Thousand Sunny começou com o aroma de café e ervas medicinais, mas, acima de tudo, com uma paz que Chopper raramente experimentava. Sem o caos habitual de Luffy tentando pescar tubarões com as mãos ou as explosões experimentais de Usopp, o navio parecia um santuário flutuante.
Jinbe já estava de pé, ou melhor, já estava na cozinha de Sanji, tentando preparar algo que não fosse um desastre culinário completo. Chopper entrou no recinto, esfregando os olhos e bocejando, sua forma de "Brain Point" o tornando ainda mais vulnerável à luz da manhã.
— Bom dia, Doutor Algodãozinho. — Jinbe saudou, sem desviar os olhos de uma panela onde tentava grelhar alguns peixes. — Dormiu bem ou sonhou que estava sendo perseguido por uma montanha de açúcar?
Chopper inflou as bochechas, sentindo o calor subir pelas orelhas.
— Eu já disse para não usar esse apelido! — Ele caminhou até a mesa, sentando-se com dificuldade na cadeira alta. — E eu sonhei com a cura para a febre da Ilha de Kuraigana, para sua informação!
Jinbe soltou uma risada profunda, que vibrou pelas paredes da cozinha. Ele se aproximou da mesa e, com uma naturalidade desconcertante, estendeu a mão grande e áspera para afagar o topo da cabeça de Chopper. O médico tentou se esquivar, mas acabou fechando os olhos e inclinando a cabeça para aproveitar o contato.
— Entendo, entendo. Um sonho muito nobre para uma rena tão pequena. — Jinbe inclinou-se e depositou um beijo rápido na bochecha de Chopper, que agora estava tão vermelho quanto o chapéu que usava. — Aqui está o seu café da manhã, Pequeno Mestre.
— Jinbe! — Chopper protestou, embora sua voz soasse mais como um guincho de alegria do que de raiva. — Você é muito... muito... pegajoso!
— É o efeito do mar, Chopper-kun. — Jinbe sentou-se à frente dele, observando-o comer. — A água salgada nos torna mais unidos. Ou talvez seja apenas porque você é irresistivelmente apertável. Sabia que, se eu te apertar com força suficiente, você pode soltar um som de apito?
Chopper parou de mastigar, olhando para Jinbe com uma mistura de horror e curiosidade científica.
— Eu não sou um brinquedo de borracha! Eu sou um mamífero! Eu tenho órgãos, Jinbe!
— Ah, sim. Órgãos feitos de marshmallow e determinação. — O homem-peixe piscou um olho, saboreando a indignação fofa do companheiro.
Após a refeição, os dois seguiram para o convés. O sol estava forte, e o mar era um espelho azul infinito. Jinbe decidiu que era o dia perfeito para a manutenção das velas, enquanto Chopper insistia em organizar seu estoque de antídotos. No entanto, o timoneiro tinha outros planos para a "vítima" de seu afeto paternal.
— Chopper-kun, venha aqui um momento. — Jinbe chamou, sentado na grama do convés, encostado na mureta.
— Estou ocupado, Jinbe! Preciso catalogar estas raízes de ginseng! — Chopper respondeu, embora já estivesse caminhando na direção do mais velho.
— É urgente. Acho que tenho uma farpa na mão. — Jinbe mentiu descaradamente, estendendo a palma imensa.
Preocupado, o médico correu até ele, subindo em seus joelhos para examinar a mão do timoneiro. Ele pegou uma lupa de seu cinto e começou a inspecionar a pele azulada com seriedade profissional.
— Não vejo nada, Jinbe. Onde dói?
— Bem aqui. — Jinbe fechou a mão gentilmente, capturando os cascos de Chopper, e o puxou para um abraço de urso, ou melhor, de homem-peixe. — Dói de saudade de um abraço do meu médico favorito.
Chopper ficou paralisado por um segundo, o rosto enterrado no peito firme de Jinbe.
— Isso é... isso é negligência médica! — Chopper gritou, mas suas patinhas já estavam retribuindo o abraço, agarrando-se ao quimono de Jinbe. — Você me enganou!
— Um estratagema necessário para a saúde mental da tripulação. — Jinbe começou a balançar o corpo de um lado para o outro, ninando a rena. — Você está muito tenso, Chopper. Seus ombros estão duros como cascos de tartaruga. Precisa de uma dose cavalar de... carinho.
— Eu sou o médico aqui! Eu prescrevo as doses! — Chopper tentou manter a autoridade, mas o cafuné que Jinbe iniciou atrás de suas orelhas foi seu fim. Ele soltou um suspiro longo e relaxou completamente contra a barriga de Jinbe. — Tudo bem... talvez cinco minutos disso ajudem na minha circulação.
— Cinco minutos? — Jinbe riu, a voz ressoando no peito onde Chopper apoiava a cabeça. — Eu planejei pelo menos três horas de "Terapia do Colo". Sabia que, em algumas ilhas do Tritão, acredita-se que abraçar uma rena traz sorte na navegação?
Chopper olhou para cima, os olhos brilhando de desconfiança.
— Isso é verdade ou é mais uma das suas ironias?
— Quem sabe? — Jinbe sorriu, encostando o nariz no nariz azul de Chopper. — Mas, olhando para você agora, com essa cara de quem comeu todo o estoque de mel, eu diria que a sorte já está do meu lado.
O dia passou entre brincadeiras e momentos de quietude. Jinbe contava histórias de suas viagens com os Piratas do Sol, e Chopper ouvia atentamente, fascinado pela grandiosidade do mundo que Jinbe conhecera muito antes dele. Em cada pausa, Jinbe encontrava uma desculpa para apertar a bochecha de Chopper ou para chamá-lo de "meu pequeno tesouro peludo".
— Sabe, Jinbe... — Chopper começou, enquanto ambos observavam o pôr do sol, sentados lado a lado. Jinbe tinha o braço em volta dos ombros de Chopper, protegendo-o do vento. — Às vezes eu me sinto pequeno demais. Não apenas de tamanho, mas... como se o mundo fosse grande demais para uma rena que queria ser humano.
Jinbe ficou em silêncio por um momento, a expressão tornando-se suave e protetora. Ele puxou Chopper para mais perto, fazendo com que o pequeno se aninhasse no vão de seu braço.
— O tamanho de um homem, ou de uma rena, não é medido pela altura, Chopper-kun. — Jinbe disse, sua voz carregada de uma sabedoria calma. — É medido pela sombra que ele projeta no coração dos outros. E a sua sombra... ela cobre este navio inteiro. Sem você, o Sunny seria apenas um pedaço de madeira. Você é o coração que nos mantém batendo.
Chopper sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ele tentou escondê-las, limpando o rosto rapidamente com o casco.
— Você só diz isso porque quer que eu faça aquele doce de cereja para o jantar! — Ele exclamou, tentando recuperar a postura.
— Também. — Jinbe admitiu com uma piscadela. — Mas principalmente porque é a verdade. E se você continuar chorando, eu vou ter que te dar dez beijinhos em cada bochecha para secar essas lágrimas. É um tratamento rigoroso.
Chopper arregalou os olhos, o rosto voltando ao tom carmesim.
— Dez? Isso é excessivo!
— Regras da casa. — Jinbe começou a se aproximar, os lábios prontos para cumprir a "ameaça".
— Não! Jinbe! Pare! — Chopper ria, tentando fugir enquanto Jinbe o perseguia pelo convés com passos lentos e deliberados, como um predador de carinho.
— Venha aqui, Algodãozinho! A medicina exige sacrifícios!
A perseguição terminou com ambos caídos na grama, ofegantes de tanto rir. Jinbe rolou para o lado, ficando de barriga para cima, e Chopper escalou sua barriga, sentando-se ali como se fosse um trono.
— Eu venci. — Chopper declarou, apontando para o próprio peito. — O grande Jinbe foi derrotado pelo Doutor Chopper!
— Sim, fui vencido. — Jinbe sorriu, fechando os olhos e sentindo o peso leve e reconfortante da rena sobre si. — Sou seu prisioneiro por tempo indeterminado. O que o senhor ordena, Comandante Peludo?
Chopper pensou por um momento, olhando para as estrelas que começavam a surgir no céu noturno.
— Eu ordeno... que você me conte a história daquela ilha onde as nuvens são feitas de sorvete. — Chopper deitou-se sobre a barriga de Jinbe, usando-a como um travesseiro macio. — E que você não pare de fazer cafuné até eu dormir.
— Um pedido justo. — Jinbe levou a mão ao pelo macio de Chopper, movendo os dedos com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho monumental. — Era uma vez, em um mar longe daqui...
A voz de Jinbe era como o murmúrio das ondas, constante e protetora. Chopper sentia-se seguro, amado e, acima de tudo, em casa. Ele sabia que, quando os outros voltassem, a agitação retornaria, e ele teria que ser o médico sério e responsável novamente. Mas, por agora, sob o olhar atento e carinhoso do "Pai Jinbe", ele podia ser apenas o filho caçula, o pequeno tesouro que encontrou seu porto seguro em meio ao oceano.
— Jinbe? — Chopper murmurou, o sono já pesando suas pálpebras.
— Sim, pequeno?
— Obrigado por ficar comigo.
Jinbe não respondeu com palavras. Ele apenas inclinou a cabeça e beijou o topo do chapéu de Chopper, apertando-o levemente contra si. O silêncio do Sunny não era mais um vazio; era uma promessa de que, não importa quão grande fosse o mar, eles nunca estariam sozinhos.
E assim, entre ironias doces e abraços apertados, o segundo dia chegou ao fim, deixando no convés o rastro de uma amizade que era, em sua essência, a forma mais pura de cura que Chopper já havia administrado.