Josefina e Napoleão
O Baile das Máscaras Ideológicas e o Fantasma de Hollywood
Belo Horizonte amanheceu sob um céu cor de chumbo, daquelas manhãs em que a neblina da Serra do Curral parece querer abraçar a cidade e não soltar mais. Roberto Drummond, no entanto, não via cinza em lugar nenhum. Para ele, o mundo tinha ganhado matizes de um azul elétrico — a cor exata dos olhos de Evangeline — e um vermelho vibrante, que ele tentava convencer a si mesmo ser apenas o fervor revolucionário, embora soubesse que era o sangue batendo apressado nas têmporas toda vez que pensava nela.
Naquela manhã, o ponto de encontro não era o sindicato, nem a porta do jornal, mas a mesa de mármore frio do Café Nice. O cheiro de café forte e pão de queijo quente era o único conforto real em meio à conspiração constante que era a vida de um jovem jornalista de esquerda em 1959.
Aramel já estava lá, impecável. O cabelo, uma escultura de brilhantina, não perdia o brilho nem sob a umidade mineira. Ele segurava um exemplar da *Variety* importada como se fosse um texto sagrado. Malthus, ao seu lado, parecia uma ilha de sobriedade e castidade, com sua batina escura e o olhar fixo em um pequeno livro de orações, embora Roberto soubesse que, por trás daquela fachada de frei, Malthus processava a realidade com uma precisão matemática que faria inveja a qualquer estrategista do Kremlin.
— Ela disse que meu texto era "quase decente" — anunciou Roberto, jogando-se na cadeira com a energia de quem acabara de ganhar o Prêmio Esso.
Aramel fechou a revista com um estalo dramático.
— "Quase decente"? Meu caro Roberto, isso no vocabulário de uma mulher como a Evangeline é o equivalente a um beijo apaixonado no pôr do sol de um filme do Douglas Sirk! Ela te notou. Ela te validou. Agora só falta o conflito do segundo ato antes do clímax.
— Ou o prenúncio de um desastre — murmurou Malthus, sem tirar os olhos do livro. — Roberto, você está confundindo atenção com interesse. Ela é uma intelectual, uma mulher de convicções. Ela elogiou seu texto porque você, por um milagre divino, deve ter escrito algo que não fosse pura provocação. Não transforme um comentário profissional em um convite para o altar.
— Malthus, meu santo amigo, você enxerga o pecado e a lógica em tudo, mas esquece o mistério — rebateu Roberto, sinalizando para o garçom. — Ela me viu na chuva. Ela riu. Bem, foi um riso curto, quase um espirro de desprezo, mas foi um som que saiu da garganta dela por minha causa.
— O problema — continuou Malthus, finalmente fechando o livro e encarando o amigo — é que você está brincando com fogo em dois tabuleiros. O Partido não é um clube social, e Evangeline não é uma mocinha de romance de banca. Se você continuar a segui-la como um perdigueiro, vai acabar sendo chamado à atenção pela célula. E ela... ela parece o tipo de mulher que não tolera homens que não levam a vida a sério.
— Mas eu levo a vida a sério! — protestou Roberto. — Eu só me recuso a ser solene. A solenidade é o túmulo da inteligência. E Aramel, o que Hollywood diz sobre jornalistas persistentes?
Aramel ajeitou o colarinho, assumindo uma postura de galã de cinema.
— Hollywood diz que a persistência é a alma do protagonista. Mas você precisa de um "grand geste", Roberto. Algo que a tire do eixo. Ela é séria? Seja mais sério que ela em um momento e mais louco que ela no outro. O contraste, meu amigo, é o que cria a química.
Roberto ficou pensativo, observando o movimento da Rua da Bahia. O plano de Aramel era tentador, mas a advertência de Malthus ecoava em sua mente. Evangeline não era apenas um desafio romântico; ela era uma força intelectual que o intimidava e o atraía na mesma medida.
Mais tarde naquele dia, Roberto voltou ao prédio do Diário de Minas. Dessa vez, ele não levava flores, nem recortes de jornal. Levava um desafio. Ele sabia que Evangeline estaria cobrindo a coletiva de imprensa de um deputado conservador que estava de passagem pela capital. Era o ambiente perfeito para vê-la em ação.
O salão do hotel onde ocorria a coletiva estava enfumaçado. Homens de terno escuro falavam alto, e o cheiro de uísque barato pairava no ar. No meio daquela massa de testosterona e política tradicional, Evangeline era um ponto de luz e foco. Ela estava sentada na primeira fila, o bloco de notas apoiado no joelho, a caneta movendo-se com uma velocidade furiosa.
Roberto postou-se ao fundo, observando. Quando o deputado terminou um discurso pomposo sobre a "ameaça vermelha" e a necessidade de manter as tradições mineiras, Evangeline levantou a mão.
— Deputado — começou ela, a voz cortando o burburinho como uma navalha em seda —, o senhor fala em tradição, mas os dados da Inspetoria do Trabalho mostram que as tecelãs da capital recebem menos da metade do salário mínimo estipulado. A tradição que o senhor defende inclui a fome das operárias ou isso é apenas um detalhe estatístico que não cabe no seu discurso?
Um silêncio desconfortável caiu sobre a sala. O deputado pigarreou, limpando o suor da testa com um lenço. Roberto sentiu um orgulho absurdo, como se ele mesmo tivesse feito a pergunta.
— Veja bem, minha jovem senhora... — começou o político.
— Jornalista — corrigiu ela, secamente. — Meu estado civil não é relevante para a pergunta.
Roberto não resistiu. Do fundo da sala, ele soltou uma risada baixa, mas audível o suficiente para que alguns se virassem, inclusive ela. Evangeline não sorriu, mas arqueou uma sobrancelha, um sinal quase imperceptível de que sabia que ele estava lá.
Após a coletiva, ele a esperou no saguão. Ela saiu guardando a caneta na bolsa, com uma expressão de cansaço misturada com triunfo.
— Aquilo foi magnífico — disse Roberto, aproximando-se. — O deputado quase teve um síncope.
— Ele é um idiota — respondeu ela, sem parar de andar em direção à saída. — O problema não é ele, são os outros trinta jornalistas que ficaram em silêncio esperando pelo coquetel.
— Eu não fiquei em silêncio. Eu ri.
— Rir é fácil, Drummond. Difícil é escrever a matéria que o editor não vai querer publicar amanhã.
— Então vamos escrever juntos — propôs ele, alcançando-a na calçada. — Eu tenho dados sobre o custo de vida nas vilas operárias que complementam a sua pergunta. Podemos fazer um artigo cruzado. Eles não podem ignorar dois jornais ao mesmo tempo.
Evangeline parou e o olhou de cima a baixo. O vento frio de Belo Horizonte agitou seus cachos, e por um momento, as sardas em seu nariz pareceram mais evidentes sob a luz dos postes que começavam a acender.
— Por que você faz isso, Roberto? — perguntou ela, a voz perdendo um pouco da rigidez profissional. — Esse seu jeito de quem está sempre brincando, de quem transforma tudo em um folhetim... Você realmente acredita no que escreve ou só gosta do barulho das teclas?
Roberto sentiu o peso da pergunta. A ironia, que era sua armadura habitual, falhou.
— Eu acredito que o mundo é um lugar terrível, Evangeline — disse ele, com uma sinceridade que o surpreendeu. — E acredito que a única forma de suportar isso, além da revolução, é encontrando algo que seja... genuíno. A sua coragem naquela sala foi a coisa mais genuína que vi o dia todo. Eu não estou brincando agora.
Houve uma pausa longa. O som dos bondes e dos carros parecia distante. Evangeline suspirou, e pela primeira vez, Roberto viu uma rachadura na fortaleza.
— O café do Nice é horrível — disse ela, do nada. — Mas o do Edifício Maletta, no segundo andar, é passável.
Roberto piscou, processando a informação.
— Isso é um convite?
— É uma concessão profissional — respondeu ela, voltando a caminhar, mas desta vez num ritmo que ele conseguia acompanhar. — Se você realmente tem os dados das vilas operárias, eu quero ver. E se você tentar fazer um trocadilho infame ou uma citação romântica de algum poeta francês, eu me levanto e vou embora.
— Prometo manter Victor Hugo fora da mesa — disse Roberto, o coração dando piruetas. — Mas não prometo nada sobre Marx. Ele pode ser muito passional quando quer.
Eles caminharam juntos pelas ruas do centro. Belo Horizonte, com suas ladeiras e sua alma conservadora, parecia pequena demais para a energia que emanava daquela dupla. Roberto sentia que estava caminhando sobre uma corda bamba. De um lado, o abismo do deboche de seus amigos; do outro, a seriedade austera de um amor que poderia ser tanto sua salvação quanto sua ruína.
Ao chegarem ao Maletta, o ambiente estava fervilhando de estudantes, artistas e outros intelectuais de esquerda. O cheiro de cigarro e café era denso. Eles se sentaram em uma mesa de canto, longe das janelas.
Evangeline tirou o casaco, revelando os braços alvos e a postura decidida. Ela mergulhou nos papéis que Roberto estendeu a ela, analisando os números com uma concentração que o deixava fascinado.
— Esses dados são bons — admitiu ela, fazendo anotações. — Onde conseguiu?
— Tenho meus métodos. Digamos que alguns arquivistas da prefeitura preferem a verdade ao silêncio, especialmente depois de algumas doses de cachaça no Mercado Central.
— Você é perigoso, Drummond — comentou ela, sem desviar os olhos do papel. — Usa o charme para corromper a burocracia.
— Eu chamo de diplomacia proletária.
Evangeline finalmente levantou os olhos. Havia um brilho diferente neles agora. Não era apenas a análise fria de uma camarada, mas algo mais humano, uma curiosidade que ela tentava esconder sob a máscara da disciplina partidária.
— E o que seus amigos dizem sobre isso? — perguntou ela. — O seminarista e o aspirante a galã? Eu os vejo com você. São uma trindade curiosa.
— Malthus acha que vou arder no inferno, ou pior, que vou ser expulso do partido por comportamento frívolo. Aramel acha que nossa vida é um filme da Metro-Goldwyn-Mayer e que eu sou o herói incompreendido.
— E você? O que você acha?
Roberto inclinou-se para frente, diminuindo a distância entre eles. O barulho do café pareceu sumir.
— Eu acho que estou farto de roteiros e de sermões. Eu acho que Belo Horizonte é uma cidade cheia de fantasmas e de gente fingindo ser o que não é. E quando eu te vi naquela reunião, e quando te vejo agora, sinto que encontrei a única pessoa que está realmente acordada.
Evangeline não desviou o olhar. Suas sardas pareciam vibrar sob a luz amarelada do Maletta.
— Acordar dói, Roberto. Às vezes é mais fácil viver no sonho do Aramel ou na fé do Malthus. A realidade é suja, é difícil e não tem final feliz para jornalistas como nós.
— Quem disse que eu quero um final feliz? — rebateu ele, com um sorriso de canto. — Eu quero um final épico. Ou, no mínimo, um final que valha a pena ser escrito em letras garrafais na primeira página.
Ela soltou uma risada, desta vez mais longa, uma risada de verdade que iluminou seu rosto de uma forma que Roberto nunca esqueceria.
— Você é impossível.
— É o que dizem os reacionários.
Naquela noite, Roberto voltou para a pensão onde morava com o espírito leve. Ele encontrou Aramel ensaiando um monólogo diante do espelho e Malthus revisando um texto teológico.
— E então? — perguntou Aramel, sem sair do personagem. — Houve o beijo na chuva? O conflito? A declaração?
— Houve café — respondeu Roberto, jogando o chapéu na cama. — E estatísticas sobre a fome.
— Café e estatísticas? — Aramel fez uma careta. — Que roteiro monótono. Onde está o drama?
Malthus, porém, olhou para Roberto e percebeu algo que Aramel, em sua busca por Hollywood, não conseguia ver. Ele viu o brilho nos olhos do amigo, uma mistura de respeito e algo muito mais profundo que a simples atração física.
— Você falou com ela de verdade, não foi? — perguntou Malthus, a voz suave.
— Falei — admitiu Roberto. — E ela falou comigo. Sem as barreiras, Malthus. Ou pelo menos com as barreiras um pouco mais baixas.
— Cuidado, Roberto — avisou o frei. — Quando as barreiras caem, a gente fica exposto. E o mundo não tem piedade de quem se expõe.
— A piedade é para os fracos, Malthus — disse Roberto, citando algum revolucionário que ele não lembrava o nome, ou talvez apenas inventando na hora. — Eu prefiro a paixão. Mesmo que ela venha acompanhada de um manifesto comunista e de um café ruim no Maletta.
Enquanto a noite caía sobre Belo Horizonte, Roberto Drummond sentou-se à sua máquina de escrever. O som das teclas batendo era o ritmo de seu próprio coração. Ele começou a escrever não a matéria sobre as tecelãs, mas uma crônica que nunca seria publicada, sobre olhos azuis que desafiavam o cinza da cidade e sobre como, em 1959, a maior revolução não era a que derrubava governos, mas a que derrubava o cinismo de um homem que achava que já tinha visto de tudo.
Ele sabia que o caminho seria difícil. Evangeline era uma mulher de ferro, cercada por um mundo que queria transformá-la em cristal. E ele era apenas um jornalista inquieto com uma queda por causas perdidas. Mas, enquanto houvesse café, ideologia e o brilho daquelas sardas, Roberto Drummond estava pronto para lutar. E, se Aramel estivesse certo, o segundo ato estava apenas começando.