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Jujutsu kaisen

O Silêncio de Vidro Quebrado

O som não foi como nos filmes. Não houve um estrondo dramático que ecoou por todo o castelo da Escola de Jujutsu. Foi um estalo seco, abafado pelas paredes grossas do dormitório e pelo travesseiro que Yuji havia pressionado contra a lateral da cabeça para silenciar o fim de sua própria história.

Quando Megumi e Nobara arrombaram a porta, movidos por um pressentimento sinistro que pairava no ar desde o café da manhã, o que encontraram não foi o guerreiro que enfrentou maldições de nível especial. Encontraram um garoto caído, com a mão ainda trêmula segurando a arma que ele havia confiscado de um depósito de armas amaldiçoadas, e um halo escarlate se expandindo rapidamente pelo lençol branco.

— YUJI! — O grito de Nobara cortou o ar, mas não obteve resposta.

Duas semanas haviam se passado desde aquele momento de puro desespero. Duas semanas em que o mundo pareceu parar para os alunos do segundo ano e para Satoru Gojo. Shoko Ieiri havia feito milagres. A técnica de Reversão Amaldiçoada, combinada com a fisiologia sobre-humana de um receptáculo de Sukuna, havia impedido que Itadori morresse. O buraco no crânio havia fechado; a carne havia sido tecida novamente. Mas a alma... a alma era outra questão.

Megumi estava sentado na cadeira de madeira ao lado da cama do hospital na ala médica da escola. Ele observava Yuji, que estava sentado, escorado em três travesseiros. O olhar de Yuji estava fixo na janela, mas Megumi sabia que ele não estava vendo os pássaros ou as árvores. Ele estava olhando para o nada.

— O sol está bonito hoje, não está? — perguntou Megumi, sua voz suave, quase um sussurro.

Yuji levou longos segundos para reagir. Ele moveu a cabeça lentamente, um movimento mecânico e pesado. Seus olhos dourados, que antes brilhavam com uma intensidade ardente, agora pareciam feitos de vidro fosco.

— Sol... — a voz de Yuji saiu arrastada, as sílabas se atropelando. — Bonito... sim.

Ele deu um sorriso, mas não era o sorriso de Itadori Yuji. Era um repuxar de lábios assimétrico, vazio de compreensão.

A porta se abriu e Nobara entrou carregando uma sacola. Ela tentava manter a postura de durona, mas suas mãos tremiam ao colocar um pacote de salgadinhos sobre a mesa de cabeceira.

— Trouxe aqueles que você gosta, idiota — disse ela, forçando um tom casual. — Aqueles de milho que deixam os dedos laranjas.

Yuji olhou para o pacote. Ele estendeu a mão, mas seus dedos não pareciam obedecer ao comando do cérebro com precisão. Ele tateou o ar por um momento antes de tocar o plástico.

— Nobara... — ele disse, a voz lenta. — Você... olho... está bem?

Nobara sentiu uma pontada no peito tão forte que precisou respirar fundo para não chorar. Mesmo com o cérebro fragmentado, mesmo com a consciência oscilando, ele ainda se preocupava com o ferimento dela em Shibuya.

— Estou ótima, Yuji. Já te disse isso mil vezes — ela respondeu, sentando-se aos pés da cama. — Você é quem precisa melhorar logo para a gente ir ao shopping.

Yuji franziu a testa, um esforço visível de concentração cruzando seu rosto.

— Shopping... — ele repetiu. — Tinha... luzes. Muitas luzes. Dói.

— Tudo bem, a gente não precisa ir para um lugar com muitas luzes — Megumi interveio rapidamente, lançando um olhar de aviso para Nobara.

O diagnóstico de Shoko tinha sido devastador. Embora o corpo tivesse se curado, o trajeto do projétil havia causado danos neurológicos permanentes em áreas críticas do lobo frontal e temporal. O "novo" Yuji tinha dificuldades com a memória de curto prazo, afasia motora e uma hipersensibilidade a estímulos sensoriais. A depressão que o levara ao ato extremo não havia desaparecido; ela apenas fora substituída por uma névoa cognitiva que o impedia de processar a própria dor de forma completa.

— Fushiguro — chamou Yuji, virando-se para o amigo. — O... o senhor dentro de mim... ele foi embora?

Megumi engoliu em seco. Sukuna estava silencioso desde o incidente. Talvez o Rei das Maldições estivesse tão furioso com a tentativa de suicídio de seu hospedeiro que havia se recolhido às profundezas da alma de Yuji, ou talvez o dano cerebral também tivesse afetado a conexão entre eles.

— Ele está quieto, Yuji. Não se preocupe com ele agora.

— Ele gritava... — Yuji sussurrou, levando a mão à têmpora cicatrizada. — Antes de... "bang". Ele gritava muito. Agora... silêncio. O silêncio é... bom.

Nobara se levantou abruptamente e saiu para o corredor. Ela não aguentava mais. Megumi a seguiu, encontrando-a encostada na parede, com o rosto escondido nas mãos.

— Megumi, isso é pior do que se ele tivesse morrido — ela soluçou, a voz abafada. — Ele não está mais lá. É como se... como se tivessem apagado as cores dele. Ele nem consegue terminar uma frase sem se perder.

— Ele está vivo, Nobara — Megumi disse, embora sua própria voz estivesse carregada de incerteza.

— Vivo? Ele é uma sombra! — ela explodiu, olhando para ele com o olho que restava transbordando lágrimas. — Ele tentou se matar porque a gente não foi capaz de mostrar que ele tinha valor. E agora ele nem consegue entender por que está triste.

No final do corredor, Satoru Gojo observava a cena. Ele não usava a venda, e seus olhos Seis Olhos viam mais do que ele gostaria. Ele via o fluxo de energia amaldiçoada de Yuji — outrora vibrante e rítmico — agora lento, fragmentado, como um disco riscado que repetia a mesma nota infinitamente.

Gojo caminhou até os dois alunos e colocou as mãos em seus ombros.

— Shoko diz que há uma chance de melhora com o tempo — disse Gojo, mas não havia a confiança habitual em sua voz. — O cérebro humano é adaptável, e o de Yuji é mais do que humano.

— E se ele não melhorar, Sensei? — perguntou Megumi, olhando para a porta do quarto. — E se o preço de ele ter ficado conosco for... isso?

Gojo não respondeu imediatamente. Ele entrou no quarto de Yuji. O garoto estava tentando abrir o pacote de salgadinhos, mas suas mãos não coordenavam o movimento de rasgar o plástico. Ele parecia frustrado, os olhos começando a marejar.

— Deixe-me ajudar com isso, Yuji — disse Gojo, pegando o pacote e abrindo-o com facilidade.

Yuji olhou para cima, e por um breve segundo, houve um lampejo de reconhecimento mais profundo.

— Gojo-sensei... — ele sorriu, um sorriso mais simétrico desta vez. — Você... está sem a fita. Bonito.

— Obrigado, Yuji — Gojo sentou-se na beira da cama, ignorando todos os protocolos médicos. — Sabe, eu estava pensando em levar você para ver o mar quando você sair daqui. O que acha?

Yuji pegou um salgadinho e o levou à boca devagar. Ele mastigou, processando a pergunta.

— Mar... azul? — perguntou ele.

— Muito azul. E faz um barulho calmo. *Shhhhhhh*.

Yuji imitou o som, soltando uma pequena risada infantil que quebrou o coração de Gojo em mil pedaços.

— *Shhhhhh*... — Yuji repetiu. — Eu gosto. O barulho dentro da cabeça... é ruim. O mar... é bom.

Gojo passou a mão pelos cabelos rosados de seu aluno. Ele, o feiticeiro mais forte do mundo, o homem que podia manipular o infinito, era incapaz de consertar os fios partidos da mente daquele garoto. O sistema de jujutsu havia usado Yuji até que ele não aguentasse mais, e quando ele tentou escapar da única maneira que conhecia, o mundo o puxou de volta, deixando-o quebrado.

— Nós vamos cuidar de você, Yuji — prometeu Gojo. — Não importa o que aconteça. Você não precisa mais lutar. Não precisa mais ser um receptáculo. Só precisa... ser.

Yuji inclinou a cabeça para o lado, o olhar perdendo o foco novamente.

— Eu... — ele começou, mas a palavra morreu no ar. — Eu esqueci... o que ia dizer.

— Não tem problema — disse Megumi, que havia voltado para o quarto junto com Nobara. — A gente lembra para você.

Nobara sentou-se ao lado de Yuji e começou a comer o salgadinho com ele, fazendo piadas bobas sobre o sabor, enquanto Megumi lia em voz alta um livro de biologia que Yuji costumava estudar. Eles criaram uma bolha de normalidade forçada, um teatro de afeto para mascarar a tragédia.

Yuji ouvia as vozes de seus amigos como se estivessem vindo debaixo d'água. Às vezes, as palavras faziam sentido; às vezes, eram apenas sons reconfortantes. Ele sentia uma dor surda na parte de trás da cabeça, um lembrete constante do que havia feito, mas o calor da presença deles era mais forte.

Ele não se lembrava exatamente por que tinha sentido tanta vontade de sumir. As imagens de Shibuya eram como fotografias queimadas — ele sabia que eram terríveis, mas não conseguia mais sentir o peso total delas. De certa forma, o dano cerebral era uma misericórdia cruel; o cérebro havia se desligado para proteger o que restava da alma.

Ao cair da tarde, Yuji adormeceu no meio de uma frase de Megumi. Os três — Gojo, Megumi e Nobara — ficaram em silêncio, velando o sono do garoto que carregava o fardo do mundo.

— Ele vai ter dias ruins — sussurrou Shoko, aparecendo na porta com um relatório médico. — Dias em que ele não vai reconhecer vocês. Dias em que ele vai chorar sem saber o motivo. O dano é... permanente na estrutura, mas a consciência é um mistério.

— Nós não vamos desistir dele — afirmou Nobara, limpando uma lágrima teimosa.

— Nunca — completou Megumi.

Gojo olhou para a cicatriz na têmpora de Yuji. Ele sabia que os altos escalões do mundo Jujutsu veriam Yuji agora como uma ferramenta inútil, ou pior, como um perigo imprevisível. Mas ele também sabia que, enquanto respirasse, ninguém tocaria em Itadori Yuji.

O "raio de sol" da escola havia se transformado em uma lua pálida e fragmentada, mas para eles, aquela luz ainda era a única coisa que importava em meio à escuridão que os cercava. Eles aprenderiam a viver com o silêncio de Yuji, a traduzir seus olhares perdidos e a amar o que restara dele.

Porque, mesmo quebrado, Yuji ainda era o coração daquele grupo. E eles fariam qualquer coisa para garantir que, desta vez, ele nunca mais sentisse a necessidade de silenciar o próprio mundo.