Jujutsu kaisen
Fragmentos de um Espelho Dourado
O jardim da Escola de Jujutsu de Tóquio estava tingido pelas cores alaranjadas do outono. As folhas secas estalavam sob os pés, um som que, em outros tempos, Yuji adoraria imitar, fazendo ritmos bobos para irritar Megumi. Hoje, porém, ele apenas caminhava devagar, com a mão direita firmemente segurada por Nobara, enquanto Megumi seguia um passo atrás, atento a qualquer sinal de desequilíbrio ou fadiga.
Fazia um mês desde o incidente. Shoko finalmente dera alta para que Yuji circulasse pelo campus, sob a condição de que nunca ficasse sozinho. A "liberdade" era vigiada, mas para Yuji, cada metro fora da ala médica parecia uma expedição a um novo planeta.
— Olha, Yuji — disse Nobara, apontando para uma árvore de ginkgo cujas folhas pareciam ouro derretido. — Lembra que você tentou apostar com o Panda quem conseguia escalar aquela árvore mais rápido usando só uma mão?
Yuji parou. Ele inclinou a cabeça, os olhos semicerrados em um esforço de processamento que sempre fazia Megumi prender a respiração. O silêncio se estendeu por quase um minuto.
— Árvore... — Yuji murmurou. — Panda... ele é macio. Mas a árvore... é áspera. Dói a mão.
— Isso mesmo — incentivou Megumi, aproximando-se. — Você ralou o joelho todo naquele dia. Gojo-sensei riu tanto que quase caiu da varanda.
Yuji deu aquele sorriso assimétrico, o olhar ainda um pouco vago, mas havia uma centelha de algo ali.
— Gojo-sensei... — Yuji repetiu, a voz arrastada. — Ele tem... olhos de céu.
Nobara engoliu o nó na garganta e sorriu de volta.
— Sim, ele tem. E ele é um convencido por causa disso.
Eles continuaram o passeio até o refeitório. Gojo havia preparado uma surpresa: uma mesa cheia de guloseimas de Sendai, trazidas especialmente para tentar estimular as memórias de Yuji. Havia mochi de edamame, o favorito dele.
Ao entrar no recinto, o cheiro doce e terroso do preparo atingiu as narinas de Yuji. Algo aconteceu. Foi como se um interruptor de luz tivesse sido acionado em um quarto escuro por um breve segundo.
As costas de Yuji se endireitaram. O olhar perdido de repente ganhou foco, uma clareza cortante que Megumi não via há semanas. Yuji soltou a mão de Nobara e caminhou com passos firmes até a mesa.
— Kikufuku de zunda... — disse Yuji. A voz não estava arrastada. Estava clara, vibrante, carregada daquela energia juvenil que costumava ser sua marca registrada. — O vovô sempre dizia que o açúcar ajudava a aguentar as reclamações dele no hospital.
Megumi e Nobara congelaram no lugar. Gojo, que estava encostado na parede oposta, removeu os óculos escuros, os olhos azuis arregalados.
— Yuji? — chamou Gojo, a voz quase falhando.
Yuji virou-se para eles. Ele pegou um dos bolinhos e o jogou para o alto, pegando-o com a boca com uma agilidade perfeita.
— O que foi, pessoal? Parece que viram um fantasma. — Ele riu, uma risada aberta e genuína. — Fushiguro, sua cara está mais carrancuda que o normal. Kugisaki, esse tapa-olho novo ficou estiloso, mas não pense que vai me fazer esquecer que você ainda me deve cinquenta ienes daquela aposta no fliperama!
Nobara soltou um soluço que tentou disfarçar como uma tosse, correndo para abraçá-lo.
— Seu idiota! Você lembrou! Você está aí!
— Ei, ei, devagar, Kugisaki! — Yuji retribuiu o abraço com força, batendo de leve nas costas dela. — Eu só tive um apagão, eu acho. Mas caramba, que fome eu estou. Parece que não como nada decente há anos.
Megumi se aproximou, sua mão tremendo levemente ao tocar o ombro de Yuji.
— Você se lembra de Shibuya, Yuji? — perguntou ele, temendo a resposta, mas precisando saber.
O brilho nos olhos de Yuji vacilou por um milésimo de segundo, uma sombra de dor cruzando seu rosto, mas ele assentiu.
— Lembro. De tudo. Foi... horrível. Mas eu estou aqui agora, não estou? — Ele olhou para as próprias mãos. — Eu tentei... eu tentei fazer algo estúpido, não tentei? Desculpem. Eu não devia ter deixado vocês sozinhos.
Gojo deu um passo à frente, a aura de poder que sempre o cercava suavizada por uma emoção puramente humana.
— O importante é que você voltou para nós, Yuji.
Por dez minutos, o mundo voltou ao eixo. Eles riram, Yuji contou piadas, reclamou do gosto dos remédios da Shoko e até fez uma imitação perfeita do Nanami que fez todos caírem na gargalhada. Era como se o tempo tivesse voltado, como se a bala nunca tivesse atravessado seu crânio, como se a depressão tivesse sido apenas um pesadelo passageiro.
Mas então, o silêncio começou a retornar.
Yuji estava no meio de uma frase sobre o filme de terror que queria assistir.
— E aí o monstro sai da televisão e... e... — A voz dele começou a diminuir de volume.
O brilho nos olhos começou a se dissipar, como uma vela que se apaga por falta de oxigênio. Ele levou a mão à cabeça, franzindo a testa.
— E... televisão... — Yuji repetiu, a voz voltando ao tom arrastado e monótono. — O monstro... ele é... cinza.
O coração de Nobara despencou.
— Yuji? Continua, o que acontece com o monstro? — ela perguntou, a voz desesperada.
Yuji olhou para ela, mas o reconhecimento profundo havia partido. Ele piscou devagar, a boca entreaberta.
— Monstro... — ele sussurrou, olhando para o bolinho em sua mão como se fosse um objeto estranho. — Doce. É verde.
O lampejo de consciência havia durado exatamente doze minutos.
Megumi fechou os olhos, sentindo uma dor física no peito. Gojo apenas suspirou, recolocando os óculos. O "normal" era agora uma visita rara, um hóspede que não ficava para o café.
— Tudo bem, Yuji — disse Megumi, guiando-o de volta para a cadeira. — O monstro foi embora. Vamos comer o doce verde.
Nos dias seguintes, o padrão se repetiu. Eles o levaram a um fliperama em Akihabara. Por cinco minutos, Yuji destruiu todos os recordes no jogo de tiro, gritando instruções para Nobara como se estivessem em uma missão de nível especial. Depois, ele ficou parado diante de uma máquina de garra por meia hora, apenas observando as luzes piscarem, sem entender como colocar a moeda.
No parque de diversões, ele teve um momento de clareza enquanto comia algodão doce.
— Fushiguro — ele disse, olhando para o horizonte. — Obrigado por não me deixar ir. Eu sei que é difícil cuidar de alguém que nem sempre está aqui. Mas eu sinto... eu sinto o amor de vocês, mesmo quando não consigo falar.
Megumi não conseguiu responder; apenas apertou a mão de Yuji. Três minutos depois, Yuji estava perguntando quem era o "homem de preto" que estava andando com eles, referindo-se ao próprio Megumi.
A rotina de "lampejos" tornou-se a nova vida deles. Era uma montanha-russa cruel. Nobara chorava escondida todas as noites após um desses momentos, pois a volta ao estado de confusão parecia uma segunda perda, repetida várias vezes ao dia.
Certa tarde, eles o levaram à praia, atendendo ao desejo que ele expressara em seu estado mais vulnerável. O som das ondas era constante, um ritmo que parecia acalmar a mente fragmentada de Yuji.
Ele caminhava pela areia molhada, sentindo a água gelada nos pés. Gojo observava de longe, sentado em um tronco seco.
— Ele está melhorando, Satoru? — perguntou Shoko, que viera junto para monitorar a pressão intracraniana de Yuji.
— Fisicamente, ele é um milagre — respondeu Gojo. — Mentalmente... ele é como um rádio antigo. Às vezes a sintonia fica perfeita, a música toca clara. Mas a maior parte do tempo é apenas estática.
Yuji parou de repente. Ele olhou para o mar, para a vastidão azul que não tinha fim. Ele se virou para Megumi e Nobara, que estavam construindo um castelo de areia bobo para tentar distraí-lo.
— Pessoal — chamou Yuji.
Havia algo naquela voz. Não era apenas a clareza; era uma serenidade profunda.
— Venham aqui.
Eles se aproximaram rapidamente. Yuji não parecia o garoto hiperativo de antes, nem o garoto confuso de agora. Ele parecia... sábio. Como se o dano cerebral tivesse aberto uma porta para uma compreensão que os outros não possuíam.
— O mar é como a gente — disse Yuji, apontando para as ondas. — A onda vem, faz barulho, brilha no sol... e depois volta para o fundo. Ela não deixa de ser mar só porque não é mais onda.
— Yuji? — Nobara perguntou, os olhos já marejados. — Você está aí?
— Eu estou sempre aqui, Nobara — ele disse, sorrindo com uma doçura que partiu o coração dela. — Eu só não consigo encontrar o caminho para fora o tempo todo. É como se eu estivesse atrás de um vidro embaçado. Eu vejo vocês. Eu ouço vocês. Eu amo vocês. Mas às vezes as palavras se perdem no caminho para a boca.
Ele colocou as mãos nos ombros dos dois.
— Não fiquem tristes quando eu esquecer. Não fiquem bravos com o vidro embaçado. Lembrem-se que o mar ainda está lá, mesmo quando a onda some.
— Nós vamos tirar você de trás desse vidro, Yuji — prometeu Megumi, a voz embargada. — Custe o que custar.
Yuji balançou a cabeça devagar.
— Talvez o vidro seja minha proteção agora. O mundo era muito barulhento antes. Muitas mortes, muita culpa. Aqui... no silêncio... o Sukuna não consegue me tocar. Ele odeia o silêncio.
Aquela revelação atingiu Gojo como um soco. O suicídio não fora apenas uma fuga da dor, mas uma tentativa desesperada de neutralizar a maldição dentro dele. E o dano cerebral, por mais trágico que fosse, criara um labirinto onde nem mesmo o Rei das Maldições conseguia navegar. Yuji havia encontrado uma paz distorcida na própria fragmentação.
— Yuji... — Gojo se aproximou.
Yuji olhou para seu mestre.
— Sensei, não tente me consertar demais. Eu gosto de ver o mar com vocês. Isso é o suficiente.
O lampejo durou mais do que o comum. Foram quase vinte minutos de uma conversa profunda, onde Yuji parecia ter aceitado seu destino com uma resignação quase divina. Ele falou sobre o vovô, sobre como sentia falta de Nanami, e sobre como esperava que um dia Nobara e Megumi pudessem ser felizes sem carregar o peso de protegê-lo.
E então, como uma maré que recua, a clareza começou a sumir.
Yuji piscou repetidamente. Ele olhou para as próprias mãos cheias de areia e soltou um gritinho de surpresa.
— Sujo! — disse ele, rindo como uma criança. — Areia... entra nas unhas. Fushiguro, olha!
Ele começou a tentar fazer "bolinhos" de areia, esquecendo completamente a conversa transcendental que acabara de ter.
Nobara sentou-se na areia e começou a ajudá-lo, as lágrimas caindo silenciosamente e se misturando à água salgada. Megumi ficou de pé, guardando cada palavra que Yuji dissera em seu coração, como um tesouro a ser consultado nos dias de estática total.
Eles voltaram para a escola quando a lua já estava alta. Yuji adormeceu no banco de trás do carro, com a cabeça apoiada no ombro de Megumi. No silêncio da viagem, Gojo dirigia com uma calma incomum.
— Ele nos disse para não ficarmos tristes — sussurrou Nobara, olhando pela janela.
— Ele é mais forte do que todos nós juntos — respondeu Megumi. — Mesmo agora.
Naquela noite, Yuji sonhou. Em seu sonho, não havia vidros embaçados nem estática. Ele corria por um campo de flores com Nobara e Megumi, e o sol nunca se punha. Ele sabia que, ao acordar, o mundo voltaria a ser confuso e as palavras voltariam a fugir dele. Mas ele não tinha medo.
Porque ele sabia que, toda vez que ele se perdesse no labirinto de sua própria mente, haveria três pessoas esperando na entrada, prontos para segurar sua mão e guiá-lo de volta, nem que fosse por apenas cinco minutos de sol.
E para Itadori Yuji, o garoto que uma vez tentou apagar a própria luz para salvar o mundo, aqueles cinco minutos de amor eram mais do que suficientes para justificar toda a eternidade de silêncio.