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Jujutsu kaisen

O Labirinto de Vidro e o Eco do Sol

A brisa da manhã em Tóquio trazia um frescor que Yuji parecia sentir apenas na pele, pois seus olhos demoravam a processar a origem do vento. Fazia uma semana que Shoko Ieiri assinara sua liberação da ala médica, com a condição estrita de que ele nunca ficasse desacompanhado. O diagnóstico era uma cicatriz invisível: lesões permanentes no lobo frontal e temporal. O herói de Shibuya agora era um mosaico de peças que nem sempre se encaixavam.

Megumi e Nobara decidiram que o isolamento nos dormitórios seria o golpe final na sanidade que restava ao amigo. Eles criaram um itinerário. Não de missões, mas de vida.

— Vamos, Itadori! — Nobara exclamou, ajustando o tapa-olho e puxando-o pelo pulso com uma delicadeza que ela raramente demonstrava antes. — Hoje o Fushiguro vai gastar o salário de feiticeiro dele com a gente.

Yuji olhou para a mão dela, depois para o rosto. Ele levou alguns segundos para sorrir. Era um sorriso lento, que não alcançava totalmente o lado esquerdo da face, mas era genuíno.

— Fushiguro... dinheiro? — Yuji perguntou, as palavras saindo um pouco arrastadas, como se ele estivesse tateando cada sílaba no escuro.

— Sim, Itadori. Todo o dinheiro — Megumi respondeu, aproximando-se e colocando a mão no ombro do amigo para guiá-lo até o carro onde Gojo os esperava.

A primeira parada foi o Parque Ueno. O plano era simples: estímulos visuais, cores e sons da natureza. Enquanto caminhavam entre as árvores, Yuji parava a cada poucos metros. Ele tocava a casca de uma árvore com uma curiosidade infantil, fechando os olhos para sentir a textura.

— Árvore... áspera — sussurrou Yuji.

— Isso mesmo, Yuji — disse Gojo, que caminhava sem a venda, observando o fluxo de energia amaldiçoada do aluno, que agora parecia uma corrente de água interrompida por pedras. — Você sempre gostou de escalar essas.

De repente, Yuji parou diante de um grupo de crianças que corriam com balões coloridos. Ele ficou estático. Seus olhos dourados, que costumavam ser focados e vibrantes, agora pareciam janelas embaçadas.

— Onde... onde está o vovô? — ele perguntou subitamente, a voz tingida de uma angústia súbita.

Nobara sentiu um aperto no peito. Ela trocou um olhar rápido com Megumi.

— Yuji... o vovô... ele partiu, lembra? — Megumi disse suavemente, aproximando-se para ficar no campo de visão dele. — Mas nós estamos aqui.

Yuji franziu a testa, um esforço visível de concentração cruzando seu rosto. Ele levou a mão à cicatriz na têmpora, o lugar onde a bala havia traçado um caminho de esquecimento.

— Ah... — ele suspirou, e a confusão deu lugar a uma apatia mansa. — Partiu. Sim. Flores.

Eles seguiram para o burburinho de Akihabara. Nobara achou que as luzes e os sons dos arcades poderiam "acordar" algo nele. O barulho era ensurdecedor, e por um momento, Yuji pareceu sobrecarregado. Ele cobriu as orelhas, o corpo tremendo levemente.

— Muita... muita gente gritando — murmurou ele.

— Vamos sair daqui, Nobara, é demais para ele — Megumi começou a dizer, mas antes que pudessem se mover, um som específico cortou a confusão: o tema de um jogo de luta que Yuji costumava jogar obsessivamente.

Yuji virou a cabeça. Seus olhos se dilataram. Ele caminhou até a máquina, empurrando suavemente um adolescente que estava lá. Suas mãos, que antes tremiam, moveram-se para o joystick com uma memória muscular assustadora.

— Round One. Fight! — a voz sintética da máquina anunciou.

Por três minutos, o mundo parou. Os dedos de Yuji voavam pelos botões. Ele executava combos complexos com uma precisão que desafiava seu estado neurológico. Um círculo de pessoas começou a se formar, impressionadas com a habilidade do garoto de olhar vago.

— Toma essa! — Yuji gritou de repente. A voz estava limpa. Firme. — Kugisaki, olha o especial! Fushiguro, aprende como se faz!

Nobara e Megumi prenderam a respiração. Aquele era o Yuji. O brilho estava lá, a postura era a de um lutador, a consciência estava presente e afiada.

— Isso, Itadori! Acaba com ele! — Nobara gritou, as lágrimas começando a arder em seu olho bom.

Yuji venceu a partida com um "Perfect". Ele se virou para os amigos, rindo, uma gargalhada ruidosa que ecoou pelo arcade.

— Viram só? Ninguém me vence no "Street Fighter"! — Ele deu um passo à frente e abraçou os dois ao mesmo tempo. — Eu senti falta disso. Senti falta de vocês. Obrigado por me tirarem daquele hospital chato.

— Yuji... — Megumi começou, a voz embargada. — Você se lembra? De tudo?

— Lembro — Yuji disse, sua expressão tornando-se séria por um momento. — Lembro de Shibuya. Lembro do que eu tentei fazer. Eu sinto muito, pessoal. Eu estava tão cansado daquelas vozes... do Sukuna... eu achei que o silêncio seria melhor. Mas ver vocês agora... é muito melhor que o silêncio.

Gojo aproximou-se, um sorriso triste nos lábios. Ele sabia o que os Seis Olhos estavam lhe dizendo: a atividade cerebral de Yuji havia tido um surto de reconexão, mas a energia estava se dissipando rapidamente. Era um lampejo, uma estrela cadente.

— Você é incrível, Yuji — disse Gojo, bagunçando o cabelo rosado dele.

— Sensei... — Yuji olhou para ele, e por um segundo, a profundidade do seu olhar era a de alguém que carregava o peso do mundo. — Cuide deles por mim. Às vezes o vidro fica muito grosso e eu não consigo ver o caminho de volta.

— Eu vou — prometeu Gojo.

E, tão rápido quanto veio, a luz se apagou.

Yuji piscou. Ele olhou para o joystick, depois para as próprias mãos. O sorriso vibrante murchou para aquela expressão de dúvida mansa.

— Jogo... — ele disse, a voz voltando a ser lenta. — Tem luzes. Bonito.

Nobara soltou um soluço abafado, escondendo o rosto no ombro de Megumi. A crueldade daquela doença era o "quase". Quase ele. Quase de volta.

— Tudo bem, Yuji — Megumi disse, recompondo-se com um esforço hercúleo. — Vamos comer. Você deve estar com fome.

A última parada do dia foi um pequeno restaurante de ramen em uma rua lateral tranquila. Era o lugar favorito de Yuji antes de tudo mudar. O dono, um senhor idoso que conhecia o apetite do rapaz, colocou uma tigela fumegante de tonkotsu ramen à sua frente.

Yuji pegou os hashis. Ele olhou para o vapor subindo da comida.

— Nanami-san... — ele sussurrou.

Megumi parou com a colher no meio do caminho.

— O que tem o Nanami, Yuji?

— Ele disse... — Yuji fechou os olhos, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. — Ele disse que eu cuidasse do resto. Mas o resto... é pesado, Fushiguro. É muito pesado.

— Você não precisa carregar o resto sozinho, idiota — Nobara disse, batendo com o hachi na borda da tigela dele. — Nós estamos dividindo o peso. Um terço para cada.

Yuji olhou para ela. Ele não teve um lampejo de clareza total como no arcade, mas houve um entendimento emocional. Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Nobara, limpando uma mancha de farinha que ela tinha na bochecha.

— Nobara... forte — ele disse. — Fushiguro... bom.

Ele começou a comer. Comia devagar, saboreando cada pedaço, algo muito diferente do devorador de comida que ele costumava ser. O dano cerebral o forçara a viver no presente absoluto. Ele não conseguia planejar o amanhã e o ontem era um labirinto de sombras, então o gosto do caldo quente era a coisa mais importante do universo naquele momento.

Enquanto comiam, Gojo observava-os do balcão. Ele via a dor de Megumi e Nobara, a forma como eles celebravam cada pequena frase coerente e como escondiam o sofrimento quando Yuji se perdia no meio de um pensamento.

— É uma existência fragmentada — Shoko havia lhe dito no dia da liberação. — Mas para alguém que queria deixar de existir, talvez esses fragmentos sejam o começo de algo novo.

Ao saírem do restaurante, a lua já estava alta. Yuji caminhava entre os dois amigos, segurando a manga do casaco de cada um. Ele parecia cansado, a energia mental gasta pelas experiências do dia.

— Olhem — Yuji disse, apontando para a lua crescente.

— O que foi, Itadori? — perguntou Megumi.

— Ela está... quebrada — Yuji disse, apontando para a parte escura da lua. — Mas ainda brilha.

Nobara sorriu, segurando a mão de Yuji com força.

— É verdade. Ela ainda brilha muito.

Eles voltaram para a Escola de Jujutsu no silêncio do carro. Yuji adormeceu no banco de trás, com a cabeça apoiada na janela. No reflexo do vidro, a cicatriz em sua cabeça era visível sob a luz dos postes de rua.

Quando chegaram aos dormitórios, Megumi ajudou Yuji a sair do carro. O garoto estava sonolento, os passos trôpegos.

— Fushiguro? — Yuji chamou, quando estavam na porta do quarto dele.

— Sim?

— Amanhã... — Yuji fez uma pausa longa, lutando com as palavras. — Amanhã... a gente vai de novo?

Megumi sentiu um calor estranho no peito. Não importava se Yuji esqueceria o dia de hoje. O fato de que ele queria um "amanhã" era a maior vitória que poderiam ter alcançado.

— Sim, Itadori. Amanhã, e depois, e depois. Todos os dias.

Yuji assentiu, satisfeito.

— Bom. Amanhã... eu quero ver o mar. O mar é... grande. Cabe tudo lá.

— Combinado. Vamos ver o mar.

Depois que Yuji entrou e a porta se fechou, Megumi e Nobara ficaram no corredor por um longo tempo. Eles sabiam que a jornada seria exaustiva. Haveria dias em que Yuji não saberia os nomes deles. Dias em que a frustração o faria chorar sem parar por não conseguir expressar um pensamento simples. Mas haveria também os lampejos. Os momentos em que o sol voltaria a brilhar através do vidro quebrado.

— Ele ainda está lá, Megumi — Nobara sussurrou, encostando a cabeça na parede. — Em algum lugar, no fundo daquele labirinto, o nosso idiota ainda está lá.

— Eu sei — Megumi respondeu, olhando para a porta de madeira. — E nós vamos continuar entrando lá para buscá-lo. Quantas vezes forem necessárias.

Lá dentro, Yuji deitou-se na cama. Ele olhou para o teto, onde algumas estrelas de plástico que ele colara meses atrás ainda brilhavam no escuro. Por um breve momento, antes do sono profundo o levar, ele se lembrou de uma última coisa.

Ele se lembrou do calor do abraço de seus amigos no arcade. Ele não lembrava do jogo, nem das luzes, nem da pontuação. Mas lembrava do calor.

— Eu não estou sozinho — ele sussurrou para o quarto vazio.

E, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio em sua mente não era um abismo de desespero, mas um cobertor de paz. O "raio de sol" de Tóquio podia estar fragmentado, mas, como a lua que ele apontara, ele ainda encontrava uma maneira de brilhar na escuridão.