Jujutsu kaisen juai 2
Sob a Máscara da Humanidade
O desejo de Mahito era algo insaciável, uma fome que não se limitava apenas à destruição, mas que agora se ramificava em uma curiosidade carnal obsessiva. Desde aquela primeira noite na casa na árvore, a maldição parecia ter descoberto um novo brinquedo, e Hitoshi Konami era o único que possuía as peças para montá-lo. Mahito havia se tornado, em termos humanos, um ninfomaníaco. Sempre que o feiticeiro ruivo subia os degraus de corda, o ar já estava carregado. Não importava se Hitoshi estava exausto das missões com Itadori ou se suas olheiras estavam mais profundas que o normal; Mahito não se cansava, sua energia amaldiçoada o mantinha em um estado de prontidão perpétua que um corpo humano simplesmente não conseguia acompanhar.
Hitoshi, apesar de suas tendências masoquistas e do prazer sombrio que sentia ao ser usado pela maldição, estava chegando ao seu limite físico. Suas coxas estavam constantemente marcadas, seu pescoço era um mapa de mordidas escondidas sob a gola alta do uniforme, e a fadiga o consumia. Foi por isso que, em uma tarde chuvosa, Mahito propôs algo que Hitoshi nunca esperaria de uma maldição de nível especial.
— Hitoshi-kun, vamos sair daqui — disse Mahito, balançando as pernas enquanto observava a chuva. — Vamos para um hotel. Um daqueles bem grandes e brilhantes que os humanos usam para "descansar".
Hitoshi piscou, surpreso.
— Um hotel? Mahito, você tem noção do risco? Se algum feiticeiro sentir sua energia...
— Eu sei me esconder, você sabe disso — interrompeu Mahito com um sorriso travesso. — E eu quero ver como é viver como vocês por uma noite inteira. Sem o cheiro de mofo desta árvore.
Hitoshi suspirou, mas a ideia de uma cama de verdade e um banho quente era tentadora demais para recusar. Naquela noite, sob o manto da escuridão e com Mahito usando uma técnica de ocultação de presença que o fazia parecer um humano comum (embora estranhamente bonito e retalhado), eles fizeram o check-in em um hotel de luxo na periferia de Tóquio.
A primeira parada foi a piscina. A água estava morna e o ambiente quase vazio. Hitoshi mergulhou, sentindo os músculos relaxarem, enquanto Mahito brincava com a água, mudando a densidade do próprio corpo para boiar de formas impossíveis. No entanto, a paz durou pouco. Uma jovem, atraída pela aura misteriosa e pelos cabelos ruivos de Hitoshi, aproximou-se da borda.
— Oi... você está sozinho? — perguntou ela, com um sorriso que Mahito reconheceu instantaneamente como um sinal de interesse.
Hitoshi abriu a boca para responder, mas sentiu a temperatura do ar cair. Mahito, que estava submerso, emergiu logo atrás dele, seus olhos heterocromáticos brilhando com uma malevolência que ele mal se dava ao trabalho de esconder. A mão da maldição começou a se contorcer, pronta para tocar o rosto da garota e transformá-la em algo irreconhecível.
— Mahito, não! — Hitoshi segurou o pulso dele por baixo da água, apertando com força. — Agora não.
— Ela está tocando o que é meu com os olhos — sibilou Mahito, a voz baixa e perigosa.
— Ela é só uma humana. Esqueça. Vamos comer — ordenou Hitoshi, usando o tom de autoridade que Mahito, estranhamente, parecia apreciar.
A maldição relaxou, mas não antes de lançar um olhar tão predatório para a garota que ela saiu apressada, sentindo um calafrio inexplicável.
Eles subiram para o quarto e pediram pizza. Mahito devorava as fatias com uma alegria quase infantil, sujando o canto da boca com molho.
— A culinária humana é realmente uma das poucas coisas que vocês fizeram certo — comentou Mahito, pegando mais um pedaço de pepperoni. — O sabor é... complexo. Como as almas de vocês.
— É — concordou Hitoshi, recostado na cabeceira da cama, observando a TV. — Às vezes, o prazer está nas coisas simples.
Um filme de romance passava na tela. Duas pessoas juravam amor eterno sob a luz da lua. Mahito parou de comer por um momento, observando a cena com uma inclinação de cabeça. Ele olhou para Hitoshi, depois para a tela, e novamente para o feiticeiro. Por um breve segundo, uma engrenagem girou em sua mente distorcida. *O que eu sinto por ele é como isso?* Mas logo ele soltou uma risada seca e descartou o pensamento. Ele era uma maldição, nascida do ódio humano. Ele não amava; ele possuía.
Mais tarde, eles saíram para caminhar pelos arredores do hotel, onde um pequeno festival local acontecia. Entre as luzes de neon e o cheiro de yakisoba, Hitoshi parou diante de uma barraca de tiro ao alvo. Seus olhos vermelhos brilharam ao ver uma pelúcia de cobra verde, com olhos grandes e bobos.
— Gostou daquilo? — perguntou Mahito.
— É... diferente — murmurou Hitoshi, tentando manter sua fachada fria.
Mahito não disse nada. Ele simplesmente caminhou até a barraca, pagou pelas rolhas e, usando uma precisão sobre-humana que o dono da barraca jamais entenderia, acertou todos os alvos em segundos. Ele entregou a cobra a Hitoshi com um movimento teatral.
— Para você, meu feiticeiro favorito.
Eles foram em vários brinquedos, Mahito rindo alto na montanha-russa enquanto Hitoshi sentia o estômago revirar, mas, pela primeira vez em anos, o peso da depressão parecia um pouco mais leve. Quando voltaram para o hotel, o clima mudou. A diversão deu lugar a uma tensão elétrica.
Hitoshi foi para o banho primeiro, tentando lavar o cansaço do dia. Quando saiu, vestindo apenas um roupão branco, encontrou Mahito sentado na beira da cama. A maldição o observava com uma intensidade que fazia os pelos do braço de Hitoshi se arrepiarem. Era um olhar de fome.
— Hitoshi-kun... eu estou com fome — disse Mahito, sua voz descendo uma oitava.
— Mahito, eu estou exausto... o dia foi longo — tentou argumentar o ruivo, embora seu coração já estivesse acelerado.
— Esqueceu? — Mahito levantou-se, caminhando lentamente até ele. — Hoje, eu estou no comando. Você prometeu.
Hitoshi sentiu o rosto queimar. A submissão que ele sentia por Mahito era sua droga particular. Ele abaixou a cabeça, as raízes pretas de seu cabelo emoldurando sua expressão rendida.
— Tudo bem — sussurrou Hitoshi. — Não precisa se segurar. Eu aguento.
Mahito sorriu, um corte largo e predatório em seu rosto. Ele empurrou Hitoshi para a cama e, seguindo as lições que o próprio feiticeiro lhe dera, começou as preliminares. Mas Mahito era uma maldição; ele não se limitava à anatomia humana. Ele transformou sua língua, tornando-a longa, flexível e áspera em pontos estratégicos, explorando o corpo de Hitoshi de uma forma que nenhum humano conseguiria.
— O seu gosto... é incrível — murmurou Mahito contra a pele de Hitoshi. — Amargo, mas viciante.
Hitoshi já não conseguia mais raciocinar. Ele estava fraco, entregue aos estímulos que Mahito providenciava. Quando a maldição finalmente decidiu que a brincadeira havia acabado, ele entrou em Hitoshi com uma brutalidade que fez o feiticeiro perder o fôlego. Não houve delicadeza. Mahito era uma força da natureza, agressivo e rítmico, cada estocada fazendo a estrutura da cama de luxo ranger e protestar.
Hitoshi tentava falar, mas os sons que saíam de sua garganta eram apenas gemidos desconexos e súplicas silenciosas. Em um momento de puro êxtase e descontrole, Mahito deixou sua natureza amaldiçoada assumir o controle total. Ele transformou sua mão direita em uma lâmina de osso afiada e, sem hesitar, a cravou no ombro de Hitoshi.
O grito de dor do feiticeiro ecoou pelo quarto abafado. O sangue começou a escorrer, manchando os lençóis brancos de um vermelho vibrante. Hitoshi arqueou as costas, a dor e o prazer se fundindo em uma sinfonia caótica em seu cérebro. Ele estava babando, os olhos revirados, enquanto Mahito se inclinava para lamber o sangue que brotava da ferida.
— Eu sei que você gosta disso — sussurrou Mahito no ouvido dele, a voz carregada de triunfo. — Eu sinto sua alma vibrando com essa dor.
Hitoshi, incapaz de articular palavras, apenas assentiu com a cabeça, entregando-se ao abismo que era Mahito.
Horas depois, o quarto estava em silêncio, exceto pelo som da TV ligada em um volume baixo. Mahito estava sentado na cama, com as pernas cruzadas em forma de borboleta, o cabelo preso em um coque improvisado. Ele assistia a um desenho animado qualquer enquanto mastigava a última fatia de pizza fria, parecendo a criatura mais inocente do mundo, se ignorássemos o sangue em suas mãos.
Do outro lado da cama, Hitoshi estava encolhido, coberto por um lençol, sentindo cada centímetro de seu corpo pulsar de dor. Ele olhava para o teto, a mente nublada.
— Por que... por que eu deixo você fazer isso? — murmurou Hitoshi, a voz rouca e fraca.
Mahito deixou a pizza de lado e se arrastou até ele. Com uma delicadeza surpreendente, ele afastou o cabelo de Hitoshi e depositou um beijo suave em sua testa, exatamente onde o suor ainda secava.
— Não se preocupe, Hitoshi-kun. Eu vou cuidar de você — disse Mahito, sua voz soando estranhamente sincera. — Você é meu brinquedo favorito.
Hitoshi fechou os olhos, o cansaço finalmente vencendo a dor. Ele adormeceu em poucos minutos, mergulhando em um sono pesado.
Mahito não dormiu. Ele nunca precisava. Durante o resto da noite, ele ficou ali, imóvel, observando o peito de Hitoshi subir e descer. Ele observou as cicatrizes que ele mesmo causara, a palidez da pele do ruivo e a forma como suas sobrancelhas se contraíam mesmo durante o sono.
Pela primeira vez, Mahito sentiu algo que não era apenas fome ou curiosidade. Era um peso no que ele supunha ser sua alma. Ele se perguntou por que se importava se aquele humano morreria ou não, por que sentia essa necessidade de tê-lo por perto, não apenas para observar seu sofrimento, mas para sentir sua presença.
— Sentimentos... — murmurou Mahito para a escuridão do quarto. — Que coisa irritante.
Ele estendeu a mão e tocou a bochecha de Hitoshi com as pontas dos dedos frios.
— Não importa o que seja — concluiu ele com um sorriso sombrio. — Desde que você seja meu. Para sempre.
Lá fora, o sol começava a dar os primeiros sinais de vida, mas dentro daquele quarto, o tempo pertencia apenas à maldição e ao feiticeiro que, em meio ao caos, haviam encontrado uma forma distorcida de pertencimento.