Jujutsu kaisen juai 2
O Peso do Acolhimento e a Sombra do Caos
O retorno à Escola Jujutsu de Tóquio foi como mergulhar em um balde de água gelada após um febre intensa. O sol da tarde batia contra as janelas do corredor, mas para Hitoshi Konami, a luz parecia agressiva demais para seus olhos vermelhos e cansados. Cada passo que ele dava era um lembrete físico da noite anterior no hotel; uma pontada aguda na base da coluna e um latejar constante no ombro, onde a ferida causada por Mahito ainda ardia sob o curativo improvisado e o uniforme pesado.
Ele tentava manter sua postura fria e ereta, mas não conseguia evitar uma leve claudicação.
— Hitoshi! Ei, você está aí! — A voz vibrante de Yuuji Itadori ecoou pelo pátio.
Hitoshi parou, forçando um suspiro a sair de seus pulmões antes de se virar. Yuuji corria em sua direção com aquele sorriso solar que parecia capaz de purificar qualquer energia negativa. Megumi estava ocupado com Gojo em uma missão de reconhecimento, o que deixava os dois sozinhos para o treinamento da tarde.
— Oi, Itadori — respondeu Hitoshi, sua voz soando mais arrastada do que o normal.
Yuuji parou na frente dele, franzindo o cenho imediatamente. Seus olhos castanhos percorreram o rosto pálido do ruivo, detendo-se nas olheiras profundas.
— Cara, você parece que foi atropelado por um caminhão de lixo — disse Yuuji, genuinamente preocupado. — E você está mancando? O que aconteceu?
— Só um treino noturno que passou do ponto — mentiu Hitoshi, desviando o olhar. — Eu encontrei uma maldição de nível baixo perto da floresta. Ela era rápida, acabei caindo de um lugar alto e me machucando. Nada que um descanso não resolva.
Yuuji pareceu aceitar a desculpa, mas antes que pudesse dizer algo, uma boca rasgou-se subitamente na bochecha do garoto. A voz de Sukuna, carregada de um escárnio milenar, preencheu o ar.
— Que mentira descarada, garoto — disse o Rei das Maldições, rindo. — Itadori, como você pode ser tão cego? Esse moleque fede. Ele fede a uma maldição específica... uma daquelas pragas retalhadas. Ele está impregnado com o cheiro daquele desgraçado.
Hitoshi sentiu o sangue fugir de seu rosto. Seu coração martelou contra as costelas, o pânico subindo pela garganta como bile.
— Cale a boca, Sukuna! — Yuuji deu um tapa na própria bochecha, fazendo a boca desaparecer, embora a risada ecoasse por um segundo na mente de ambos. — Desculpe por isso, Hitoshi. Ele só gosta de falar merda para tentar nos desestabilizar.
— Tudo bem — murmurou Hitoshi, as mãos tremendo levemente dentro dos bolsos.
O dia seguiu de uma forma estranhamente doméstica. Como Hitoshi não tinha condições de treinar fisicamente, Yuuji sugeriu que eles apenas relaxassem. Eles assistiram a filmes no dormitório de Yuuji, comeram ramen instantâneo e conversaram sobre coisas triviais. Era um contraste absurdo com a violência estética de Mahito. Yuuji era quente, seguro e doce.
Em um momento de silêncio, enquanto o sol começava a se pôr, Yuuji olhou para Hitoshi com uma expressão séria, mas carinhosa.
— Sabe, o Fushiguro... eu sei que ele gosta de mim. De um jeito diferente — começou Yuuji, coçando a nuca.
Hitoshi sentiu um aperto no peito.
— Eu sei. É óbvio para qualquer um que preste atenção.
— E eu gosto dele também — continuou Yuuji, aproximando-se um pouco mais no sofá. — Mas... eu também gosto de você, Hitoshi. De verdade.
Hitoshi congelou. O tempo pareceu parar. O conflito interno que ele vinha tentando abafar explodiu em seu peito. Como ele poderia ser alvo do afeto de alguém tão puro como Itadori, enquanto carregava as marcas de Mahito em sua alma? Ele se sentia sujo, um traidor de dois mundos. Ele gostava de Yuuji, da paz que ele trazia. Mas ele também desejava o caos, a dor e a submissão que só a maldição retalhada lhe proporcionava.
— Yuuji... — começou ele, mas as palavras morreram.
Yuuji não esperou. Ele se inclinou e selou seus lábios nos de Hitoshi. Foi um beijo calmo, com gosto de chá de cevada e sinceridade. Diferente dos beijos de Mahito, que eram predatórios e cheios de dentes, o beijo de Yuuji era um convite, um pedido de entrada.
Eles acabaram indo para o dormitório de Hitoshi, onde a luz da lua filtrava-se pelas cortinas entreabertas. Quando as roupas foram deixadas de lado, Yuuji parou, seus olhos fixos no ombro de Hitoshi. O curativo estava levemente manchado de sangue.
— Hitoshi... isso foi a maldição que você enfrentou? — perguntou Yuuji, a voz falhando de preocupação. Ele tocou a borda da ferida com a ponta dos dedos, com uma delicadeza que fez Hitoshi querer gritar.
— Sim — mentiu Hitoshi novamente, fechando os olhos. — Foi uma luta difícil.
Yuuji inclinou-se e depositou um beijo suave sobre o curativo.
— Quando for assim, me chame — sussurrou Yuuji contra a pele dele. — Eu vou te ajudar. Você não está mais sozinho, Hitoshi. Eu vou te proteger.
Aquelas palavras foram como facas. Hitoshi sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. O peso da bondade de Yuuji era quase insuportável para alguém que se sentia tão quebrado.
— Por favor... não pare — pediu Hitoshi, a voz embargada. — Só... continue. Até eu não conseguir mais pensar em nada.
O ato que se seguiu foi o oposto da noite anterior. Yuuji era cuidadoso, sempre perguntando se Hitoshi estava confortável, parando para beijar suas mãos, seu rosto, sussurrando palavras de incentivo e afeto. Hitoshi, acostumado a ser comandado e usado, sentia-se perdido naquela ternura. Ele queria que Yuuji fosse mais forte, que o machucasse para apagar a culpa, mas Yuuji apenas o envolvia em um calor humano que ele não sentia há anos.
Hitoshi se esforçava para retribuir, para ser o parceiro que Yuuji merecia, mas sua mente trapaceava, trazendo flashes de Mahito rindo enquanto o mordia. Ele se odiava por isso.
Quando tudo terminou, Yuuji o abraçou apertado, os corpos suados e as respirações voltando ao normal.
— Isso foi incrível, Hitoshi — disse Yuuji, sorrindo contra o pescoço dele.
— Foi... foi sim — respondeu Hitoshi, embora sua expressão permanecesse distante, a máscara de frieza voltando ao lugar.
Yuuji deu um último beijo em sua bochecha e levantou-se para se vestir.
— Boa noite. Tente dormir um pouco, tá? Você precisa se recuperar.
— Boa noite, Yuuji.
Assim que a porta do dormitório se fechou e o som dos passos de Itadori desapareceu pelo corredor, Hitoshi desabou. Ele enterrou o rosto no travesseiro e chorou. Não era um choro de alívio, mas de desespero absoluto.
Ele amava o acolhimento de Yuuji, a sensação de ser visto como um ser humano digno de proteção. Mas, no fundo de seu âmago distorcido, uma parte dele gritava pelo retorno da floresta. Ele sentia falta do perigo, do cheiro de morte de Mahito, da forma como a maldição o tratava como um objeto precioso e descartável ao mesmo tempo.
Ele se sentia um monstro. Como podia querer voltar para a criatura que representava tudo o que seus amigos lutavam para destruir? Ele estava traindo a confiança de Yuuji, a amizade de Megumi e sua própria humanidade.
Hitoshi olhou para a cobra de pelúcia que Mahito ganhara para ele no festival, jogada em um canto do quarto. Depois, olhou para o lugar na cama onde Yuuji acabara de estar.
Ele estava dividido entre o sol que o curava e a escuridão que o definia. E, naquela noite, enquanto o silêncio da escola o envolvia, Hitoshi Konami soube que, não importava o quanto tentasse ser bom, ele sempre acabaria voltando para os braços da maldição.
Porque o caos era o único lugar onde ele não precisava fingir que ainda tinha uma alma para ser salva.