Jujutsu kaisen juai 2
O Reencontro das Almas Perdidas e o Grito do Silêncio
O asfalto de Shibuya estava tão desgastado quanto a alma de Hitoshi. Ele e Mahito haviam passado as últimas horas em um ciclo frenético de violência, enfrentando feiticeiros reencarnados que viam o mundo apenas como um tabuleiro de pontuação. Hitoshi sentia cada músculo de seu corpo protestar; a ferida em seu peito, embora fechada pela intervenção de Jaakuna, ainda pulsava com uma memória fantasmagórica de dor. Mahito, por sua vez, não estava melhor. Sua energia amaldiçoada estava instável, e o uniforme da escola que ele vestia estava tão rasgado que mal servia para cobri-lo.
Foi então que o viram. No meio de uma avenida deserta, cercado por restos de carros capotados, Yuuji Itadori caminhava com os ombros curvados, carregando o peso de um mundo que ele não conseguiu salvar.
Hitoshi não pensou. Ele não calculou os riscos ou a estratégia. Simplesmente correu.
— Yuuji! — gritou ele, a voz falhando.
Itadori virou-se bruscamente, os punhos cerrados e prontos para o combate, mas congelou. Seus olhos castanhos, marcados por uma tristeza profunda, arregalaram-se em puro choque. Antes que o receptáculo de Sukuna pudesse processar a imagem, Hitoshi colidiu contra ele em um abraço desesperado, apertando-o com tanta força que ambos quase caíram.
— Você está vivo... você está aqui... — Hitoshi murmurou contra o ombro de Yuuji, sua voz embargada, beirando o pranto, mas com aquele tom desajeitado de quem não sabe lidar com sentimentos puros. — Me desculpa, Yuuji! Por favor, me desculpa por tudo! Eu sou um idiota, um completo imbecil ruivo que não sabe fazer nada direito! Eu quase morri, você me matou, mas eu voltei, e eu juro que não queria ter te deixado daquele jeito!
Yuuji permaneceu estático por alguns segundos, os braços pendendo ao lado do corpo, completamente perplexo.
— Hitoshi...? — A voz de Yuuji saiu em um sussurro falho. — Mas... eu vi. Eu senti o golpe atravessar você. Eu achei que...
— Eu sei, eu sei! Foi um caos, mas eu tô aqui! — Hitoshi afastou-se um pouco, limpando as lágrimas com as costas da mão de um jeito meio patético e cômico. — Eu sou persistente como uma barata, você sabe disso.
A expressão de alívio de Yuuji, porém, durou pouco. Seus olhos se moveram para trás de Hitoshi, e sua pele ficou pálida. A poucos metros dali, encostado em um poste com uma indiferença calculada, estava Mahito. O uniforme azul-escuro da Escola Jujutsu contrastava grotescamente com suas cicatrizes.
— VOCÊ! — O grito de Yuuji ecoou pela avenida. Em um milésimo de segundo, suas pernas se moveram, e ele avançou como um tiro na direção da maldição, o punho brilhando com uma energia amaldiçoada azulada.
— Não! Yuuji, para! — Hitoshi se jogou no caminho, estendendo os braços.
Itadori parou a centímetros do rosto de Hitoshi, o vento do golpe bagunçando os cabelos ruivos do feiticeiro.
— Sai da frente, Hitoshi! Esse desgraçado matou a Nobara! Ele matou o Nanamin! Eu vou acabar com ele agora!
— Ele está do nosso lado agora! — gritou Hitoshi, suando frio. — Eu sei que parece loucura, eu sei que soa como se eu tivesse perdido o juízo, mas ele mudou!
Mahito, surpreendentemente, não retribuiu a agressão. Quando Yuuji avançou, a maldição apenas levantou as mãos em um gesto de rendição sarcástica, recuando um passo. Seus olhos heterocromáticos brilhavam com um desprezo profundo, mas ele não fez menção de atacar.
— Não encoste em mim, receptáculo — disse Mahito, a voz carregada de uma arrogância defensiva. — Eu não tenho interesse em tocar na sua alma imunda hoje.
— O que você fez com ele, Hitoshi? — perguntou Yuuji, a voz tremendo de ódio.
— Eu sobrecarreguei a alma dele, Yuuji — explicou Hitoshi, tentando acalmar a respiração. — No meu domínio... eu injetei cada grama de dor e empatia que eu tinha. O desgraçado desenvolveu uma consciência. Ele me salvou em Shibuya. Ele sacrificou parte da própria essência para me trazer de volta.
Itadori olhou de Hitoshi para Mahito, a confusão lutando contra a sede de vingança. Lentamente, ele relaxou os punhos, embora sua postura continuasse tensa como uma mola.
— De nada por salvar o seu amiguinho, a propósito — provocou Mahito, cruzando os braços. — Se dependesse da sua pontaria, ele estaria adubando as flores de Shibuya agora.
— Cala a boca, Mahito! — Hitoshi ralhou, antes de se voltar para Yuuji. — Viemos para ajudar. Queremos fazer o que for preciso para parar o Kenjaku e acabar com esse jogo.
Yuuji soltou um suspiro pesado, parecendo envelhecer dez anos em um segundo.
— Eu não sei se consigo confiar nele... mas não tenho muito o que fazer por agora. O mundo está um caos, e eu perdi o rastro do Fushiguro.
O momento de trégua, contudo, foi brutalmente interrompido. Um som agudo de metal cortando o ar fez com que os três se abaixassem simultaneamente. Uma lâmina de energia pura passou por onde a cabeça de Yuuji estava um segundo antes.
— Vocês são difíceis de despistar — disse uma voz calma e melancólica.
Yuta Okkotsu aterrissou suavemente sobre o teto de um ônibus capotado. Rika, a Rainha das Maldições, manifestou-se parcialmente atrás dele, suas garras arranhando o metal com um som estridente.
— Você de novo? — resmungou Mahito, revirando os olhos. — Esse cara é como um carrapato de nível especial.
— Yuuji Itadori — disse Yuta, desembainhando sua katana. — Eu tenho ordens. E agora vejo que você está acompanhado por uma maldição e um traidor. Isso só facilita o meu trabalho.
— Yuta, espera! — tentou Yuuji. — O Hitoshi é meu amigo, e o Mahito... bem, o Mahito é uma longa história, mas ele não está atacando!
— As ordens não permitem exceções, Itadori-kun — respondeu Yuta, e em um piscar de olhos, ele desapareceu.
O combate explodiu com uma violência avassaladora. Yuuji e Hitoshi saltaram juntos contra Yuta. Hitoshi tentava usar sua Sobrecarga Empática para criar aberturas, mas a reserva de energia de Yuta era tão vasta que ele conseguia repelir a influência mental com pura força de vontade. Yuuji trocava golpes de curta distância, seus punhos colidindo contra a lâmina da katana em faíscas de energia amaldiçoada.
Enquanto isso, Mahito enfrentava o seu pior pesadelo: Rika.
— Que coisa feia você é — provocou Mahito, embora sua voz traísse o cansaço. — Mas eu já cansei de brincar de ser fraco.
Mahito fechou os olhos e concentrou o que restava de sua essência. Sua pele começou a borbulhar e a endurecer, transformando-se em uma couraça cinzenta e brilhante. Seus membros se alongaram e sua face foi coberta por uma máscara óssea.
— ISOU KOROSHI! — rugiu ele, assumindo sua forma de Alma Verdadeira.
O monstro que Mahito se tornou investiu contra Rika. O choque foi sísmico. Mahito conseguia desferir golpes que faziam a Rainha das Maldições recuar, mas ele sentia sua energia drenar como água em uma peneira. Ele não conseguiria manter aquela forma por muito tempo.
— Hitoshi, saia daí! — gritou Mahito, percebendo que Rika estava preparando um ataque de área.
Mas era tarde demais. Rika soltou um rugido que gerou uma onda de choque física. Hitoshi, que estava tentando flanquear Yuta, foi atingido em cheio pela lateral do impacto. Seu corpo foi arremessado contra uma parede de concreto com uma força brutal. O som do impacto foi seco, e Hitoshi caiu no chão, imóvel, mergulhando na inconsciência.
— HITOSHI! — Yuuji gritou, distraindo-se por um milésimo de segundo.
Foi o erro fatal. Yuta aproveitou a abertura com uma precisão cirúrgica. Em um movimento que pareceu um borrão de luz, a katana de Yuta atravessou o peito de Yuuji Itadori.
O tempo pareceu parar. O sangue de Yuuji espirrou no asfalto, e o brilho em seus olhos começou a se apagar.
Mahito, vendo a cena, sentiu uma fúria que não era sua, mas um reflexo da dor que Hitoshi sentira por aquele garoto. Ele desfez sua forma verdadeira, exausto, e tentou avançar contra Yuta com o que restava de suas forças.
— SEU DESGRAÇADO! — Mahito saltou, as mãos prontas para transfigurar qualquer coisa que tocasse.
Yuta Okkotsu, porém, nem sequer se virou. Ele apenas levou a mão livre à boca, canalizando a técnica que copiara.
— **Durma.** — A ordem de Yuta, infundida com a Fala Amaldiçoada de Inumaki, atingiu Mahito como um martelo pneumático.
A consciência da maldição foi apagada instantaneamente. O corpo de Mahito colapsou no chão, ao lado do corpo sem vida de Yuuji e do corpo inconsciente de Hitoshi.
Yuta Okkotsu embainhou sua espada, o silêncio retornando à avenida de Shibuya, enquanto a neve começava a cair sobre os derrotados.