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Jujutsu kaisen juai

Ecos de um Coração Vazio

Duas semanas haviam se passado desde que Hitoshi Konami cruzara os portões da Escola Jujutsu de Tóquio. Para alguém que sofria de insônia crônica, o tempo não passava em dias, mas em uma névoa contínua de olheiras e café amargo. No entanto, algo havia mudado. O silêncio que antes o sufocava agora era preenchido pela presença de Megumi Fushiguro.

Hitoshi sentia-se atraído pela quietude de Megumi. Enquanto Itadori era um sol barulhento e Nobara um furacão de ego, Megumi era como um lago profundo e escuro — calmo na superfície, mas com correntes complexas por baixo. Para um manipulador de sentimentos, aquela profundidade era viciante. Hitoshi se pegava observando Megumi invocar seus Cães Divinos, admirando a precisão dos gestos e a seriedade no olhar do moreno. Era uma paixão silenciosa, que ardia como a brasa de um cigarro na escuridão do seu quarto.

— Você está encarando de novo, Konami — comentou Megumi, sem desviar os olhos do livro que lia no pátio.

Hitoshi, encostado em uma pilastra com as mãos nos bolsos da calça escura, deu um sorriso de canto, as raízes pretas de seu cabelo ruivo parecendo ainda mais evidentes sob o sol da tarde.

— Eu não estou encarando. Estou analisando seu estado emocional. Você parece... menos tenso hoje.

— É difícil ficar tenso com o Itadori gritando sobre filmes de terror a cada cinco minutos — Megumi fechou o livro, finalmente olhando para Hitoshi. — E você? Conseguiu dormir mais que três horas?

— Duas e meia. Um recorde pessoal — Hitoshi respondeu com sua voz monocórdica, sentindo um formigamento masoquista no peito pelo simples fato de Megumi ter notado seu cansaço. — A dor de cabeça é quase um abraço a essa altura.

A conversa foi interrompida pela chegada abrupta de Gojo, que trazia consigo uma missão que mudaria tudo.

O cenário era um centro de detenção juvenil. A energia amaldiçoada que emanava do local era opressiva, um cheiro de carne podre e desespero que fazia os pelos do braço de Hitoshi se arrepiarem. Assim que entraram, a realidade começou a se dobrar. O interior do prédio era um labirinto impossível, corredores que mudavam de lugar e escadarias que levavam a lugar nenhum.

— Mantenham o foco! — gritou Megumi, assumindo a liderança.

Maldições de nível baixo começaram a brotar das paredes como fungos. Eram dezenas, centenas, rastejando com sons de estalos ósseos.

— Deixa comigo — disse Hitoshi, dando um passo à frente. Ele estendeu as mãos, os dedos longos e pálidos traçando padrões no ar carregado. — *Sinfonia da Autofagia*.

Hitoshi não apenas mudava o sentimento; ele os distorcia. As maldições que avançavam pararam bruscamente. A agressividade delas foi convertida em uma fome autodestrutiva. Elas começaram a morder os próprios membros, rasgando-se em um frenesi de desespero.

— Agora, Megumi! — Hitoshi exclamou, sua voz ganhando um tom de urgência que raramente mostrava.

— Cães Divinos! — Megumi invocou as sombras, que saltaram sobre as maldições paralisadas e confusas, despedaçando-as com uma eficiência brutal.

Eles se moveram em sincronia, um balé de sombras e manipulação mental. Hitoshi sentia a energia de Megumi próxima à sua, uma química que parecia transcender o campo de batalha. Por um momento, em meio ao caos, Hitoshi permitiu-se pensar que talvez houvesse uma chance. Que talvez ele não fosse apenas uma sombra passageira na vida do Fushiguro.

Mas então, o feto amaldiçoado se manifestou.

A pressão espiritual era esmagadora. Era um Nível Especial. O plano de fuga foi traçado às pressas. Itadori, com aquele heroísmo suicida que Hitoshi tanto desprezava e, secretamente, invejava, decidiu ficar para trás para ganhar tempo.

— Vão! Agora! — gritou Itadori, o rosto suado, mas o sorriso ainda teimoso.

Hitoshi tentou sentir as emoções dele uma última vez antes de correr. Havia medo, sim, mas havia uma determinação que brilhava tanto que chegava a cegar sua percepção empática. E, no fundo, uma conexão com Megumi que Hitoshi não queria admitir que existia.

A saída do prédio foi um borrão. A chuva começou a cair, pesada e fria, lavando o sangue de seus rostos. Eles esperaram. Nobara estava ferida, Megumi estava em frangalhos, e Hitoshi... Hitoshi sentia um buraco negro se abrindo em seu estômago.

Quando a notícia veio, o mundo pareceu perder o som. Yuji Itadori estava morto. O receptáculo de Sukuna não resistira.

O retorno para a escola foi feito em um silêncio sepulcral. Nos dias que se seguiram, a atmosfera era de chumbo. Nobara se isolara em seu quarto, descontando a raiva em sacos de pancada. Hitoshi, no entanto, sentia o peso da culpa esmagando seus pulmões.

"Eu sou o problema", pensava ele, encarando o teto do quarto durante mais uma noite em claro. "Eu lido com a tristeza, eu atraio a desgraça. É o meu azar que contaminou a missão."

Naquela noite, ele encontrou Megumi sentado nos degraus de pedra perto do dormitório. O moreno olhava para o nada, a chuva fina molhando seu uniforme. Hitoshi aproximou-se lentamente, o coração batendo de um jeito doloroso.

— Megumi — chamou ele, a voz falhando levemente.

Megumi não se virou, mas seus ombros relaxaram um milímetro.

— Konami. Também não consegue dormir?

— O sono nunca foi meu amigo, você sabe disso — Hitoshi sentou-se ao lado dele, respeitando o espaço, mas querendo desesperadamente encurtá-lo. — Eu queria dizer que... sinto muito. Por tudo.

Megumi suspirou, o vapor da respiração sumindo no ar frio.

— Não foi sua culpa. Fizemos o que podíamos.

— Talvez não — disse Hitoshi, seus olhos vermelhos brilhando com uma intensidade melancólica. — Eu deveria ter forçado uma emoção de autopreservação nele. Eu deveria ter sido mais rápido. Escuta, Megumi... eu sei que sou uma pessoa difícil. Eu sei que sou quebrado e que, às vezes, sou um saco. Mas... você pode contar comigo. Pra tudo. Mesmo.

Hitoshi falou as últimas palavras com uma vulnerabilidade que o assustava. Ele estava se expondo, oferecendo-se como um pilar, mesmo sendo um pilar rachado. Ele olhou para Megumi, esperando qualquer sinal — um toque, um olhar mais demorado, uma confirmação de que ele era importante.

Megumi finalmente virou o rosto. Seus olhos estavam nublados pela dor da perda.

— Obrigado, Hitoshi. Eu aprecio isso. De verdade. Você é um bom amigo.

Hitoshi sentiu um impacto invisível no peito. "Bom amigo". A zona de segurança que ele tanto temia. Mas o pior ainda estava por vir.

Instintivamente, sem que pudesse controlar, a técnica de Hitoshi se ativou. Como um rádio sintonizando uma frequência indesejada, ele sentiu as emoções de Megumi naquele exato momento. Ele esperava sentir luto, raiva ou vazio. E ele sentiu tudo isso, mas, no centro de tudo, como uma ferida aberta e pulsante, havia uma saudade específica.

Uma saudade de Yuji Itadori.

Não era apenas a perda de um companheiro de equipe. Era o eco de um sentimento profundo, uma conexão que Megumi ainda não tinha processado totalmente, mas que estava lá, enraizada na alma dele. Megumi não estava apenas de luto por um amigo; ele estava de luto por alguém que ocupava um espaço que Hitoshi jamais alcançaria.

Hitoshi desviou o olhar rapidamente, sentindo o gosto amargo da bile na garganta. Ele achou que tinha feito progresso, achou que sua utilidade na missão e sua confissão agora pudessem significar algo. Mas sua própria maldição o traíra, dando-lhe a resposta que ele não queria ter.

— É — disse Hitoshi, levantando-se bruscamente, a voz agora fria como o gelo. — Amigos. É pra isso que servem os companheiros de equipe, não é?

Megumi franziu o cenho, confuso com a mudança repentina de tom.

— Konami? Está tudo bem?

Hitoshi já estava dando as costas, caminhando em direção às sombras do corredor.

— Está tudo ótimo, Fushiguro. Só lembrei que o café acabou. E eu vou precisar de muito café para sobreviver ao resto dessa semana.

Enquanto caminhava, Hitoshi sentiu a risada seca de sua própria consciência. Ele, o mestre dos sentimentos, fora derrotado por um sentimento que não podia manipular: a realidade de que o coração de Megumi já tinha um dono, mesmo que esse dono estivesse, supostamente, debaixo da terra.

Ele entrou no quarto e fechou a porta, encostando a testa na madeira fria. As raízes pretas de seu cabelo pareciam agora uma metáfora perfeita para sua vida: não importava o quanto ele tentasse pintar de vermelho vibrante, a escuridão sempre acabava voltando.

— Que se dane — sussurrou ele para o silêncio, enquanto uma única lágrima de frustração queimava seu rosto. — Eu disse que trazia azar.

Naquela noite, Hitoshi Konami não tentou dormir. Ele apenas sentou-se na janela, observando a chuva e aceitando que, no mundo dos feiticeiros, a dor era a única coisa que nunca morria. E para um masoquista como ele, talvez aquele fosse, afinal, o seu lugar.

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