Jujutsu kaisen juai
Entre Sombras e Sorrisos de Marfim
O tempo na Escola Jujutsu de Tóquio tinha uma maneira peculiar de distorcer a percepção da realidade. Para Hitoshi Konami, os meses que se seguiram à morte — e ao subsequente "ressurgimento" milagroso — de Yuji Itadori serviram para recalibrar sua própria bússola interna. O nó que sentia no peito em relação a Megumi Fushiguro não havia desaparecido por completo, mas havia se transformado. A paixão ardente e melancólica deu lugar a uma admiração silenciosa e estável. Hitoshi aprendeu a aceitar que o coração de Megumi era um território complexo e que, talvez, a amizade fosse o único solo onde ele poderia caminhar sem tropeçar em suas próprias inseguranças.
Hitoshi agora lidava com Megumi com uma naturalidade que surpreendia até a si mesmo. Ele ainda notava os detalhes — a forma como Megumi franzia o cenho ao se concentrar, ou a gentileza oculta em seus gestos bruscos —, mas a dor aguda de não ser o "escolhido" havia sido substituída por um desprendimento cínico, típico de sua personalidade. Ele era um Konami, afinal; ele sentia tudo intensamente, mas também sabia como sufocar esses sentimentos quando eles se tornavam inconvenientes.
O que ele não esperava, entretanto, era se tornar o novo projeto de estimação de Satoru Gojo.
— Konami-kun! — A voz de Gojo ecoou pelo corredor, vibrante e irritante como um despertador em uma manhã de segunda-feira. — Eu estava pensando... e quando eu penso, coisas incríveis acontecem.
Hitoshi parou de caminhar, fechando os olhos por um segundo e soltando um suspiro pesado. Suas raízes pretas estavam ainda mais aparentes agora, e ele não se dera ao trabalho de retocar o ruivo. Ele parecia, como sempre, alguém que não dormia desde a era Heian.
— Se envolver pensamento, Gojo-sensei, eu provavelmente vou ter dor de cabeça — respondeu Hitoshi, virando-se para encarar o homem mais forte do mundo. — O que foi agora?
— Que falta de entusiasmo! — Gojo aproximou-se, baixando levemente a venda para que um de seus olhos azuis infinitos brilhasse em direção ao rapaz. — Eu andei analisando seus relatórios. Sua Manipulação de Sentimentos é... interessante. Mas você a usa como um bisturi, sempre com medo de cortar demais. Eu quero que você a use como uma granada.
— Eu prefiro o bisturi — retrucou Hitoshi, cruzando os braços. — É mais limpo. E menos cansativo.
— Mas não é eficiente contra o que está por vir. Deixe-me treiná-lo pessoalmente. Vamos expandir os limites dessa sua melancolia.
Hitoshi soltou uma risada seca, sem humor.
— Não, obrigado. Eu já treino com a Nobara e o Maki-senpai. Estou bem.
— Eles ensinam você a lutar. Eu vou ensinar você a dominar a psique humana — insistiu Gojo, seguindo-o como uma sombra persistente. — Imagine, Hitoshi, não apenas induzir tristeza, mas criar um vácuo existencial tão grande que a maldição simplesmente desiste de existir.
— Isso soa terrivelmente trabalhoso — murmurou Hitoshi, acelerando o passo.
Gojo não desistiu. Durante uma semana inteira, ele apareceu nos momentos mais inoportunos. Ele interrompeu o café da manhã de Hitoshi, apareceu no telhado enquanto o rapaz tentava ter um momento de paz com sua insônia e até mesmo surgiu debaixo de uma árvore enquanto Hitoshi conversava com Megumi.
— Konami-kun, o treinamento! — Gojo cantarolava.
— Gojo-sensei, vá amolar o Nanami — Hitoshi respondia, cada vez mais irritado.
Finalmente, após Gojo prometer que pararia de segui-lo se ele aceitasse apenas uma sessão de sparring, Hitoshi cedeu. Ele estava exausto, e a persistência de Gojo era mais desgastante do que qualquer técnica amaldiçoada.
Eles foram para o campo de treinamento isolado nos fundos da escola. O sol estava se pondo, pintando o céu com tons de violeta e laranja que lembravam a Hitoshi a cor de seus próprios olhos em um dia bom.
— Regras simples — disse Gojo, removendo a jaqueta do uniforme e ficando apenas com a camisa escura. — Você tenta me tocar. Pode usar sua técnica, pode usar força bruta, o que quiser. Eu vou apenas desviar.
— Você vai usar o Infinito? — perguntou Hitoshi, ajustando as luvas de combate.
— Não seria justo, seria? Vou deixar você chegar perto.
A luta começou de forma previsível. Hitoshi era rápido, mas Gojo era um borrão de elegância e deboche. Cada soco que Hitoshi desferia encontrava apenas o ar, e cada tentativa de projetar uma onda de apatia parecia escorregar pela aura de Gojo como água em vidro.
— Mais força, Hitoshi! — provocou Gojo, girando sobre os calcanhares. — Onde está aquele masoquismo que dizem que você tem? Use a dor como combustível!
Hitoshi sentiu uma pontada de irritação genuína. Ele parou por um momento, limpando o suor da testa. Ele não usou sua técnica. Em vez disso, ele respirou fundo e avançou com uma estratégia puramente física que Maki o ensinara, mas com um toque pessoal. Ele fingiu um ataque alto, mas no último segundo, girou o corpo em um ângulo baixo, usando o peso morto para tentar rasteirar o mestre.
Quando Gojo saltou para desviar, Hitoshi já estava lá em cima, não para golpear, mas para agarrar o pulso de Gojo com uma precisão cirúrgica. Por um breve milésimo de segundo, o contato físico aconteceu. Hitoshi olhou diretamente para Gojo, seus olhos vermelhos afiados e brilhantes sob a luz do crepúsculo. Naquele momento, ele apenas sorriu — um sorriso de canto, carregado de uma confiança sombria e uma leve pitada de arrogância, enquanto dizia em voz baixa:
— Peguei você.
Gojo estancou. O sorriso brincalhão desapareceu de seu rosto instantaneamente.
Por um momento eterno, o mundo pareceu parar. Gojo não viu Hitoshi Konami à sua frente. Por causa do ângulo da luz, daquele sorriso específico e daquela expressão de desafio silencioso, uma imagem do passado o atingiu como um soco no estômago. Ele viu Suguru Geto. Ele viu o amigo que perdera, o homem que compartilhara sua juventude e que agora era apenas uma cicatriz em sua memória.
A mão de Gojo tremeu levemente. Ele se afastou bruscamente, quebrando o contato.
Hitoshi ficou confuso. Ele não havia ativado a Manipulação de Sentimentos. Ele tinha certeza disso.
— Gojo-sensei? — chamou Hitoshi, a voz voltando ao tom frio e reservado. — Tudo bem? Eu... eu nem usei a técnica.
Gojo levou a mão ao rosto, ajustando a venda com uma pressa que não combinava com sua postura habitual. Ele soltou uma risada curta, mas que soou oca.
— Sim, sim! Tudo ótimo. Eu só... me distraí com um pensamento. Você tem movimentos interessantes, Konami-kun. Por hoje é só.
Sem mais uma palavra, Gojo virou as costas e caminhou para longe, deixando Hitoshi sozinho no campo de treinamento, mergulhado na confusão.
Mais tarde, em seu escritório, Satoru Gojo encarava a paisagem noturna de Tóquio. Ele se questionava sobre o que acabara de sentir. Nostalgia? Com certeza. Mas havia algo mais. Hitoshi Konami tinha uma aura que o intrigava. Não era apenas a semelhança momentânea com Geto; era a maneira como o rapaz carregava seu próprio abismo com uma dignidade melancólica.
— Interessante — murmurou Gojo para si mesmo, um sorriso diferente surgindo em seus lábios. — Muito interessante.
Nos dias que se seguiram, o treinamento continuou, mas a dinâmica mudou. Gojo não era mais apenas o instrutor irritante; ele começou a lançar indiretas que deixavam Hitoshi em um estado constante de perplexidade.
Durante um treino de resistência, Gojo se aproximou por trás de Hitoshi, sussurrando perto de seu ouvido:
— Sabe, Konami-kun, você fica muito mais bonito quando está focado em me derrotar do que quando está reclamando da falta de sono.
Hitoshi quase tropeçou nos próprios pés.
— O que... o que isso tem a ver com o treinamento de energia amaldiçoada? — gaguejou o ruivo, sentindo as orelhas queimarem.
— Tudo! — respondeu Gojo, rindo e afastando-se. — A motivação é a chave para a expansão da alma.
Em outra ocasião, enquanto Hitoshi tomava café sozinho no refeitório, Gojo sentou-se à sua frente, apoiando o queixo nas mãos.
— Eu estava pensando... se você conseguir manipular sentimentos tão bem, o que acontece se você tentar induzir algo como... devoção absoluta? Ou talvez, um interesse súbito por homens mais velhos e incrivelmente poderosos?
Hitoshi engasgou com o café, tossindo violentamente.
— Gojo-sensei, isso é assédio ou apenas uma piada de muito mau gosto?
— Quem sabe? — Gojo piscou por trás da venda. — O mistério faz parte do charme.
Hitoshi estava cada vez mais confuso. Ele sabia que Gojo era um excêntrico, mas as investidas pareciam estar cruzando uma linha que ele não sabia como mapear. Ele tentou conversar com Nobara sobre isso, mas a prima apenas deu de ombros.
— Ele é o Gojo. Provavelmente está tentando te desestabilizar para ver como sua técnica reage sob pressão romântica ou algo idiota assim. Não ligue para ele.
Mas era difícil não ligar. Especialmente quando Hitoshi se pegava pensando naquelas frases durante suas noites de insônia.
O ápice daquela tensão ocorreu em uma noite chuvosa, na varanda de madeira dos dormitórios. Hitoshi estava sentado ali, observando as gotas de chuva caírem, quando sentiu a presença de Gojo. O mestre não estava fazendo barulho, o que era um sinal perigoso.
— Ainda acordado, Hitoshi? — Gojo sentou-se ao lado dele, desta vez sem a venda, revelando os olhos que pareciam conter todo o céu noturno.
— É o que eu faço de melhor, infelizmente — respondeu Hitoshi, tentando manter a voz firme, embora seu coração estivesse batendo contra as costelas como um animal enjaulado.
— Você é muito duro consigo mesmo — disse Gojo, sua voz baixando para um tom suave e sedutor que Hitoshi nunca ouvira antes. Ele se inclinou para frente, encurtando a distância entre eles. — Você se vê como alguém quebrado, mas esquece que o vidro quebrado brilha muito mais sob a luz certa.
Hitoshi sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Ele não era bom com elogios, muito menos com flertes diretos. Ele era o tipo de pessoa que preferia uma martelada de Nobara a um comentário galanteador.
— Você... você fala muita besteira, sabe disso? — Hitoshi desviou o olhar, tentando esconder a vermelhidão que subia por seu pescoço.
Gojo soltou uma risada baixa, um som vibrante que pareceu ressoar nos ossos de Hitoshi. Ele estendeu a mão e, com extrema delicadeza, tocou o queixo do rapaz, forçando-o a olhar de volta para aqueles olhos azuis impossíveis.
— Veja só — sussurrou Gojo, aproximando o rosto. — O grande manipulador de emoções está ficando envergonhado? Isso é muito fofo, Hitoshi.
Hitoshi ficou paralisado. O toque de Gojo era quente e seguro, um contraste gritante com a chuva fria que caía a poucos metros dali. Ele queria se afastar, mas seu corpo masoquista parecia deleitar-se com a tensão, com a incerteza e com a proximidade perigosa do homem à sua frente.
— Eu não estou... fofo — conseguiu dizer Hitoshi, embora sua voz tenha saído como um sussurro trêmulo.
Gojo sorriu, um sorriso que não era de deboche, mas algo muito mais predatório e, ao mesmo tempo, fascinado. Ele interpretou a hesitação e o rubor de Hitoshi como um sinal verde, uma confirmação de que o interesse era mútuo, mesmo que Hitoshi estivesse apenas em curto-circuito interno por causa de sua timidez crônica.
— Sabe — disse Gojo, sua respiração agora roçando os lábios de Hitoshi —, eu acho que o nosso treinamento vai ficar muito mais interessante a partir de agora.
Hitoshi abriu a boca para responder, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele estava preso entre o desejo de fugir para a segurança de sua melancolia e a tentação de se perder no infinito daqueles olhos azuis. A tensão entre eles era tão palpável que parecia uma maldição por si só, uma força invisível que os puxava um para o outro em meio ao som rítmico da chuva no telhado da Escola Jujutsu.