Jujutsu kaisen juai
Doce Amargor e a Geometria dos Afetos
O sol de sábado filtrava-se pelas janelas do dormitório da Escola Jujutsu, mas Hitoshi Konami não estava ali para aproveitá-lo. Ele terminava de ajustar o casaco escuro sobre a camiseta preta, observando o reflexo no espelho. Suas raízes ruivas estavam impecáveis — o carmesim artificial servindo como um escudo contra as memórias alheias. Ele avisara a Nobara e a Megumi que sairia para "encontrar um amigo". Nobara apenas erguera uma sobrancelha, desconfiada, mas estava ocupada demais tentando convencer Maki a ir ao shopping para interrogá-lo.
Hitoshi saiu dos portões da escola com as mãos nos bolsos, sentindo o fio invisível de sua técnica vibrar. Ele não precisava de mapa; a energia de Mahito era um farol caótico que o atraía para os distritos menos movimentados de Tóquio.
Eles se encontraram em um beco coberto por grafites, onde a maldição das costuras o esperava, sentada no topo de uma lixeira com uma expressão de tédio profundo.
— Você demorou — resmungou Mahito, saltando para o chão com uma leveza desumana. — Achei que tinha desistido da nossa "pesquisa".
— Eu disse que vinha, não disse? — Hitoshi respondeu, sem se abalar pela irritação da maldição. — Hoje eu decidi que vamos fazer algo diferente. Eu costumo sair sozinho para fazer coisas de humano quando tenho folga. Pense nisso como um "encontro".
Mahito arqueou uma sobrancelha, as cicatrizes de seu rosto repuxando em uma careta de confusão.
— Um encontro? Tipo aqueles humanos patéticos que ficam se segurando e trocando fluidos bucais?
— Menos romance e mais experiência sensorial, Mahito — Hitoshi começou a caminhar, fazendo um sinal para que a maldição o seguisse. — Vamos apenas... existir na cidade.
A primeira parada foi uma cafeteria pequena e sofisticada, escondida em uma ruela charmosa. O aroma de grãos torrados e açúcar caramelizado era quase denso. Hitoshi escolheu uma mesa nos fundos, longe das janelas. Mahito, usando uma forma humana ligeiramente mais discreta, mas ainda mantendo suas marcas características, olhava para tudo com uma desconfiança infantil.
— Por que aqui? — perguntou Mahito, cutucando o guardanapo de papel. — O cheiro é enjoativo.
— Porque eu amo os doces daqui — explicou Hitoshi, seu tom de voz perdendo um pouco da frieza habitual. — É um dos poucos prazeres que minha insônia não consegue tirar de mim.
Logo, uma garçonete trouxe uma pequena bandeja com macarons coloridos. As cores vibrantes — azul, rosa, verde-limão — pareciam joias sobre a porcelana branca.
— Você já experimentou doce antes? — Hitoshi perguntou, observando a curiosidade surgindo nos olhos heterocromáticos de Mahito.
— Por que eu faria isso? Eu me alimento de medo e almas — respondeu a maldição, embora seus olhos não saíssem da bandeja.
Hitoshi pegou um macaron azul, a cor lembrando o céu de um dia frio. Com um movimento calmo, ele levou o doce em direção à boca de Mahito.
— Experimenta.
Mahito congelou. O rosto da maldição esquentou de uma forma que ele não conseguia controlar. Ele olhou para Hitoshi, depois para o doce, e finalmente abriu a boca, permitindo que Hitoshi o alimentasse. Assim que seus dentes quebraram a crosta fina e o recheio cremoso derreteu em sua língua, os olhos de Mahito se arregalaram.
— Isso é... — Mahito mastigou devagar, a expressão de raiva desaparecendo completamente. — É doce. E frio. E... estranho. Eu posso pegar mais um?
— Pode pegar todos se quiser — Hitoshi deu um meio sorriso, sentindo uma pontada de satisfação ao ver a maldição tão vulnerável a algo tão simples.
Mahito não precisou de um segundo convite. Ele devorou os macarons com uma sofreguidão curiosa, analisando cada sabor como se estivesse dissecando uma alma. Quando terminaram e Hitoshi pagou a conta, eles se dirigiram à saída.
— Escolha mais um doce na vitrine — disse Hitoshi, parando diante do balcão de vidro. — Eu compro para você levar.
— Não precisa — resmungou Mahito, tentando retomar sua postura de superioridade, embora ainda estivesse limpando um farelo azul do canto da boca.
— Eu insisto. Escolha.
Mahito olhou para a variedade de bolos e tortas antes de apontar para um donut generoso, coberto com glacê de morango e granulados coloridos. Hitoshi comprou o doce e entregou a caixa para a maldição, que a segurou como se fosse um artefato raro.
O resto do dia passou em uma calma surreal. Eles caminharam por uma livraria, onde Hitoshi comprou alguns volumes de um mangá de terror psicológico que acompanhava. Mahito observava as capas, comentando como as ilustrações de monstros eram "anatomicamente incorretas", o que fez Hitoshi soltar uma risada curta e genuína.
Mais tarde, sentaram-se em um banco de madeira em uma praça arborizada. O entardecer pintava o céu de laranja e violeta. Ao redor deles, a vida acontecia: crianças correndo, idosos caminhando e, principalmente, casais. Mahito observava um par de namorados sentados em um banco próximo, trocando confidências e sorrisos tímidos.
A maldição virou-se para Hitoshi, a confusão estampada em seu rosto.
— Eles parecem... completos — disse Mahito, a voz desprovida de seu deboche habitual. — Por que os humanos buscam tanto isso? Essa necessidade de se fundir emocionalmente a outro?
Hitoshi olhou para os casais e depois para as próprias mãos.
— É a geometria dos afetos, Mahito. O mundo é um lugar frio e vazio. As pessoas buscam alguém que preencha os espaços que elas não conseguem alcançar sozinhas. É uma tentativa desesperada de não desaparecer no próprio silêncio.
Mahito inclinou a cabeça, processando a informação.
— E você? Você está bem? Eu estou sendo tão interessante quanto você achou que eu seria? Ou sou apenas outro espaço vazio?
Hitoshi olhou diretamente para ele. Naquele momento, Mahito não parecia o monstro que matava por diversão, mas apenas uma criatura tentando entender o roteiro de uma peça na qual não fora escalado.
— Até que sim — respondeu Hitoshi. — Ser humano não parece ser tão insuportável quando você está por perto para me lembrar do quão caótico o mundo pode ser.
— Você é um tipo esquisito de humano, Konami — disse Mahito, dando uma mordida no donut de morango. — A maioria luta para viver. Você parece estar apenas... resistindo.
— Eu estou fazendo o máximo para ficar vivo, Mahito — Hitoshi levantou-se, limpando a calça. — E, por hoje, acho que foi o suficiente.
O caminho de volta para a Escola Jujutsu foi silencioso. Mahito desapareceu nas sombras da floresta que cercava a instituição, levando consigo a caixa vazia e uma sensação nova que ele ainda não sabia nomear.
Hitoshi entrou nos corredores da escola sentindo o peso do dia nos ombros. Ele estava exausto, mas era uma exaustão diferente — menos mental e mais física. Enquanto caminhava em direção ao seu dormitório, uma figura enérgica surgiu no final do corredor.
— Konami-kun! — Yuji Itadori acenou, correndo em sua direção com aquele sorriso solar que parecia iluminar até os cantos mais escuros da escola. — Você voltou! Estávamos procurando por você.
— Fui resolver umas coisas na rua, Itadori — Hitoshi respondeu, tentando manter sua fachada reservada, embora a presença de Yuji sempre tornasse isso difícil.
— Ah, que pena! Eu, o Fushiguro e a Kugisaki estávamos indo comer alguma coisa agora. Quer vir com a gente? — Itadori parou na frente dele, os olhos brilhando de expectativa.
— Eu acabei de chegar, Itadori. Acho que vou apenas tomar um banho e descansar — Hitoshi deu um passo para trás, sentindo-se sobrecarregado pela energia do outro. — Mas obrigado pelo convite.
Itadori não pareceu ofendido. Pelo contrário, seu sorriso suavizou.
— Tudo bem, eu entendo. Você parece cansado. Mas olha, eu vou trazer um pouco de udon para você mais tarde, beleza? Eu sei que você gosta daquele com tempura.
Antes que Hitoshi pudesse protestar, Itadori deu um passo à frente e o envolveu em um abraço rápido e apertado. O gesto foi tão repentino e carregado de um carinho genuíno que Hitoshi sentiu o rosto esquentar instantaneamente. O calor de Yuji era o oposto da frieza de Mahito ou da distância de Gojo. Era algo que pedia para entrar.
— Até mais tarde, Konami-kun! — Itadori soltou-o e saiu correndo, acenando sem olhar para trás.
Hitoshi ficou parado no corredor por alguns segundos, a mão tocando o peito onde o abraço de Yuji ainda parecia ressoar. Ele soltou um suspiro longo, sentindo o rubor diminuir, e caminhou até seu quarto.
Ao entrar, ele não ligou a luz. Apenas se jogou na cama, sentindo o cheiro do sabão das roupas e o silêncio do dormitório. Estranhamente, as vozes em sua cabeça — as autocríticas, o niilismo, as projeções de Gojo — estavam silenciosas.
Ele fechou os olhos. Pela primeira vez em meses, o sono não parecia um inimigo a ser combatido ou uma fuga impossível. Era apenas um convite. Entre o sabor do açúcar azul, o caos das costuras de Mahito e o calor do abraço de Itadori, Hitoshi Konami encontrou um equilíbrio frágil.
E, contra todas as probabilidades, ele dormiu.