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Jujutsu kaisen juai

Sinfonia do Caos e Costuras

A insônia de Hitoshi Konami havia deixado de ser um fardo para se tornar uma bússola. Nas semanas que se seguiram ao primeiro embate real com Mahito, o mundo de Hitoshi encolheu até se tornar apenas o rastro daquela energia amaldiçoada específica — algo que cheirava a mudança, a carne fresca e a uma liberdade aterrorizante.

Os encontros tornaram-se um vício secreto. Em becos úmidos, estações de metrô abandonadas e telhados esquecidos, Hitoshi e Mahito dançavam uma coreografia de violência e fascínio. Hitoshi usava sua técnica de manipulação de sentimentos, tentando infiltrar-se nas fendas da alma da maldição, mas Mahito era como um espelho quebrado: refletia tudo, mas não retinha nada de forma humana. Ainda assim, havia uma química. Uma conexão física que Mahito, em sua juventude espiritual, não conseguia rotular.

Em uma noite particularmente fria, em um armazém de docas, a luta atingiu um novo patamar. Hitoshi, com os cabelos agora tingidos de um ruivo tão artificial que parecia brilhar no escuro, canalizou sua energia amaldiçoada de uma forma inédita.

— *Ressonância de Vínculo* — sussurrou Hitoshi.

Ele não apenas atacou Mahito; ele conectou sua própria essência à da maldição. Quando sua adaga cortou o braço de Mahito, o ferimento não foi apenas físico. A energia de Hitoshi fluiu para dentro da maldição como um veneno emocional.

Mahito estancou. O sorriso sádico vacilou pela primeira vez. Ele cambaleou, sentindo um peso nos ombros que não era dele. Não era dor física — ele podia curar isso em segundos —, mas algo mais profundo. Ele se sentiu fraco, diminuído, como se uma parte de sua autonomia tivesse sido sequestrada.

— O que... o que você fez? — Mahito arquejou, segurando o peito. — Desfaça isso agora, humano! É nojento!

Hitoshi aproximou-se, os olhos vermelhos brilhando com uma satisfação doentia. Ele estava ofegante, o sangue escorrendo de um corte na testa, mas sua postura era de triunfo.

— Me transfigure, Mahito — provocou Hitoshi, a voz baixa e rouca. — Se você me matar agora, essa conexão morre comigo e você se livra dessa fraqueza. Caso contrário, eu nunca vou deixar você sair de perto de mim. Eu vou ser a âncora que te arrasta para o chão.

Mahito sentiu um arrepio que não sabia explicar. Antes que pudesse responder, o som de passos pesados ecoou no armazém. Reforços da Escola Jujutsu. Mais uma vez, o momento foi quebrado.

— Salvo pelo gongo de novo, passarinho — rosnou Mahito, desaparecendo nas sombras, mas levando consigo a sensação esquisita de que Hitoshi agora fazia parte de sua própria rede de energia.

A partir dali, a presença de um tornou-se o ruído de fundo da vida do outro. Hitoshi sentia a "picada" da energia de Mahito mesmo a quilômetros de distância. Suas saídas noturnas tornaram-se tão frequentes que o silêncio de Hitoshi começou a gritar.

Gojo Satoru foi o primeiro a notar. Em uma tarde, enquanto Hitoshi tentava passar despercebido pelo pátio, uma mão pesada pousou em seu ombro.

— Konami-kun! — Gojo sorria, mas seus olhos por trás da venda estavam afiados. — Você tem saído muito ultimamente. E volta sempre com aquele cheirinho de energia amaldiçoada que não é sua. Alguma missão secreta que eu esqueci de assinar?

Hitoshi sentiu o suor frio, mas manteve a expressão gélida.

— Estou apenas encontrando um paquera, Gojo-sensei. Feiticeiros também têm necessidades sociais, não têm?

Gojo soltou uma risada alta, embora desconfiada.

— Um paquera? Que audácia! Espero que ele seja pelo menos metade do que eu sou, ou ficarei ofendido. Mas cuidado, Hitoshi. O amor pode ser a maldição mais terrível de todas.

Por causa da vigilância de Gojo, Hitoshi foi forçado a ficar confinado. Três dias sem sair. Três dias sem o caos de Mahito.

Na terceira madrugada, a insônia de Hitoshi atingiu um pico insuportável. Ele sentia algo "espetando" seus sentidos. Era Mahito. A maldição estava rondando os portões da Escola Jujutsu, sua energia pulsando como um chamado desesperado, uma provocação que atravessava as barreiras de proteção.

Puto da vida, querendo dormir e sentindo os nervos à flor da pele, Hitoshi vestiu o casaco e saiu, saltando o muro dos fundos para encontrar a maldição na orla da floresta.

Mahito estava lá, chutando uma pedra com uma irritação visível. Quando viu Hitoshi, ele avançou, parando a centímetros do rosto do rapaz.

— Como você ousa? — Mahito explodiu, as costuras de seu rosto parecendo repuxar. — Como você nos conecta daquela forma e depois some como se não fosse nada? Você está achando que pode domar uma maldição? Que pode me colocar numa coleira igual a um cachorro?

Hitoshi observou a fúria de Mahito. Era estranhamente atraente ver aquela entidade, que se dizia acima dos sentimentos humanos, tão claramente afetada por um. O ruivo deu um passo à frente, sem medo.

— Logo vamos resolver esse assunto, Mahito — disse Hitoshi, sua voz suavizando de uma forma que ele raramente permitia. — Eu só precisei de um tempo. Se eu continuasse saindo, seria expulso. E você... Gojo acabaria te encontrando e te matando. E eu não quero isso agora.

Mahito parou o protesto no meio do caminho. O tom "fofo" de Hitoshi, misturado com aquela preocupação genuína e egoísta, fez algo estalar dentro do peito da maldição. Um calor incômodo, uma vibração que ele não conseguia transfigurar.

— Tanto faz — resmungou Mahito, virando as costas. — Não me deixe esperando de novo, ou eu destruo essa escola inteira só para te achar.

A situação atingiu um ponto de ruptura dias depois. Hitoshi estava em uma missão de reconhecimento com Megumi Fushiguro. Eles trabalhavam em sincronia, a seriedade de Megumi complementando o niilismo de Hitoshi.

Escondido em uma fresta entre a realidade e a cortina, Mahito observava. Ele viu Megumi colocar a mão no ombro de Hitoshi para alertá-lo sobre uma maldição. Ele viu Hitoshi sorrir de canto para algo que o moreno disse.

Um sentimento ácido e corrosivo subiu pela garganta de Mahito. Ele queria descer lá e rasgar Fushiguro em mil pedaços. Ele queria que Hitoshi olhasse apenas para as suas costuras, não para as sombras de outro feiticeiro.

Horas depois da missão, Mahito interceptou Hitoshi em um beco próximo à escola. Ele não estava para brincadeiras.

— Eu não vou mais fazer porra de transfiguração nenhuma — declarou Mahito, os braços cruzados, a aura de energia amaldiçoada tremeluzindo em tons violentos.

Hitoshi arquejou, pego de surpresa.

— O quê? Por que o motivo agora? Esse era o nosso trato!

— Porque eu cansei de esperar! — gritou Mahito. — Cansei de ficar nas sombras enquanto você se diverte com aquele garoto das sombras e o resto dos seus amiguinhos feiticeiros. Você diz que quer ser mudado, mas parece bem feliz sendo quem é quando está com eles.

Hitoshi processou as palavras por um segundo, e então um sorriso lento e provocador surgiu em seus lábios.

— Mahito... você está com ciúmes?

— Ciúmes? — Mahito avançou, transformando sua mão em uma garra de aço e cravando-a na parede ao lado da cabeça de Hitoshi. — Eu nem sei o que é essa merda! Eu só não suporto ver você desperdiçando o que é meu com pessoas insignificantes!

Hitoshi riu, uma risada seca que ecoou no beco.

— É ciúmes, sim. Que patético. Uma maldição que nasce do ódio humano sentindo inveja de um companheiro de equipe.

— Cale a boca! — Mahito desferiu um golpe que Hitoshi esquivou por pouco. — Eu vou te matar antes de te mudar, se você continuar me irritando!

Hitoshi recuperou o fôlego, olhando para a maldição com um novo tipo de interesse. O plano original de ser transfigurado parecia, de repente, menos urgente do que observar aquela criatura se desmanchar em sentimentos humanos que ela nem compreendia.

— Se você não vai mais me transfigurar... o que quer fazer, então? — perguntou Hitoshi. — Quer ficar me vendo sofrer no cotidiano? Quer ser o espectador da minha vida inútil?

Mahito hesitou. A ideia de observar Hitoshi, de estar presente em sua órbita, era estranhamente mais tentadora do que simplesmente destruí-lo.

— Aceito — disse Mahito, muito relutante e visivelmente bravo consigo mesmo. — Vou ver até onde vai essa sua existência patética. Vou rir de cada tropeço seu.

Hitoshi sorriu, desta vez de forma quase doce, o que era um contraste assustador com suas olheiras e seu histórico depressivo.

— Então eu vou te dar muitos motivos para rir, Mahito. Minha existência é tão inútil que chega a ser uma piada de bom gosto. Até a próxima.

Hitoshi virou-se e caminhou de volta para a escola, sentindo o olhar de Mahito queimando em suas costas.

***

Mahito voltou para o esconderijo subterrâneo, chutando cada cano que encontrava pelo caminho. Ele encontrou Kenjaku sentado em silêncio, observando um mapa de Tóquio.

— Você parece... confuso, Mahito — disse Kenjaku, o tom de voz calmo como sempre.

— Eu não entendo os humanos — resmungou Mahito, sentando-se com força no chão. — Aquele garoto, Konami... eu desisti de transfigurá-lo. Vou apenas... observá-lo. Ver como ele sofre.

Kenjaku ergueu as sobrancelhas, um brilho de empolgação surgindo em seus olhos.

— Oh? Uma maldição decidindo acompanhar o cotidiano de um feiticeiro em vez de consumi-lo? Isso é fascinante, Mahito. Um relacionamento entre espécies tão opostas é algo que eu sempre tive curiosidade de ver os resultados.

Mahito sentiu seu rosto esquentar, uma reação física que ele tentou suprimir mudando a forma de suas bochechas.

— Não é um relacionamento! — exclamou ele, embora o rubor não desaparecesse totalmente. — É uma... uma pesquisa! Ele é um espécime interessante, só isso.

— Claro, claro — Kenjaku sorriu, voltando-se para o mapa. — Mas tome cuidado. Às vezes, o observador acaba sendo mais mudado do que o objeto de estudo.

Mahito deitou-se, fechando os olhos. Ele pensou na possibilidade de um "relacionamento" e logo a descartou com um gesto impaciente. Mas, no fundo de sua alma recém-nascida, ele ainda conseguia sentir a vibração da energia de Hitoshi. Era como um fio vermelho, costurado entre eles, que nem mesmo a técnica de transfiguração mais poderosa poderia cortar.

E, pela primeira vez, Mahito não queria cortá-lo.

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