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K.

O Eco das Cicatrizes e a Redenção das Sombras

A luz do meio-dia era implacável, banhando o caminho de terra batida com uma claridade que feria os olhos de Obanai. Cada passo dado em direção à Mansão Borboleta era uma provação. O atrito do tecido áspero contra a pele esfolada e os hematomas que agora floresciam em tons de roxo e azul profundo arrancavam-lhe caretas que ele tentava, a todo custo, esconder sob os novos trapos que cobriam seu rosto. Kaburamaru, sentindo o desconforto excruciante de seu mestre, apertava-se suavemente ao redor de seu pescoço, emitindo silvos baixos e vibrantes, uma tentativa de oferecer o calor que a alma de Iguro parecia ter perdido nas horas de trevas.

Ao seu lado, a presença de Tengen Uzui era uma sombra pesada. O homem que normalmente ocupava todo o espaço com sua voz tonitruante e movimentos teatrais estava reduzido a um espectro de si mesmo. Ele caminhava com os punhos cerrados, os olhos fixos no chão, a mandíbula tão tensa que os músculos de seu rosto saltavam. A cada tropeço de Obanai, Tengen estendia a mão, os dedos tremendo em uma hesitação dolorosa, apenas para recolhê-la quando o Hashira da Serpente lançava-lhe um olhar gélido, carregado de uma repulsa que Uzui aceitava como sua justa sentença.

— Iguro... — a voz de Tengen quebrou o silêncio, saindo mais baixa do que o habitual, desprovida de qualquer brilho. — Estamos quase lá. Eu... eu vou falar com a Shinobu. Vou dizer que foi um acidente com a técnica de sangue, que você se feriu na explosão. Ninguém precisa saber os detalhes.

Obanai parou por um instante, o corpo protestando contra a interrupção do movimento. Ele virou o rosto lentamente para o companheiro.

— Você acha que ela é tola? — a voz de Obanai era um sussurro ríspido, cortante como uma lâmina cega. — Shinobu Kocho verá as marcas. Ela lerá o meu corpo como um livro de horrores. Não há mentira que esconda o que a sua "extravagância" causou.

Tengen fechou os olhos, sentindo o impacto das palavras. A culpa era um ácido que corroía seu estômago. Ele, que se orgulhava de sua força e de sua capacidade de proteger aquilo que era precioso, havia se tornado o monstro de uma história que ele mesmo desprezava.

— Eu não espero que você me perdoe — disse Uzui, a voz embargada. — Eu só... eu queria poder arrancar essa dor de você e colocá-la em mim.

— Tarde demais para sacrifícios inúteis, Uzui — retrucou Obanai, voltando a caminhar com uma rigidez que beirava o colapso. — O que aconteceu não pode ser desfeito. O veneno daquele Oni apenas revelou que, sob toda essa sua armadura de ouro e joias, existe uma fera que você não consegue controlar.

O silêncio retornou, mais denso que antes. Eles cruzaram os portões da Mansão Borboleta sob o olhar curioso das auxiliares, mas a aura sombria que os cercava impediu qualquer aproximação imediata. Shinobu apareceu no corredor principal, seu sorriso habitual vacilando ao notar o estado deplorável de Obanai e a expressão devastada de Tengen.

— Iguro-san? Uzui-san? O que aconteceu na missão? — perguntou ela, aproximando-se com passos leves, mas seu olhar clínico já escaneava as roupas rasgadas e a postura curvada de Obanai.

— Um Oni de alto nível — mentiu Tengen, sua voz falhando por um segundo. — Uma técnica de sangue baseada em névoa e paralisia. O Iguro foi pego no centro da explosão. Ele precisa de cuidados... imediatos.

Shinobu olhou de um para o outro, seus olhos violetas estreitando-se. Ela sentiu o cheiro de sangue, mas também algo mais — um odor residual de hormônios e suor que não condizia com uma batalha comum. Contudo, a etiqueta entre os Hashiras e a gravidade no olhar de Uzui a fizeram guardar suas perguntas para um momento mais privado.

— Entendo. Aoi, prepare a sala de exames! — ordenou ela. — Uzui-san, você também parece precisar de cuidados.

— Eu estou bem — interrompeu Tengen, sua voz recuperando um pouco da firmeza, embora carregada de amargura. — Cuide dele. É a única coisa que importa agora.

Obanai foi conduzido para dentro. Antes de desaparecer pelo corredor, ele parou e olhou por cima do ombro. Por um breve segundo, seus olhos encontraram os de Tengen. Não havia ódio puro, mas uma decepção tão profunda que Uzui sentiu como se tivesse sido atravessado por uma nichirin.

Horas se passaram. Tengen permaneceu sentado no jardim da mansão, ignorando as tentativas de Aoi de tratar os pequenos cortes em seus braços. Ele observava as carpas no lago, mas tudo o que via era o rosto de Obanai, desprovido de bandagens, banhado em lágrimas e sangue sob a luz da lua. O som dos soluços abafados do companheiro ecoava em sua mente como um sino fúnebre.

A porta da ala hospitalar finalmente se abriu e Shinobu saiu, limpando as mãos em um pano branco. Ela caminhou até Tengen e sentou-se ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa.

— As marcas são graves, Uzui-san — disse ela, sem olhar para ele. — Não são apenas ferimentos de combate. Há mordidas, hematomas de pressão... e o dano interno...

Tengen enterrou o rosto nas mãos, os ombros largos tremendo.

— Foi o veneno, Shinobu. Eu perdi o controle. Eu tentei lutar, mas o corpo... o corpo não obedecia à mente. Eu o quebrei.

— Ele está estável — continuou Shinobu, ignorando o desabafo por um momento para focar nos fatos médicos. — Mas o trauma psicológico é o que mais me preocupa. Iguro-san sempre foi um homem reservado, alguém que protege sua privacidade com ferocidade. Ter essa barreira violada de forma tão brutal... vai levar tempo. Muito tempo.

— Ele me odeia — murmurou Tengen.

— Ele tem o direito de odiá-lo — respondeu ela, com uma honestidade fria que era característica de sua linhagem. — Mas ele também é um Hashira. Ele sabe o que os Onis são capazes de fazer conosco. Ele me pediu para dizer que não quer vê-lo. Pelo menos não hoje.

Tengen assentiu, o peito doendo como se suas costelas estivessem sendo esmagadas. Ele se levantou, a figura alta agora parecendo estranhamente pequena sob o sol poente.

— Diga a ele... — ele começou, mas parou. O que ele poderia dizer? "Sinto muito" era uma palavra vazia diante do que havia ocorrido. — Apenas cuide dele, Shinobu. Por favor.

Nos dias que se seguiram, a Mansão Borboleta tornou-se um refúgio de silêncio para Obanai. Ele permanecia em seu quarto, recusando-se a falar com quase todos, exceto com Kaburamaru. As bandagens haviam sido recolocadas, escondendo as marcas físicas, mas as marcas na alma latejavam a cada movimento. Ele sentia-se sujo, uma sensação de invasão que não desaparecia com nenhum banho, por mais quente que fosse a água.

Uma noite, quando a lua estava novamente alta, ele ouviu um movimento suave na varanda de seu quarto. Kaburamaru ergueu a cabeça, sibilando, mas não em sinal de ataque, e sim de reconhecimento.

— Eu disse que não queria vê-lo, Uzui — disse Obanai, sem se virar. Ele estava sentado no futon, as costas apoiadas na parede.

— Eu sei — a voz de Tengen veio do outro lado da porta de correr. Ele não tentou entrar. — Mas eu não conseguia dormir. Eu trouxe algo.

Houve um leve ruído de algo sendo colocado no chão de madeira da varanda.

— São unguentos especiais — continuou Tengen. — Minhas esposas... elas usam para hematomas profundos. É uma receita de família dos shinobi. Ajuda a curar sem deixar cicatrizes.

Obanai soltou uma risada seca, um som sem alegria.

— Cicatrizes? Você acha que eu me importo com mais algumas cicatrizes, Uzui? Olhe para o meu rosto. Olhe para a minha história. Eu sou feito de cicatrizes.

— Eu sei que você é forte, Iguro — disse Tengen, sua voz carregada de uma sinceridade que atravessava a madeira da porta. — Mas você não deveria ter que carregar essas. Não essas que eu causei. Eu... eu enviei um relatório ao Mestre. Aceitei a responsabilidade total. Pedi para ser punido, para ser destituído se necessário.

Obanai franziu o cenho sob as faixas.

— Você é um idiota extravagante. Se você sair, a Corporação perde um dos seus pilares mais fortes. O Mestre não vai aceitar sua renúncia por algo que foi causado por uma técnica de sangue.

— Mas eu aceito! — exclamou Tengen, a voz subindo de tom antes de ele se controlar. — Eu não consigo olhar no espelho sem ver o que fiz. Eu não consigo fechar os olhos sem ouvir você pedindo para eu parar.

Houve um longo silêncio. Obanai fechou os olhos, lembrando-se da luta de Uzui contra o próprio corpo. Ele se lembrava das lágrimas do homem maior, das desculpas sussurradas entre atos de violência involuntária. No fundo de seu coração gélido, Obanai sabia que o verdadeiro culpado era o Oni, mas a dor física e a humilhação eram barreiras difíceis de transpor.

— Entre — disse Obanai, sua voz quase inaudível.

A porta de correr abriu-se com um rangido suave. Tengen entrou, movendo-se com uma cautela extrema, como se estivesse entrando na toca de um animal ferido. Ele estava sem seus adornos habituais, sem as pinturas no rosto, parecendo apenas um homem comum, cansado e assombrado.

Ele se ajoelhou a uma distância segura de Obanai. Entre eles, o pequeno frasco de unguento parecia um abismo.

— Eu não quero sua piedade, Uzui — disse Obanai, olhando para as próprias mãos pálidas. — E eu não quero que você se torne um mártir. O que aconteceu naquela floresta... foi um horror que compartilhamos. Você foi o agressor, sim, mas você também foi uma vítima daquele veneno.

— Como você pode ser tão racional sobre isso? — perguntou Tengen, perplexo. — Eu te machuquei. Eu tirei sua dignidade.

— Porque se eu não for racional, eu vou querer te matar — respondeu Obanai, finalmente erguendo os olhos para encontrar os de Tengen. O brilho rosa havia desaparecido, substituído por um mar de remorso. — E se eu te matar, o Oni vence. Eu passei minha vida inteira sendo tratado como um objeto, como um sacrifício. Eu não vou deixar que essa experiência me defina.

Tengen sentiu uma onda de respeito tão avassaladora que seus olhos se encheram de lágrimas. Ele se inclinou, encostando a testa no tatame em um gesto de submissão profunda.

— Você é mais nobre do que eu jamais serei, Iguro.

— Levante-se — ordenou Obanai, o tom de autoridade retornando gradualmente. — E use esse unguento. Minhas costas ainda doem, e eu não consigo alcançar todos os lugares.

Tengen hesitou, os olhos arregalados.

— Você... você quer que eu...?

— É o seu castigo — disse Obanai, embora houvesse uma suavidade quase imperceptível em sua voz. — Você vai ver o que fez. Você vai tocar cada marca que deixou e vai sentir o peso de cada uma delas enquanto me ajuda a curar. É a única forma de você entender que a dor não vai desaparecer com desculpas, mas com cuidado.

Com as mãos trêmulas, Tengen aproximou-se. Ele abriu o frasco, o aroma de ervas e cânfora preenchendo o quarto. Obanai virou-se de costas e desamarrou a parte superior de seu yukata, deixando o tecido cair até a cintura.

À luz fraca da lanterna, as marcas eram ainda mais terríveis. A pele alva de Obanai estava manchada de púrpura e verde, marcas de dedos fortes que haviam apertado com desespero, e as marcas de dentes que ainda estavam em processo de cicatrização.

Tengen soltou um suspiro trêmulo. Ele colocou um pouco do unguento nos dedos e, com uma delicadeza que parecia impossível para um homem do seu tamanho, tocou a pele de Obanai.

O Hashira da Serpente estremeceu ao toque inicial, os músculos de suas costas retesando-se. Mas ele não se afastou. Ele sentiu o calor das mãos de Tengen, a hesitação e o cuidado extremo em cada movimento. Não havia luxúria ali, apenas uma devoção silenciosa e uma tentativa desesperada de reparação.

— Dói? — sussurrou Tengen, ao passar os dedos sobre um hematoma particularmente escuro perto da omoplata.

— Sim — respondeu Obanai, a voz abafada. — Mas está melhorando.

Eles permaneceram assim por um longo tempo. O silêncio da noite era apenas quebrado pelo som rítmico da aplicação do remédio. Para Tengen, cada marca que ele tocava era uma prece de perdão. Para Obanai, cada toque era uma forma de retomar o controle sobre o próprio corpo, transformando a memória da violência em uma memória de cuidado.

— Uzui — chamou Obanai, quando o trabalho estava quase terminando.

— Sim?

— Não conte às suas esposas os detalhes. Elas são mulheres gentis. Elas não precisam saber que o marido delas foi capaz de tal coisa, mesmo sob feitiço.

Tengen parou o movimento de suas mãos, sentindo a garganta apertar.

— Elas já sabem que algo aconteceu. Elas me conhecem. Mas eu protegerei sua honra, Iguro. Eu juro.

— Minha honra eu mesmo protejo — retrucou Obanai, voltando a vestir o yukata e virando-se para encarar Tengen. — O que estamos fazendo aqui é apenas... garantir que possamos lutar lado a lado novamente. Nada mais.

Tengen assentiu, guardando o frasco. Ele sabia que a estrada para a cura completa seria longa e que a confiança, uma vez quebrada, raramente voltava a ser o que era. Mas ali, naquele quarto mal iluminado, um primeiro passo havia sido dado.

— Obrigado, Iguro — disse Tengen, levantando-se. — Por não me deixar cair na escuridão.

Obanai não respondeu. Ele apenas observou Tengen sair pela varanda, desaparecendo na noite como uma sombra extravagante que finalmente encontrou seu contraponto no silêncio.

Quando ficou sozinho, Obanai deitou-se no futon. Kaburamaru aninhou-se ao seu lado, buscando o calor de seu peito. Pela primeira vez desde aquela noite na floresta, o sono não veio acompanhado de pesadelos com névoa rosada. O cheiro das ervas em sua pele era um lembrete de que, embora o mundo fosse cheio de demônios e venenos, a vontade humana de redimir e ser redimido era, talvez, a força mais extravagante de todas.

A aurora começou a surgir no horizonte, tingindo o céu de tons de laranja e ouro. Na Mansão Borboleta, dois homens, marcados pela guerra e por seus próprios erros, preparavam-se para enfrentar mais um dia. As cicatrizes permaneceriam, invisíveis ou não, mas elas não seriam mais apenas marcas de dor; seriam os alicerces de uma compreensão nova e silenciosa entre a Serpente e o Som.

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