K.
O Eco do Crepúsculo e a Trama das Vontades
O sol começou a declinar, lançando sombras longas e distorcidas pelos corredores da Mansão Borboleta. Obanai Iguro permanecia em seu quarto, o corpo ainda pesado por uma letargia que não era física, mas sim o resíduo emocional de uma noite que ele desejava apagar da existência. Kaburamaru, sentindo a turbulência sob a pele de seu mestre, deslizava inquieto sobre os ombros do Hashira, sua língua bífida provando o ar carregado de melancolia.
A porta de correr rangeu levemente. Não era o toque hesitante de Uzui, nem o passo leve de Shinobu. Era um silêncio que precedia uma presença autoritária.
— Iguro-san — a voz de Aoi Kanzaki soou do outro lado —, o Mestre solicita a presença de ambos, você e Uzui-san, no pátio central. Ele deseja um relatório verbal antes que a noite caia totalmente.
Obanai fechou os olhos com força. Enfrentar Kagaya Ubuyashiki naquele estado era como expor sua alma nua diante de um espelho de pureza. O Mestre veria através das bandagens, através da frieza e através da vergonha.
— Diga a ele que estarei lá em breve — respondeu Obanai, sua voz saindo mais rouca do que pretendia.
Ele se levantou, cada fibra de seu ser protestando. O unguento que Uzui aplicara na noite anterior havia mitigado a dor aguda, mas a rigidez em seus quadris e a sensibilidade em seu pescoço eram lembretes constantes da força bruta que o submetera. Ele vestiu seu uniforme limpo, apertando o cinto com uma força desnecessária, como se tentasse conter o próprio desmoronamento interno.
Ao chegar ao pátio, encontrou Tengen Uzui já presente. O Hashira do Som estava ajoelhado, a cabeça baixa, desprovido de qualquer um de seus adornos habituais. Sem as joias, sem o protetor de testa e sem a maquiagem extravagante, Uzui parecia um homem despojado de sua identidade, uma carcaça de guerreiro consumida pelo remorso.
Kagaya Ubuyashiki estava sentado na varanda, sua presença emanando uma calma que contrastava violentamente com a tempestade entre seus dois subordinados.
— Meus filhos — começou Kagaya, sua voz suave como o veludo —, sinto a dor que emana de vocês. A missão contra o Oni da Devassidão deixou marcas que não podem ser curadas apenas com ervas medicinais.
Obanai ajoelhou-se ao lado de Uzui, mantendo uma distância deliberada. Ele sentiu o olhar de Uzui sobre si, mas recusou-se a retribuir.
— Mestre — disse Obanai, a voz firme apesar do tremor interno —, o Oni foi eliminado. A técnica de sangue dele era insidiosa, afetando os sentidos e a vontade. O relatório escrito detalha a eficácia do veneno.
— Iguro — interrompeu Kagaya, com uma doçura que doía —, não estou falando da técnica de sangue. Estou falando do que restou entre vocês. Uzui me confessou a natureza da violação. Ele está disposto a aceitar qualquer punição, inclusive o seppuku, se você assim exigir.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O vento soprou entre as árvores de glicínia, trazendo um perfume que, por um momento, limpou o ar da tensão. Uzui não se moveu; ele parecia uma estátua de pedra aguardando o golpe final.
Obanai olhou para o companheiro. Ele viu o homem que sempre fora barulhento e cheio de vida agora reduzido a nada. Ele lembrou-se da dor nos olhos de Uzui enquanto o atacava, da luta desesperada contra os próprios instintos distorcidos pelo demônio.
— A morte de Uzui não apagaria o que aconteceu — disse Obanai, sua voz cortando o silêncio. — E eu não desejo o sangue de um companheiro por algo que foi orquestrado por um Oni. O castigo dele não deve ser a morte, mas a vida. Ele deve viver com a memória do que fez e usar essa vergonha para se tornar um protetor ainda mais vigilante.
Uzui soltou um suspiro trêmulo, seus ombros finalmente cedendo.
— Mestre — disse Uzui, a voz embargada —, eu não mereço a benevolência de Iguro. Eu manchei a honra deste corpo de caçadores.
— A honra é restaurada através da retidão e do arrependimento, meu filho — disse Kagaya. — Se Iguro, a parte ofendida, escolheu o caminho da convivência, então esse é o caminho que seguiremos. Mas há uma condição.
Ambos os Hashiras ergueram os olhos.
— Vocês não sairão em missões separados nos próximos meses — declarou o Mestre. — Vocês treinarão juntos. Vocês aprenderão a confiar um no outro novamente, não como caçadores que compartilham um campo de batalha, mas como homens que compartilham uma cicatriz. O som e a serpente devem encontrar uma harmonia que foi perdida naquela floresta.
A decisão foi um golpe para ambos. Para Obanai, significava enfrentar constantemente a presença do homem que o violara. Para Uzui, significava confrontar diariamente o lembrete vivo de seu maior fracasso.
— Como desejar, Mestre — responderam em uníssono.
Ao saírem da presença de Ubuyashiki, a noite já havia caído completamente. Uzui caminhou ao lado de Obanai, mantendo um passo respeitoso atrás.
— Por que você fez isso, Iguro? — perguntou Uzui, quando estavam longe o suficiente. — Por que não me deixou ser punido?
Obanai parou e virou-se, as bandagens ocultando a expressão de amargura.
— Você acha que eu sou tão fraco a ponto de precisar da sua morte para me sentir vingado? — sibilou Obanai. — Se você morresse, você escaparia da culpa. Eu quero que você olhe para mim todos os dias. Eu quero que você veja o que fez e que isso queime em você mais do que qualquer fogo. Esse é o meu verdadeiro castigo para você, Uzui.
Uzui engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras.
— Entendo. É uma punição extravagante, à sua maneira.
— Não use essa palavra comigo — rosnou Obanai, voltando a caminhar.
Os dias que se seguiram foram uma tortura de convivência forçada. No dojo de treinamento, o som das espadas de madeira colidindo era a única conversa que permitiam. Uzui era cuidadoso, seus movimentos contidos, temendo machucar Obanai novamente. Isso, por sua vez, enfurecia o Hashira da Serpente.
— Lute direito! — gritou Obanai durante uma tarde de treino intenso. — Você está me subestimando? Acha que eu vou quebrar se você me tocar com força?
— Eu não quero te ferir, Iguro! — retrucou Uzui, bloqueando um golpe da espada ondulada de madeira.
— Você já me feriu! — Obanai avançou, sua velocidade aumentada pela raiva. — O que aconteceu na floresta não vai se repetir porque eu não vou permitir. Mas se você continuar recuando, você não é o Hashira do Som, é apenas um covarde!
Uzui parou abruptamente. Seus olhos brilharam com uma faísca da antiga intensidade. Ele largou a espada de madeira e avançou, não com luxúria, mas com a determinação de um guerreiro. Em um movimento rápido, ele desarmou Obanai e o prendeu contra o chão do dojo.
A posição era perigosamente semelhante àquela da noite fatídica. Obanai congelou, sua respiração tornando-se errática. Kaburamaru sibilou furiosamente, mas Uzui não recuou.
— Eu não sou um covarde — sussurrou Uzui, seu rosto a centímetros do de Obanai. — E eu não vou passar o resto da minha vida tratando você como se fosse feito de vidro. Você é um Hashira. Você é forte. E se você quer que eu lute, eu vou lutar. Mas não me peça para esquecer, porque eu nunca vou.
Obanai sentiu o calor do corpo de Uzui, o cheiro de suor e esforço. Por um momento, o pânico ameaçou dominá-lo, mas ele olhou nos olhos de Uzui e viu algo diferente. Não era o rosa neon da devassidão, mas um cinza profundo de determinação e respeito.
— Então me solte — disse Obanai, a voz firme. — E pegue sua espada.
Eles continuaram o treino até a exaustão total. Quando o sol se pôs, ambos estavam caídos no chão do dojo, ofegantes.
— Iguro — disse Uzui, olhando para o teto de madeira.
— O que é agora?
— Minhas esposas... elas querem preparar um jantar para você. Elas estão preocupadas. Elas sabem que eu... que eu não tenho sido eu mesmo.
Obanai suspirou, sentindo a dor nos músculos, uma dor honesta de treinamento, diferente da dor da violação.
— Eu não quero a simpatia delas, Uzui.
— Não é simpatia. Hinatsuru disse que, se eu não te trouxesse, ela mesma viria te buscar pelos cabelos. E você sabe que ela pode ser persistente.
Um pequeno sorriso, invisível sob as bandagens, surgiu nos lábios de Obanai.
— Ela é mais perigosa que você, pelo visto.
— Muito mais — riu Uzui, um som que finalmente continha um pouco da sua antiga vibração.
O jantar na residência de Uzui foi um evento estranho e, de certa forma, curativo. Hinatsuru, Makio e Suma trataram Obanai com uma mistura de respeito e carinho maternal que ele raramente experimentara. Elas não mencionaram o incidente, mas a forma como garantiam que seu prato estivesse sempre cheio e como incluíam Kaburamaru nas conversas falava volumes.
Uzui observava tudo em silêncio, sentindo uma gratidão imensa por suas esposas e uma admiração renovada por Obanai. Ele via como o homem da serpente, apesar de toda a sua frieza, começava a relaxar na presença de sua família.
Mais tarde, naquela noite, Uzui acompanhou Obanai até os limites de sua propriedade.
— Obrigado por vir, Iguro — disse Uzui. — Significou muito para elas. E para mim.
Obanai parou e olhou para a lua, que brilhava prateada e indiferente no céu.
— O veneno daquele Oni... ele tentou destruir o que somos, Uzui. Ele tentou transformar nossa força em uma arma contra nós mesmos.
— E ele quase conseguiu — admitiu Uzui.
— Quase — repetiu Obanai. — Mas nós ainda estamos aqui. As marcas... elas estão desaparecendo. As da pele, pelo menos.
Uzui aproximou-se um passo, mantendo a mão ao lado do corpo.
— E as outras? As que eu deixei por dentro?
Obanai guardou silêncio por um longo tempo. Ele pensou na dor, na humilhação e na raiva. Mas também pensou no cuidado de Uzui com o unguento, na sua disposição de morrer para pagar pelo erro e na forma como ele agora o tratava como um igual, não como uma vítima.
— Essas levarão mais tempo — disse Obanai. — Mas talvez... talvez elas não precisem ser apenas cicatrizes de dor. Talvez possam ser cicatrizes de uma compreensão que nunca teríamos de outra forma.
Uzui sentiu um peso enorme ser retirado de seu peito. Ele não esperava perdão, mas aquela aceitação era mais do que ele ousara sonhar.
— Você é um homem extravagante, Obanai Iguro — disse Uzui, com um sorriso genuíno.
— E você continua sendo um idiota barulhento — retrucou Obanai, virando-se para seguir seu caminho.
Enquanto caminhava de volta para a Mansão Borboleta, Obanai sentiu o vento frio da noite. Ele tocou levemente o pescoço, onde as marcas de dentes de Uzui haviam estado. A pele estava lisa agora, curada. O trauma ainda ecoava em seus sonhos ocasionalmente, mas a presença constante e respeitosa de Uzui estava lentamente reescrevendo a narrativa daquela noite.
Eles não eram mais apenas dois Hashiras compartilhando uma organização. Eles eram dois sobreviventes de uma escuridão que tentara consumi-los. E, enquanto a serpente deslizava silenciosa e o som ecoava pelas montanhas, ambos sabiam que, na próxima vez que enfrentassem um demônio, estariam mais fortes. Não apesar do que aconteceu, mas por causa disso.
A harmonia fora encontrada, não na ausência da dor, mas na coragem de enfrentá-la juntos, sob o olhar atento da lua e o silêncio redentor das sombras.