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Kart e um novo amor

O Aroma da Vitória e o Desafio da Estrada

O silêncio da chácara, após a partida do último convidado, tinha uma densidade quase palpável. A lua, um arco de prata pendurado sobre o pomar de laranjeiras, iluminava o caminho de volta para o chalé reservado aos noivos, afastado da casa principal. O ar estava impregnado com o perfume das flores de laranjeira e o frescor da grama pisada.

Yudi carregava Malu no colo, uma tradição que ele insistira em cumprir apesar dos protestos risonhos dela sobre o peso do vestido.

— Eu sou um atleta de elite, Maria Luiza — disse ele, a voz rouca e baixa, enquanto chutava levemente a porta de madeira para fechá-la atrás de si. — Carregar minha esposa para o nosso início oficial é apenas um aquecimento.

— Espero que esse seu condicionamento físico seja tudo o que prometem as revistas de esporte — rebateu ela, passando os braços pelo pescoço dele e enterrando o rosto na curva de seu ombro.

Ele a colocou no chão com uma delicadeza que contrastava com a força dos seus braços. O quarto estava à meia-luz, iluminado apenas por velas de baunilha que Malu pedira para acenderem. Yudi parou por um instante, apenas observando-a. O vestido de seda, agora levemente amassado, parecia brilhar sob a luz trêmula.

— Sete anos — sussurrou ele, aproximando-se. — Sete anos imaginando como seria este momento, desde que você me deu aquele "quase" beijo no kartódromo.

— Eu não queria estragar a nossa amizade, Yudi — disse ela, a voz falhando enquanto ele começava a descer o zíper invisível nas costas dela. — Eu tinha medo de que, se a gente se perdesse, eu não teria para quem ligar depois das corridas.

— Você nunca ia me perder — afirmou ele, afastando o tecido e beijando a pele exposta de seus ombros. — Eu estava apenas esperando você atingir a velocidade certa.

O vestido deslizou pelo corpo de Malu, caindo em um amontoado de seda branca no chão. Ela se virou, ficando apenas de lingerie rendada, e começou a desabotoar a camisa de Yudi com dedos trêmulos, mas determinados. Quando a pele se encontrou, o choque foi imediato. Não era mais a hesitação da adolescência; era o encontro de dois adultos que haviam conquistado o mundo, mas que só se sentiam completos nos braços um do outro.

Yudi a puxou para a cama, cobrindo seu corpo com o dele. Seus beijos eram urgentes, famintos, explorando cada centímetro que passara tanto tempo sob o véu da amizade e da distância. Malu sentia a força das mãos dele, mãos que dominavam máquinas brutais, agora movendo-se com uma reverência absoluta sobre suas curvas.

— Você cheira a baunilha e a vitória — disse ele, a voz vibrando contra a pele do pescoço dela.

— E você cheira a homem da minha vida — respondeu ela, puxando-o para mais perto, as pernas se entrelaçando com as dele.

O ato de amor foi como uma corrida de resistência: intenso, ritmado e profundamente conectado. Cada toque era uma conversa, cada gemido uma confissão. Yudi a guiava com a mesma precisão com que tangenciava uma curva, mas com uma doçura que só Malu conhecia. Quando o clímax chegou, foi como cruzar a linha de chegada após uma prova exaustiva: uma explosão de alívio, triunfo e uma paz que transbordava.

Eles ficaram ali, abraçados sob os lençóis de linho, os corações desacelerando em uníssono enquanto o som dos grilos lá fora preenchia o vazio.

— Primeira volta concluída — murmurou Yudi, beijando a testa dela.

— A melhor da minha vida — respondeu Malu, fechando os olhos e deixando o cansaço finalmente vencê-la.

O despertar, no entanto, foi um choque de realidade. O despertador de Malu tocou às cinco da manhã, um som estridente que parecia um crime naquele ambiente de paz.

— Não... — resmungou Yudi, puxando o travesseiro sobre a cabeça. — Diz que isso é um pesadelo e que ainda são três da manhã.

— É a vida real, campeão — disse Malu, já sentada na beira da cama e esfregando os olhos. — O voo para Londres sai às dez. Temos que estar em Cumbica com três horas de antecedência, e ainda temos que passar na casa dos meus pais para pegar o resto das malas.

— Malu, a gente casou há seis horas — reclamou ele, sentando-se e passando a mão pelo cabelo bagunçado. — A equipe pode esperar um dia. O Itamaraty pode sobreviver sem você por vinte e quatro horas.

— Não, não podem. Eu tenho um briefing sobre a cúpula de Bruxelas amanhã cedo na embaixada. E você tem o simulador na sede da equipe na terça. A gente concordou com isso, Leo.

— Eu sei que concordamos, mas concordar teoricamente em Oxford é diferente de ter que levantar da cama de núpcias com o corpo ainda doendo de... bem, de você.

Malu riu, jogando uma almofada nele.

— Vá tomar banho. Eu vou fazer o café.

A viagem para o aeroporto foi o primeiro teste real da dinâmica de casados. O carro estava abarrotado de malas, presentes de última hora e o estresse da logística. Yudi insistiu em dirigir, mas seu estilo de pilotagem "agressivo-eficiente" estava deixando Malu à beira de um ataque de nervos.

— Leo, você não está em Interlagos! — exclamou ela, segurando-se na alça do teto enquanto ele mudava de faixa rapidamente na Rodovia dos Bandeirantes. — Se a gente levar uma multa ou, pior, bater esse carro cheio de cristais de presente, eu juro que peço o divórcio antes de chegarmos ao check-in.

— Eu estou ganhando tempo, Malu! — rebateu ele, visivelmente irritado com o trânsito matinal. — Você reclamou do horário e agora reclama que eu estou tentando nos levar lá a tempo. Você é diplomata, deveria saber que não se pode ter tudo.

— Eu sou diplomata, não mágica! E não tente usar minha profissão contra mim. Você é quem está agindo como um adolescente mimado porque não teve suas doze horas de sono de beleza.

— Mimado? Eu passei a noite focada em você, Maria Luiza! — Ele freou bruscamente quando um caminhão cortou a frente. — Droga!

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com a tensão de duas pessoas ambiciosas que não estavam acostumadas a ceder espaço. Eles chegaram ao aeroporto em tempo recorde, mas o clima era glacial.

Enquanto esperavam na fila prioritária do check-in, cercados por fotógrafos de tabloides que tentavam tirar fotos escondidas do "casal de ouro", Malu sentiu o peso da responsabilidade. Ela olhou para Yudi, que estava com os braços cruzados, encarando o painel de voos com uma expressão fechada.

— A gente está brigando por causa de trânsito — disse ela, baixinho, aproximando-se dele. — No nosso primeiro dia de casados. Isso é patético.

Yudi suspirou, os ombros relaxando. Ele olhou para ela e viu o cansaço nos olhos da esposa, o mesmo cansaço que ele sentia.

— Desculpa. Eu só... eu odeio que a nossa vida seja sempre essa correria. Eu queria estar em uma praia com você agora, sem celular, sem telemetria, sem relatórios.

— Eu também — admitiu ela, pegando a mão dele. — Mas essa é a vida que a gente escolheu aos quinze anos, lembra? Ambiciosos demais, mundo grande demais.

— A gente precisa aprender a desacelerar quando o motor não está ligado, Malu. Se a gente tratar o casamento como uma corrida de sprint, vamos fundir o motor antes da metade da temporada.

— Você tem razão — disse ela, encostando a cabeça no braço dele. — Prometo tentar ser menos "conselheira da ONU" e mais sua esposa.

— E eu prometo dirigir como um civil comum. Pelo menos quando você estiver no carro.

O voo de onze horas para Londres foi um interlúdio necessário. Na primeira classe, protegidos do mundo exterior, eles conseguiram dormir abraçados sob as mantas, recuperando as horas perdidas. Mas a chegada em Heathrow trouxe novos desafios. O apartamento em Oxford, embora lindo, ainda era um campo de batalha de caixas desempacotadas.

Na segunda-feira à noite, Yudi chegou em casa exausto após dez horas de reuniões técnicas e simulador. Malu estava na cozinha, cercada por papéis e com o notebook aberto, tentando preparar um jantar rápido.

— A equipe quer que eu mude minha dieta para o GP de Monza — anunciou Yudi, jogando a mochila no sofá. — Nada de carboidratos pesados a partir de agora. O que é isso que você está fazendo? Macarrão?

Malu parou de mexer a panela e o encarou.

— É a única coisa rápida que eu consegui pensar, Leo. Eu cheguei da embaixada há vinte minutos. Se você quer uma dieta específica, talvez devesse ter passado no mercado ou falado com o nutricionista da equipe para nos enviar as marmitas.

— Eu não tive tempo, Malu! O carro está com um problema de subesterço nas curvas rápidas e eu passei o dia tentando resolver com os engenheiros.

— E eu passei o dia tentando evitar que um acordo comercial de milhões de libras fosse cancelado porque um subsecretário acordou de mau humor! — Ela desligou o fogo com força. — A gente não pode competir para ver quem está mais cansado, Yudi. Isso não é uma disputa de quem trabalha mais.

Yudi caminhou até a cozinha, o rosto tenso.

— Eu sinto que estou falhando em tudo. Não consigo ser o piloto que a equipe precisa e não consigo ser o marido que você merece porque estou sempre exausto ou fora de casa.

Malu respirou fundo, deixando a colher de pau de lado e caminhando até ele. Ela colocou as mãos no peito dele, sentindo o batimento cardíaco ainda acelerado.

— Leo, olha para mim. A gente não casou para ser perfeito. A gente casou porque ninguém mais entende essa loucura. Se a gente jantar macarrão hoje e você quebrar a dieta por uma noite, o mundo não vai acabar. E se a casa estiver cheia de caixas por mais um mês, tudo bem.

— Eu só não quero que você se arrependa — disse ele, a voz baixa. — De ter escolhido esse circo itinerante em vez de um diplomata estável que voltaria para casa às cinco da tarde.

— Um diplomata estável me mataria de tédio em uma semana — rebateu ela, sorrindo levemente. — Eu quero o piloto que me desafia. Eu quero o homem que me faz querer ser melhor. Mas a gente precisa de regras.

— Que tipo de regras?

— Regra número um: nada de telemetria ou relatórios da ONU na mesa de jantar. Regra número dois: pelo menos uma noite por semana, a gente esquece quem somos lá fora. E regra número três...

— Deixe-me adivinhar — interrompeu ele, puxando-a para mais perto. — Eu nunca, sob hipótese alguma, critico a sua comida, mesmo que seja macarrão instantâneo?

— Exatamente.

Eles riram, a tensão se dissipando como a fumaça da panela. Jantaram sentados no chão da sala, no meio das caixas, dividindo o macacão e planejando o pouco tempo livre que teriam nos próximos meses.

— Sabe — disse Yudi, limpando um pouco de molho do canto da boca de Malu —, o Sr. Tanaka me disse uma coisa no casamento. Que o segredo não é ter o carro mais rápido, mas saber quando entrar no box para ajustar as configurações.

— Ele é um sábio — concordou Malu. — Acho que estamos na nossa primeira parada técnica.

— E como estamos indo, chefe de equipe?

Malu olhou ao redor, para a vida confusa, ambiciosa e vibrante que estavam construindo. Ela viu o anel de ouro em sua mão e o brilho de determinação nos olhos do homem que amava desde os quinze anos.

— Estamos na liderança, Yudi. Com uma vantagem considerável.

Naquela noite, antes de dormirem, Yudi abriu um dos cadernos de física que ele ainda guardava, aquele com os desenhos de circuitos de dez anos atrás. Em uma página em branco, ele escreveu: "GP da Vida - Volta 1: O ajuste é difícil, mas a pista é maravilhosa."

Malu leu por cima do ombro dele e sorriu, sabendo que, apesar das brigas por trânsito, das dietas de atleta e das crises diplomáticas, eles haviam finalmente dominado a arte mais difícil de todas: a de correr juntos, na mesma velocidade, em direção ao horizonte que um dia foi apenas um sonho desenhado à margem de um caderno escolar.

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