Kart e um novo amor
O Peso do Ouro e o Aroma da Terra
A chácara no interior de São Paulo não lembrava em nada o paddock de Mônaco ou as luzes artificiais de Abu Dhabi. Não havia o zumbido dos geradores, o tilintar constante de taças de cristal ou o murmúrio de jornalistas ávidos por um furo de reportagem. Ali, o único som era o das cigarras e o farfalhar das folhas de mangueira sob a brisa morna do fim de tarde. O cheiro era de grama cortada e terra úmida, um aroma que, para Maria Luiza, era muito mais luxuoso do que qualquer perfume francês.
Malu estava parada diante do espelho de moldura rústica no quarto onde passara as férias da infância. O vestido de noiva não era volumoso como os das princesas europeias; era simples, de seda fluida, com detalhes em renda que pareciam desenhados na pele. Ela ajustou o brinco de pérola, um presente da mãe de Yudi, e respirou fundo.
— Você está parecendo uma diplomata prestes a assinar o tratado mais importante da história — disse uma voz na porta.
Malu se virou e sorriu ao ver seu pai. Ele usava um terno cinza bem cortado, mas seus olhos estavam úmidos.
— E eu estou, pai. Só que este tratado não tem cláusulas de rescisão.
O pai aproximou-se e segurou as mãos da filha.
— Quem diria, não é? Aquele menino que vivia sujo de graxa no kartódromo... Eu lembro de vocês dois sentados no chão da garagem, dividindo um sanduíche e discutindo sobre a pressão dos pneus. Eu disse para sua mãe: "Esses dois ou vão se matar ou vão mudar o mundo juntos".
— Acho que escolhemos a segunda opção — Malu riu, embora a garganta estivesse apertada.
— Ele é um bom homem, Malu. Vamos? O noivo está lá fora tentando não desmaiar de ansiedade.
Do lado de fora, sob a copa de uma figueira centenária, Leonardo Yudi ajustava o nó da gravata pela décima vez. Ele vestia um terno azul-marinho profundo. Ao seu lado, como padrinho, estava o Sr. Tanaka, o antigo chefe da equipe Aguatop.
— Respire, Leonardo — aconselhou Tanaka. — É como a largada em Interlagos. O sinal vai ficar verde e a vida vai ser diferente.
Quando a música começou, o tempo parou. Malu apareceu no início do corredor de grama. Ela caminhava com uma determinação que brilhava nos olhos, a mesma que desafiara Yudi na pista anos atrás.
A cerimônia foi breve e íntima. Não houve protocolos rígidos. Houve risadas quando Yudi, ao tentar colocar a aliança, brincou que precisava de uma equipe de pit stop para ajudar com a tremedeira nas mãos.
— Maria Luiza — começou Yudi nos votos, sua voz ganhando firmeza —, eu passei a vida tentando ser o mais rápido. Mas percebi que a velocidade não serve para nada se você não tem para onde voltar. Você é o meu ponto de frenagem, o meu equilíbrio e a minha vitória mais bonita. Eu te amo, desde a curva três daquele treino em 2010 até a última volta que a vida nos permitir.
Malu limpou uma lágrima, sorrindo.
— Leonardo Yudi, eu passei anos negociando termos entre nações. Mas a única lógica que sempre fez sentido foi a que a gente encontrou naquela pista de kart. Você me ensinou que amar não é segurar o volante com força, mas confiar no movimento. Prometo estar no seu box, seja na vitória ou na derrota. Eu te amo, meu eterno rival e meu único amor.
Após o beijo e a festa regada a comida brasileira e histórias da Aguatop, o casal finalmente se retirou para o chalé reservado aos noivos, afastado da casa principal. O ar estava impregnado com o perfume das flores de laranjeira.
Yudi carregou Malu no colo para dentro, chutando a porta para fechá-la.
— Eu sou um atleta de elite, Maria Luiza — disse ele, a voz rouca e baixa. — Carregar minha esposa para o nosso início oficial é apenas um aquecimento.
— Espero que esse seu condicionamento físico seja tudo o que prometem as revistas de esporte — rebateu ela, passando os braços pelo pescoço dele.
Ele a colocou no chão com delicadeza. O quarto estava à meia-luz, iluminado apenas por velas de baunilha. Yudi parou por um instante, apenas observando-a.
— Sete anos — sussurrou ele, aproximando-se. — Sete anos imaginando como seria este momento.
— Eu não queria estragar a nossa amizade, Yudi — disse ela, a voz falhando enquanto ele começava a descer o zíper invisível nas costas dela. — Eu tinha medo de que, se a gente se perdesse, eu não teria para quem ligar depois das corridas.
— Você nunca ia me perder — afirmou ele, afastando o tecido e beijando a pele exposta de seus ombros. — Eu estava apenas esperando você atingir a velocidade certa.
O vestido deslizou pelo corpo de Malu, caindo no chão. Ela se virou e começou a desabotoar a camisa de Yudi com dedos trêmulos, mas determinados. Quando a pele se encontrou, o choque foi imediato. Não era mais a hesitação da adolescência; era o encontro de dois adultos que haviam conquistado o mundo, mas que só se sentiam completos ali.
Yudi a puxou para a cama, cobrindo seu corpo com o dele. Seus beijos eram urgentes, famintos. Malu sentia a força das mãos dele, mãos que dominavam máquinas brutais, agora movendo-se com uma reverência absoluta sobre sua pele.
— Você cheira a baunilha e a vitória — disse ele, a voz vibrando contra o pescoço dela.
— E você cheira a homem da minha vida — respondeu ela, puxando-o para mais perto, as pernas se entrelaçando.
O ato de amor foi como uma corrida de resistência: intenso, ritmado e profundamente conectado. Yudi a guiava com a mesma precisão com que tangenciava uma curva, mas com uma doçura que só Malu conhecia. Quando o clímax chegou, foi como cruzar a linha de chegada após uma prova exaustiva: uma explosão de alívio e triunfo.
Eles ficaram ali, abraçados sob os lençóis de linho, os corações desacelerando em uníssono.
— Primeira volta concluída — murmurou Yudi.
— A melhor da minha vida — respondeu Malu.
O despertar, no entanto, foi um choque. O despertador de Malu tocou às cinco da manhã.
— Não... — resmungou Yudi, puxando o travesseiro sobre a cabeça. — Diz que ainda são três da manhã.
— É a vida real, campeão — disse Malu, já sentada na beira da cama. — O voo para Londres sai às dez. Temos que estar em Cumbica cedo.
— Malu, a gente casou há seis horas — reclamou ele, sentando-se. — A equipe pode esperar. O Itamaraty pode sobreviver sem você por um dia.
— Não podem. Eu tenho um briefing sobre a cúpula de Bruxelas amanhã. E você tem o simulador na sede da equipe na terça. A gente concordou com isso, Leo.
A viagem para o aeroporto foi o primeiro teste real da dinâmica de casados. O carro estava abarrotado de malas e presentes. Yudi insistiu em dirigir, mas seu estilo de pilotagem agressivo estava deixando Malu nervosa.
— Leo, você não está em Interlagos! — exclamou ela, segurando-se na alça do teto. — Se a gente levar uma multa ou bater esse carro cheio de cristais, eu peço o divórcio antes do check-in.
— Eu estou ganhando tempo, Malu! — rebateu ele, irritado com o trânsito. — Você reclamou do horário e agora reclama que eu estou tentando nos levar lá a tempo.
— Eu sou diplomata, não mágica! E não aja como um adolescente mimado porque não dormiu o suficiente.
— Mimado? Eu passei a noite focada em você, Maria Luiza! — Ele freou bruscamente quando um caminhão cortou a frente. — Droga!
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eles chegaram ao aeroporto em tempo recorde, mas o clima era glacial. Na fila do check-in, Malu sentiu o peso da responsabilidade. Ela olhou para Yudi, que estava de braços cruzados.
— A gente está brigando por causa de trânsito — disse ela, baixinho. — No nosso primeiro dia de casados. Isso é patético.
Yudi suspirou, os ombros relaxando.
— Desculpa. Eu só odeio que a nossa vida seja sempre essa correria. Eu queria estar em uma praia com você agora.
— Eu também — admitiu ela, pegando a mão dele. — Mas essa é a vida que a gente escolheu aos quinze anos, lembra?
— A gente precisa aprender a desacelerar quando o motor não está ligado, Malu. Se tratarmos o casamento como uma corrida de sprint, vamos fundir o motor antes da metade da temporada.
O voo para Londres foi um interlúdio necessário onde conseguiram dormir abraçados. Mas a chegada em Oxford trouxe novos desafios. O apartamento ainda era um campo de batalha de caixas desempacotadas. Na segunda-feira à noite, Yudi chegou em casa exausto. Malu estava na cozinha, cercada por papéis, tentando preparar um jantar rápido.
— A equipe quer que eu mude minha dieta para o GP de Monza — anunciou Yudi, jogando a mochila no sofá. — Nada de carboidratos pesados. O que é isso? Macarrão?
Malu parou de mexer a panela e o encarou.
— É a única coisa rápida que eu consegui pensar, Leo. Se você quer uma dieta específica, deveria ter falado com o nutricionista da equipe para nos enviar as marmitas.
— Eu não tive tempo! O carro está com um problema de subesterço e eu passei o dia com os engenheiros.
— E eu passei o dia tentando evitar que um acordo comercial fosse cancelado! — Ela desligou o fogo com força. — A gente não pode competir para ver quem está mais cansado, Yudi.
Yudi caminhou até a cozinha, o rosto tenso.
— Eu sinto que estou falhando em tudo. Não consigo ser o piloto que a equipe precisa e não consigo ser o marido que você merece.
Malu respirou fundo e caminhou até ele, colocando as mãos em seu peito.
— Leo, olha para mim. A gente não casou para ser perfeito. A gente casou porque ninguém mais entende essa loucura. Se a gente jantar macarrão hoje e você quebrar a dieta por uma noite, o mundo não vai acabar.
— Eu só não quero que você se arrependa — disse ele, a voz baixa. — De ter escolhido esse circo itinerante.
— Um diplomata estável me mataria de tédio em uma semana — rebateu ela, sorrindo. — Eu quero o piloto que me desafia. Mas a gente precisa de regras.
— Que tipo de regras?
— Regra número um: nada de telemetria ou relatórios da ONU na mesa de jantar. Regra número dois: pelo menos uma noite por semana, a gente esquece quem somos lá fora.
Eles riram, a tensão se dissipando. Jantaram sentados no chão da sala, no meio das caixas.
— Sabe — disse Yudi, limpando o molho do canto da boca de Malu —, o Sr. Tanaka me disse que o segredo não é ter o carro mais rápido, mas saber quando entrar no box para ajustar as configurações.
— Ele é um sábio — concordou Malu. — Acho que estamos na nossa primeira parada técnica.
— E como estamos indo, chefe de equipe?
Malu olhou para o anel em sua mão e para o homem que amava.
— Estamos na liderança, Yudi. Com uma vantagem considerável.
Naquela noite, antes de dormirem, a exaustão deu lugar novamente ao desejo. O estresse do dia parecia ter acumulado uma eletricidade que precisava de vazão. Yudi a prensou contra a porta do quarto assim que entraram, as mãos subindo pelas coxas dela por baixo do robe de seda.
— Eu ainda estou com fome — sussurrou ele contra os lábios dela.
— O macarrão não foi suficiente? — perguntou Malu, arfante, enquanto as mãos dele encontravam sua intimidade já úmida.
— Nem perto disso.
Ele a levou para a cama com uma urgência renovada. Dessa vez, não havia a delicadeza da noite de núpcias, mas uma paixão crua e faminta. Malu cavou as unhas nas costas dele, incentivando cada estocada, cada movimento que a fazia esquecer as pressões de Londres e das pistas. Eles se perderam um no outro, usando o prazer como o combustível necessário para enfrentar a maratona que era a vida deles.
Quando finalmente se aquietaram, Yudi abriu um dos seus antigos cadernos de física. Em uma página em branco, ele escreveu: "GP da Vida - Volta 1: O ajuste é difícil, mas a pista é maravilhosa."
Malu leu e sorriu, sabendo que, apesar das brigas e das crises, eles haviam finalmente dominado a arte de correr juntos em direção ao horizonte que um dia foi apenas um sonho desenhado à margem de um caderno escolar.