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Kart e um novo amor

O Silêncio dos Motores e o Ruído do Sangue

A chácara nos arredores de Oxford, que um dia fora apenas um plano em um papel de propriedade, agora pulsava com a vida que Malu e Yudi haviam construído. No jardim, Maya, agora com seis anos e uma energia que parecia movida a combustível de alta octanagem, corria atrás de "Faísca", um Golden Retriever que era tão veloz quanto o nome sugeria. O cenário era idílico, mas, dentro da casa, a atmosfera estava carregada com uma eletricidade que não vinha das tempestades inglesas.

Leonardo Yudi, agora um consultor sênior da equipe e piloto de testes ocasional, passava mais tempo em viagens de desenvolvimento do que gostaria. Malu, por sua vez, havia subido os degraus da carreira diplomática com uma rapidez vertiginosa, assumindo missões complexas que a mantinham presa a reuniões em Bruxelas e Nova York. Eles eram o "Casal de Ouro", mas o ouro, às vezes, tornava-se frio.

Nas últimas semanas, o afastamento físico devido às agendas conflitantes dera lugar a um distanciamento emocional sutil. As conversas eram logísticas; os beijos, rápidos. E, no meio desse turbilhão, Malu começou a sentir que algo em seu próprio "motor" estava falhando.

— Malu, você mal tocou no jantar — observou Yudi, sentando-se à mesa após colocar Maya para dormir. — E você está pálida. Tem certeza de que essa conferência sobre o clima não está drenando toda a sua energia?

— É apenas cansaço, Leo — respondeu ela, forçando um sorriso e empurrando o prato de risoto para longe. O cheiro do queijo parmesão, que ela costumava amar, agora parecia uma agressão ao seu olfato. — Tivemos três sessões extraordinárias hoje. O mundo não quer entrar em acordo, e eu sou a pessoa encarregada de fazer as pontes.

— Você está fazendo pontes demais e cuidando de si mesma de menos — rebateu ele, a voz tingida de uma preocupação que ela interpretou como cobrança. — A gente quase não se viu este mês. Eu volto de Maranello e você já está de malas prontas para Genebra.

— É a minha carreira, Yudi. Você, melhor do que ninguém, deveria entender o que é o ápice. Você não parou quando a Maya nasceu, por que eu deveria desacelerar agora?

O silêncio que se seguiu foi cortante. Yudi suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Não estou pedindo para você parar. Estou pedindo para você estar aqui. Presente.

Malu sentiu uma onda de náusea subir pela garganta, mas a engoliu junto com o orgulho. Ela não diria a ele que sua menstruação estava atrasada. Não diria que sentia tonturas ao levantar da cadeira da embaixada. Eles haviam conversado sobre ter um segundo filho há um ano, mas a discussão terminara em um impasse: a carreira dela estava em um momento crucial, e ele ainda estava muito envolvido com o circo da Fórmula 1. Uma gravidez agora parecia um erro de cálculo, uma falha na telemetria de suas vidas planejadas.

— Eu vou dormir — disse ela, levantando-se bruscamente. — Amanhã tenho um voo cedo para Londres.

Nos dias que se seguiram, Malu tornou-se uma mestre do disfarce. Ela escondia os enjoos matinais chegando mais cedo à embaixada e mascarava a exaustão com doses perigosas de corretivo sob os olhos. O colapso, no entanto, não avisa quando a bandeira quadriculada vai cair.

A conferência em Londres era o ápice de meses de trabalho. O salão estava repleto de autoridades internacionais. Malu estava no pódio, ajustando o microfone. O calor das luzes parecia dez vezes mais intenso do que o normal. As palavras no seu discurso começaram a dançar diante de seus olhos.

— "A cooperação internacional é... é o único caminho..." — Ela parou, sentindo um suor frio escorrer pelas costas. O som ao redor tornou-se abafado, como se ela estivesse debaixo d'água.

Ela viu, ao fundo do salão, a silhueta de Yudi. Ele tinha aparecido de surpresa, um gesto de reconciliação que ela não esperava. Ele sorria, mas o sorriso dele transformou-se em horror quando os olhos de Malu reviraram.

O impacto do corpo dela contra o chão do pódio ecoou pelo salão silencioso.

— Malu! — O grito de Yudi foi a última coisa que ela ouviu antes da escuridão total.

Quando Malu abriu os olhos, o teto branco e o som rítmico de um monitor cardíaco indicaram imediatamente onde ela estava. Yudi estava sentado ao lado da cama, segurando sua mão com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. Ele parecia ter envelhecido dez anos em poucas horas.

— Oi — sussurrou ela, a voz fraca.

— Você quase me matou do coração, Maria Luiza — disse ele, a voz rouca. — O que você estava pensando? Esconder isso de mim? Esconder de si mesma?

— Eu... eu achei que era só estresse. Eu não podia falhar naquela conferência, Leo.

— Você não falhou na conferência. Você falhou com a gente — disse ele, mas não havia raiva, apenas uma tristeza profunda. — O médico veio aqui.

Malu fechou os olhos, as lágrimas escapando.

— O bebê... ele está...?

— Ele está bem. Dez semanas, Malu. Você desmaiou por desidratação e exaustão extrema. O médico disse que o seu corpo simplesmente desligou para proteger o que é mais importante.

Malu soluçou, cobrindo o rosto com a mão livre.

— Eu fiquei com medo, Leo. A gente estava tão afastado... eu achei que um bebê agora ia destruir o que restava do nosso tempo. Eu não queria ser a pessoa que impede a nossa vida de seguir em frente.

Yudi levantou-se e sentou-se na beira da cama, puxando-a para um abraço cuidadoso.

— Escuta aqui. — Ele segurou o rosto dela entre as mãos. — A gente se perdeu um pouco nas curvas, eu admito. A velocidade da vida nos afastou. Mas um filho nunca é o que nos impede de seguir. É o que nos dá um motivo para correr.

— Mas e a embaixada? E as suas viagens?

— A gente entra no box, Malu. A gente faz os ajustes. Eu vou reduzir meu contrato de consultoria. Você vai tirar sua licença e, quando voltar, a gente reorganiza a logística. A Maya está lá fora com os meus pais, perguntando por que a mãe dela "dormiu no palco". Ela quer um irmão, Malu. Ela me perguntou ontem se o Faísca podia ter um irmão humano.

Malu riu entre as lágrimas, sentindo o peso do segredo e da exaustão finalmente se dissipar.

— Um irmão humano? O Faísca vai ficar com ciúmes.

— Ele sobrevive. — Yudi beijou a testa dela. — Eu senti tanta falta de você, Malu. Não da embaixadora, não da colega de equipe. Da minha Malu. Daquela menina que me desafiava no kart e que não tinha medo de nada.

— Eu tive medo desta vez, Leo. Medo de não dar conta.

— Você não precisa dar conta de tudo sozinha. Eu sou o seu segundo piloto, lembra? Eu estou aqui para segurar o vácuo e te ajudar a cruzar a linha.

Algumas horas depois, Maya foi autorizada a entrar. Ela correu para a cama, pulando com cuidado para não machucar a mãe.

— Mamãe, você cansou de falar? — perguntou a menina, com a curiosidade típica dos seis anos.

— Cansou sim, querida — disse Yudi, colocando a mão sobre a barriga de Malu. — Mas é porque ela estava guardando energia para uma surpresa.

— Que surpresa? — Maya arregalou os olhos.

Malu olhou para Yudi, recebendo dele a força que precisava.

— Você vai ganhar o seu irmão humano, Maya. Ou uma irmã. O Faísca vai ter mais alguém para correr no jardim.

A alegria da menina foi o combustível que faltava para Malu. Naquela noite, no quarto de hospital, o casal teve a conversa que vinha adiando há meses. Falaram sobre o afastamento, sobre como a ambição, às vezes, os cegava para o essencial, e sobre como aquela gravidez inesperada era, na verdade, o freio de segurança que eles precisavam.

— A gente precisa de uma casa maior — comentou Yudi, enquanto Malu descansava a cabeça em seu ombro. — E de um jardim com cercas mais fortes. Se esse puxar a sua teimosia e a minha velocidade, estamos perdidos.

— Ele vai ser diplomata, Yudi. Eu já decidi — brincou ela, sentindo-se, pela primeira vez em semanas, verdadeiramente em paz.

— Veremos. Mas, por enquanto, a única regra é: nada de esconder sintomas. Se o motor falhar, você avisa o box.

— Combinado, capitão.

Malu olhou para a janela, vendo as luzes de Londres brilharem ao longe. A carreira ainda estava lá, os desafios ainda existiam, mas o vazio que sentira nas últimas semanas fora preenchido por uma esperança renovada. Ela e Yudi podiam ter saído da pista por um momento, mas agora, com os ajustes certos e o coração alinhado, eles estavam prontos para a volta mais importante de suas vidas. E, desta vez, não havia pressa para chegar ao fim. O prazer estava em cada quilômetro percorrido juntos.

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