Kidnapping
Labirinto de Vidro e Pólvora
O cheiro de sândalo e couro que emanava de Engfa parecia se misturar ao aroma cítrico e vibrante que Faye exalava, criando uma atmosfera densa dentro daquele galpão. Charlotte sentia-se como se estivesse presa em uma redoma de vidro, onde o ar estava ficando cada vez mais escasso. Ela observava as duas mulheres, tentando decifrar o enigma que elas representavam. O perigo era real, as armas estavam ali, o sequestro era um fato jurídico e moral, mas o que seus olhos captavam ia muito além de um crime financeiro.
Faye estava encostada no balcão da cozinha improvisada, limpando os cacos de uma taça que havia derrubado, enquanto Engfa a observava com uma expressão que oscilava entre o tédio e a irritação contida. O silêncio foi quebrado pelo riso rouco de Faye, que jogou o pano de prato sobre o ombro e caminhou de volta para a área central, onde Charlotte permanecia sentada.
— Sabe, Charlotte — começou Faye, com aquele brilho caótico nos olhos que fazia o estômago da mais nova dar voltas —, você não deveria nos olhar com tanta intensidade. Pode acabar descobrindo segredos que não vai conseguir carregar quando for embora.
Charlotte apertou as mãos sobre os joelhos, sentindo o suor frio.
— Eu só quero entender quando isso termina — rebateu Charlotte, tentando manter a voz firme. — Meu pai... ele está movendo o céu e a terra.
Faye soltou uma gargalhada curta e seca, sentando-se na beirada da mesa de xadrez de Engfa, desarrumando propositalmente uma das peças.
— O Sr. Austin está desesperado, é verdade. Mas ele também está ocupado demais tentando apagar os rastros dos contratos que ele assinou com o submundo para garantir aquela fortuna — Faye inclinou o corpo para frente, aproximando-se de Charlotte. — Não seja ingênua, bonequinha. Você é o preço de um erro que ele cometeu há muito tempo.
Engfa, que estava em pé perto da janela observando a escuridão lá fora, virou-se lentamente.
— Faye, foque no que importa — disse Engfa, a voz como uma lâmina de gelo.
— Ah, Engfa, não seja tão rígida — Faye se levantou e começou a caminhar ao redor da cadeira de Charlotte, como um predador avaliando a presa. — Estamos apenas conversando. Eu estava apenas dizendo que não devemos nos apegar. Afinal, isso é só trabalho, não é? Assim que o dinheiro cair na conta, nós vamos sumir no mapa. Deixaremos a pequena Austin de volta no berço de ouro dela e seguiremos para algum lugar onde o sol seja mais quente e o uísque mais caro.
Engfa se aproximou com uma rapidez que Charlotte não conseguiu acompanhar. Antes que Faye pudesse terminar o raciocínio, Engfa desferiu um murro seco e preciso na costela de Faye. O som do impacto foi abafado, mas Faye soltou um gemido audível, curvando-se levemente.
— Cala a boca — sibilou Engfa, a mandíbula travada. — Você fala demais. Suas brincadeiras estão começando a comprometer a segurança da operação.
Faye recuperou o fôlego, um sorriso dolorido, mas vitorioso, surgindo em seus lábios. Ela massageou o local do golpe, olhando para Engfa com uma admiração perversa.
— Uau... você está perdendo o controle, Waraha? — Faye provocou, a voz mais baixa. — O que foi? A verdade dói? Ou você está com medo de que a nossa convidada perceba que você está ficando mole por causa dessas sardas e desse olhar de gazela assustada?
Charlotte sentiu o coração bater contra as costelas. Ela era uma moeda de troca, ela sabia. Mas ouvir Faye dizer aquilo, e ver a reação violenta de Engfa, mudava a dinâmica. Havia uma possessividade ali que não tinha nada a ver com o resgate.
— Eu não sou mole — respondeu Engfa, sua voz voltando ao tom monótono e perigoso. — Eu sou eficiente. E você é um ruído desnecessário.
Faye ignorou a frieza da parceira. Ela se sentou em uma poltrona larga e, com um gesto impetuoso, esticou a mão e puxou Engfa pelo pulso. Engfa tentou resistir por um segundo, o orgulho brilhando em seus olhos, mas Faye era persistente e dominante. Com um puxão firme, Faye forçou Engfa a se sentar em seu colo.
Charlotte arregalou os olhos. A visão era surreal. Engfa, a mulher que exalava controle absoluto, estava agora encaixada entre as pernas de Faye, que a segurava pela cintura com uma familiaridade possessiva. A postura de Engfa quebrou por um instante; ela parecia tensa, mas não tentou sair.
— Por que não aproveitamos esse tempo juntas? — sugeriu Faye, sua mão subindo pelas costas de Engfa. — O mundo lá fora está pegando fogo, o pai dela está surtando, e nós estamos aqui, presas com a garota mais bonita do país. Seria divertido. Caótico. Do jeito que eu gosto.
Engfa suspirou, fechando os olhos por um momento, como se tentasse recuperar a paciência.
— Você é impossível, Malisorn.
Charlotte, movida por uma curiosidade que superava seu medo, finalmente deu voz ao pensamento que a assombrava desde que as vira juntas pela primeira vez.
— Vocês... vocês namoram? — perguntou Charlotte, a voz saindo quase como um sussurro.
As duas responderam quase em coro, mas com tons diferentes.
— Não — disse Engfa, secamente.
— Não exatamente — completou Faye, com um sorriso malicioso. — Somos o que você chamaria de ficantes. Ou parceiras com benefícios... muitos benefícios. A Engfa é muito orgulhosa para admitir que não vive sem o meu caos, e eu sou muito viciada na ordem que ela tenta impor.
Faye então segurou o queixo de Engfa, forçando-a a virar o rosto na direção de Charlotte.
— Olhe para ela, Engfa — ordenou Faye, a voz carregada de uma autoridade que fez Charlotte estremecer. — Olhe bem para a Charlotte e admita o que você está pensando há dias. Diga a ela o quão linda ela é.
Engfa tentou desviar o olhar, mas Faye apertou o aperto em sua cintura, mantendo-a no lugar. A Waraha finalmente cedeu, seus olhos castanhos encontrando os de Charlotte. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Charlotte sentiu-se nua sob aquele escrutínio.
— Ela é... — Engfa começou, a voz falhando minimamente antes de se estabilizar. — Ela é excepcionalmente bela. E perigosa para quem não sabe lidar com a própria vontade.
— Viu só? — Faye riu, encostando o nariz no pescoço de Engfa, mas mantendo os olhos fixos em Charlotte. — Ela admitiu. Você é desejada, Charlotte. Tanto por mim, quanto por ela. E o melhor de tudo é que você não sabe o que fazer com isso, não é?
Charlotte sentiu um calor subir por seu pescoço, atingindo suas bochechas. A ansiedade que antes era puro pânico agora se transformava em algo elétrico, uma atração proibida e pecaminosa. Elas eram exatamente o tipo de Charlotte: mulheres fortes, complexas, mais velhas e terrivelmente charmosas. Ela se imaginou em situações que a faziam querer desviar o olhar, mas seus olhos permaneciam presos naquela cena de domínio e sedução entre as duas mafiosas.
— Vocês são loucas — Charlotte conseguiu dizer, embora o insulto soasse mais como um elogio naquele contexto.
— Somos — concordou Faye, deslizando a mão da cintura de Engfa para a coxa da parceira. — E você está adorando cada segundo dessa loucura. Eu vejo como você olha para as mãos da Engfa quando ela mexe no cubo mágico. Eu vejo como você morde o lábio quando eu entro na sala.
Engfa, recuperando parte de sua compostura, colocou a mão sobre a de Faye, parando o movimento carinhoso. Ela olhou para Charlotte uma última vez antes de se levantar do colo de Faye com uma elegância felina.
— O jogo ainda não acabou, Charlotte — disse Engfa, ajeitando o casaco. — Não confunda a nossa... apreciação... com liberdade. Você ainda é nossa prisioneira.
— Uma prisioneira muito bem cuidada — acrescentou Faye, levantando-se também e caminhando até Charlotte. Ela se inclinou, sussurrando perto do ouvido da jovem. — Se você for uma boa menina, quem sabe a gente não te mostra o que acontece quando o fogo e o gelo se encontram de verdade.
Faye deixou um beijo casto e rápido na bochecha de Charlotte, um toque que queimou como brasa. Engfa apenas observou, uma sombra de ciúmes cruzando seu rosto antes de ela se virar e caminhar em direção ao tabuleiro de xadrez, voltando ao seu refúgio de lógica e silêncio.
Charlotte ficou ali, sentada em sua cadeira, o coração disparado e a mente um turbilhão. Ela imaginou coisas que jamais confessaria em voz alta. Imaginou as mãos de Engfa, com suas cicatrizes e precisão, tocando sua pele com a mesma concentração que dedicava ao xadrez. Imaginou a boca de Faye, com aquele corte intrigante, explorando cada centímetro de seu corpo com a adrenalina que ela tanto amava.
O segredo daquela atração ficaria guardado nas sombras do galpão, escondido entre os esboços de seu caderno e o som dos carros de luxo lá fora. Charlotte Austin, a filha do banqueiro, estava começando a perceber que, naquele jogo de poder e desejo, ela talvez não quisesse ser apenas uma peça capturada. Ela queria entender como era ser parte do tabuleiro.
— Engfa — chamou Charlotte, sua voz agora mais firme, carregada de um desafio que ela não sabia que possuía.
Engfa parou com a mão sobre a rainha negra.
— O quê?
— A próxima partida de xadrez... eu quero jogar contra você.
Um silêncio tenso caiu sobre o ambiente. Faye, que estava prestes a abrir uma garrafa de vinho, parou e olhou para as duas com um sorriso largo.
— Oh, isso vai ser interessante — murmurou a ruiva.
Engfa virou-se lentamente, um brilho de respeito genuíno surgindo em seus olhos.
— Tem certeza, Charlotte? Eu não facilito para ninguém. Nem mesmo para quem eu... aprecio.
— Eu não pedi facilidade — retrucou Charlotte, sustentando o olhar da mafiosa. — Eu pedi um jogo.
Engfa deu o primeiro sorriso completo da noite. Um sorriso que não era sarcástico, mas sim predatório e ansioso.
— Então sente-se. Vamos ver se você é tão boa com estratégias quanto é com as palavras.
Faye aproximou-se com três taças de vinho, colocando-as sobre a mesa.
— Que comece o caos — brindou Faye, seus olhos saltando de Engfa para Charlotte com uma promessa silenciosa de que, independentemente de quem vencesse no tabuleiro, a noite terminaria de uma forma que nenhuma delas esqueceria.
Charlotte sentou-se à frente de Engfa, sentindo a presença de Faye logo atrás de si, as mãos da ruiva repousando levemente em seus ombros. Ela estava cercada. Pelo crime, pelo desejo e por duas mulheres que a queriam de formas que ela ainda estava descobrindo. E, pela primeira vez, Charlotte não sentiu vontade de fugir. O labirinto de vidro e pólvora era perigoso, mas a vista de dentro era inebriante.