← Voltar ao resumo

Kidnapping

A Dança das Sombras e do Gatilho

O som metálico do ferrolho sendo puxado ecoou pelo galpão, um ruído seco que cortava a monotonia da tarde. Charlotte sentia o peso da pistola em suas mãos — uma peça de engenharia fria e letal que parecia estranhamente pesada para o seu tamanho. Faye estava logo atrás dela, o corpo colado ao seu, orientando sua postura com uma proximidade que fazia o sangue de Charlotte ferver por motivos que nada tinham a ver com a pólvora.

— Mantenha os pés alinhados aos ombros, bonequinha — instruiu Faye, sua voz rouca soprando contra a orelha de Charlotte. — Firme o pulso. Se você deixar a arma solta, o coice vai te machucar, e eu prefiro que suas mãos fiquem intactas para coisas mais... criativas.

Charlotte soltou uma risada nervosa, tentando focar no alvo improvisado — uma série de latas de conserva empilhadas a dez metros de distância.

— Meu pai sempre disse que armas eram para pessoas sem intelecto — comentou Charlotte, a língua afiada voltando a aparecer apesar da tensão.

— Seu pai é um idiota que paga outros para serem violentos por ele — Faye rebateu, ajustando os dedos de Charlotte sobre o gatilho. — Nem para te ensinar a se defender aquele velho serviu. Se você vai estar no nosso mundo, precisa saber como morder de volta.

De um canto mais afastado, sentada em um caixote de madeira sob uma luz amarelada, Engfa observava a cena. Ela segurava um cigarro entre os lábios, a fumaça subindo em espirais preguiçosas que emolduravam seu rosto impassível. Em suas mãos, ela manipulava um cubo mágico espelhado — uma versão complexa onde todas as peças eram da mesma cor, diferenciadas apenas pelo tamanho e profundidade. Seus dedos moviam-se com uma precisão mecânica, mas seus olhos castanhos não saíam de Charlotte.

Engfa não dizia nada, mas sua presença era uma âncora de julgamento e proteção. Charlotte sentia o olhar dela como uma carícia pesada, uma pressão que a fazia querer performar perfeitamente.

— Agora, respire — sussurrou Faye, as mãos deslizando pelos braços de Charlotte até pararem sobre as mãos dela. — Aperte devagar. Não puxe, apenas pressione.

Charlotte disparou. O estrondo foi ensurdecedor no espaço fechado, e o recuo da arma a fez dar um passo para trás, chocando-se contra o peito firme de Faye. A lata superior voou para longe, perfurada.

— Eu acertei! — Charlotte exclamou, uma onda de adrenalina pura e euforia varrendo sua ansiedade. Ela se virou para Faye com um sorriso radiante, os olhos brilhando. — Você viu isso?

— Eu vi — Faye sorriu, os lábios vermelhos se abrindo em uma expressão de puro deleite. Ela não se afastou; em vez disso, envolveu a cintura de Charlotte com um braço, trazendo-a para mais perto. — Você é uma atiradora natural, Austin. Talvez tenha mais de nós em você do que imagina.

Charlotte buscou o olhar de Engfa no canto da sala. A mulher mais velha soltou uma lufada de fumaça, os olhos semicerrados. Ela não sorriu, mas fez um leve aceno com a cabeça, um gesto de aprovação silenciosa que valia mais do que mil elogios de Faye. Engfa completou o cubo espelhado com um estalo final e o colocou de lado, apagando o cigarro em um cinzeiro de metal.

— Três dias — murmurou Engfa, sua voz profunda alcançando-as com facilidade. — Três dias trancadas aqui e você já está transformando nossa moeda de troca em uma fugitiva.

— Ah, não seja chata, Waraha — Faye reclamou, soltando Charlotte, mas ainda mantendo uma mão possessiva no ombro da garota. — O tédio mata mais rápido que uma bala. E olhe para ela... a Charlotte está florescendo sob nossos cuidados.

Charlotte sentia-se estranhamente lisonjeada. A dualidade de sua situação era absurda: ela era uma refém, mas nunca se sentira tão vista e instigada. A provocação descarada de Faye e o controle silencioso de Engfa criavam um campo magnético do qual ela não tinha certeza se queria sair.

Horas depois, a energia frenética do treino de tiro deu lugar a uma languidez pesada. O sol havia se posto, e o galpão estava mergulhado em sombras, exceto pela área de convivência. Faye estava jogada em cima de Engfa no sofá de couro. A ruiva parecia um felino inquieto, suas pernas entrelaçadas com as de Engfa, a cabeça descansando no ombro da parceira.

— Eu vou enlouquecer se não sairmos daqui logo — Faye resmungou, brincando com a gola da camisa de Engfa. — Três dias, Engfa. Três dias sem adrenalina, sem o vento no rosto... só esse cheiro de poeira e o silêncio que você tanto ama.

Engfa continuava lendo um relatório, ignorando as tentativas de Faye de chamar sua atenção.

— O perímetro está vigiado, Faye. Sair agora é um risco desnecessário. O plano está seguindo o cronograma.

Faye bufou, virando o rosto para observar Charlotte, que estava a poucos metros dali, sentada no chão com suas tintas, tentando capturar a luz das velas em um pequeno pedaço de tela.

— Você está no tédio também, não está, bonequinha? — Faye perguntou, a voz carregada de uma intenção nova.

Charlotte levantou os olhos do quadro. Suas sardas pareciam mais evidentes sob a luz suave, e seu cabelo ondulado caía sobre os ombros de forma desordenada.

— Eu estou pintando — respondeu Charlotte, tentando manter a voz neutra. — É melhor do que ficar reclamando.

Faye deu um sorriso felino e, com um movimento ágil, sentou-se no colo de Engfa, forçando a mulher mais velha a soltar os papéis. Faye começou a beijar o pescoço de Engfa, subindo lentamente até a mandíbula, seus lábios vermelhos contrastando com a pele pálida da Waraha.

— Engfa... — Faye sussurrou, a voz audível para Charlotte. — Já que não podemos sair, por que não nos divertimos com o que temos aqui?

Engfa finalmente cedeu, suas mãos subindo para a cintura de Faye, apertando com uma força que denunciava seu desejo reprimido. Sua postura controlada estava rachando sob a insistência dominante da ruiva.

— O que você tem em mente, Malisorn? — perguntou Engfa, a voz rouca.

Faye não respondeu de imediato. Ela olhou por cima do ombro de Engfa, fixando seus olhos nos de Charlotte. O convite era silencioso, mas gritante.

— Charlotte — chamou Faye, estendendo a mão livre em direção à jovem. — Venha aqui. Pare de pintar sombras e venha sentir o calor de verdade.

Charlotte sentiu a garganta secar. O pincel em sua mão tremeu levemente. Ela olhou para Engfa, esperando ver rejeição ou frieza, mas encontrou apenas um olhar escuro e faminto, uma permissão silenciosa que a arrepiou da cabeça aos pés.

— Eu... eu não deveria — gaguejou Charlotte, a coragem lutando contra a submissão.

— Dever é uma palavra tão sem graça — Faye provocou, levantando-se do colo de Engfa apenas o suficiente para caminhar até Charlotte com passos lentos e predatórios. — Você quer isso tanto quanto nós. Eu vi como você nos olha. Eu vi como você treme quando a Engfa chega perto.

Faye parou à frente de Charlotte e se inclinou, pegando o pincel da mão dela e jogando-o no chão. Ela segurou o rosto de Charlotte com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas.

— Você é corajosa para atirar, Charlotte. Seja corajosa para o que realmente importa.

Faye puxou Charlotte para cima, guiando-a até o sofá onde Engfa permanecia sentada, observando tudo como uma rainha em seu trono de sombras. Faye sentou Charlotte entre suas pernas, de frente para Engfa, criando uma pirâmide de corpos e tensão.

Faye voltou a se inclinar sobre o pescoço de Engfa, beijando a pele logo abaixo da orelha, enquanto suas mãos desciam para os ombros de Charlotte, massageando-os com firmeza.

— Ela é tão macia, não é, Engfa? — Faye murmurou contra a pele da parceira. — E cheira a tinta e medo... é inebriante.

Engfa estendeu a mão e tocou o queixo de Charlotte, forçando-a a olhar para cima. A Waraha inclinou-se para frente, diminuindo a distância até que suas respirações se misturassem.

— Você está com medo, Charlotte? — perguntou Engfa, seus olhos escaneando cada detalhe do rosto da jovem.

— Sim — admitiu Charlotte, a voz quase sumindo.

— Ótimo — disse Engfa, um sorriso cruel e belo surgindo em seus lábios. — O medo mantém os sentidos aguçados.

Faye, sentindo a faísca entre as duas, não perdeu tempo. Ela puxou a cabeça de Charlotte para trás, expondo o pescoço da garota, e ao mesmo tempo pressionou seus lábios contra os de Engfa em um beijo possessivo e profundo. Engfa retribuiu com uma urgência que Charlotte nunca esperaria da mulher controladora.

Enquanto as duas mafiosas se beijavam, Charlotte sentia-se no epicentro de um furacão. Faye soltou os lábios de Engfa e desceu para o pescoço de Charlotte, distribuindo beijos úmidos e mordidas leves que faziam a jovem soltar gemidos baixos e involuntários.

— Você é nossa, Charlotte — Faye sussurrou contra a pele dela. — Pelo menos enquanto durar essa noite.

Engfa, cujos olhos agora brilhavam com uma intensidade avassaladora, aproximou-se do outro lado do pescoço de Charlotte. Suas mãos, marcadas por cicatrizes de lutas passadas, seguraram o rosto de Charlotte com uma delicadeza surpreendente.

— Não resista — ordenou Engfa, a voz sendo um comando e uma promessa.

Charlotte fechou os olhos, entregando-se ao toque das duas. O flerte descarado de Faye e a possessividade sombria de Engfa fundiam-se nela, criando uma sinfonia de sensações que ela nunca imaginou experimentar. Ela odiava o fato de serem suas sequestradoras, odiava o charme delas, mas, naquele momento, envolta pelo cheiro de sândalo, pólvora e o perfume caro de Faye, Charlotte Austin percebeu que o resgate era a última coisa que ela desejava.

Faye riu baixo, um som vibrante de triunfo, enquanto continuava a provocar tanto Engfa quanto Charlotte, deliciando-se com o caos que havia criado. A noite no galpão estava longe de terminar, e as regras do jogo haviam mudado para sempre. O xeque-mate não era mais sobre dinheiro; era sobre quem se renderia primeiro àquela dança perigosa.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.