Laços e Feromônios
O Preço da Ilusão
O zumbido metálico das lâmpadas fluorescentes no subsolo do prédio de Tecnologia da Informação era o único som capaz de competir com o bater ritmado dos dedos de Arthur sobre o teclado. O laboratório de sistemas estava quase vazio naquela tarde de terça-feira, exceto por alguns gatos-pingados espalhados pelas pontas das bancadas compridas e cinzentas. O ar ali era frio, saturado pelo cheiro de poeira aquecida por circuitos e café requentado em copos plásticos.
Arthur salvou as últimas linhas de código, fechou o terminal e esfregou os olhos com as costas da mão. Uma pontada de cansaço latejava atrás de sua têmpora direita. Havia três noites que ele dormia mal, acordando a cada duas horas com a sensação fantasma do calor de Kyle sumindo de seu peito assim que o despertador tocava, forçando-o a encarar a rotina rígida dos dormitórios masculinos.
Quando se levantou e jogou a mochila sobre o ombro, o estalo de uma porta se fechando no fundo da sala chamou sua atenção.
Três veteranos do quarto ano, todos alfas, bloqueavam a saída estreita que dava para o corredor dos armários. O que estava no meio, um sujeito atarracado chamado Brandão, tinha o tipo de sorriso torto e desleixado de quem passava tempo demais medindo o próprio valor pelo tamanho da sombra que projetava.
— Já vai, calouro? — perguntou Brandão, cruzando os braços grossos cobertos por uma jaqueta cinza surrada. O cheiro dele era uma mistura acre de tabaco e feromônios forçados, espalhando-se de propósito pelo ar confinado do laboratório. — Nem deu tempo de você se enturmar. Você entra mudo e sai calado. Parece até que tem vergonha do que tem no meio das pernas.
Arthur parou a dois passos de distância. Seus olhos azuis, frios como a água de um poço esquecido no inverno, fitaram o veterano sem qualquer lampejo de hesitação ou medo. Ele não inflou o peito, não rosnou e não se deu ao trabalho de emitir feromônios para responder àquela provocação rasteira. A postura era de puro tédio.
— Tenho aula teórica em outro prédio — disse Arthur, a voz baixa e monocórdica. — Com licença.
— Aqui na capital a gente não dá licença pra quem acha que é melhor que os outros, garoto — rosnou o segundo alfa, dando um passo à frente para diminuir o espaço, tentando usar sua altura para intimidar. — Alfas que andam sozinhos por aí sem prestar respeito aos veteranos costumam tropeçar bastante nas escadas. Entendeu o recado?
Arthur sustentou o olhar do sujeito por três longos segundos. Dentro dele, o instinto primitivo que despertara tarde em sua vida agitou-se, mas sua mente permaneceu no controle absoluto. Ele deu um passo firme para a frente, forçando o veterano a decidir entre recuar ou colidir fisicamente com seu ombro largo.
— Eu não caio fácil — Arthur murmurou, passando raspando pelo homem sem desviar um milímetro de sua trajetória. — Economizem o fôlego de vocês.
Ele ouviu os xingamentos abafados ecoarem no corredor às suas costas, mas não olhou para trás. Sabia, contudo, que a trégua silenciosa da qual desfrutara nos primeiros meses estava acabando. Naquele lugar, a recusa em participar da matilha não era vista como independência; era vista como uma ofensa aberta.
***
Do outro lado do campus universitário, o ar cheirava a cloro concentrado, vapor d'água e couro úmido. O complexo esportivo era o coração pulsante da elite física da universidade. Ali, a hierarquia não precisava de disfarces acadêmicos: quem corria mais rápido, nadava melhor e quebrava mais ossos no campo mandava no resto.
Marcus saiu do vestiário enxugando os cabelos castanhos e curtos com uma toalha branca. O corpo imponente, esculpido por anos de natação e musculação intensa, atraía olhares tanto de betas quanto de ômegas que limpavam as bordas da piscina olímpica, mas ele parecia completamente alheio a isso. Ele vestia uma bermuda cinza e a camiseta vermelha da equipe principal de atletismo, ostentando um sorriso aberto no rosto.
— Boa braçada nos últimos cinquenta metros, novato — disse uma voz rouca vinda dos bancos de ferro fundido.
Era Roger, o capitão do time de polo aquático e um alfa veterano de porte quase tão massivo quanto o de Marcus. Roger estava sentado com as pernas abertas, girando uma garrafa de isotônico entre os dedos calejados. Ao redor dele, outros quatro atletas riam de algo no celular, emanando a habitual aura sufocante de quem se sentia dono do mundo.
— Valeu, capitão — Marcus respondeu com sinceridade desarmada, jogando a toalha na cesta de roupa suja e pegando sua bolsa esportiva. — O ritmo do treino de hoje foi puxado, mas deu pra render bem.
Roger soltou uma risada nasalada, inclinando a cabeça para o lado enquanto media Marcus de cima a baixo com um olhar calculista.
— Você tem futuro aqui, Marcus. Tem tamanho, tem sangue dominante, não cansa fácil. Só precisa parar de agir como se ainda estivesse brincando na pracinha do interior. Essa postura mansa sua... não combina com o uniforme.
Marcus franziu a testa de leve, sem perder o bom humor.
— Eu jogo limpo, Roger. Não preciso rosnar pra ninguém pra colocar a bola na rede.
— Não tô falando de jogo limpo, seu idiota — Roger levantou-se, caminhando até ele e desferindo um tapinha pesado e seco no peito de Marcus, daquele tipo que beirava a agressão disfarçada de camaradagem. — Tô falando de status. Por exemplo... aquele loirinho que fica te esperando perto dos canteiros de flor. É seu ômega, né?
O sorriso de Marcus congelou nos cantos dos lábios. O ar ao seu redor esfriou uma fração de grau.
— É o Eli. Meu namorado.
— Bonitinho ele — continuou Roger, enquanto os outros caras no banco soltavam risinhos cúmplices. — Delicado. Pequeno. O tipo de coisa que a gente olha e dá vontade de quebrar no meio só pra ver se chora. Você mima ele demais, Marcus. Fica levando docinho, carregando mochila... Alfas de verdade não tratam ômega comum como se fosse uma joia rara. Eles servem pra uma coisa só, e se você não colocar coleira nele, logo algum veterano decide ensinar pra ele como é que funciona aqui na capital.
Marcus sentiu um puxão violento na base do crânio, uma centelha quente de advertência subindo por sua garganta. Mas ele respirou fundo, forçando seu lado racional a prevalecer. Para Marcus, aquilo não passava da conversa fiada e nojenta que sempre ouvia nos vestiários masculinos desde os tempos de escola; bravata pura de caras frustrados querendo pagar de machões.
— O Eli tem a mim — Marcus disse com firmeza tranquila, sustentando os olhos escuros de Roger sem recuar. — E ninguém encosta nele. A gente se vê no treino de quinta.
Marcus deu as costas e saiu a passos largos pelo corredor azulejado, sem perceber o olhar venenoso que Roger cravou em suas costas largas, nem o sinal silencioso de cabeça que o veterano fez na direção de dois calouros do time encostados na porta lateral.
***
No bloco de Engenharia, o clima não era menos asfixiante, mas para Kyle, a batalha era travada no campo da navalha.
— Se você continuar apertando essa porca com o torque errado, vai espanar o eixo do motor e fazer a gente perder a nota da bancada inteira — disse Kyle, a voz carregada de um sarcasmo impaciente que cortava o laboratório como uma tesoura enferrujada.
O colega de grupo, um alfa beta-aspirante com o dobro do tamanho de Kyle, soltou a chave inglesa com um estrondo deliberado sobre a chapa de metal.
— Por que você não cala essa boca e vai preencher os relatórios, ruivo? — retrucou o sujeito, o rosto afogueado pela vergonha de ter sido corrigido na frente dos outros alunos. — Desde quando ômega sabe calibrar pressão de cilindro? Você tá aqui de enfeite pra preencher cota de diversidade do departamento, porra.
Kyle nem piscou. O ômega dominante deu um único passo à frente, fechando a distância entre eles tão rápido que o outro homem nem teve tempo de reagir. O cheiro de Kyle — não a doçura submissa que aquele ambiente machista esperava, mas uma explosão ácida de âmbar, faísca e ameaça pura — detonou no ar como um choque elétrico.
Com um movimento seco, Kyle cravou a ponta de um paquímetro de aço milímetros ao lado da mão do alfa sobre a bancada, fazendo o metal gemer contra a madeira.
— Eu calculo a pressão dessa porra de motor de cabeça antes de você conseguir soletrar seu próprio nome, seu pedaço de estrume — sibilou Kyle, os olhos castanhos queimando como brasa viva. — E se você falar do meu gênero de novo como se isso me fizesse menos capaz que você, eu juro que enfio essa chave inglesa pela sua traqueia. Pega o relatório e copia os dados que eu já fiz. Agora.
O silêncio engoliu a bancada inteira. Dois veteranos que observavam do outro lado da sala desviaram o olhar, engolindo em seco diante da ferocidade crua do ruivo. O alfa da bancada puxou a mão trêmula, pegou a prancheta sem dizer uma única palavra e se afastou com a cabeça baixa.
Kyle respirou fundo, puxando a alça da mochila com força para conter a tremedeira residual de adrenalina em seus nós dos dedos. Ele odiava aquele lugar com todas as fibras de sua alma. Odiava ter que provar, a cada segundo de cada maldito dia, que não era uma presa.
Ele olhou para o relógio de pulso pendurado na parede do laboratório. Quase cinco da tarde. Eli deveria estar terminando a aula teórica no bloco vizinho. Kyle pegou sua jaqueta de couro, limpou a graxa dos dedos na calça jeans e saiu em direção à saída, ignorando os olhares sussurrados que o seguiam pelo corredor.
***
O vento do final da tarde soprava frio, trazendo o cheiro úmido de chuva iminente que costumava deixar as alamedas da universidade desertas. Eli andava apressado pelo caminho pavimentado de cascalho que serpenteava entre a biblioteca central e o bosque de pinheiros ornamentais que separava a Arquitetura dos dormitórios.
Ele apertava contra o peito uma pasta rígida de tamanho A2, cheia de plantas arquitetônicas e croquis em aquarela que levara semanas para concluir. O coração de Eli batia descompassado. Ele havia recebido uma mensagem avisando que a biblioteca fecharia mais cedo para manutenção e tentara ligar para Marcus, mas as chamadas caíam direto na caixa postal. Kyle também não respondia às mensagens, provavelmente ainda preso no inferno dos laboratórios de máquinas.
O silêncio ao redor da trilha começou a ficar pesado demais. Não havia ninguém por perto. Apenas o estalar de galhos secos sob o vento e o rangido distante de um portão de ferro enferrujado.
Um estalo de passos sobre o cascalho, rápido e deliberado, fez a espinha de Eli congelar.
Ele acelerou o passo, os sapatos leves quase deslizando na terra batida. A respiração saía em pequenas nuvens brancas de vapor.
— Ei, gracinha! Por que a pressa toda?
A voz veio de trás, mas antes que Eli pudesse se virar, dois vultos surgiram por entre as árvores à sua frente, bloqueando completamente a passagem estreita. Eram dois caras enormes vestindo os casacos azuis da equipe de natação. Um deles, um alfa de maxilar quadrado e cicatriz na sobrancelha, sorria com uma malícia descarada.
Eli tentou dar meia-volta, mas o terceiro homem — o que falara primeiro — já havia fechado o cerco às suas costas. Ele estava encurralado contra o tronco grosso e áspero de um pinheiro.
— O que... o que vocês querem? — a voz de Eli saiu fraca, um sopro trêmulo de puro pânico. O cheiro deles o atingiu de uma vez só: uma maré espessa, pungente e invasiva de feromônios agressivos de alfas excitados e territoriais. Para um ômega comum e sensível como Eli, aquilo agiu como veneno puro na corrente sanguínea. Seus joelhos vacilaram, o estômago despencou em um espasmo de náusea violenta e ele precisou se apoiar na casca da árvore para não desabar no chão.
— Calma, boneca. A gente só quer bater um papo — disse o da cicatriz, avançando um passo e estendendo a mão grande e áspera para tocar a lateral do rosto de Eli. — O Marcus fala tanto de você... ficamos curiosos pra saber o que um ômega de cidadezinha tem de tão especial pra amansar um dominante daquele jeito.
— Não encosta em mim! — gritou Eli, puxando o rosto para longe com desespero, os olhos verdes transbordando de lágrimas que começavam a escorrer pelas bochechas pálidas. — Por favor... me deixa passar!
— Olha só, ele late — zombou o alfa atrás dele, aproximando-se a ponto de Eli sentir o hálito quente e azedo em sua nuca. — Solta essa pasta ridícula no chão, vai. Deixa a gente sentir direito esse cheirinho de baunilha. O Marcus não precisa saber de nada. A gente só vai dividir um pouquinho.
A mão do veterano agarrou o pulso fino de Eli com força esmagadora, torcendo-o para trás. A dor aguda fez os dedos de Eli perderem a força, e a pasta de projetos caiu no chão lamacento, abrindo-se e espalhando semanas de trabalho delicado sob a sujeira e a umidade.
— Me solta! Marcus! — o grito de Eli rasgou o ar, quebrado por um soluço desesperado enquanto o outro homem avançava para agarrar a gola de seu casaco bege, empurrando-o com brutalidade contra a madeira do pinheiro.
— Ele não tá aqui, seu merdinha. Aqui quem manda somos nós...
O som que se seguiu não foi humano.
Foi um estalo úmido e ensurdecedor de osso colidindo contra osso, acompanhado pelo som de um corpo pesado sendo arremessado contra o chão de cascalho.
O alfa que segurava o pulso de Eli foi arrancado do chão por uma força cega e arremessado de costas contra a raiz exposta de uma árvore. Antes que o segundo pudesse se virar, um vulto vermelho explodiu no meio da clareira com a fúria desgovernada de um predador enlouquecido.
Kyle não gritou avisos. Ele avançou direto na garganta do alfa da cicatriz, cravando os dedos como garras no colarinho do casaco esportivo e desferindo uma joelhada violenta entre as pernas do homem. O alfa soltou um gancho de ar agonizante, dobrando-se ao meio, mas Kyle não parou: puxou a cabeça do sujeito para baixo e desferiu uma cotovelada brutal contra o nariz do homem, quebrando a cartilagem com um estalo nauseante.
Sangue espirrou na jaqueta de couro de Kyle. O ômega dominante tinha os olhos injetados, os feromônios faiscando no ar com uma intensidade tão assassina que o terceiro agressor, que tentava se levantar do chão, hesitou por um segundo fatal de puro choque biológico.
— Tira a mão dele, seu pedaço de lixo! — rosnou Kyle, a voz gutural, os dentes à mostra como um lobo pronto para arrancar um pedaço de carne viva.
O terceiro alfa recuperou o equilíbrio, tirando uma chave de fenda pontiaguda do bolso da calça com a intenção clara de atacar Kyle pelas costas, mas ele nunca chegou a completar o movimento.
Uma mão enorme, com dedos frios e precisos, fechou-se ao redor de sua garganta por trás, cortando seu oxigênio em uma fração de segundo.
Arthur emergiu da penumbra da trilha como uma sombra silenciosa. Os olhos azuis do alfa estavam completamente desprovidos de piedade, dilatados pela fúria fria que ele raramente deixava transparecer. Com um movimento contínuo e sem qualquer esforço aparente, Arthur torceu o braço do homem para trás até ouvir um estalo surdo na articulação do ombro, desarmando-o antes de bater a cabeça do veterano com força contra o concreto de uma mureta de contenção próxima.
O homem desabou no cascalho, gemendo de dor, cuspindo terra e sangue.
— Sumam daqui — disse Arthur, a voz baixa, controlada e perigosamente estável, embora seus nós dos dedos estivessem brancos pela força com que cerrava os punhos. — Se eu vir a cara de qualquer um de vocês a menos de cinquenta metros do Eli ou do Kyle de novo... eu não vou parar na mureta. Entenderam?
O alfa com o nariz quebrado puxou o colega desacordado pelo casaco, mancando e soltando gemidos lamuriosos de dor enquanto se arrastavam em direção à floresta, deixando para trás um rastro de sangue escuro e feromônios de medo.
O silêncio voltou a pesar sobre a trilha, quebrado apenas pela chuva fina que começava a cair, lavando a lama e os respingos vermelhos no chão.
Kyle virou-se imediatamente para a árvore, a respiração arfante, o peito subindo e descendo em ondas violentas. Toda a fúria cega que sustentara seu corpo desmoronou no instante em que ele olhou para o chão.
Eli estava encolhido em posição fetal contra as raízes úmidas, com as mãos sobre as orelhas, tremendo tão violentamente que seus dentes batiam uns contra os outros. Ele chorava em soluços mudos e sufocados, cercado pelos seus desenhos rasgados e pisoteados pela lama cinzenta da capital.
— Eli... — a voz de Kyle perdeu todo o veneno, tornando-se desesperada e suave. Ele caiu de joelhos na terra molhada, sem se importar com a calça encharcada, puxando o loiro com cuidado para o seu peito. — Acabou, pequeno. Eu tô aqui. Ninguém vai encostar em você. Respira... por favor, respira.
Eli agarrou a jaqueta de couro ensanguentada de Kyle com as duas mãos trêmulas, enterrando o rosto no pescoço do ruivo, buscando desesperadamente o cheiro familiar de infância para ancorar sua mente em colapso.
— Meus... meus desenhos, Kyle... — soluçou Eli, a voz despedaçada pelo trauma, o corpo inteiro em choque. — Eles... eles disseram que... que o Marcus...
— Não escuta eles. Eram só idiotas — Kyle sussurrou com firmeza, acariciando os cabelos molhados de Eli, mas seus olhos castanhos, ao se erguerem para Arthur, estavam cheios de lágrimas de ódio puro.
Arthur estava parado a um metro de distância, com a respiração pesada, olhando para as próprias mãos sujas de sangue. Ele respirou fundo, puxando seu casaco seco e jogando-o sobre as costas curvadas de Eli para protegê-lo da garoa que engrossava.
Passos pesados e apressados começaram a ecoar na trilha de cascalho.
— Eli?! Eli! Cadê você?! — o grito familiar de Marcus rasgou a neblina da tarde.
O alfa dominante surgiu na curva do caminho, segurando a bolsa esportiva em um ombro, com a toalha pendurada no pescoço e um pacote de doces na mão livre. Ele ainda tinha no rosto resquícios daquele sorriso brilhante e ingênuo, a expressão de quem havia acabado de sair de um treino glorioso e vinha resgatar o namorado para um jantar tranquilo.
O sorriso de Marcus morreu no instante exato em que seus olhos dourados registraram a cena.
O sangue na mureta de concreto. Os croquis de arquitetura rasgados e pisoteados na lama. As marcas roxas de dedos impressas na pele pálida do pulso de Eli. E o namorado, o seu Eli, tremendo como uma folha seca no colo de Kyle, incapaz de erguer os olhos do chão.
Marcus parou a três passos de distância. O pacote de doces escorregou de seus dedos dormentes, caindo na poça d'água ao lado de sua bota.
— O que... o que aconteceu aqui? — Marcus balbuciou, a voz falhando em um tom infantil de incompreensão, dando um passo em direção a eles com as mãos trêmulas estendidas. — Eli? Meu amor... o que...
— Fica longe dele — a voz de Kyle não foi um aviso; foi uma navalha puxada contra a garganta.
Kyle ergueu a cabeça lentamente. Seu rosto alva estava manchado de fuligem, chuva e o sangue dos veteranos. Seus olhos castanhos queimavam com um desprezo tão profundo e cortante que Marcus sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.
— Kyle, me deixa ajudar, eu...
— Eu mandei você ficar longe, Marcus! — Kyle rugiu, a voz explodindo em meio à tempestade que caía, fazendo até Arthur dar um passo involuntário para trás diante da dominância destrutiva do ômega. — Foram os seus amigos! Foram os merdas do seu time, aqueles desgraçados que você fica chamando de irmãos de vestiário! Eles encurralaram o Eli como se ele fosse um bicho! Eles tocaram nele, porra!
A cor esvaiu-se do rosto de Marcus até deixá-lo com a palidez cadavérica de um espectro. Seus lábios tremeram. Seus olhos dourados desceram para o pulso arroxeado de Eli, para as lágrimas silenciosas que escorriam pelo rosto do loiro, que nem sequer conseguia olhar para ele.
Toda a ilusão de camaradagem, todo o brilho dourado da capital, todo o orgulho tolo de ser o alfa prodígio do campus desmoronou em uma pilha de cinzas frias aos seus pés. O mundo de Marcus não era um campo de jogos limpos; era uma jaula cheia de monstros com quem ele estivera dividindo o mesmo teto, sorrindo e aceitando tapinhas nas costas enquanto eles afiavam as garras para estraçalhar a única coisa no mundo que ele jurara proteger.
Marcus caiu de joelhos na lama fria da alameda, diante dos três amigos que trouxera consigo do interior. Ele não disse uma única palavra. Pela primeira vez na vida, o alfa dominante que parecia carregar o sol no peito sentiu o gosto amargo, sufocante e irrecuperável da própria vergonha.