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Laminas Eletrizadas

Ressonância de Vidro Moído

O castelo de Melini, com suas pedras recém-assentadas e o constante burburinho de reconstrução, era pequeno demais para duas mulheres que se odiavam com tanta convicção. Para Flamela, cada corredor parecia ecoar o som da voz estridente de Rin; para Rin, cada brisa que soprava dos jardins trazia o perfume altivo e insuportável da elfa.

Semanas haviam se passado desde aquela noite. Semanas de silêncios cortantes e desvios de olhar calculados. Quando se cruzavam nas reuniões estratégicas de Laios — onde o rei invariavelmente sugeria algo absurdo sobre a ecologia de quimeras —, Flamela mantinha os olhos fixos em seus mapas, e Rin concentrava-se em polir seu cajado ou em observar Kabru.

No entanto, algo havia mudado. Kabru continuava o mesmo: magnético, focado e absolutamente devoto à ideia de guiar o novo rei. Mas, para Rin, o brilho dele parecia... diferente. Menos ofuscante. Ela tentava evocar a antiga dor no peito, aquela agonia de não ser notada, mas, em vez disso, sua mente traía sua vontade. No meio da noite, não era o sorriso de Kabru que a assombrava, mas a pressão de dedos longos e escuros contra sua garganta e o calor de um corpo que não pedia permissão para existir.

Flamela, por sua vez, estava em frangalhos sob sua máscara de porcelana. Ela detestava a fraqueza. E o que era aquele desejo súbito de ter alguém para dividir o peso de sua fúria, senão fraqueza? Ela tentou encontrar consolo na disciplina dos Canários, na burocracia do Reino Élfico, mas a imagem daquela maga insolente, com o cabelo bagunçado e os olhos negros transbordando desafio, estava gravada no verso de suas pálpebras.

O destino, ou talvez apenas o péssimo gosto de Laios para o comércio, interveio.

Uma nova remessa de suprimentos chegara do continente, e com ela, uma adega especializada em vinhos de alta linhagem — algo raro naquelas terras infestadas de cerveja de monstro. Rin estava passando pelo mercado, com o humor azedo de sempre, quando o aroma de carvalho e uvas fermentadas a atingiu. Era um cheiro sofisticado. Um cheiro que, por puro azar, cheirava exatamente como a pele de Flamela após uma noite de excessos.

Rin parou diante da banca, os dentes cerrados. Ela odiava aquela elfa. Odiava a maneira como a outra a fazia sentir-se pequena e, ao mesmo tempo, perigosamente viva.

— Aquela arrogante provavelmente está bebendo vinagre e chamando de néctar — resmungou Rin para si mesma, sentindo uma pontada de irritação que beirava a obsessão.

Sem pensar muito, ou talvez pensando demais para o seu próprio bem, Rin comprou duas garrafas do rótulo mais caro. Ela não queria ver Flamela. Ela queria... dar uma lição nela. Sim, era isso. Queria mostrar que tinha bom gosto e que não precisava da caridade de uma capitã decadente.

Flamela estava em seus aposentos particulares, revisando relatórios sobre o crescimento de fungos nas bordas do reino, quando a batida na porta ecoou. Era uma batida impaciente, rítmica e irritantemente familiar.

— Entre — ordenou Flamela, a voz carregada de uma autoridade que ela não sentia por dentro.

A porta se abriu e Rin entrou, parecendo mais uma tempestade em forma de mulher do que uma convidada. Ela não pediu licença. Caminhou até a mesa de carvalho de Flamela e bateu as duas garrafas de vinho sobre os relatórios de fungos.

— Encontrei isso no mercado — disse Rin, sem preâmbulos, cruzando os braços sobre o peito. — É um vinho de verdade, não aquela água de batata que você costuma oferecer. Achei que, como você vive reclamando da "barbárie" deste lugar, talvez quisesse algo que não agredisse seu paladar delicado.

Flamela ergueu os olhos vermelhos, a expressão gélida. Ela observou o rótulo da garrafa e depois a mulher à sua frente.

— E por que, exatamente, você achou que eu aceitaria qualquer coisa vinda de suas mãos, bruxa? — Flamela perguntou, cada palavra gotejando veneno. — Especialmente depois da sua saída dramática da última vez.

Rin soltou uma risada curta e sem graça, sentando-se na cadeira à frente da mesa sem ser convidada.

— Não se lisonjeie, capitã. Eu só não suporto a ideia de você ter mais um motivo para olhar para todos nós de cima. Se você estiver devidamente embriagada com algo de qualidade, talvez sua arrogância diminua um décimo de grau. Além disso, eu precisava de alguém que soubesse a diferença entre um Cabernet e sangue de orc para beber comigo.

Flamela arqueou uma sobrancelha.

— Você está me convidando para beber? — Um sorriso de escárnio surgiu nos lábios da elfa. — Achei que tinha dito que a ideia de me tocar novamente a fazia querer vomitar.

Rin sentiu o rosto esquentar, mas não recuou.

— Eu disse que tocar em você me dava náuseas, não que beber o seu vinho daria. E quem falou em tocar? Eu vim pelo álcool. Se você for incapaz de manter as mãos para si mesma, o problema é seu.

Flamela soltou um suspiro longo, fechando os relatórios. Ela pegou duas taças de cristal que mantinha em um armário lateral — uma das poucas luxúrias que trouxera consigo — e as colocou sobre a mesa.

— Você é uma criatura fascinante, Rin — disse Flamela, enquanto servia o líquido rubi. — Tão cheia de espinhos que acaba se furando.

— E você é um monumento ao ego — rebateu Rin, pegando sua taça com uma rapidez que denunciava seu nervosismo. — Saúde. Pelo fim do reinado de idiotas.

— Pelo fim dos idiotas — concordou Flamela, levando o cristal aos lábios.

O vinho era, de fato, excelente. O silêncio que se seguiu não era mais o silêncio tenso dos corredores, mas algo mais pesado, carregado com a memória da fricção entre seus corpos. Elas beberam a primeira taça em uma velocidade perigosa. A segunda foi servida com menos agressividade.

— Como está o seu... pequeno herói? — Flamela perguntou, inclinando-se para trás, a luz das velas destacando as linhas afiadas de seu rosto de obsidiana. — Kabru ainda está ocupado tentando decifrar o mistério de como um homem pode ser tão louco por monstros?

Rin olhou para o fundo de sua taça, a expressão obscurecida.

— Kabru é um tolo — disse ela, a voz mais baixa agora. — Ele busca ordem no caos. Ele olha para Laios e vê um quebra-cabeça que precisa ser resolvido para o bem da humanidade. Ele não vê... ele não vê o que está bem na frente dele.

— E o que está na frente dele, Rin? — Flamela provocou, sua voz suavizando para um tom perigosamente aveludado. — Uma maga amargurada que traz presentes para quem diz odiar?

Rin levantou os olhos, faiscando.

— Não fale como se me conhecesse. Você não sabe nada sobre o que eu sinto.

— Eu sei como você treme quando é contrariada — Flamela levantou-se, contornando a mesa com a elegância de um predador. — E sei que você não veio aqui apenas pelo vinho. Você veio porque, desde aquela noite, o olhar de Kabru não é mais o suficiente para você. Você provou algo que queima mais do que a admiração dele, não foi?

Rin levantou-se também, o peito arfando.

— Você é insuportável! Eu vim aqui porque este castelo é um hospício e você é a única pessoa que não me olha como se eu fosse uma ferramenta ou uma criança irritante. Mesmo que você me olhe como se eu fosse lixo, pelo menos é um olhar que eu reconheço!

Flamela parou a poucos centímetros dela. O cheiro do vinho misturava-se ao calor emanado por Rin.

— Eu não olho para você como se fosse lixo — sussurrou Flamela, estendendo a mão para tocar uma mecha do cabelo negro de Rin, enrolando-a no dedo. — Eu olho para você e vejo um espelho. Uma mulher que perdeu o controle de sua própria narrativa e agora está tentando desesperadamente encontrar o caminho de volta através da dor de outra pessoa.

Rin sentiu a raiva lutar contra uma vontade avassaladora de se entregar àquela tensão.

— Você se acha tão inteligente — disse Rin, embora sua voz tivesse perdido a força. — Mas você está aqui, bebendo comigo. O que isso diz sobre você, capitã?

— Diz que eu tenho um gosto deplorável por veneno — Flamela respondeu, e antes que Rin pudesse retrucar, a elfa a puxou pelo colarinho do vestido preto.

O beijo foi mais violento do que o da primeira vez. Havia um desespero novo, uma necessidade de apagar as semanas de negação. Rin agarrou os ombros de Flamela, as unhas cravando-se no tecido fino de sua túnica, enquanto a elfa a empurrava contra a parede da sala de estudos.

— Eu odeio você — murmurou Rin entre beijos famintos, sua voz quebrada.

— Eu sei — respondeu Flamela, a respiração quente contra o pescoço da maga. — Use esse ódio. É a única coisa honesta que temos.

Não houve delicadeza quando Flamela a jogou sobre a mesa, espalhando os relatórios e as taças vazias pelo chão. O cristal se quebrou com um som cristalino, mas nenhuma das duas se importou. Flamela subiu sobre ela, prendendo os pulsos de Rin contra a madeira, seus olhos vermelhos brilhando com uma fome que não tinha nada a ver com comida e tudo a ver com posse.

Rin arqueou o corpo, buscando o contato, buscando a dor que a fazia esquecer o vazio que Kabru deixara. Naquele momento, sob o peso da elfa, ela não era a maga preterida ou a aliada útil. Ela era apenas Rin, uma mulher em chamas, sendo consumida por alguém tão incendiária quanto ela.

A noite transformou-se em um borrão de movimentos bruscos e palavras ríspidas trocadas no calor do ato. Flamela era exigente, dominante, tratando o corpo de Rin como um território a ser conquistado e subjugado. Rin, por sua vez, devolvia cada investida com uma ferocidade que desafiava a autoridade da capitã, mordendo os lábios de Flamela e puxando seu cabelo branco com uma força que beirava a agressão.

Era tóxico. Era um ciclo de ressentimento transformado em luxúria, onde o prazer era apenas um subproduto da tentativa de destruir a outra.

Quando o cansaço finalmente as atingiu, elas ficaram deitadas em meio aos papéis amassados e aos restos do vinho derramado. A luz da lua filtrava-se pela janela, banhando a pele escura de Flamela e a palidez de Rin em tons de prata e sombra.

Rin foi a primeira a se mover, sentando-se com dificuldade e tentando ajeitar o vestido rasgado.

— Isso foi... um erro — disse ela, embora não houvesse convicção em sua voz.

Flamela permaneceu deitada, um braço sobre os olhos, a respiração ainda pesada.

— Erros são a especialidade deste reino, Rin. Por que nós seríamos diferentes?

Rin olhou para a elfa, vendo a vulnerabilidade que Flamela tentava esconder sob sua arrogância. Ela sentiu uma pontada de algo que não era ódio, e isso a assustou mais do que qualquer feitiço de masmorra.

— Kabru me perguntou hoje por que eu andava tão distraída — comentou Rin, quase para si mesma.

Flamela riu, um som seco e sem alegria.

— E o que você disse a ele? Que estava ocupada sendo desmantelada por uma elfa que ele despreza?

— Eu disse que estava cansada de monstros — Rin levantou-se, limpando o resto de vinho do canto da boca. — O que não deixa de ser verdade. Você é o pior tipo de monstro, Flamela. O tipo que não se pode matar com uma espada.

Flamela finalmente se sentou, observando Rin se preparar para partir.

— E você é a bruxa que continua voltando para a toca do monstro. Não tente fingir que é uma vítima. Você gosta do gosto do meu veneno tanto quanto eu gosto do seu.

Rin parou na porta, a mão na maçaneta. Ela não olhou para trás.

— O vinho estava bom — disse ela, a voz fria novamente. — Mas não espere que eu traga outra garrafa tão cedo.

— Você trará — afirmou Flamela, com uma certeza absoluta. — Porque agora, quando você olha para Kabru, você só consegue pensar em como as mãos dele seriam gentis demais para você. Você precisa de alguém que a quebre, Rin. E ele nunca fará isso.

Rin bateu a porta sem responder, mas o silêncio que ficou no quarto era a resposta de que Flamela precisava.

A elfa olhou para o chão, para o cristal quebrado que refletia a luz da lua. Ela sentia-se exausta, irritada e estranhamente satisfeita. Ela odiava Rin. Odiava a maneira como a maga a fazia perder a compostura e como a deixava querendo mais daquela fúria compartilhada.

Flamela serviu-se do que restara na garrafa diretamente no bico, sentindo o vinho descer queimando. Ela sabia que Rin voltaria. E Rin sabia que Flamela estaria esperando.

No reino de Laios, onde o impossível se tornava cotidiano, o ódio entre as duas era a única coisa que parecia real. Uma âncora de amargura em um mar de otimismo irritante.

E enquanto bebia, Flamela permitiu-se um pequeno e cruel sorriso. Deixe Laios ter seu reino e deixe Kabru ter seus ideais. Ela e Rin teriam suas noites de vidro moído e promessas de destruição mútua.

Era exatamente o que ambas mereciam. E, por enquanto, era o suficiente.