Laminas Eletrizadas
O Gosto Amargo da Rendição
O castelo de Melini estava silencioso, mergulhado na quietude de uma madrugada sem lua. Mas para Flamela, o silêncio era um ruído ensurdecedor. Ela caminhava pelos corredores de pedra com uma postura que tentava simular sua dignidade habitual, mas seus passos eram rápidos demais, e a garrafa de vinho que apertava contra o corpo parecia mais uma arma do que um presente.
Ela odiava aquela sensação. Odiava como seu corpo parecia ter desenvolvido uma memória própria, uma fome que não era saciada por banquetes ou descanso. Desde a última vez que Rin cruzara o limiar de seu quarto, Flamela sentia-se como se estivesse sob o efeito de uma maldição de definhamento. Sua pele de obsidiana parecia queimar sob as roupas finas, e cada vez que via a maga de cabelos negros ao longe, discutindo com Kabru ou lançando feitiços menores para ajudar na reconstrução, uma onda de irritação e luxúria a atingia com a força de um soco.
"Ela virá", Flamela pensara durante dias. "Ela é fraca, ela é amargurada, ela voltará para buscar o único alívio que conhece."
Mas Rin não viera.
A humana, com sua teimosia tipicamente curta e explosiva, parecia ter decidido que o orgulho valia mais do que o prazer tóxico que compartilhavam. E isso estava levando Flamela à loucura. A capitã dos Canários, a elfa que comandava com punho de ferro, estava agora diante da porta dos aposentos de uma maga de terceira categoria, sentindo o coração martelar contra as costelas como o de uma noviça.
Ela não bateu. Simplesmente usou uma pequena descarga de magia para destravar a fechadura e entrou.
O quarto de Rin cheirava a ervas secas, tinta de pergaminho e aquele perfume de sândalo que Flamela passara a desprezar e desejar em medidas iguais. Rin estava sentada à mesa, iluminada por uma única vela, lendo um tomo pesado. Ela nem sequer se virou quando a porta se abriu.
— Você demorou a se render, capitã — disse Rin, a voz calma, mas carregada de uma satisfação venenosa.
Flamela trincou os dentes, fechando a porta atrás de si com um baque seco.
— Não vim me render, bruxa. Vim trazer isto. — Ela caminhou até a mesa e colocou a garrafa de vinho, um rótulo ainda mais nobre que o anterior, com um impacto pesado. — Considere um pagamento pela sua insolência em me ignorar nas últimas semanas.
Rin finalmente levantou os olhos. Havia olheiras sob seus olhos negros, e seu cabelo estava preso em um coque frouxo, mas seu olhar era de puro desafio. Ela olhou para a garrafa e depois para Flamela, um sorriso lento e cruel curvando seus lábios.
— Guarde seu vinho, Flamela — disse Rin, voltando sua atenção para o livro. — Eu não estou com sede hoje.
Flamela sentiu o sangue ferver. Ela deu um passo à frente, as mãos apoiadas na mesa, inclinando-se sobre a maga.
— O que você disse?
— Eu disse que não quero — repetiu Rin, fechando o livro com um estrondo e levantando-se para encarar a elfa de igual para igual. — Você achou que bastava estalar os dedos e balançar uma garrafa cara para que eu abrisse as pernas? Eu não sou uma das suas subordinadas, e certamente não sou Kabru para aceitar suas migalhas de atenção.
— Você está mentindo — sibilou Flamela, sua voz falhando levemente pela necessidade que a consumia. — Eu vejo como você me olha nas reuniões. Você está tão desesperada quanto eu.
— Talvez — admitiu Rin, dando um passo em direção ao espaço pessoal de Flamela, sentindo o calor que emanava da elfa. — Mas eu tenho algo que você não tem: autocontrole. Eu posso viver com a fome. Você, ao que parece, está subindo pelas paredes.
Flamela perdeu a paciência. Ela agarrou o colarinho do vestido de Rin, puxando-a para perto com uma força bruta.
— Chega de jogos. Eu não vim aqui para conversar sobre força de vontade.
— Então para que veio? — Rin desafiou, sem recuar, as mãos segurando os pulsos de Flamela. — Se quer tanto, peça. Sem o álcool para nos dar uma desculpa amanhã. Sem o vinho para dizer que foi apenas um "erro de julgamento". Olhe para mim, sóbria, e admita que você precisa de mim.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado pela respiração pesada de ambas. Flamela sentia que poderia explodir. Seu orgulho elfo lutava contra a urgência primitiva de seu corpo. Ela odiava Rin por fazê-la chegar a esse ponto, por despi-la de sua superioridade com apenas algumas palavras.
— Eu preciso... — Flamela começou, a voz rouca, quase um rosnado. — Eu preciso calar essa sua boca insolente.
Flamela não esperou por uma resposta. Ela empurrou Rin contra a mesa, derrubando o livro e a garrafa de vinho fechada, que rolou pelo chão sem quebrar. O beijo foi uma colisão desesperada de dentes e línguas. Não havia o entorpecimento do álcool para suavizar as arestas; cada sensação era nítida, afiada como uma lâmina. Flamela explorou a boca de Rin com uma fome predatória, enquanto a maga gemia contra seus lábios, as mãos subindo para os cabelos brancos da elfa, puxando-os com força.
Rin desamarrou apressadamente a túnica de Flamela, suas mãos trêmulas mas assertivas. Quando a pele de obsidiana foi exposta ao ar frio do quarto, Flamela soltou um suspiro trêmulo. Ela empurrou Rin para trás, fazendo-a sentar na borda da mesa, e começou a levantar as saias do vestido preto da humana com uma urgência febril.
— Você... — Rin arquejou enquanto Flamela ajoelhava-se entre suas pernas — ...você ainda é... detestável.
— E você continua sendo uma distração irritante — rebateu Flamela, mergulhando o rosto entre as coxas de Rin.
O contato direto da língua de Flamela contra a intimidade de Rin fez a maga arquear as costas, os dedos cravando-se na madeira da mesa. Sem o véu da bebedeira, tudo era intensificado. Flamela podia sentir o gosto salgado de Rin, o aroma de sua excitação, e o modo como seu corpo tremia violentamente a cada movimento calculado da elfa. Flamela era metódica, usando sua experiência secular para levar Rin ao limite, deliciando-se com os sons de desespero que escapavam da garganta da humana.
Rin não aguentou por muito tempo. Ela puxou Flamela para cima, querendo sentir o peso total da elfa contra si.
— Agora — ordenou Rin, os olhos negros nublados de desejo.
Flamela a virou de costas sobre a mesa, pressionando o rosto de Rin contra a madeira fria. Com uma mão, ela prendeu os dois pulsos de Rin na base de suas costas; com a outra, guiou-se para dentro dela. O impacto inicial fez Rin gritar, um som que foi abafado pela mesa, mas que ecoou nas paredes do quarto.
O ritmo era impiedoso. Flamela movia-se com uma agressividade que beirava o ódio, cada estocada sendo uma punição pela resistência de Rin, pelo seu orgulho, por fazê-la sentir-se tão dependente. Rin recebia cada movimento com uma avidez igual, empurrando o quadril para trás, buscando mais daquela dor que se transformava em um prazer insuportável.
— Diga... — Flamela sibilou no ouvido de Rin, enquanto seus corpos colidiam ritmicamente — ...diga que você é minha. Que nenhum olhar de Kabru jamais vai chegar perto disso.
— Eu... eu sou... — Rin tentava recuperar o fôlego, a voz quebrada — ...eu odeio você, Flamela! Eu odeio o quanto eu quero isso!
— Ótimo — respondeu a elfa, aumentando a velocidade, sentindo o clímax se aproximar como uma tempestade. — Continue me odiando. É a única coisa que me faz sentir viva neste lugar maldito.
O quarto foi preenchido pelo som de carne contra carne e respirações entrecortadas. Quando o ápice finalmente as atingiu, foi devastador. Flamela desabou sobre as costas de Rin, o rosto escondido na curva de seu pescoço, ambas tremendo enquanto a adrenalina começava a baixar.
O silêncio que retornou ao quarto era diferente de antes. Não era mais carregado de expectativa, mas de uma exaustão amarga.
Flamela foi a primeira a se afastar. Ela se recompôs com uma rapidez impressionante, ajeitando suas roupas e recuperando sua máscara de frieza, embora seu peito ainda subisse e descesse com força. Rin permaneceu deitada na mesa por um momento, recuperando os sentidos, antes de se sentar e arrumar o vestido desalinhado.
A garrafa de vinho ainda estava no chão. Flamela a pegou, olhando para o rótulo com um desprezo renovado.
— Parece que você estava certa, Rin — disse Flamela, a voz agora firme e cortante. — O vinho não era necessário.
Rin limpou o suor da testa, olhando para a elfa com um sorriso cansado e cínico.
— É claro que eu estava certa. Nós não precisamos de desculpas para sermos patéticas, capitã. Nós apenas somos.
Flamela caminhou até a porta, mas antes de sair, olhou por cima do ombro.
— Da próxima vez, não me faça vir até aqui.
Rin soltou uma risada seca, voltando a sentar-se em sua cadeira e abrindo o livro que fora derrubado.
— Não haverá próxima vez, Flamela. Até que você perceba que o seu rei loiro nunca vai lhe dar a ordem que você realmente deseja seguir.
Flamela apertou a maçaneta com tanta força que a madeira rangeu.
— Veremos.
Ela saiu, fechando a porta com uma suavidade que era mais ameaçadora do que qualquer estrondo. Enquanto caminhava de volta para seus aposentos, Flamela sentia o gosto de Rin em seus lábios e a marca das unhas da maga em seus ombros.
Ela ainda a odiava. Talvez mais do que antes. Mas enquanto atravessava o pátio sob o céu que começava a clarear, Flamela sabia que a fome voltaria. E ela sabia que, apesar de todo o orgulho e de todas as palavras ácidas, Rin estaria lá para alimentá-la.
Era um ciclo vicioso, uma dança de autodestruição que nenhuma magia ou lógica poderia quebrar. No reino de Melini, onde monstros eram devorados para sustentar a vida, Flamela e Rin haviam encontrado sua própria forma de sustento: um veneno que elas bebiam de bom grado, taça após taça, até que não sobrasse nada além de cinzas e desejo.