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Laminas Eletrizadas

Labirinto de Seda e Espinhos

O ritmo do Reino de Melini era ditado pela fome e pela reconstrução, mas para Flamela, o compasso de seus dias era marcado por acessos de fúria e o suor que deixava nos lençóis de Rin. Tornara-se uma rotina perigosa, um vício que se alimentava do estresse. Cada vez que Laios sugeria uma nova política baseada no sistema digestivo de um basilisco, ou cada vez que ela via Kabru sorrir para o rei com aquela adoração cega, Flamela sentia uma pressão insuportável sob a pele de obsidiana.

E a única válvula de escape era Rin.

As noites eram combates. Flamela chegava ao quarto da maga como uma tempestade, descontando cada frustração diplomática e cada grama de seu orgulho ferido no corpo da outra. Era bruto, era rápido e era carregado de um ressentimento que ambas cultivavam como um jardim de ervas venenosas. Flamela usava Rin para esquecer que era uma capitã sem exército, e Rin usava Flamela para esquecer que era uma sombra no coração de Kabru.

Mas, naquela noite, algo foi diferente.

Após um encontro particularmente intenso, onde Flamela fora mais ríspida do que o habitual, a elfa levantou-se da cama com movimentos mecânicos, catando sua túnica no chão de pedra fria. Seu rosto era uma máscara de indiferença, os olhos vermelhos fixos na porta, já planejando o relatório que escreveria ao amanhecer.

— Onde você pensa que vai? — A voz de Rin ecoou, não com a agressividade de costume, mas com uma nota de autoridade que fez Flamela hesitar.

— De volta aos meus aposentos — respondeu Flamela, sem olhar para trás. — Tenho assuntos a tratar com os Canários remanescentes e uma lista de exigências para aquele rei lunático. Já terminamos aqui.

Rin sentou-se na cama, o lençol caindo pelos ombros, revelando as marcas vermelhas que os dedos de Flamela haviam deixado em sua pele. Ela se levantou, caminhando silenciosamente até a elfa, e segurou seu pulso. Não foi um puxão, mas uma pressão firme, inabalável.

— Não — disse Rin, os olhos negros brilhando sob a luz fraca da vela. — Você não vai embora. Amanhã é seu dia de folga oficial, e eu sei que você não tem nada agendado além de se afogar em amargura solitária.

Flamela tentou puxar o braço, mas Rin a segurou com mais força, aproximando-se até que seus hálitos se misturassem.

— Me solte, bruxa — sibilou a elfa. — Você não tem o direito de me dar ordens.

— Hoje eu tenho — rebateu Rin, um sorriso desafiador surgindo em seus lábios. — Eu tenho um plano, Flamela. Um plano que não envolve você gritar comigo ou tentarmos nos destruir mutuamente em cima de uma mesa.

Flamela arqueou uma sobrancelha, o desdém evidente.

— Um plano? E o que seria? Um ritual de sacrifício?

— Quase isso — Rin soltou o pulso dela, mas parou na frente da porta, bloqueando a saída. — Nós vamos dormir. Juntas. Sem sexo, sem brigas, apenas dormir. E amanhã, você vai sair comigo. Vamos ao mercado, vamos ver as lojas de tecidos que chegaram do sul, vamos almoçar algo que não tenha sido caçado em uma masmorra e, depois, vamos voltar para cá.

Flamela soltou uma risada seca, genuinamente incrédula.

— Você quer que eu saia em um... encontro? Com você? Pelos deuses, Rin, o álcool finalmente corroeu o pouco de juízo que lhe restava. Eu sou uma nobre élfica, não uma camponesa em busca de distração.

— Você é uma mulher que está a um passo de ter um colapso nervoso — Rin deu um passo à frente, sua expressão suavizando-se de uma forma que Flamela achou profundamente perturbadora. — Eu vejo suas mãos tremerem quando você segura aquela taça de vinho. Vejo como você mal consegue respirar de tanta raiva acumulada. Só por um dia, Flamela... deixe-me ver como você é quando não está tentando matar o mundo com o olhar.

A elfa abriu a boca para proferir um insulto cortante, mas as palavras morreram em sua garganta. Havia algo na vulnerabilidade de Rin, na preocupação genuína que começava a vazar por trás de sua fachada assertiva, que a desarmou. A ideia de não ter que lutar, mesmo que por algumas horas, pareceu subitamente tentadora, como um oásis no deserto de sua própria fúria.

— Se você tentar qualquer coisa sentimental ou patética — avisou Flamela, embora sua voz tivesse perdido o tom de ameaça —, eu transformo este quarto em cinzas.

— Justo — concordou Rin, afastando-se da porta e voltando para a cama. — Agora, apague essa vela e deite-se. É uma ordem.

A noite foi estranha. Flamela deitou-se de costas, rígida como uma estátua, esperando que Rin tentasse tocá-la ou iniciar outra rodada de provocações. Mas a maga apenas se acomodou ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, e logo sua respiração tornou-se pesada e rítmica. Pela primeira vez em meses, o silêncio não era tenso. Era apenas... sono. E, eventualmente, o cansaço secular de Flamela venceu sua guarda, mergulhando-a em um descanso sem sonhos.

O sol da manhã entrou pela janela, mas não trouxe a habitual dor de cabeça de ressaca. Flamela acordou sentindo-se estranhamente leve. Rin já estava de pé, vestindo um traje civil menos formal que seu vestido preto habitual — uma túnica de linho escuro e calças práticas.

— Acorde, capitã — disse Rin, jogando um conjunto de roupas limpas sobre Flamela. — O mercado não vai esperar por sua majestade.

O dia transcorreu como um borrão surreal para Flamela. Elas caminharam pelas ruas de Melini, e a elfa sentia-se exposta sem sua armadura ou sua postura de combate. Rin, no entanto, agia como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Ela levava Flamela de barraca em barraca, comentando sobre a qualidade das sedas e a procedência das especiarias.

— Olhe isto — disse Rin, parando diante de um mercador de tecidos. — Este azul combinaria com seus olhos se você parasse de olhar para as pessoas como se quisesse incinerá-las.

— Azul é uma cor para os fracos — resmungou Flamela, mas seus dedos tocaram a seda fina, apreciando a textura. — Mas o tingimento é aceitável.

— Aceitável? É magnífico — Rin sorriu, e Flamela percebeu que aquele sorriso não era carregado de veneno. Era leve.

Elas almoçaram em uma pequena taverna afastada da agitação central. Rin pediu pratos simples: pão fresco, queijo de cabra e frutas. Nada de monstros, nada de experimentos culinários de Laios. Elas conversaram, mas não sobre política ou rancores. Rin contou histórias de sua infância, de como aprendera magia por necessidade e como sempre se sentira deslocada até encontrar seu grupo.

Flamela ouvia, surpresa ao descobrir que Rin era muito mais do que a "bruxa nervosa" que ela imaginava. Havia uma profundidade ali, uma inteligência afiada que não era usada apenas para ferir. E, gradualmente, a tensão nos ombros de Flamela começou a ceder. Ela se viu contando a Rin sobre as florestas de seu lar, sobre a disciplina rigorosa dos Canários e sobre como o tempo parecia diferente para os elfos.

— Você fala como se o mundo fosse uma obrigação — comentou Rin, tomando um gole de suco de maçã. — Às vezes, as coisas só existem para serem apreciadas, Flamela. Sem utilidade estratégica.

— Uma visão tipicamente humana — respondeu a elfa, mas não havia mordacidade em sua voz. — Mas talvez... haja alguma lógica nisso.

Ao entardecer, elas voltaram para o castelo. O caminho foi feito em silêncio, mas não era o silêncio de estranhas ou de inimigas. Era o silêncio de duas pessoas que haviam compartilhado uma trégua e descoberto que a paz não era tão insuportável quanto imaginavam.

Quando entraram no quarto de Rin, a atmosfera mudou. A luz alaranjada do pôr do sol banhava o ambiente, criando sombras longas e suaves. Flamela sentou-se na beira da cama, observando Rin fechar a porta.

— Você está calma — observou Rin, aproximando-se lentamente.

— É uma sensação irritante — admitiu Flamela, embora seus olhos vermelhos estivessem tranquilos. — Sinto como se estivesse faltando algo. A raiva era... constante. Sem ela, sinto-me vazia.

— O vazio é onde você pode construir algo novo — Rin parou entre as pernas de Flamela, colocando as mãos nos ombros da elfa. Desta vez, o toque foi suave, exploratório. — Você não precisa estar sempre na defensiva comigo, Flamela. Não hoje.

Flamela olhou para cima, encontrando o olhar de Rin. A preocupação que vira antes ainda estava lá, mas agora vinha acompanhada de algo mais profundo. Rin estava genuinamente cativada pela visão daquela mulher poderosa finalmente em repouso. A ideia de manter Flamela assim, serena e protegida, estava se tornando uma obsessão muito mais forte para Rin do que qualquer desejo de vingança contra Kabru ou Laios.

— Por que você está fazendo isso? — perguntou Flamela em voz baixa. — Por que se importa se eu estou calma ou não?

Rin suspirou, passando os dedos pelos cabelos brancos e curtos da elfa.

— Porque eu cansei de nos machucarmos. Porque, no fundo, somos as únicas que entendem o peso de estarmos presas aqui. E porque... — Rin hesitou, buscando as palavras — ...ver você assim me faz querer ser alguém melhor. Alguém que você não precise odiar.

Flamela sentiu algo se quebrar dentro de si. Não foi uma derrota, mas uma rendição voluntária. Ela puxou Rin para um beijo, mas não houve dentes ou agressividade. Foi um beijo lento, profundo, que buscava conexão em vez de domínio.

— Você é uma tola, Rin — sussurrou Flamela contra seus lábios.

— E você é insuportável — respondeu a maga, sorrindo.

Elas se deitaram juntas, mas desta vez não houve pressa. O ato de amor que se seguiu foi diferente de tudo o que haviam compartilhado. Foi gentil, focado no prazer mútuo e na descoberta de novos ritmos. Flamela permitiu-se ser tocada com carinho, e Rin entregou-se com uma devoção que não deixava dúvidas sobre seus sentimentos.

Naquela noite, a toxicidade que as unira pareceu evaporar, dando lugar a algo frágil e precioso. Elas ainda eram mulheres difíceis, ainda viviam em um reino caótico e ainda nutriam desprezo por muitos ao seu redor. Mas, entre as quatro paredes daquele quarto, elas haviam encontrado um equilíbrio.

Enquanto Flamela dormia com a cabeça apoiada no peito de Rin, a maga acariciava seus ombros, olhando para o teto. Ela sabia que os dias de fúria voltariam, que Laios faria algo estúpido e que Flamela voltaria a rosnar para o mundo. Mas agora, Rin sabia como trazê-la de volta. Sabia que, por trás da capitã de ferro, havia uma mulher que só precisava de um dia de sol e de alguém que não tivesse medo de sua escuridão.

— Eu vou cuidar de você — sussurrou Rin para a elfa adormecida. — Mesmo que você me odeie por isso amanhã.

Flamela não respondeu, mas em seu sono, ela se aconchegou mais perto de Rin, soltando um suspiro longo e tranquilo. O labirinto de seda e espinhos em que viviam ainda existia, mas, pela primeira vez, elas não estavam tentando encontrar a saída sozinhas. Estavam apenas aprendendo a viver entre as flores, sem se importar com as cicatrizes que os espinhos pudessem deixar.