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Lamine

O Ar que Falta e o Peso da Glória

O bip contínuo do monitor cardíaco era o único som que preenchia o quarto de hospital, um ritmo monótono que martelava na cabeça de Lamine Yamal. O jovem prodígio do Barcelona estava deitado, quase sumido entre os lençóis brancos e impecáveis da suíte particular. Sobre o seu rosto, uma máscara de oxigênio transparente embaçava a cada respiração curta e esforçada, um lembrete físico de que seu corpo finalmente havia cobrado a conta por meses de negligência.

Seus pés, agora livres das chuteiras dois números menores e das faixas compressivas, estavam elevados sobre travesseiros, mas a verdadeira batalha agora era interna. A infecção sistêmica, agravada pelo esforço extremo sob febre alta, havia atingido seus pulmões, deixando-o dependente daquele fluxo constante de ar artificial.

A porta se abriu sem cerimônia. Não era uma enfermeira, nem o Dr. Pruna. O espaço pareceu diminuir instantaneamente quando Zlatan Ibrahimovic entrou, seguido de perto por Kylian Mbappé. O sueco trazia uma expressão de poucos amigos, enquanto o francês tinha um olhar que misturava preocupação genuína e uma decepção fraternal.

Lamine tentou se sentar, mas a máscara de oxigênio o limitou, e uma onda de tontura o fez recuar contra o travesseiro.

— Fique parado, pequeno tolo — rosnou Ibrahimovic, parando ao lado da cama. — Zlatan não permite que seus investimentos se esforcem antes da hora.

Mbappé aproximou-se do outro lado, cruzando os braços. Ele olhou para o monitor, depois para o rosto pálido de Lamine.

— Você quase nos matou de susto, Lamine — disse Kylian, sua voz calma, mas carregada de uma seriedade que o jovem raramente via nele. — O que você estava pensando? Correr com quarenta graus de febre? Esconder feridas nos pés que pareciam saídas de um filme de terror?

Lamine puxou o ar com dificuldade, o som da máscara chiando. Ele levou a mão ao plástico, tentando afastá-lo para falar, mas a mão de Ibra, enorme e firme, o impediu.

— Deixe isso onde está — ordenou o sueco. — Você precisa de oxigênio porque gastou tudo tentando provar que é um mártir. O futebol não precisa de mártires, Lamine. O futebol precisa de gênios vivos.

— Eu... eu só queria... — a voz de Lamine saiu abafada pela máscara, mas ele insistiu, seus olhos marejados — ...ser como vocês. Eu não queria que ninguém pensasse que eu era fraco.

Ibrahimovic soltou um riso seco, mas seus olhos amoleceram por um breve segundo antes de voltarem à rigidez habitual.

— Você quer ser como eu? — Zlatan inclinou-se sobre a cama. — Eu sou o Zlatan porque eu trato meu corpo como um templo, não como um lixão. Eu exijo o máximo dele, mas eu dou a ele o melhor combustível, o melhor descanso e o respeito que ele merece. O que você fez foi um insulto ao seu talento.

Mbappé sentou-se na beira da cama, ignorando os protocolos hospitalares.

— Escuta, Lamine. Eu sei o que é ter o mundo inteiro olhando para você aos dezessete anos. Eu sei a pressão de ser chamado de "o próximo". Mas você não é o próximo ninguém, você é o Lamine. E se o Lamine morrer de uma parada respiratória porque foi teimoso demais para admitir uma gripe, o mundo perde um rei e nós perdemos um irmão.

Kylian estendeu a mão e bagunçou o cabelo de Lamine, um gesto de carinho que contrastava com a bronca.

— Você entende que se tivesse caído morto naquele campo, a culpa seria nossa? — continuou Mbappé. — Do Messi, do Cristiano, do Lewandowski... de todos nós que te incentivamos a ser o melhor. Nós te ensinamos a técnica, mas esquecemos de te ensinar que você ainda é humano.

Lamine sentiu o peso das palavras. Através da máscara, ele via não apenas dois dos maiores jogadores do mundo, mas dois mentores que realmente se importavam. O monitor cardíaco acelerou levemente, denunciando sua emoção.

— O Dr. Pruna disse que você vai precisar de três semanas de repouso absoluto — disse Ibra, pegando o prontuário ao pé da cama e lendo como se fosse o dono do hospital. — E Zlatan decidiu que você não vai ficar sozinho.

— Como assim? — Lamine perguntou, a voz saindo num sussurro ofegante.

— Nós vamos te tirar dessa cama agora — anunciou Mbappé, levantando-se e começando a desconectar alguns dos fios do monitor, deixando apenas o essencial. — O médico autorizou uma volta no jardim, mas você não vai caminhar.

— Eu posso andar, Kylian... — protestou Lamine, tentando retirar a máscara.

— Você não vai encostar esses pés no chão por hoje — interrompeu Ibrahimovic.

Antes que Lamine pudesse processar, Ibra passou os braços por baixo de suas costas e pernas. Com uma facilidade que beirava o absurdo, o sueco levantou o garoto no colo, mantendo-o firme contra o peito. Mbappé segurava o pequeno tanque de oxigênio portátil, garantindo que a mangueira da máscara não se esticasse.

— Olhem para ele — zombou Ibra, enquanto caminhava pelo corredor do hospital com Lamine nos braços. — O futuro do Barcelona, pesando menos que uma saca de batatas. Você precisa comer mais proteína, garoto.

Lamine sentiu-se absurdamente pequeno. Ele era um dos jogadores mais valiosos do planeta, mas ali, nos braços de Ibra e escoltado por Mbappé, ele se sentia apenas como um irmão mais novo que havia feito uma grande besteira.

— Estão todos lá fora — disse Mbappé, enquanto entravam no elevador. — Lewandowski, Raphinha, até o Xavi não foi para casa. O grupo de WhatsApp das lendas não para de apitar. O Cristiano mandou um áudio de dez minutos sobre fisioterapia respiratória. O Messi enviou o contato do melhor chef de cozinha de Barcelona para cuidar da sua dieta.

— Eles... eles não estão bravos? — perguntou Lamine, os olhos fixos no visor do elevador.

— Estão furiosos — respondeu Ibra, sem olhar para baixo. — Mas estão furiosos porque te amam. No futebol, quando ninguém mais briga com você, é porque você não importa mais. Enquanto estivermos gritando no seu ouvido, é porque você ainda é o nosso garoto.

Ao chegarem ao jardim privativo do hospital, o ar fresco da noite de Barcelona atingiu o rosto de Lamine, filtrado pela máscara. Lewandowski e Raphinha estavam sentados em um banco, conversando em voz baixa, mas levantaram-se imediatamente ao verem a procissão.

Ibrahimovic não colocou Lamine no chão. Ele sentou-se em um banco largo de madeira, mantendo o jovem meio sentado em seu colo, como se temesse que, se o soltasse, Lamine tentaria sair correndo para um campo de treino. Mbappé colocou o tanque de oxigênio ao lado deles.

— Olhem só — disse Lewandowski, aproximando-se com um sorriso triste. — O guerreiro ferido.

— Ele não é um guerreiro hoje, Robert — disse Ibra. — Hoje ele é apenas um menino que aprendeu que o oxigênio é mais importante que um drible.

Raphinha agachou-se na frente de Lamine, tocando seu joelho.

— Lamine, escuta o que eu vou te dizer. Eu vi o vídeo do seu pé de novo. Aquilo não era vontade de vencer, era automutilação. Se você fizer isso de novo, eu mesmo entrego suas chuteiras para o lixeiro. Você vai jogar com o tamanho certo, vai respirar quando estiver cansado e vai dizer quando estiver doente. Entendeu?

Lamine assentiu, o vapor da respiração embaçando a máscara. Ele olhou para cada um deles: Lewandowski, o mestre da disciplina; Raphinha, seu companheiro de dia a dia; Mbappé, o fenômeno que entendia o peso da precocidade; e Ibrahimovic, o gigante que não aceitava nada menos que a grandeza consciente.

— Eu prometo — sussurrou Lamine. — Eu prometo que vou me cuidar.

— É bom mesmo — disse Mbappé, sentando-se ao lado deles. — Porque nós fizemos um pacto. Se você negligenciar sua saúde de novo, nós vamos alternar quem vai te buscar no treino e te levar para casa. Você terá as babás mais caras da história do esporte.

Lamine soltou uma risada fraca, que acabou se transformando em uma tosse seca. Ibra deu tapinhas firmes em suas costas até que ele se acalmasse.

— Respire fundo, pequeno — disse o sueco. — Sinta o ar entrando. Esse é o combustível da vida. Sem isso, o talento é apenas fumaça.

Eles ficaram ali por um longo tempo, sob as estrelas de Barcelona. Não falavam de tática, de gols ou de contratos. Falavam de vida, de família e de como era importante saber parar. Lamine ouvia histórias de lesões que quase encerraram carreiras e de como o ego muitas vezes era o maior adversário de um atleta.

Pela primeira vez em muito tempo, Lamine Yamal não sentiu a necessidade de carregar o Barcelona nas costas. Ele sentiu que, por enquanto, podia ser carregado. Ele sentiu que a máscara de oxigênio não era uma fraqueza, mas um suporte para que ele pudesse voltar mais forte.

— Sabe, Lamine — disse Mbappé, olhando para o horizonte — , o segredo para ser o melhor do mundo não é quem corre mais rápido ou quem chuta mais forte. É quem consegue ficar no topo por mais tempo. E para ficar no topo, você precisa estar inteiro.

— Zlatan concorda — disse Ibra, ajustando o garoto nos braços. — Agora, vamos voltar para dentro. Você precisa de antibióticos e eu preciso de um café. Mas saiba de uma coisa: amanhã, o Messi vai te ligar. E se eu fosse você, eu atenderia no primeiro toque. Ele é muito mais assustador que eu quando está preocupado.

Lamine sorriu por trás da máscara. O medo de ser esquecido ou de ser visto como fraco havia evaporado. Ele percebeu que seu valor não estava apenas nos gols que marcava, mas na conexão que havia criado com aqueles homens que eram seus ídolos e que agora eram sua família.

Ao ser levado de volta para o quarto, novamente nos braços de Ibrahimovic, Lamine sentiu o sono finalmente chegar, um sono sem febre e sem dor. Ele sabia que as próximas semanas seriam difíceis, longe da bola e do gramado, mas ele não estava mais com pressa.

Ele tinha o ar que precisava, tinha os pés curando e, acima de tudo, tinha a proteção de gigantes que não o deixariam cair de novo. O pequeno gigante do Barcelona estava aprendendo a maior lição de sua vida: que para ser imortal no futebol, primeiro é preciso aprender a ser mortal e cuidar de si mesmo.

Enquanto Ibra o colocava de volta na cama e Mbappé ajustava o fluxo de oxigênio, Lamine fechou os olhos.

— Durma, pequeno — sussurrou Mbappé. — O trono vai esperar por você.

— E as chuteiras novas também — acrescentou Ibra, já na porta. — Do tamanho certo, desta vez. Ou eu mesmo te faço calçar pantufas para o resto da vida.

Lamine adormeceu com um sorriso, o ritmo do monitor cardíaco agora calmo e estável, como o futuro que o esperava.