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Las primas

Entre Sombras e Promessas de Esmeralda

O dia arrastou-se como uma tortura lenta. Camila limpou o chão, lavou as roupas de Sofia à mão em um tanque de cimento rachado e suportou os comentários ácidos de Sinuhe, que parecia ter prazer em cutucar cada ferida aberta na alma da filha. O tapa ainda ardia, não apenas na pele, mas no orgulho. Contudo, o peso do envelope escondido em sua bota era o que a mantinha de pé. Era um segredo pesado, uma âncora de esperança em um mar de desespero.

Enquanto estendia os lençóis gastos no varal improvisado, Camila olhou para o horizonte, onde os prédios luxuosos do centro da cidade brilhavam sob o sol da tarde. Em algum lugar ali, Lauren Jauregui estava vivendo sua vida de rainha. Camila se perguntava se Lauren estava pensando nela, ou se as horas que passaram juntas tinham sido apenas um desvio estatístico na rotina de uma mulher que tinha tudo.

— Camila! Pare de olhar para o nada e venha fazer o jantar! — O grito de Sinuhe ecoou de dentro do barraco. — Sofia está com fome e você está aí, sonhando acordada como se fosse uma princesa. Acorde para a realidade, garota. Você nasceu no lixo e é aqui que você pertence.

Camila fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. "O destino pode ser reescrito", a voz de Lauren ressoou em sua mente. Ela entrou, preparou uma refeição simples de arroz e feijão, e serviu a mãe e a irmã em silêncio. A tensão era palpável. Sinuhe mal falava, apenas lançava olhares de desprezo para a filha mais velha, enquanto Sofia, pequena e assustada, comia rápido, tentando não atrair atenção.

Quando a noite finalmente caiu, o ritual de transformação começou. Camila vestiu o vestido de seda vermelha que Lauren tanto gostava, passou o perfume que tentava disfarçar o cheiro de mofo da casa e preparou o coração para mais uma jornada no Las Primas.

— Vai logo — disse Sinuhe, sentada no sofá velho, assistindo a uma novela em uma TV com chuviscos. — E tente não voltar com as mãos vazias de novo. Aquele dinheiro de hoje cedo já acabou com as contas que paguei.

Camila não respondeu. Ela apenas beijou a testa de Sofia e saiu para a noite fria.

O Las Primas estava mais barulhento do que o normal. O cheiro de cigarro e suor misturado a álcool barato parecia mais sufocante naquela noite. Camila sentou-se em seu banco habitual, mas seus olhos não procuravam por clientes. Eles procuravam por um par de esmeraldas.

Ela não precisou esperar muito. Por volta das dez horas, a porta se abriu e o ambiente pareceu se calar por um milésimo de segundo. Lauren Jauregui entrou. Ela vestia um terno feminino azul-marinho, impecavelmente cortado, que destacava sua pele pálida e a postura de autoridade. Seus olhos percorreram o salão com uma agilidade predatória até pousarem em Camila. Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.

Lauren caminhou até ela, ignorando os chamados de outras garotas e os olhares cobiçosos dos homens presentes.

— Você está linda de vermelho, Camz — disse Lauren, a voz baixa e rouca, enviando arrepios pela espinha de Camila.

— Obrigada, Lo — Camila respondeu, sentindo as bochechas esquentarem. — Achei que você não viria hoje.

— Eu não conseguiria ficar longe — Lauren confessou, aproximando-se o suficiente para que Camila sentisse o calor de seu corpo. — Como foi seu dia?

Camila hesitou. Ela não queria estragar o momento, mas a marca do tapa, embora disfarçada pela maquiagem, parecia queimar sob o olhar atento de Lauren.

— Foi... o de sempre — sussurrou Camila.

Lauren estendeu a mão e, com uma delicadeza infinita, tocou o rosto de Camila, exatamente onde Sinuhe a havia agredido. Seus olhos verdes escureceram de repente, uma tempestade de fúria contida brilhando neles.

— Ela bateu em você — não era uma pergunta. Lauren tinha uma mente excepcional; ela lia as pessoas como se fossem livros abertos.

— Não foi nada, Lauren. Eu estou bem.

— Não, você não está — Lauren disse, a voz agora carregada de uma autoridade fria. — Vamos sair daqui. Agora.

— Mas eu tenho que trabalhar, a dona do lugar vai reclamar e...

— Eu já paguei pela sua noite, Camila — Lauren a interrompeu, segurando sua mão. — Paguei por todas as suas noites desta semana. Você não deve nada a este lugar hoje, nem amanhã, nem depois. Vamos.

Lauren a conduziu para fora, ignorando os olhares curiosos. O carro de luxo estava estacionado na frente, um contraste berrante com a fachada decadente do bordel. Uma vez dentro do veículo, o silêncio do isolamento acústico trouxe um alívio imediato para Camila.

— Para onde vamos? — perguntou Camila, sentindo o couro macio do banco contra sua pele.

— Para a minha casa — Lauren respondeu, ligando o motor. — Você precisa ver que o mundo é maior do que aquele barraco e aquele bordel. E eu preciso ter certeza de que você está segura, pelo menos por algumas horas.

A viagem foi rápida. Lauren dirigia com uma precisão que refletia sua personalidade: focada, inteligente e decidida. Elas chegaram a uma mansão situada em um dos bairros mais caros da cidade. Os portões de ferro se abriram automaticamente, revelando jardins impecáveis e uma arquitetura moderna que exalava sofisticação.

Camila ficou boquiaberta. Ela nunca tinha visto nada parecido, exceto em revistas velhas que encontrava no lixo.

— É... é lindo, Lauren — disse ela, ao saírem do carro.

— É apenas uma casa, Camz. Às vezes, parece mais uma galeria de arte fria do que um lar — Lauren comentou, conduzindo-a para dentro.

O interior era magnífico. Pé-direito alto, obras de arte nas paredes e uma iluminação suave que tornava tudo acolhedor, apesar da grandiosidade. Lauren a levou até a cozinha, um espaço amplo de mármore e aço inoxidável.

— Você está com fome? — Lauren perguntou, abrindo uma garrafa de vinho que provavelmente custava mais do que o aluguel de Camila por um ano.

— Um pouco — admitiu Camila, sentando-se em um dos bancos altos da ilha da cozinha.

Lauren preparou algo simples, mas sofisticado: uma massa com especiarias e queijos finos. Elas comeram em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos talheres e pela música clássica que tocava baixo no sistema de som da casa. Camila sentia-se em um sonho, um daqueles dos quais se tem medo de acordar.

— Por que você faz isso, Lauren? — Camila perguntou de repente, largando o garfo. — Por que gasta tanto tempo e dinheiro comigo? Existem centenas de mulheres mais bonitas e experientes naquele lugar.

Lauren deixou a taça de vinho de lado e olhou profundamente nos olhos de Camila.

— Porque você é a única que não está tentando me vender uma ilusão, Camila. Todas as outras olham para a minha carteira ou para o que eu posso proporcionar. Você olhou para mim. Naquela primeira noite, quando nossos olhos se cruzaram, eu vi uma alma que é tão brilhante quanto a minha é cansada. E eu percebi que você é inteligente, dedicada... e terrivelmente injustiçada pela vida.

Camila sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos.

— Eu não sou nada especial, Lauren. Sou apenas uma garota de 19 anos que vende o que tem para não deixar a irmã passar fome.

— Você é muito mais do que isso — Lauren levantou-se e caminhou até ela, ficando entre as pernas de Camila enquanto ela permanecia sentada no banco alto. — Você é uma sobrevivente. E sua mente... eu vejo como você processa as coisas, como você fala sobre música, sobre o mundo. Você está presa em uma gaiola, Camz. E eu tenho a chave.

— Eu não posso simplesmente fugir, Lauren. Minha irmã...

— Eu sei. E eu não estou pedindo para você abandonar Sofia. Mas você não pode ajudar ninguém se for destruída primeiro. Sua mãe é uma narcisista, Camila. Ela vai sugar cada gota de vida que você tem até não sobrar nada além de amargura.

Lauren acariciou o rosto de Camila, seus dedos traçando o contorno de seus lábios. O clima na cozinha mudou, tornando-se denso e carregado de uma eletricidade que sempre existia entre elas.

— Fique aqui esta noite — Lauren sussurrou. — Não como um negócio. Não como uma transação. Fique como você.

Camila concordou com a cabeça, incapaz de encontrar palavras. Lauren a levou para o andar de cima, para o seu quarto principal. Era um santuário de tons cinzas e azuis, com uma cama king-size que parecia uma nuvem.

Desta vez, não houve pressa. Lauren despiu Camila com uma reverência quase religiosa, beijando cada centímetro de pele que era revelado. No Las Primas, Camila sentia-se um objeto; aqui, sob as mãos de Lauren, ela sentia-se uma obra de arte.

— Você é tão perfeita — Lauren murmurou contra o pescoço de Camila, enquanto a deitava nos lençóis de seda.

A intimidade entre elas foi além do físico. Foi uma conversa de corpos que se reconheciam. Lauren era gentil, explorando Camila com uma paciência que a deixava trêmula. Ela buscava o prazer de Camila antes do seu, ouvindo cada suspiro, cada gemido, como se fossem notas de uma sinfonia. E Camila, pela primeira vez em sua vida, entregou-se totalmente. Ela não precisava atuar, não precisava fingir. Com Lauren, ela era apenas Camila.

Depois, enquanto descansavam abraçadas sob o edredom macio, Camila sentiu uma paz que nunca havia experimentado. A cabeça de Lauren estava apoiada em seu peito, e Camila acariciava os cabelos escuros da empresária.

— Lauren? — chamou baixinho.

— Hum?

— O que acontece agora? Amanhã eu tenho que voltar para aquele barraco. Tenho que enfrentar minha mãe.

Lauren se levantou, apoiando-se nos cotovelos para olhar para Camila. Seu rosto estava sério, a mente excepcional trabalhando em alta velocidade.

— Amanhã, nós vamos começar a mudar as coisas. Eu tenho um apartamento que pertence à empresa. Está vazio. É seguro, é discreto e fica perto de uma boa escola para Sofia.

Camila arregalou os olhos, o coração disparando.

— Lauren, eu não posso aceitar isso. É demais. Eu nem sei como te retribuir.

— Você não precisa me retribuir, Camila — Lauren disse, segurando seu queixo com firmeza, mas carinho. — Eu quero que você estude. Quero que você use essa inteligência para ser o que quiser. O Las Primas acabou para você.

— Minha mãe nunca vai permitir. Ela vai me caçar, ela vai fazer um escândalo.

— Deixe que eu cuido da sua mãe — os olhos de Lauren brilharam com uma frieza calculista. — Pessoas como ela têm um preço. E eu tenho os recursos para pagar e para garantir que ela nunca mais chegue perto de você ou da sua irmã, se for isso que você desejar.

— Você faria isso por mim? Por que?

— Porque eu viciei em você, Camila — Lauren confessou, a voz carregada de uma vulnerabilidade rara. — Não apenas no seu corpo, mas na sua presença. Você é a única coisa real em um mundo de aparências. E eu não vou deixar o mundo quebrar você.

Camila puxou Lauren para um beijo, um beijo que selava um pacto silencioso. Pela primeira vez, a esperança não parecia um conceito abstrato, mas algo sólido, como as paredes daquela mansão.

No entanto, o destino tinha suas próprias armadilhas. Enquanto as duas se perdiam nos braços uma da outra, no barraco da periferia, Sinuhe remexia nas coisas de Camila. Ela estava furiosa com a afronta da filha mais cedo e buscava algo que pudesse usar contra ela. Foi então que, ao virar a bota velha de Camila, o envelope que Lauren dera a ela caiu no chão.

Sinuhe pegou o maço de notas de cem dólares, seus olhos brilhando com uma ganância doentia.

— Então é isso, Camila? — Sinuhe sibilou sozinha no escuro, contando o dinheiro. — Você está escondendo o tesouro da sua própria mãe? Você acha que vai fugir de mim?

Ela guardou o dinheiro em seu próprio sutiã e olhou para a porta. Ela sabia que Camila estava com a "mulher rica" que todos comentavam no bordel. Sinuhe não era inteligente como Lauren, mas era astuta e perversa. Ela não ia apenas tirar o dinheiro de Camila; ela ia garantir que a filha soubesse que nunca, jamais, seria livre.

Enquanto isso, na mansão, Camila adormeceu nos braços de Lauren, sonhando com livros, com uma escola para Sofia e com um futuro onde o cheiro de perfume barato era apenas uma memória distante. Ela não sabia que a tempestade estava se formando, e que o confronto entre o amor protetor de Lauren e o narcisismo destrutivo de sua mãe estava apenas começando.

A luz da lua entrava pela janela, iluminando o rosto sereno de Camila. Lauren permaneceu acordada por mais algum tempo, observando-a. Ela sabia que tirar Camila daquela vida seria uma guerra, mas Lauren Jauregui nunca tinha perdido uma batalha em sua vida. E por Camila, ela estava disposta a queimar o mundo inteiro se fosse necessário.

— Eu vou te salvar, Camz — Lauren sussurrou no silêncio do quarto. — Mesmo que você ainda não saiba o quanto precisa ser salva.

Ela fechou os olhos, sentindo o calor do corpo de Camila contra o seu, permitindo-se, pela primeira vez em muito tempo, sentir algo que não fosse apenas o peso da responsabilidade. O vício em luxúria tinha se transformado em algo muito mais perigoso e profundo: a necessidade de proteger uma alma que ela tinha aprendido a amar.

A manhã chegaria com desafios, com gritos e com a realidade cruel da periferia, mas naquela noite, sob o teto de Lauren, Camila estava, pela primeira vez em dezenove anos, verdadeiramente em casa. O vidro estava quebrado, e embora os cacos pudessem ferir, o caminho para a liberdade estava finalmente aberto.