Las primas
Entre o Ouro e o Espinho
O despertar na mansão Jauregui foi algo que Camila nunca esqueceria. Não houve o som estridente de carros velhos passando na rua de terra, nem o grito áspero de sua mãe exigindo que ela se levantasse para limpar a sujeira alheia. O que a acordou foi o toque suave da luz matinal filtrada por cortinas de linho caríssimas e o calor reconfortante de Lauren, que ainda dormia profundamente ao seu lado.
Camila permitiu-se observar Lauren por alguns minutos. Sem a armadura do terno e o olhar afiado de empresária, ela parecia quase jovem demais para o peso que carregava. Havia uma suavidade em seus lábios e uma paz em sua testa que Camila raramente via quando estavam no ambiente caótico do Las Primas. Ela estendeu a mão, hesitando, e tocou levemente o ombro de Lauren.
— Lo... — sussurrou Camila. — Eu preciso ir. Sofia vai acordar logo e, se eu não estiver lá, minha mãe vai descontar nela.
Lauren abriu os olhos lentamente, a cor verde esmeralda emergindo da sonolência com uma clareza impressionante. Ela não precisou de tempo para se situar; sua mente, sempre alerta, conectou-se imediatamente à realidade da garota ao seu lado.
— Eu sei — Lauren respondeu, a voz rouca pelo sono. — Mas não pense que isso é um adeus ao que conversamos. Eu já estou movendo os fios, Camila. O apartamento, a segurança... tudo está sendo preparado.
— Você fala como se fosse fácil — Camila sentou-se na cama, puxando o lençol para cobrir o peito. — Para você, o mundo se curva. Para mim, ele me esmaga a cada passo.
Lauren sentou-se também, segurando as mãos de Camila com firmeza.
— O mundo se curva para quem tem o poder de dobrá-lo. E agora, você tem a mim.
Lauren insistiu em levá-la. O trajeto de volta para a periferia foi preenchido por um silêncio tenso. À medida que o asfalto liso dava lugar aos buracos e ao lixo acumulado, a bolha de proteção que Lauren criara parecia evaporar. Camila sentia o estômago dar nós. Quando o carro parou a uma distância segura do barraco, ela olhou para Lauren uma última vez.
— Prometa que vai tomar cuidado — Lauren pediu, a preocupação vincando sua testa. — Se as coisas ficarem feias, me ligue. Eu não me importo com a hora.
— Eu prometo — mentiu Camila, sabendo que raramente tinha acesso ao celular sem que Sinuhe estivesse vigiando.
Ao caminhar em direção à sua casa, Camila sentiu um pressentimento sombrio. O silêncio que vinha de dentro do barraco era pesado demais. Quando empurrou a porta de madeira rangente, não encontrou Sinuhe gritando na cozinha. Encontrou-a sentada à mesa, com uma postura estranhamente ereta, segurando uma xícara de café frio.
No centro da mesa, espalhado como um troféu de guerra, estava o dinheiro. As notas de cem dólares que Lauren dera a Camila brilhavam sob a luz fraca da lâmpada pendurada no teto.
— Então a santinha decidiu voltar para o altar? — A voz de Sinuhe era um veneno destilado, baixa e perigosa.
Camila sentiu o sangue fugir do rosto. Seus olhos foram imediatamente para o canto onde Sofia costumava brincar, mas a menina não estava lá.
— Onde está a Sofia, mãe? — perguntou Camila, a voz trêmula.
— Ela está na vizinha. Achei melhor tirá-la daqui antes que eu perdesse a paciência com a irmã mentirosa e ladra que ela tem — Sinuhe levantou-se, batendo a mão na mesa, fazendo as notas voarem. — De onde veio isso, Camila? E não me venha com a história de que é o seu "trabalho". Eu conheço os preços daquele bordel de quinta. Ninguém paga isso por uma garota como você.
— Uma mulher... uma cliente regular — Camila tentou manter a voz firme, embora suas pernas parecessem feitas de gelatina. — Ela gosta de mim. Ela quis me ajudar.
— Ajudar? — Sinuhe soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. — Ninguém ajuda ninguém de graça neste mundo, sua estúpida! Você está dando o golpe em alguma ricaça, é isso? Ou está planejando me deixar aqui no lixo enquanto foge com o seu tesouro?
— Eu não ia fugir! Eu ia usar isso para nós! Para a Sofia!
Sinuhe avançou rapidamente, o rosto retorcido em uma máscara de fúria narcisista. Ela agarrou o braço de Camila com uma força que certamente deixaria marcas.
— Você não faz nada sem a minha permissão! — gritou Sinuhe. — Eu te carreguei nove meses, eu aguentei a vergonha de ser abandonada por um homem que nem quis saber da sua existência! Tudo o que você tem, tudo o que você é, pertence a mim!
— Eu não pertenço a você! — Camila gritou de volta, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu sou a única que trabalha! Eu sou a única que cuida da Sofia! Você só sabe reclamar e tirar o pouco que eu consigo!
O tapa veio rápido, mas desta vez Camila não baixou a cabeça. Ela olhou nos olhos da mãe, e Sinuhe viu algo ali que nunca tinha visto antes: o reflexo da força de Lauren Jauregui.
— Você vai para o quarto — ordenou Sinuhe, a voz tremendo de raiva. — E vai me dar a chave do seu celular. E não pense em sair. Se eu vir aquele carro preto por aqui de novo, eu chamo a polícia e digo que aquela mulher está te aliciando, que ela é uma pervertida sequestradora. Eu destruo a vida dela, Camila. Eu juro que destruo.
Camila foi empurrada para o pequeno quarto que dividia com a irmã. A porta foi trancada por fora. Ela desabou na cama estreita, abafando o choro no travesseiro. A sensação de claustrofobia era absoluta. Ela tinha tocado o céu durante a noite, apenas para ser jogada de volta ao inferno com mais violência do que nunca.
As horas se passaram. O calor dentro do quarto tornou-se insuportável. Camila ouvia Sinuhe andando pela casa, resmungando, provavelmente escondendo o dinheiro em algum lugar onde a filha nunca encontraria. A esperança que Lauren plantara nela parecia agora uma piada cruel.
Enquanto isso, no centro da cidade, Lauren Jauregui não conseguia se concentrar. Ela estava em sua sala de reuniões, cercada por executivos que discutiam projeções trimestrais, mas sua mente excepcional estava focada em uma única variável: o silêncio de Camila.
Camila deveria ter enviado uma mensagem assim que entrasse em casa, conforme o combinado. Duas horas se passaram. Três. Quatro.
— Senhora Jauregui? — chamou seu assistente. — O conselho está esperando sua decisão sobre a fusão.
Lauren levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando-se com um ruído estridente no chão de mármore.
— A reunião acabou — disse ela, pegando o celular e a chave do carro.
— Mas, Lauren...
— Agora! — a voz dela cortou o ar como uma lâmina.
Lauren desceu para a garagem, o coração batendo com uma urgência que ela raramente permitia a si mesma sentir. Ela conhecia o perfil de predadores como a mãe de Camila. Sabia que a quietude era o prelúdio de algo terrível. Ela dirigiu de volta para a periferia, mas desta vez não parou a uma quadra de distância.
O Mercedes preto rugiu pelas ruas estreitas, atraindo olhares de espanto e medo dos moradores. Lauren parou o carro exatamente em frente ao barraco de Camila. Ela saiu do veículo, a postura ereta, os olhos verdes brilhando com uma determinação gélida.
Ela bateu na porta. Uma, duas, três vezes.
Sinuhe abriu a porta, o rosto já preparado para o confronto. Quando viu Lauren, seus olhos brilharam com uma mistura de inveja e desafio.
— Pois não? — perguntou Sinuhe, cruzando os braços. — O que uma mulher tão fina quer no meu humilde lar?
— Onde está a Camila? — Lauren foi direta, sua voz carregada de uma autoridade que não admitia réplicas.
— Minha filha está descansando. Ela teve uma noite longa... trabalhando para sustentar a família, sabe como é.
— Eu sei exatamente o que ela faz. E sei o que você faz com ela. Saia da frente.
Sinuhe tentou fechar a porta, mas Lauren colocou o pé, impedindo o movimento com uma força surpreendente.
— Escute aqui, sua abusadora de meia pataca — Lauren sibilou, aproximando-se tanto que Sinuhe recuou. — Eu sei quem você é. Eu sei que você pegou o dinheiro que eu dei a ela. E eu sei que ela está trancada aí dentro. Você tem duas opções: ou você abre essa porta agora e me deixa falar com ela, ou eu ligo para os meus advogados e para a polícia. Eu tenho provas de que você vive do lucro da prostituição da sua filha menor de idade na época em que começou, e posso garantir que você passe o resto da vida em uma cela muito menor do que este barraco.
Sinuhe empalideceu. O blefe de Lauren era sustentado por um poder real que a mulher nunca tinha enfrentado.
— Você não pode entrar assim... — gaguejou Sinuhe.
— Eu posso fazer o que eu quiser — Lauren empurrou a porta, entrando no ambiente úmido e escuro. — Camila!
— Lauren! — o grito veio do quarto trancado. — Eu estou aqui!
Lauren seguiu o som e encontrou o cadeado improvisado. Com um chute certeiro e carregado de adrenalina, a madeira podre cedeu. Camila correu para os braços de Lauren, tremendo como uma folha.
— Ela pegou tudo, Lo... ela me bateu de novo — soluçou Camila, escondendo o rosto no pescoço da empresária.
Lauren abraçou-a com força, sentindo uma fúria protetora que quase a cegava. Ela olhou para Sinuhe, que permanecia no centro da sala, parecendo pequena e patética agora que seu poder sobre a filha fora desafiado por alguém maior.
— Pegue suas coisas, Camila. E as da Sofia. Onde ela está?
— Na vizinha, na casa da Dona Maria — respondeu Camila, limpando as lágrimas.
— Vá buscá-la. Agora.
Camila hesitou, olhando para a mãe. Sinuhe tentou um último ataque.
— Se você sair por aquela porta, Camila, você nunca mais volta! Você vai ser uma órfã de mãe! Eu vou te amaldiçoar todos os dias da minha vida!
Lauren deu um passo à frente, protegendo Camila com o próprio corpo.
— Ela não precisa voltar, porque ela nunca mais vai precisar de nada que venha de você. Quanto à sua maldição, guarde-a para si mesma. Você vai receber um documento amanhã. Nele, haverá uma oferta financeira para que você desapareça da vida delas. Se você recusar ou tentar qualquer contato, eu usarei todo o meu império para enterrar você em processos e evidências de maus-tratos. Fui clara?
Sinuhe não respondeu, apenas bufou, a ganância lutando contra o orgulho ferido em sua expressão.
Camila correu para a casa vizinha e voltou minutos depois com Sofia no colo. A menina estava confusa, mas ao ver Lauren, sentiu uma segurança instintiva. Elas caminharam em direção ao carro, deixando para trás o barraco, os gritos de Sinuhe que agora começavam a ecoar novamente e dezenove anos de sofrimento.
Dentro do carro, o ar-condicionado e o cheiro de couro novo pareciam pertencer a outro planeta. Sofia adormeceu quase instantaneamente no banco de trás, exausta pelo estresse que nem compreendia totalmente. Camila segurava a mão de Lauren, apertando-a como se sua vida dependesse disso.
— Para onde vamos agora? — perguntou Camila, a voz ainda frágil.
— Para o apartamento que eu te falei — Lauren respondeu, suavizando o olhar ao olhar para a latina. — É seu, Camz. O contrato está no seu nome. Tem comida, roupas novas para você e para a pequena, e segurança na porta 24 horas. Ninguém vai tocar em você. Nunca mais.
— Por que você está fazendo isso, Lauren? Eu não entendo... eu sou apenas uma garota que você encontrou em um puteiro.
Lauren parou o carro em um sinal vermelho e virou-se totalmente para ela.
— Porque quando eu te vi, eu não vi uma puta, Camila. Eu vi uma mulher que é mais inteligente, mais doce e mais forte do que qualquer pessoa que frequenta as minhas festas de gala. E porque, pela primeira vez na minha vida, eu não quero apenas possuir algo. Eu quero cuidar.
Elas chegaram ao prédio de luxo. O apartamento era magnífico, com janelas que iam do chão ao teto, revelando as luzes da cidade. Camila colocou Sofia em uma cama macia e depois voltou para a sala, onde Lauren a esperava na varanda.
O vento da noite soprava os cabelos de ambas. O silêncio ali em cima era diferente; era um silêncio de liberdade.
— Lauren... — Camila começou, aproximando-se. — Eu não sei como começar a te agradecer.
— Comece vivendo, Camila — Lauren disse, puxando-a para um abraço. — Estude. Cante. Cuide da sua irmã. E, se houver espaço no seu coração para uma empresária viciada em você... deixe-me fazer parte disso.
Camila sorriu, o primeiro sorriso verdadeiro em muito tempo. Ela se inclinou e beijou Lauren, um beijo que não tinha nada a ver com o Las Primas, nem com dinheiro, nem com necessidade. Era um beijo de descoberta.
— Eu acho que sempre houve espaço, Lo. Eu só não sabia que era permitido sonhar.
Naquela noite, Camila não dormiu por medo de acordar. Ela ficou assistindo Lauren dormir no sofá ao seu lado, enquanto a cidade brilhava lá fora. O vidro estava quebrado, os cacos tinham ferido, mas a luz que entrava agora era pura. O destino, como Lauren dissera, tinha sido reescrito. E o próximo capítulo seria escrito por elas, longe das sombras do passado e sob o brilho esmeralda de um novo começo.