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Las primas

Entre o Eco do Passado e o Brilho do Amanhã

O silêncio do novo apartamento era quase ensurdecedor para Camila. Acostumada com o barulho constante da vizinhança barulhenta, o som dos ratos nas paredes e os gritos de sua mãe, a paz daquele décimo quinto andar parecia uma substância sólida que ela ainda não sabia como respirar. Ela estava sentada no sofá de linho cru, observando Sofia dormir no quarto vizinho através da porta entreaberta. A irmãzinha parecia um anjo, finalmente livre do peso da miséria que ameaçava esmagar sua infância.

Lauren estava na cozinha, preparando um chá. Ela se movia com uma elegância natural, mesmo tendo trocado o terno por uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta simples. A luz da bancada iluminava seu perfil, e Camila se pegou admirando a linha forte de sua mandíbula e a suavidade de seus gestos.

— Você está muito silenciosa — Lauren comentou, aproximando-se com duas canecas fumegantes. — No que está pensando?

— No fato de que, há vinte e quatro horas, eu estava limpando o vômito de um bêbado no banheiro do Las Primas — Camila respondeu, aceitando a caneca. — E agora, estou aqui. Parece que eu roubei a vida de alguém, Lauren. Alguém que realmente merece isso.

Lauren sentou-se ao lado dela, deixando que suas coxas se tocassem. O calor do contato físico foi um âncora instantânea para Camila.

— Você não roubou nada — Lauren disse com firmeza. — A vida é que roubou de você por dezenove anos. Eu só estou devolvendo o que é seu por direito: dignidade.

— Minha mãe não vai desistir — sussurrou Camila, os olhos fixos no vapor que subia do chá. — Eu conheço o olhar dela. Ela não perdeu apenas uma filha, Lauren. Ela perdeu a empregada, o saco de pancadas e a fonte de renda. Ela vai tentar nos destruir.

Lauren deixou a caneca na mesa de centro e segurou o rosto de Camila com as duas mãos, forçando-a a olhar em seus olhos verdes.

— Deixe que ela tente — Lauren sibilou, mas não com raiva de Camila, e sim com uma proteção feroz. — Eu tenho os melhores advogados do país. Eu tenho segurança privada neste prédio. E, mais importante, eu tenho a vontade de garantir que ela nunca mais chegue a menos de um quilômetro de você. Você acredita em mim?

Camila fechou os olhos, sentindo os polegares de Lauren acariciarem suas maçãs do rosto.

— Eu quero acreditar. Eu quero tanto que dói.

— Então acredite — Lauren aproximou-se e selou seus lábios nos de Camila em um beijo calmo, profundo e cheio de promessas.

A noite passou em um borrão de segurança e exaustão. Lauren dormiu no quarto de hóspedes para dar privacidade a Camila e Sofia, um gesto de respeito que tocou a latina profundamente. No entanto, o dia seguinte trouxe a primeira onda de realidade.

Logo cedo, o interfone tocou. Camila deu um pulo do sofá, o coração disparado, temendo que fosse Sinuhe com a polícia ou algo pior. Mas era apenas o segurança avisando que uma entrega havia chegado. Minutos depois, Lauren entrou com várias sacolas de marcas que Camila só conhecia por ver nas vitrines do shopping onde nunca entrava.

— O que é isso, Lauren? — perguntou Camila, enquanto Sofia corria para ver as caixas coloridas.

— O básico — Lauren sorriu, observando a empolgação de Sofia. — Roupas para a pequena ir à escola, algo para você usar enquanto organizamos sua matrícula na faculdade e... alguns mimos.

Camila abriu uma das sacolas e sentiu o tecido de um vestido de algodão macio. Era simples, mas a qualidade era incomparável.

— Lauren, você já fez demais. O apartamento, a comida... isso é exagero.

— Camila, olhe para mim — Lauren aproximou-se, ignorando Sofia que já experimentava um par de tênis novos. — Para mim, isso é troco. Para você, é a ferramenta para recomeçar. Não brigue comigo por querer te ver bem. Eu sou uma mulher de negócios, lembra? Eu não invisto em algo que não vale a pena. E você é o melhor investimento que eu já fiz.

— Eu não sou um negócio, Lo — Camila brincou, embora houvesse uma ponta de timidez em sua voz.

— Não, você não é — Lauren concordou, puxando-a pela cintura para um abraço rápido. — Você é a minha exceção.

Enquanto Sofia se distraía com os novos pertences, Lauren puxou um tablet e o colocou sobre a mesa de jantar.

— Agora, a parte séria. Eu pesquisei três escolas particulares aqui perto. Todas têm ensino integral e atividades extracurriculares. Sofia pode começar na segunda-feira. E para você... eu vi que você gosta de literatura e música. Tem uma universidade excelente a dez minutos daqui.

Camila sentiu um nó na garganta.

— Eu não terminei o ensino médio, Lauren. Minha mãe me tirou da escola no último ano para eu poder trabalhar em tempo integral.

Lauren não pareceu surpresa. Sua mente excepcional já havia antecipado esse obstáculo.

— Eu imaginei. Já contratei um tutor particular para te preparar para os exames de conclusão em regime de urgência. Em dois meses, você terá seu diploma. Em três, estará na faculdade.

— Você planejou tudo — Camila riu, sentindo uma mistura de alívio e vertigem. — Você é assustadora, sabe disso?

— Eu sou eficiente — Lauren piscou para ela.

A tarde foi passada em uma calmaria produtiva, mas a sombra de Sinuhe ainda pairava. O telefone de Camila, que Lauren fizera questão de formatar e trocar o chip, tocou. Era um número desconhecido. Camila sentiu um calafrio e entregou o aparelho para Lauren.

Lauren atendeu, colocando no viva-voz.

— Alô? — a voz de Lauren era fria como gelo.

— Onde ela está? — Era a voz de Sinuhe, estridente e carregada de uma falsa preocupação. — Onde está a minha filha? Eu sei que ela está com você, sua sequestradora! Eu vou à polícia! Eu vou dizer que você a drogou!

Lauren não se abalou. Ela fez um sinal para que Camila ficasse calma.

— Sinuhe, ouça bem — Lauren falou com uma calma deliberada. — Eu gravei a nossa conversa de ontem. Eu tenho fotos das marcas no rosto da Camila. E eu tenho o depoimento dos vizinhos sobre o que acontecia naquele barraco. Se você fizer uma única denúncia, eu não vou apenas me defender. Eu vou destruir o pouco que resta da sua reputação e garantir que você enfrente acusações de exploração e abuso.

Houve um silêncio do outro lado da linha. O narcisismo de Sinuhe estava sendo confrontado pelo único muro que ela não conseguia escalar: a verdade apoiada pelo poder.

— Você acha que pode comprá-la? — Sinuhe sibilou. — Ela é minha! Ela tem o meu sangue! Ela vai voltar correndo quando perceber que você só a quer como um brinquedo novo.

— Ela não é um brinquedo — Lauren respondeu, olhando diretamente nos olhos de Camila. — E ela nunca mais vai voltar para você. O dinheiro que deixei com você é o último centavo que você verá vindo dela. Adeus, Sinuhe.

Lauren desligou e bloqueou o número. Camila desabou na cadeira, os pulmões parecendo finalmente ter espaço para se expandir.

— Acabou? — perguntou ela em voz baixa.

— Por enquanto, sim — Lauren sentou-se à frente dela. — Ela vai tentar outras coisas, talvez tente vir aqui, mas a segurança já tem a foto dela. Ela não entra. Você está segura, Camz.

— Eu sinto que deveria estar triste — confessou Camila, limpando uma lágrima solitária. — Ela é minha mãe. Mas a única coisa que sinto é... um vazio. E um alívio terrível.

— É normal — Lauren estendeu a mão sobre a mesa, entrelaçando seus dedos aos de Camila. — O luto por alguém que ainda está vivo, mas que nunca nos amou como deveria, é o mais difícil. Mas olhe para a sala ao lado. Sofia está rindo. Você está livre.

Naquela noite, Lauren levou-as para jantar em um restaurante discreto, mas elegante. Camila sentia-se um peixe fora d'água no início, mas a atenção constante de Lauren e a alegria genuína de Sofia a ajudaram a relaxar. Pela primeira vez, ela não precisou se preocupar com o preço do cardápio ou se teria dinheiro para o ônibus de volta.

Quando retornaram ao apartamento, Sofia caiu no sono rapidamente, exausta de tanta novidade. Lauren e Camila ficaram na varanda, observando o mar de luzes da cidade.

— Sabe o que é mais estranho? — Camila perguntou, encostando a cabeça no ombro de Lauren.

— O quê?

— Eu passei a vida toda querendo fugir, mas nunca imaginei que a fuga seria para os braços da mulher que eu conheci no lugar que eu mais odiava.

Lauren sorriu, abraçando-a por trás, envolvendo-a em seu calor.

— O Las Primas foi apenas o cenário, Camz. Eu não ia lá pelas outras mulheres. Eu ia porque sentia que faltava algo na minha vida perfeita. Eu tinha a empresa, o dinheiro, a inteligência... mas era tudo estéril. Quando eu te vi, eu vi vida. Uma vida sofrida, sim, mas real.

Camila virou-se nos braços dela, passando as mãos pelo pescoço de Lauren.

— Você me salvou, Lo.

— Nós nos salvamos — corrigiu Lauren. — Você me deu um propósito que nenhum contrato de milhões de dólares poderia dar.

O beijo que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não havia a urgência do bordel, nem o medo da descoberta, nem o desespero da despedida. Era um beijo de posse mútua, de carinho e de um desejo que agora tinha espaço para florescer com calma.

Lauren a conduziu para o quarto principal. Desta vez, não havia o cheiro de perfume barato ou lençóis ásperos. Havia apenas o aroma de sândalo de Lauren e a maciez da seda.

— Tem certeza? — Lauren perguntou, sua voz um sussurro contra a pele do pescoço de Camila. — Você passou por muita coisa hoje. Podemos apenas dormir.

Camila sorriu, sentindo-se mais mulher do que nunca.

— Eu nunca tive tanta certeza de nada, Lauren. Eu quero sentir que este corpo é meu, e que eu posso entregá-lo para quem eu realmente amo.

A entrega foi lenta e poética. Lauren a tocou como se Camila fosse feita de cristal, mas com uma paixão que incendiava cada nervo. Camila, por sua vez, explorou Lauren com uma curiosidade nova, perdendo o medo de tocar e ser tocada. Não havia transação ali, apenas a fusão de duas almas que tinham sido solitárias por tempo demais.

Nas horas que se seguiram, deitadas na penumbra, elas conversaram sobre o futuro. Camila falou sobre querer aprender a tocar piano, e Lauren prometeu que um piano de cauda seria entregue na semana seguinte. Lauren falou sobre seus medos de não ser uma boa parceira por causa de sua obsessão pelo trabalho, e Camila prometeu que a lembraria de respirar.

— Você acha que Sofia vai se adaptar? — perguntou Camila, o sono finalmente começando a pesar.

— Ela é criança, Camz. Crianças são resilientes. E ela tem você. E agora, tem a mim também.

— Nós somos uma família estranha, não somos? — Camila riu baixinho.

— As melhores famílias são as que escolhemos, não as que nos são impostas pelo sangue — Lauren a puxou para mais perto, beijando o topo de sua cabeça.

Enquanto a madrugada avançava, Camila finalmente adormeceu com uma sensação de completude. O barraco, o cheiro de mofo, o tapa de Sinuhe e as luzes neon do Las Primas pareciam agora parte de uma vida que pertencia a outra pessoa.

Ela acordou brevemente algumas horas depois, apenas para sentir o braço de Lauren em volta de sua cintura e ouvir a respiração ritmada de Sofia no quarto ao lado. Pela primeira vez em dezenove anos, Camila não tinha medo do amanhã. Ela sabia que haveria desafios, que o narcisismo de sua mãe ainda tentaria lançar sombras, mas ela tinha uma rainha ao seu lado e uma mente brilhante para guiá-la.

O vidro não estava apenas quebrado; ele tinha sido derretido e transformado em algo novo, transparente e inquebrável. Camila Jauregui — ou quem quer que ela escolhesse ser a partir de agora — estava finalmente pronta para começar a viver. E Lauren, com seus olhos de esmeralda e seu coração de ouro, estaria lá para cada passo dessa nova jornada.