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Lee Minho

Lábios de Cereja e Jogos de Azar

As semanas que se seguiram àquela noite chuvosa na JYP foram envoltas em uma névoa de expectativa e uma tensão que eu só conseguia descrever como um "clichê de slow burn". Minho e eu tínhamos estabelecido um acordo silencioso. No dormitório, diante dos outros, éramos os mesmos de sempre: eu, a garota intensa e criativa que se perdia em livros; ele, o dançarino de língua afiada e humor ácido. Mas, nos bastidores da nossa rotina, as coisas tinham mudado de tom.

Tudo começou com os meus hidratantes labiais.

Eu sempre fui obcecada por manter meus lábios hidratados, especialmente com o ar condicionado pesado das salas de ensaio e o clima seco de Seul. Eu tinha uma coleção: morango, cereja, mel, hortelã. E, de repente, eles começaram a sumir.

— Minho, você viu o meu lip balm de cereja? — perguntei, revirando minha mochila no canto da sala de prática, enquanto os outros meninos faziam uma pausa para o almoço.

Minho, que estava deitado no chão com os olhos fechados, apenas levantou um canto da boca. Ele levou a mão ao bolso do casaco, tirou o pequeno tubo vermelho e começou a girá-lo entre os dedos com uma agilidade irritante.

— Isso aqui? — ele perguntou, abrindo um dos olhos. — Achei que fosse lixo. Estava jogado por aí.

— Mentira! Estava dentro da minha necessaire — eu disse, aproximando-me e tentando pegar o objeto da mão dele.

Com um movimento rápido, ele escondeu o braço atrás das costas, rolando no chão para longe do meu alcance.

— Ah, entendi. Agora eu sou um ladrão? — Ele fez um bico dramático, sentando-se e cruzando os braços. — Eu só queria me certificar de que você não perderia. Mas se você é tão egoísta que não pode deixar seu hyung pegar algo emprestado... tudo bem. Fique com sua preciosidade.

— Minho, você tem os seus próprios! — exclamei, metade rindo, metade indignada.

— Os meus não têm gosto de doce — ele retrucou, jogando o tubo de volta para mim com um olhar de falsa mágoa. — Você é muito difícil, Sohee. Não deixa eu pegar nada. Que tipo de amizade é essa?

Eu balancei a cabeça, guardando o hidratante. Ele estava fazendo aquilo de novo: invertendo os papéis para me deixar sem reação. Mas o que mais me desconcertava não eram os pequenos furtos de cosméticos, mas o toque.

Minho desenvolveu um hábito novo. Sempre que passávamos um pelo outro em um corredor vazio, ou quando estávamos sentados no sofá assistindo a algum filme com o grupo e as luzes estavam baixas, ele estendia a mão. Ele não segurava minha mão, nem me abraçava. Ele simplesmente passava os dedos pela curva do meu pescoço, logo abaixo da orelha, com uma leveza que me fazia arrepiar da cabeça aos pés.

Era como se ele estivesse acariciando um gato. Era rítmico, possessivo e terrivelmente íntimo.

— Você está tensa — ele sussurrou uma noite, enquanto Bang Chan e Felix discutiam fervorosamente sobre qual jogo de videogame rodar.

A mão de Minho subiu pela minha nuca, os dedos se perdendo na raiz do meu cabelo. Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo meu coração martelar contra as costelas.

— Talvez se você parasse de roubar minhas coisas, eu relaxasse — murmurei, tentando manter a voz firme.

— Talvez — ele respondeu, e eu pude sentir o sorriso na voz dele antes mesmo de ele se afastar quando Hyunjin olhou em nossa direção.

Os dias passaram e o "jogo do hidratante" se tornou uma constante. Ele pegava o de baunilha, eu reclamava, ele fazia drama dizendo que eu era "mesquinha e insensível", e depois me compensava com aquele carinho fantasmagórico no pescoço que me deixava sem dormir. Minha imaginação fértil, claro, já tinha criado mil cenários, mas a realidade de Lee Minho era sempre mais imprevisível.

Até que chegou o dia da "crise".

Tínhamos passado dez horas seguidas ensaiando a nova coreografia. Meus pés doíam, meu corpo implorava por uma cama e, para piorar, o vento gelado do lado de fora tinha castigado minha pele. Meus lábios estavam tão secos que chegavam a arder.

— Droga — resmunguei, tateando o fundo da minha bolsa. Vazia. — Minho!

Ele estava encostado na barra de alongamento, bebendo água. Ele me olhou de cima a baixo, aquele olhar de julgamento que ele usava para esconder qualquer outra emoção.

— O que foi agora, Sohee? Vai me acusar de roubar o seu oxigênio também?

— Meu hidratante de mel. Eu sei que está com você. Meus lábios estão rachando, Minho, de verdade. Devolve.

Eu caminhei até ele, estendendo a mão. Eu estava cansada, emotiva e sem paciência para os jogos mentais dele. Minho largou a garrafa de água e se endireitou, diminuindo a distância entre nós.

— Está doendo? — ele perguntou, sua voz mudando instantaneamente para aquele tom mais baixo e suave que ele só usava quando estávamos sozinhos.

— Está. Está seco e horrível — reclamei, passando a língua pelos lábios, o que só piorava a situação.

Minho me observou com uma intensidade que me fez esquecer o cansaço. Ele deu um passo à frente, forçando-me a recuar até que minhas costas batessem na parede espelhada da sala. Ele colocou uma mão ao lado da minha cabeça, cercando-me.

— Sabe... — ele começou, os olhos fixos na minha boca — ... eu andei guardando todos os seus hidratantes por um motivo.

— Porque você é um chato que gosta de me irritar? — sugeri, embora minha respiração estivesse ficando curta.

— Também. Mas principalmente porque eu queria testar se eles eram tão bons quanto pareciam. — Ele se inclinou mais, o cheiro cítrico e familiar me envolvendo. — E eu cheguei à conclusão de que o efeito é melhor quando é compartilhado.

Meu coração parou. Ele estava tão perto que eu conseguia ver as pequenas faíscas de desafio em seus olhos escuros.

— Você disse que sua boca está seca, Sohee — ele sussurrou, a mão livre subindo para o meu pescoço, o polegar acariciando minha mandíbula. — Eu posso te ajudar com isso.

Ele começou a se inclinar para o beijo. Era o momento. O cenário que eu tinha construído na minha cabeça tantas vezes estava finalmente acontecendo. O "mestre" da dança, o garoto que me tratava como um gato de rua e me olhava com desdém, estava prestes a me beijar no meio de uma sala de ensaio vazia.

Mas então, uma centelha de travessura brilhou na minha mente. Ele tinha me provocado por semanas. Ele tinha roubado minhas coisas, me chamado de egoísta e brincado com meus nervos. Eu não ia facilitar as coisas para ele tão rápido.

No último segundo, quando eu já conseguia sentir o calor da respiração dele contra a minha, eu virei o rosto para o lado.

O beijo de Minho atingiu o ar, passando de raspão pela minha bochecha.

Houve um silêncio mortal na sala. Eu senti o corpo dele tencionar. Lentamente, eu me esquivei por baixo do braço dele, saindo da "armadilha" e caminhando em direção à minha mochila com a maior casualidade que consegui fingir.

— Sabe de uma coisa, Minho-oppa? — eu disse, pegando meu casaco. — Acho que vou comprar um hidratante novo na farmácia da esquina. O de mel realmente não está fazendo efeito.

Eu me virei para olhar para ele. Minho ainda estava na mesma posição, a mão na parede, o rosto virado para onde eu estava segundos atrás. Quando ele se virou para me encarar, sua expressão era uma mistura impagável de choque puro e um julgamento tão profundo que poderia atravessar paredes.

— Você... você fez isso de propósito — ele disse, a voz subindo uma oitava.

— Fiz o quê? — perguntei, com a maior cara de inocência que Choi Sohee poderia produzir. — Só decidi que não queria "compartilhar" agora. Você mesmo disse que eu sou egoísta, lembra?

— Sohee, volte aqui — ele mandou, mas não havia autoridade real, apenas uma indignação ferida.

— Tchau, Minho! Vejo você no dormitório! — acenei e saí da sala quase correndo, meu coração disparado, sentindo uma mistura deliciosa de triunfo e desespero por ter acabado de dar um fora no garoto dos meus sonhos.

O que se seguiu foi uma semana de puro entretenimento — e tortura.

Lee Minho era o rei do drama, e ele decidiu que o "crime" que eu cometi exigia uma punição severa. Ele não gritou, não brigou e, surpreendentemente, parou de roubar meus hidratantes. Em vez disso, ele passou a me tratar com um "desprezo realístico" que faria qualquer ator de dorama sentir inveja.

No café da manhã, ele servia café para todos, menos para mim.

— Oh, desculpe, Sohee — ele dizia, com uma voz monótona e os olhos fixos no jornal. — Achei que você fosse autossuficiente demais para precisar que alguém servisse você. Já que você gosta tanto de fazer as coisas sozinha.

Seungmin, que não perdia nada, olhou de um para o outro com um sorriso de canto.

— O que aconteceu? — Seungmin perguntou, pegando uma torrada. — O Minho está agindo como se você tivesse chutado um dos gatos dele.

— Pior — Han comentou, entrando na cozinha com o cabelo bagunçado. — Ele está com aquela cara de "eu fui traído pela humanidade". O que você fez, Sohee?

— Eu? Nada — respondi, segurando o riso enquanto via Minho se levantar e sair da sala sem olhar para trás, com o nariz empinado.

Nos ensaios, a situação era ainda pior. Ele não corrigia mais minha postura com toques suaves. Ele usava palavras afiadas.

— Sohee, se você continuar caindo para a esquerda, eu vou colocar um cone no seu caminho — ele disse, sentado na sua habitual posição de observador. — Está faltando foco. Talvez você esteja pensando demais em... farmácias.

Hyunjin franziu a testa, confuso.

— Farmácias? Do que ele está falando?

— Nada, Hyunjin-ah. Ele só está sendo o Minho — eu respondi, sentindo o olhar de Minho queimar em mim.

Toda vez que nossos olhos se cruzavam, ele sustentava o olhar por dois segundos com uma expressão de "eu estou te julgando e você sabe por quê", e então desviava o rosto bruscamente, como se a minha visão fosse ofensiva. Era hilário, mas eu comecei a sentir falta do toque dele. A falta daquela mão no meu pescoço estava me deixando mais tensa do que nunca.

No quinto dia de "gelo", eu estava sentada na varanda do dormitório, observando a chuva cair. O som da água batendo no vidro sempre me acalmava e me fazia criar novos cenários. Mas, dessa vez, eu não queria imaginar nada. Eu queria a realidade.

Ouvi a porta da varanda deslizar. Pelo canto do olho, vi Minho. Ele não disse nada. Ele apenas se encostou no parapeito, a alguns metros de distância, olhando para a chuva com uma expressão melancólica digna de um filme clássico.

— A chuva é bonita, não é? — tentei puxar assunto.

Silêncio. Ele nem piscou.

— Minho, sério? Já faz cinco dias. Você vai mesmo continuar com esse drama todo porque eu não deixei você me beijar?

Ele finalmente se virou. O olhar de desprezo ainda estava lá, mas havia algo mais por baixo. Uma impaciência que ele não conseguia mais esconder.

— Não é o beijo, Sohee — ele disse, a voz grave. — É o fato de você ter usado as minhas próprias táticas contra mim. Você me deixou pendurado. Ninguém faz isso com Lee Minho.

— Eu só queria que você sentisse um pouco do que eu sinto — confessei, levantando-me e caminhando até ele. — Você passa o tempo todo brincando comigo, me provocando, me tratando como se eu fosse um brinquedo ou um gato. Eu queria saber se você realmente se importava ou se era só mais um jogo.

Minho suspirou, o ar saindo pesado de seus pulmões. Ele descruzou os braços e, pela primeira vez em uma semana, a barreira caiu.

— Você é uma idiota se acha que é só um jogo — ele murmurou. — Eu roubo aquelas porcarias de cereja e baunilha só para ter um motivo para falar com você quando não sei como agir. Eu toco o seu pescoço porque é o único jeito de eu me sentir perto de você sem perder o controle. E eu tentei te beijar porque eu não aguentava mais o cheiro de morango da sua boca sem saber qual era o gosto.

Meu coração disparou. A honestidade dele era mais impactante do que qualquer provocação.

— E agora? — perguntei, parando bem na frente dele. — Você ainda está me julgando?

Minho deu um passo à frente, eliminando o espaço entre nós. Ele colocou a mão no meu pescoço, o toque firme e quente que me fez suspirar de alívio.

— Eu estou te julgando por ser tão teimosa — ele disse, aproximando o rosto do meu. — Mas eu também estou terrivelmente apaixonado por você, Choi Sohee. E eu juro, se você virar o rosto de novo, eu vou roubar todos os seus hidratantes e nunca mais devolver.

Eu ri, mas a risada morreu quando ele selou nossos lábios.

Desta vez, não houve recuo. O beijo foi exatamente como eu imaginei que seria: intenso, direto e cheio daquela urgência que só meses de tensão acumulada poderiam criar. Tinha gosto de chuva, de cansaço superado e, sim, um leve toque de cereja do lip balm que eu tinha passado minutos antes.

Quando nos afastamos, Minho não voltou para o seu olhar de desprezo. Ele encostou a testa na minha, mantendo a mão firme na minha nuca.

— Então... — eu sussurrei, abrindo os olhos. — O hidratante de cereja funciona?

Minho deu aquele seu sorriso de lado, provocador e doce.

— Funciona. Mas acho que vamos precisar de muito mais "amostras" para ter certeza.

Eu sorri, sabendo que, a partir de agora, os ensaios seriam muito mais interessantes. E que, embora Minho continuasse sendo o mestre sarcástico da dança para o resto do mundo, para mim, ele era apenas o garoto que roubava meus hidratantes para encontrar coragem de me amar.

Lá fora, a chuva continuava caindo, mas, pela primeira vez, eu não precisava de cenários na minha cabeça. A realidade, com todo o seu drama e seus lábios de cereja, era o melhor lugar para se viver.