Lee Minho
Equilíbrio Precário e Carícias de Vidro
A mente de uma pessoa criativa pode ser uma prisão muito confortável. Nos últimos meses, eu me tornei uma detenta voluntária das minhas próprias memórias. Sempre que a música parava ou o silêncio do dormitório se tornava profundo demais, eu voltava para aquela varanda, sentindo o gosto de chuva e cereja, revivendo o momento em que Lee Minho finalmente baixou a guarda.
O problema é que Minho não é um personagem de livro que segue um roteiro linear. Ele é um caos organizado.
Depois daquele beijo, eu esperava que as coisas se tornassem... bem, normais. Mas "normal" não existe no vocabulário do Stray Kids, e muito menos no de Minho. Em vez de beijos cinematográficos nos corredores, ele desenvolveu uma linguagem de afeto que beirava o bizarro. Eram toques escondidos, rápidos e em lugares que ninguém esperaria.
— Sohee, você está com um fio solto na meia — disse ele, durante uma pausa na gravação de um "SKZ-TALKER".
Antes que eu pudesse responder, ele se abaixou e, em vez de apenas puxar o fio, seus dedos envolveram meu calcanhar por um segundo a mais do que o necessário, apertando levemente a pele acima do tendão de Aquiles. Foi um toque elétrico, possessivo e completamente invisível para as câmeras. Meu coração deu um solavanco, e eu quase tropecei no cabo do microfone.
— Pronto — ele murmurou, levantando-se com aquela expressão de tédio absoluto, enquanto eu tentava recuperar o fôlego e a compostura.
Isso se tornou a nossa nova rotina. Um aperto rápido no meu dedo mindinho enquanto passávamos um pelo outro para pegar água; a ponta dos dedos dele traçando o contorno do meu joelho quando estávamos sentados no chão, fingindo analisar uma letra de música; ou, o meu favorito e mais torturante, quando ele fingia sussurrar algo profissional no meu ouvido e aproveitava para roçar o nariz no lóbulo da minha orelha, deixando um rastro de arrepios que durava horas.
Nós não tínhamos nos beijado de verdade desde aquela noite. Eram apenas esses jogos de contato e alguns selinhos roubados que ele tentava depositar nos meus lábios quando achava que ninguém estava olhando.
— Nem tente, Lee Know — eu sussurrei, desviando o rosto quando ele se inclinou em direção à minha boca nos bastidores de um show de música.
— É apenas um selinho, Sohee-ah. Não seja tão dramática — ele retrucou, estreitando os olhos.
— Selinho não é beijo. E você sabe que eu sou intensa. Se for para fazer, que seja direito — respondi, provocando-o com um sorriso desafiador.
O resultado da minha audácia? Minho cruzou os braços e me olhou com aquele brilho sádico que ele reserva para os treinos de dança.
— Ah, é assim? Então, já que você tem tanta energia para discutir termos técnicos de beijos, vamos garantir que sua resistência física esteja à altura. De novo, do segundo refrão. E se você errar o ângulo do braço, começamos do zero.
Eu acabei repetindo o mesmo passo quinze vezes. Quinze. Meus ombros queimavam, e os outros meninos começaram a olhar para nós com curiosidade.
— O que deu no Minho hoje? — Han perguntou para Seungmin, enquanto me observava girar pela décima segunda vez. — Ele está agindo como se fosse um sargento de elite, mas... ele está sorrindo?
— Ele está "alegrinho" — Seungmin respondeu, usando os dedos para fazer aspas no ar. — É assustador. O Minho sorrindo sozinho é sinal de que ou alguém vai sofrer, ou ele finalmente enlouqueceu de vez.
A verdade é que o humor de Minho estava sendo o assunto principal no dormitório masculino, segundo o que o Felix me contou em segredo. Ele continuava sendo o "Tsundere" de sempre, respondendo com sarcasmo e mantendo a aura de mistério, mas havia pequenas rachaduras na sua armadura de gelo. Ele cantarolava enquanto cozinhava, não chutava os membros para fora do seu quarto com tanta agressividade e, às vezes, era pego olhando para o nada com um sorriso bobo que desaparecia assim que ele percebia que estava sendo observado.
— Ele está apaixonado — Changbin declarou naquela noite, quando todos estávamos amontoados na sala pedindo frango frito. — Eu conheço esse olhar. É o olhar de quem está sendo domado por um gato maior.
— Quem seria o gato maior? — perguntei, tentando manter a voz neutra enquanto mergulhava um pedaço de frango no molho.
— Você sabe muito bem, Sohee — Bang Chan disse, rindo baixo e me lançando um olhar paternal. — O Minho está tentando esconder, mas ele é transparente para nós. Ele só não sabe que o "desprezo" dele agora parece mais um charme mal disfarçado.
Minho, que estava sentado no canto oposto, jogando algo no celular, não levantou a cabeça.
— Vocês falam demais — ele disse, a voz fria, mas eu notei que as pontas de suas orelhas estavam ficando vermelhas. — Sohee, você deixou cair molho na mesa. Limpe isso. Você é muito desatenta.
— Sim, mestre — respondi, revirando os olhos.
Eu me levantei para buscar um papel toalha e, ao passar por ele, senti sua mão agarrar meu pulso por um breve segundo. Ele não olhou para mim, mas seu polegar acariciou a parte interna do meu braço, um toque suave e escondido pela mesa. Era o seu jeito de dizer "ignore o que eu acabei de dizer".
A pressão dos treinos, porém, começou a cobrar seu preço. O comeback estava próximo, e as coreografias eram as mais difíceis que já tínhamos enfrentado. Eu estava exausta. Minha mente criativa, que antes criava contos de fadas, agora só projetava imagens de mim mesma errando o tempo na frente de milhares de fãs.
Uma noite, após um ensaio que terminou às três da manhã, eu desabei no chão da sala de prática. Meus músculos tremiam. Os meninos já tinham saído para o furgão, mas eu precisava de um minuto de silêncio.
A porta se abriu suavemente. Eu não precisei abrir os olhos para saber quem era. O cheiro de seu perfume, agora misturado com o suor do treino, era meu guia.
Senti Minho se sentar ao meu lado. Por um longo tempo, ele não disse nada. O silêncio entre nós não era mais desconfortável ou carregado de julgamento; era um espaço de compreensão.
— Você está se cobrando demais de novo — ele disse, finalmente. Sua voz estava desprovida de qualquer sarcasmo.
— Eu só quero ser boa o suficiente, Minho. Para o grupo. Para você — confessei, ainda de olhos fechados.
Senti algo quente e macio envolver meu pé direito. Abri os olhos e vi Minho com meu pé no colo dele. Ele começou a massagear os pontos de tensão com uma habilidade surpreendente.
— Você já é boa o suficiente. Você é incrível, Sohee. O problema é que você é emotiva demais e deixa a ansiedade nublar seu talento — ele disse, concentrado no que estava fazendo. — E o que você quer dizer com "ser boa para mim"? Eu sou seu professor de dança ou algo mais?
Eu me sentei, olhando para ele. A luz da sala estava baixa, criando sombras dramáticas em seu rosto perfeito.
— Você sabe o que você é — respondi, a voz falhando um pouco. — Mas esses toques estranhos... o pé, o joelho, a orelha... Minho, às vezes eu sinto que estamos brincando de esconde-esconde com os nossos sentimentos.
Ele parou a massagem e subiu a mão pela minha perna, parando no meu joelho. Ele apertou levemente, um gesto de âncora.
— Eu não sei fazer de outro jeito, Sohee — ele admitiu, olhando nos meus olhos. — No palco, somos idols. No dormitório, somos colegas de grupo. No meio disso tudo, eu estou tentando descobrir como ser o cara que você merece sem estragar a dinâmica de tudo o que construímos. Esses toques... são o meu jeito de dizer que eu estou aqui. Que eu estou vendo você, mesmo quando não posso te beijar na frente do Chan ou do Hyunjin.
Eu senti uma onda de emoção me atingir. Eu sempre via o Minho como alguém inabalável, mas ali, ele parecia tão vulnerável quanto eu.
— Mas você me faz treinar quinze vezes o mesmo passo quando eu te dou um fora — brinquei, tentando aliviar o clima.
Ele deu um sorriso de lado, o primeiro sorriso real e aberto da noite.
— Isso é porque eu gosto de ver você determinada. E porque você fica linda quando está irritada comigo. O brilho nos seus olhos... me faz querer te provocar ainda mais.
Ele se aproximou, e eu soube que, desta vez, não haveria selinhos ou desvios. A mão dele subiu do meu joelho para o meu rosto, os dedos traçando minha bochecha com uma delicadeza que contrastava com a força que ele mostrava nos palcos.
— Você ainda vai me comprar um hidratante de cereja? — ele sussurrou, a centímetros da minha boca.
— Eu acho que ainda tenho um na bolsa — respondi, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.
— Esqueça o hidratante — ele murmurou.
Desta vez, o beijo não foi um teste ou um jogo. Foi profundo, lento e carregado de todas as palavras que não tínhamos coragem de dizer em voz alta. Minho me puxou para mais perto, e eu me perdi na sensação de finalmente estar em sintonia com ele, sem passos de dança coreografados, sem ritmos a seguir. Era apenas Sohee e Minho.
Quando nos separamos, ele encostou a ponta do nariz na minha, um gesto tão carinhoso que me fez querer chorar.
— Você ainda vai ter que repetir aquela sequência amanhã — ele disse, quebrando o momento com seu humor habitual. — O giro ainda está um pouco frouxo.
Eu ri, empurrando-o levemente.
— Eu odeio você, Lee Minho.
— Não odeia não — ele respondeu, levantando-se e me estendendo a mão para me ajudar a levantar. — Você me ama. E, infelizmente para mim, eu também estou bem ferrado por você.
Caminhamos em direção à saída, e quando passamos pelo sensor de luz do corredor, ele entrelaçou nossos dedos rapidamente antes de soltar ao ouvirmos a voz de Jeongin chamando por nós lá fora.
— Ei! Vocês dois! O Chan disse que se não saírem em trinta segundos, vamos deixar vocês para trás! — o maknae gritou, aparecendo na entrada.
Minho imediatamente assumiu sua postura de "mestre frio".
— Estamos indo, Innie. A Sohee estava tendo um colapso dramático por causa de um passo, tive que dar um sermão nela — ele disse, passando pelo mais novo com total naturalidade.
Jeongin olhou para mim, desconfiado, e depois para Minho.
— Sei... um sermão. Por que o seu lábio está vermelho, hyung?
Minho nem hesitou.
— Alergia a pessoas curiosas. Vamos logo.
Eu segui os dois, sentindo o calor do beijo ainda queimando nos meus lábios. A vida como parte do Stray Kids era uma montanha-russa, e amar Lee Minho era como tentar dançar em um campo minado. Era perigoso, exaustivo e cheio de regras ocultas.
Mas, enquanto eu entrava no furgão e sentia o olhar de Minho refletido no vidro, um olhar que ninguém mais percebia, eu sabia que não trocaria esse equilíbrio precário por nada no mundo. Minha imaginação podia criar mil cenários, mas nenhum deles chegava aos pés da realidade de ser o "gato favorito" de Lee Minho.