Lee Minho
Sede de Verão e Labirintos de Posse
O verão em Seul não era apenas uma estação; era uma provação física. O ar ficava tão denso e úmido que parecia que estávamos respirando sopa, e o sol castigava as janelas da sala de prática da JYP com uma fúria impiedosa. Para mim, Choi Sohee, o calor trazia um problema específico e irritante: a desidratação severa. Meus lábios, que Minho tanto gostava de provocar, estavam um desastre. Secos, rachados e ardendo a cada movimento.
— Você está errando o tempo de novo, Sohee-ah — disse Minho, parando a música abruptamente.
Ele estava encostado no espelho, a camiseta branca colada ao corpo pelo suor, o que era uma visão terrivelmente perturbadora para a minha concentração. Ele caminhou até mim com aquele passo predatório de sempre, mas seus olhos, antes focados na técnica, suavizaram-se ao chegarem ao meu rosto.
— O que foi? — perguntei, a voz saindo um pouco rouca.
— Sua boca — ele murmurou, aproximando-se. — Está sangrando um pouco aqui no canto.
Ele estendeu a mão para tocar, mas eu recuei instintivamente.
— Não toca! Está ardendo muito, Minho. O ar condicionado desta sala está acabando comigo.
— Deixe-me ver — ele insistiu, ignorando meu protesto e segurando meu queixo com firmeza.
Antes que eu pudesse reclamar, ele se inclinou e selou nossos lábios. O que deveria ser um momento romântico de dorama transformou-se em um choque de realidade dolorosa. Assim que a pressão dos lábios dele encontrou as fissuras nos meus, uma pontada de ardência percorreu meu rosto.
— Ai! — exclamei, empurrando-o com força. — Minho, para! Eu juro que se você me beijar de novo hoje, eu te chuto daqui até o prédio da frente!
Ele piscou, genuinamente surpreso com a minha agressividade.
— Eu só estava tentando ajudar — ele disse, com aquele biquinho que ele fazia quando se sentia injustiçado. — Dizem que a saliva ajuda a cicatrizar.
— Isso é nojento e mentira — respondi, passando o dorso da mão nos lábios com cuidado. — Está doendo de verdade. Parece que eu beijei uma lixa.
— Ah, então agora eu sou uma lixa? — Ele cruzou os braços, o olhar de desprezo retornando, mas desta vez com uma pitada de diversão. — Ontem eu era o "melhor beijo da sua vida", hoje eu sou uma lixa. Você é muito instável, Sohee.
— O clima é instável! — retruquei, sentindo uma gota de suor escorrer pela minha nuca. — Eu só preciso de água e de um hidratante que realmente funcione.
Saímos da sala de prática para uma pausa necessária. No corredor, encontramos Felix e Hyunjin debruçados sobre um tablet, rindo e trocando sussurros animados. Assim que nos viram, tentaram esconder o aparelho, o que é o sinal universal de que algo sobre nós estava circulando na internet.
— O que foi agora? — Minho perguntou, pegando o tablet da mão de um Hyunjin relutante.
Eu me aproximei para olhar por cima do ombro dele. Era um vídeo de uma das nossas apresentações recentes no Music Bank. A câmera de um fã havia capturado um momento de milésimos de segundo nos bastidores, onde Minho achava que estávamos escondidos. Ele estava inclinando a cabeça para sussurrar algo no meu ouvido enquanto sua mão apertava possessivamente a minha cintura.
Os comentários estavam explodindo. "Olhem o olhar do Lee Know!", "Ele marca território como um gato!", "Sohee parece tão pequena perto dele, eu não aguento!". O ship "MinHee" estava oficialmente em chamas.
— Os fãs são rápidos — comentou Felix, com um sorriso radiante. — Eles notaram que você não tira os olhos dela nem quando o Chan-hyung está dando o discurso de agradecimento, Hyung.
Minho devolveu o tablet com um gesto brusco, o rosto permanecendo impassível, mas eu vi a tensão em sua mandíbula. Ele odiava ser lido tão facilmente, mas, ao mesmo tempo, havia uma satisfação sombria em saber que o mundo estava começando a entender que eu tinha dono.
— Vamos para a conveniência — Minho anunciou, pegando meu pulso. — Você precisa de água e eu preciso sair de perto desses dois fofoqueiros.
Caminhamos até a loja de conveniência mais próxima do prédio. O ar condicionado do estabelecimento foi como um abraço divino. Fui direto para a seção de cosméticos procurar algo para meus lábios, enquanto Minho foi buscar bebidas.
Enquanto eu analisava os rótulos, o atendente da loja, um rapaz jovem que parecia ser universitário, aproximou-se para repor algumas prateleiras.
— Você está procurando algo para lábios ressecados? — perguntou ele, com um sorriso gentil. — Esse de mel e própolis é o melhor para o verão. Eu uso bastante quando vou acampar.
— Ah, sério? — respondi, tentando ser educada apesar da dor. — Eu sinto que nada está funcionando.
— Pode testar esse aqui — ele disse, estendendo uma amostra. — Seus lábios são... quer dizer, a pele parece bem sensível. Combina com o seu rosto.
Eu ia agradecer, mas senti uma presença gelada se materializar às minhas costas. Minho apareceu com três garrafas de chá gelado e uma expressão que poderia congelar o inferno. Ele não disse uma palavra. Apenas colocou as garrafas na prateleira com um baque surdo e passou o braço pelos meus ombros, puxando-me para perto de forma tão brusca que quase bati com a cabeça no peito dele.
— Ela já escolheu — Minho disse, a voz num tom tão baixo e perigoso que o pobre atendente deu um passo para trás.
— Eu só estava ajudando a moça... — o rapaz gaguejou.
— Ela tem quem ajude — Minho cortou, pegando o primeiro hidratante que viu na frente e me arrastando em direção ao caixa.
Ele pagou tudo com movimentos rápidos e agressivos. Assim que saímos da loja e voltamos para o calor da rua, eu não aguentei. Comecei a rir, mesmo que o movimento fizesse minha boca arder.
— Do que você está rindo? — ele perguntou, carrancudo, abrindo a garrafa de chá para mim com força excessiva.
— Você está com ciúmes do vendedor da conveniência, Minho? Sério? O coitado só estava tentando ser gentil.
— Gentil? Ele estava dando em cima de você descaradamente — ele bufou, parando na sombra de uma árvore. — "Combina com o seu rosto". Que tipo de cantada barata é essa? Eu deveria ter dito a ele para focar no trabalho e parar de olhar para a boca dos clientes.
— Eu adoro quando você fica assim — confessei, aproximando-me e apoiando as mãos no peito dele, sentindo seu coração acelerado. — Adoro quando você fica possessivo. Me faz sentir que, apesar de todo o seu jeito durão e de "desprezo", você morre de medo de me perder para um vendedor de hidratantes.
Minho relaxou os ombros, soltando um suspiro pesado. Ele olhou para baixo, encontrando meus olhos, e a irritação foi substituída por aquela intensidade que sempre me deixava sem fôlego.
— Eu não tenho medo de te perder para ele — ele murmurou, a mão subindo para a minha nuca, os dedos se perdendo nos meus cabelos úmidos. — Eu só não gosto que outros homens olhem para o que é exclusivamente meu. Especialmente quando você está assim, toda vulnerável e precisando de cuidado.
— Eu não sou sua propriedade, Lee Minho — brinquei, mas sem me afastar.
— Não — ele concordou, aproximando o rosto do meu. — Mas você é o meu vício. E eu sou um homem muito egoísta com o que me vicia.
Ele se inclinou para me beijar de novo, mas eu coloquei o dedo sobre os lábios dele.
— Lembra do que eu disse? Beijo agora, não. Dói.
Ele sorriu de lado, aquele sorriso de gato que sabia de algo que eu não sabia.
— Eu comprei o de mel que o idiota recomendou. Vamos passar e ver se funciona. Mas depois... eu vou cobrar cada segundo de privação que você está me fazendo passar.
Voltamos para a JYP e nos escondemos em uma escada de emergência pouco usada. Ele abriu o pequeno pote de bálsamo e, com uma delicadeza que contrastava totalmente com o seu comportamento na loja, começou a aplicar o produto nos meus lábios usando a ponta do dedo indicador.
— Sabe, Sohee — ele começou, concentrado na tarefa —, os fãs vivem comentando sobre a sua dança e sobre como você é estilosa. Eles te acham incrível, e você é.
— Mas...? — incentivei, sentindo o alívio imediato do hidratante.
— Mas o traço que eu mais gosto em você não é algo que eles conseguem ver nos vídeos — ele disse, parando o movimento do dedo e observando meu rosto de perto. — Eu gosto da sua teimosia emocional.
— Teimosia emocional? — franzi a testa. — Isso é um elogio?
— É o melhor elogio que eu posso te dar. Você se envolve de verdade. Você fantasia, você cria cenários, você sente tudo em dobro. No começo, isso me assustava, porque eu sou o oposto. Eu me escondo. Mas essa sua intensidade... ela me obriga a sentir também. Eu gosto de como você não desiste de mim, mesmo quando eu te trato como um gato de rua ou te olho com desprezo. Você enxerga através disso.
Senti meus olhos arderem, e desta vez não era pelo sol.
— Eu sou intensa porque você vale a pena, Minho. Mesmo sendo um chato possessivo que briga com vendedores.
— Eu sou o seu chato possessivo — ele corrigiu, finalmente selando nossos lábios, mas desta vez com uma leveza absoluta, apenas um roçar de peles que não causou dor, apenas um formigamento doce.
Ficamos ali por um tempo, protegidos do verão de Seul pelas paredes de concreto da escada. Minha boca ainda ardia um pouco, e o mundo lá fora ainda estava tentando decifrar nossos olhares nos vídeos de fãs, mas ali, no silêncio, não havia dúvidas.
— Minho? — chamei, quando estávamos prestes a sair.
— Hum?
— Se o hidratante funcionar rápido... talvez eu não te chute se você me beijar no dormitório mais tarde.
Ele riu, aquela risada rara e sincera que ele só mostrava para mim.
— Vou torcer para que o mel faça milagres, Sohee-ah. Porque eu tenho muitos cenários na minha cabeça que envolvem você e nenhum deles inclui distância.
Saímos da escada de mãos dadas, prontos para enfrentar os ensaios, o calor e os olhares curiosos dos outros membros. Eu ainda era a garota que amava chuva e filmes clichês, e ele ainda era o mestre da dança de língua afiada. Mas, naquele verão escaldante, tínhamos encontrado o nosso próprio equilíbrio: entre a ardência da pele e a doçura do mel, entre o desprezo fingido e a posse mais profunda.