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Let me .... You

Predadores e Presas de Vidro

A manhã de terça-feira na Escola Anakt parecia, para qualquer observador comum, um espelho da segunda-feira. O mesmo cheiro de café barato na sala dos professores, o mesmo barulho de tênis raspando no linóleo e a mesma luz solar pálida filtrada pelas janelas altas. Contudo, para Sua, o mundo parecia ligeiramente mais opressor.

Ivan não estava lá. Ele havia partido antes do amanhecer para a zona florestal que cercava o limite da cidade. Ser um vampiro exigia manutenção, e Ivan, com seu apetite insaciável e sua falta de paciência, preferia "abastecer" o estoque de uma vez, caçando animais selvagens para evitar que seus instintos se voltassem contra os pescoços pulsantes de seus colegas de classe. Sua, por outro lado, orgulhava-se de seu controle. Ela conseguia passar dias com o mínimo, mantendo uma dieta rigorosa que não envolvesse o abate direto de seres vivos, contanto que se mantivesse calma.

O problema era que a escola não era um lugar calmo.

No corredor principal, Mizi caminhava com sua confiança habitual, flanqueada por Marty e Vianna. Ela gesticulava com uma das mãos enquanto a outra segurava uma lata de energético.

— Eu estou falando, Marty! O solo de guitarra daquela música é humanamente impossível — dizia Mizi, rindo. — O Till deve ter vendido a alma pra conseguir tocar aquilo sem quebrar os dedos.

— Ou ele só pratica, Mizi. Nem todo mundo é preguiçoso como você — provocou Marty, dando um passo lateral e, em um momento de pura distração física, tropeçando no próprio cadarço desamarrado.

O empurrão foi inevitável. Marty colidiu com o ombro de Mizi, que foi lançada para o lado exatamente no momento em que Sua passava, carregando seus livros de biologia contra o peito.

O impacto foi seco. Mizi, mais alta e mais pesada, quase derrubou a garota menor.

— Opa! Caralho, desculpa! — Mizi exclamou, segurando Sua pelos ombros para evitar que ela fosse ao chão.

Sua endureceu sob o toque. A pele de Mizi era quente, e o som do coração dela, tão próximo, ecoou nos ouvidos sensíveis da vampira como um tambor de guerra. O cheiro de chiclete de morango e suor adolescente era quase insuportável.

— Está tudo bem — respondeu Sua, a voz mais fria do que pretendia. Ela se soltou rapidamente, ajeitando o blazer impecável.

Mizi franziu o cenho, notando a palidez extrema da garota e a maneira como ela parecia evitar contato visual.

— Você é a... Sua, né? A novata? — Mizi tentou puxar papo, exibindo um sorriso amigável que costumava desarmar qualquer um na escola. — Mal nos falamos ontem. Onde está o seu irmão? O cara do pirulito?

— Ele está doente. Ficou em casa — mentiu Sua, apertando os livros com mais força.

— Pô, que merda. Se precisar de alguma coisa, tipo, saber onde ficam as salas menos vigiadas pra cabular aula, é só falar comigo — Mizi piscou, tentando ser gentil.

— Agradeço a oferta, mas não pretendo faltar às aulas — disse Sua, começando a se afastar. — Com licença.

Mizi ficou ali, parada, observando a garota de cabelos pretos sumir na multidão.

— Credo, que garota estranha — comentou Vianna, aproximando-se. — Ela parece que está sempre em um funeral.

— Ela é... intensa — murmurou Mizi, sentindo um formigamento estranho nos dedos onde havia tocado os ombros de Sua. — Mas deixa pra lá. Vamos, o sinal vai bater.

O dia seguiu seu curso arrastado. Till, do outro lado da sala, observava Mizi com a melancolia de sempre, sem saber que a garota rosa estava ocupada demais tentando entender por que a novata parecia tão sem vida.

Quando o sinal da última aula tocou, a fome de Sua havia se transformado em uma queimação ácida na garganta. Ivan ainda não havia voltado, e o controle que ela tanto prezava estava se esfarelando sob o estresse de fingir ser humana por oito horas seguidas.

Ao sair da escola, Sua não foi para o ponto de ônibus. Ela caminhou rápido, entrando em uma área comercial menos movimentada, onde as luzes dos postes ainda começavam a piscar. O instinto estava no comando agora.

Um homem, aparentemente um trabalhador de escritório voltando tarde para casa, virou a esquina de um beco escuro para cortar caminho. Foi um erro fatal.

Sua se moveu como um vulto. Em um segundo, ela o empurrou contra as latas de lixo no fundo do beco; no segundo seguinte, suas presas, que ela escondia com tanto esforço, rasgaram a jugular do homem. O suspiro dele foi abafado pela mão pálida dela sobre sua boca.

Enquanto isso, Mizi caminhava pela mesma rua, a poucos metros dali. Ela estava com os fones de ouvido sem fio, balançando a cabeça ao som de um rock pesado. De repente, ao ajeitar o cabelo, um dos fones escorregou de sua orelha.

— Ah, não! Porra! — Mizi exclamou, vendo o pequeno objeto branco quicar no asfalto e rolar exatamente para dentro da escuridão de um beco.

Ela suspirou, irritada, e entrou no beco. A luzinha azul do fone piscava no chão, a cerca de três metros de profundidade. Mizi se abaixou para pegá-lo, mas um som a fez congelar.

Um suspiro pesado. Quase um rosnado de satisfação.

Mizi levantou o olhar. No fundo do beco, sob a luz fraca de uma lâmpada de segurança quebrada, ela viu.

Sua estava curvada sobre um homem caído. O rosto da novata estava sujo de vermelho escuro, e seus olhos roxos brilhavam com uma intensidade desumana. Mas o que paralisou Mizi foram os dentes. Longos, afiados e cravados na carne alheia.

— Puta que pariu! — O grito de Mizi saiu antes que ela pudesse processar o perigo.

Sua congelou. Ela virou o rosto lentamente, o sangue escorrendo pelo queixo. O choque nos olhos de Mizi era absoluto. Por um instante, o tempo parou.

Mizi não esperou uma explicação. Ela deu meia-volta e disparou a correr como se sua vida dependesse disso — e, tecnicamente, dependia. Ela saiu do beco, o coração batendo tão forte que ela sentia a pulsação na ponta dos dedos.

Sua deu um passo para segui-la, mas parou na entrada do beco. A rua agora tinha mais pessoas passando. Se ela atacasse Mizi ali, seria o fim de seu segredo e da vida de Ivan. Ela limpou o sangue da boca com a manga do blazer, sentindo o pânico subir.

— Merda... — sussurrou Sua, observando a silhueta rosa desaparecer na multidão.

Mais tarde, naquela noite, Ivan voltou para casa, encontrando Sua sentada no sofá, encarando a parede com uma expressão de puro terror.

— Você não vai acreditar no que aconteceu — disse ela, a voz trêmula. — A garota... a Mizi. Ela me viu, Ivan. Ela me viu "jantando".

Ivan, que estava limpando uma mancha de terra da bota, parou imediatamente. O sorriso provocador sumiu de seu rosto.

— Você está brincando, certo? — Ele se aproximou, a seriedade emanando de sua postura alta. — Sua, se ela contar para alguém, estamos mortos. O conselho vai nos caçar, os humanos vão nos caçar...

— Eu sei! — Sua gritou, cobrindo o rosto com as mãos. — Mas ela fugiu antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. E agora?

— Agora — disse Ivan, seus olhos ficando frios —, nós precisamos garantir que ela fique de boca fechada. De um jeito ou de outro.

Na manhã de quarta-feira, Mizi acordou sentindo-se como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Ela tentou fingir uma febre, implorou para a mãe deixá-la ficar em casa, mas não teve sucesso.

— É só preguiça, Mizi! Vá para a escola! — foi tudo o que ouviu antes de ser empurrada para fora.

Ela não contou para ninguém. Nem para Marty, nem para Vianna. Quem acreditaria? "Ei, a aluna nova é uma vampira e eu vi ela comendo um cara no beco da Rua 4". Eles a mandariam para um hospício.

Ao chegar no portão da escola, Mizi sentiu um arrepio na espinha. Ela tentou agir normalmente, caminhando entre Marty e Vianna enquanto eles discutiam sobre a prova de matemática.

— Mizi, você tá bem? Tá pálida — comentou Vianna.

— Só... dormi mal — mentiu Mizi, os olhos varrendo o pátio.

E então ela os viu.

Ivan e Sua estavam encostados em uma árvore próxima à entrada principal. Ivan não estava sorrindo hoje. Ele observava Mizi com um olhar predatório, enquanto Sua mantinha os braços cruzados, os olhos roxos fixos nela como lasers.

Mizi sentiu o suor frio escorrer pelo pescoço. Ela desviou o olhar imediatamente, focando nos sapatos de Marty.

— "Pai nosso que estais no céu..." — ela começou a murmurar uma oração desconexa em sua mente, apesar de não ser religiosa.

O dia na sala de aula foi um tormento. Mizi sentia os olhos de Sua queimando suas costas a cada segundo. Toda vez que ela se virava para pegar algo na mochila, encontrava o olhar de Ivan, que agora estava sentado na fileira ao lado, observando-a como se ela fosse um experimento científico interessante.

Till notou a tensão. Ele viu como Mizi estava inquieta e como os novatos pareciam orbitar ao redor dela de uma forma sinistra.

— Aconteceu alguma coisa entre você e os irmãos esquisitos? — Till perguntou em um momento raro de coragem, quando se cruzaram no bebedouro.

Mizi olhou para ele, os olhos arregalados. Por um segundo, ela quis contar. Quis gritar que eles eram monstros. Mas ela viu Ivan dobrando a esquina do corredor, segurando um pirulito vermelho que parecia sangue solidificado.

— Não é nada, Till! Me deixa em paz! — Ela respondeu, ríspida, e saiu quase correndo.

Till ficou parado, confuso e magoado, enquanto Ivan passava por ele com um aceno de cabeça gelado.

Quando o sinal da saída finalmente tocou, Mizi sabia que não podia ir para casa sozinha. O medo de ser atacada em um beco como aquele homem era real demais.

— Ei, pessoal! — Mizi gritou no meio do corredor, abordando um grupo de jogadores de basquete e algumas líderes de torcida. — Quem quer ir tomar um sorvete perto da minha casa? Eu pago a primeira rodada!

A popularidade de Mizi funcionou a seu favor. Em poucos minutos, ela tinha um "escudo humano" de quase dez pessoas caminhando ao seu redor. Eles riam, falavam alto e ocupavam toda a calçada.

Do outro lado da rua, Sua e Ivan observavam a procissão.

— Ela é esperta — comentou Ivan, encostado em um poste. — Sabe que não podemos fazer nada com tanta testemunha.

— E o que vamos fazer? — perguntou Sua, o tom de voz carregado de ansiedade. — Ela vai acabar contando. É só questão de tempo.

— Não se ela tiver medo demais para falar — Ivan respondeu, finalmente deixando um sorriso cruel surgir. — Mas precisamos saber onde ela mora. E precisamos de um momento a sós com a nossa "estrela".

Mizi chegou em casa escoltada até a porta. Assim que entrou, ela trancou a fechadura, colocou a corrente, trancou as janelas e até empurrou uma cadeira contra a porta dos fundos.

— Mãe? — ela chamou, mas a casa estava vazia. Os pais trabalhavam até tarde.

Mizi sentou-se no chão da sala, abraçando os próprios joelhos. Ela sabia que não tinha alucinado. O sangue, os dentes, a velocidade... tudo era real. E agora, ela estava marcada por dois predadores que frequentavam a sua sala de aula, usavam o mesmo uniforme e sabiam exatamente quem ela era.

No silêncio da casa, ela ouviu um barulho no andar de cima. Um leve arranhado na janela do seu quarto.

Mizi prendeu a respiração. O medo era uma presença física agora, apertando sua garganta. Ela não sabia quanto tempo conseguiria manter aquele segredo, mas sabia de uma coisa: a escola Anakt nunca mais seria a mesma.

E o jogo entre o caçador e a presa estava apenas começando.

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