Let me .... You
Lobo em Pele de Cordeiro
O som arranhado na janela do quarto de Mizi não passou de um galho seco castigado pelo vento noturno, ou talvez fosse apenas o eco de sua própria paranoia. Quando seus pais finalmente cruzaram a porta da frente, as chaves tilintando com a normalidade mundana de quem apenas teve um dia cansativo no escritório, Mizi sentiu o ar voltar aos pulmões. Ela não disse nada. Não deu um pio sobre becos, pescoços rasgados ou olhos roxos sobrenaturais. Em vez disso, ela subiu para o quarto e trancou a porta.
Mas ela não dormiu.
Mizi sentou-se diante do espelho da penteadeira, observando os próprios olhos dourados. Ela não era apenas a garota popular da Anakt. Ela não era apenas a lésbica que escondia sua orientação da massa estudantil. Ela era algo que Sua e Ivan, em sua arrogância de recém-chegados, jamais imaginaram encontrar naquela cidadezinha monótona.
— Vocês acham que são os únicos predadores no topo da cadeia? — sussurrou ela para o reflexo, um sorriso lento e perigoso surgindo em seus lábios.
Ela passou a noite em claro, mas não por medo. Foi por estratégia. Mizi conhecia o jogo. Ela sabia como vampiros agiam quando achavam que tinham sido descobertos: eles entravam em modo de contenção. Eles vigiavam. Eles intimidavam. Então, ela lhes daria exatamente o que eles esperavam ver.
Ao amanhecer, Mizi usou uma base de tom levemente mais claro que sua pele, mas aplicou-a de forma descuidada sob os olhos, garantindo que as olheiras profundas e a palidez de quem passou a noite em pânico fossem visíveis. Ela vestiu o uniforme com a gravata ainda mais frouxa que o normal, dando a impressão de desleixo causado pelo esgotamento mental.
No caminho para a escola, ela comprou três latas de energético. Ela bebia a primeira enquanto caminhava, mantendo os ombros encolhidos e o olhar baixo, fingindo checar os arredores a cada cinco segundos. Ela sentia a presença deles. Ivan e Sua estavam à distância, movendo-se pelas sombras e pela multidão, acreditando piamente que eram os caçadores invisíveis. Mizi quase riu. O cheiro deles — aquele aroma metálico e frio — era tão óbvio para ela quanto o cheiro de incenso em uma igreja.
Já dentro da escola, o teatro continuou.
— Mizi, você tá um lixo, cara — comentou Marty, preocupado, enquanto caminhavam para a aula de História. — Sério, parece que você viu um fantasma ou foi atropelada por um trem de carga.
— Só não dormi, Marty — Mizi respondeu com a voz propositalmente rouca, dando um gole longo no energético. — Tive pesadelos. Coisas... estranhas.
Vianna trocou um olhar preocupado com Marty.
— Quer ir na enfermaria? A gente inventa uma desculpa pro professor.
— Não, eu aguento — Mizi forçou um bocejo, sentindo o olhar de Ivan queimar sua nuca do outro lado do corredor.
Durante as três primeiras aulas, Mizi executou sua performance com perfeição. Ela deixou a cabeça pender três vezes, quase batendo o queixo na mesa, apenas para "acordar" com um solavanco assustado, olhando para os lados como se esperasse um ataque. Till, sentado algumas fileiras atrás, sentia o coração apertar. Ele queria ir até lá, segurar a mão dela e perguntar o que estava acontecendo, mas o medo da rejeição — e a aura estranha que parecia cercar Mizi naquele dia — o mantinha pregado à cadeira.
Quando o sinal do intervalo tocou, a sala esvaziou rapidamente.
— Mizi, vem comer alguma coisa — chamou Vianna.
Mizi apenas murmurou algo ininteligível, debruçando-se sobre os braços na mesa.
— Deixa ela, Vi — disse Marty em voz baixa. — Ela tá morta de sono. Se a gente acordar ela agora, ela vai matar alguém. Vamos trazer um sanduíche pra ela depois.
Os dois saíram. Till, Luka e Hyuna também se retiraram, com Hyuna lançando um último olhar curioso para a garota de cabelo rosa antes de fechar a porta.
O silêncio caiu sobre a sala 3-A. Ou quase silêncio.
Mizi ouviu o clique da porta sendo trancada por fora. Ela sentiu a temperatura da sala cair alguns graus. Ivan estava do lado de fora, fazendo a guarda, garantindo que ninguém interrompesse o que estava por vir.
Passos leves, quase inaudíveis, aproximaram-se de sua mesa. Mizi permaneceu imóvel, a respiração lenta, fingindo o sono pesado da exaustão.
De repente, o mundo girou.
Uma mão pequena, mas dotada de uma força descomunal, agarrou a gola da blusa de Mizi e a puxou para cima com um solavanco violento. Mizi "acordou" com um arquejo, encontrando o rosto de Sua a centímetros do seu. Os olhos roxos da novata estavam acesos com uma fúria fria, e sua outra mão subiu rapidamente para o pescoço de Mizi, apertando o suficiente para restringir o ar, mas não para quebrar a traqueia.
— Você achou que podia fugir, não foi? — a voz de Sua era um sussurro sibilante, carregado de ameaça. — Achou que ia chegar aqui hoje e agir como se nada tivesse acontecido?
Mizi tentou falar, mas apenas um som sufocado saiu de sua garganta. Ela arregalou os olhos dourados, deixando as lágrimas de encenação brotarem nos cantos.
— Escuta bem, sua humana barulhenta — continuou Sua, pressionando Mizi contra a mesa. — Você é popular. As pessoas notam você. É a única razão pela qual eu não arranquei sua cabeça naquele beco e não vou arrancar agora. Mas se você abrir essa boca, se fizer um sinal que seja para seus amigos ou para qualquer autoridade, eu juro que vou fazer você assistir enquanto eu dreno cada gota de sangue daquele seu amigo de cabelo verde. Entendeu?
Sua apertou ainda mais o pescoço de Mizi, querendo ver o pânico absoluto, querendo sentir a vida da garota se esvaindo diante de sua superioridade.
Foi então que o inesperado aconteceu.
Mizi, que deveria estar desfalecendo ou implorando por misericórdia, começou a tremer. Não era um tremor de medo. Era um som baixo, gutural, que logo se transformou em uma risada clara e cristalina.
— Hahaha... Hah...
Sua franziu o cenho, o choque desestabilizando sua postura.
— Do que você está rindo, sua idiota? Eu estou falando sério!
— Eu também estou — disse Mizi. Sua voz não estava mais sufocada.
Em um movimento tão rápido que os sentidos de vampira de Sua mal conseguiram acompanhar, Mizi levou as mãos aos pulsos da garota. Com uma força que não pertencia a uma colegial humana, Mizi removeu as mãos de Sua de seu pescoço como se fossem gravetos.
Antes que Sua pudesse reagir, Mizi girou o corpo, invertendo as posições. Ela empurrou Sua contra a parede de alvenaria da sala com um baque surdo, prensando-a com o antebraço contra a garganta da novata.
Sua tentou usar sua força sobrenatural para se soltar, mas seus olhos se arregalaram em puro terror quando percebeu que Mizi era mais forte. Muito mais forte.
— Você... o quê...? — Sua gaguejou, a melancolia habitual dando lugar a um pânico genuíno.
— "Humana barulhenta"? — Mizi inclinou a cabeça, o cabelo rosa e azul caindo sobre o rosto. — Sério, Sua? Você e seu irmão são tão novos assim que não conseguem reconhecer um dos seus quando o veem?
Mizi abriu a boca, e as presas brancas e afiadas saltaram para fora, brilhando sob a luz fluorescente da sala.
— Puta merda... — Sua sussurrou, paralisada.
— Faz meses que eu não encontro outro vampiro nesta cidade esquecida por Deus — disse Mizi, o sorriso agora predatório e faminto. — E eu estou há tanto tempo sem sangue de verdade que estava quase começando a considerar morder o Till, só pra ver se o sangue dele é tão doce quanto a cara de idiota que ele faz.
Mizi aproximou o rosto do pescoço de Sua. O cheiro do sangue de outro vampiro era inebriante, muito mais potente e nutritivo do que qualquer animal ou humano.
— Mas humanos dão muito trabalho — continuou Mizi, a voz vibrando contra a pele de Sua. — Limpar a bagunça, esconder o corpo, lidar com a polícia... É um porre. Mas sangue de vampiro? Isso se regenera. É sustentável.
Sem mais avisos, Mizi cravou as presas no ombro de Sua.
Sua soltou um ganido abafado, sentindo a sucção poderosa. Não era como a mordida de um humano; era uma conexão elétrica, uma drenagem de energia que a deixou momentaneamente fraca. Mizi bebeu apenas o suficiente para saciar a queimação que sentia há meses, um néctar proibido que a fez sentir cada fibra de seu corpo reviver.
Mizi se afastou, limpando um filete de sangue que escorria pelo canto da boca com o polegar. Ela soltou Sua, que escorregou pela parede até sentar no chão, respirando com dificuldade e segurando o ombro ferido.
— O segredo de vocês está seguro comigo — disse Mizi, guardando as presas e voltando a ajeitar a gravata frouxa como se nada tivesse acontecido. — Afinal, se eu expor vocês, eu me exponho. E eu gosto muito da minha vida social para virar alvo de caçadores.
Ela caminhou até a mesa de Sua, pegou um dos cadernos organizados da garota e o jogou no colo dela.
— Mas vamos deixar uma coisa clara: nesta escola, eu sou a rainha. Vocês são os convidados. Se precisarem de sangue, cacem seus animais na floresta. Mas se tentarem me ameaçar de novo, ou se tocarem nos meus amigos... eu dreno vocês dois até não sobrar nem pó para contar a história. Entendido, "irmãzinha"?
Mizi piscou para ela, pegou sua mochila e caminhou até a porta. Ela bateu duas vezes.
— Ivan! Abre a porta, o teatro acabou!
Do lado de fora, Ivan abriu a porta com um sorriso convencido, esperando ver uma Mizi aterrorizada saindo aos prantos. Em vez disso, ele encontrou a garota rosa com um olhar de tédio e uma energia renovada que ele não conseguia explicar.
— Valeu pela conversa, Sua! A gente se vê na aula de biologia! — Mizi gritou por cima do ombro, saindo pelo corredor com passos saltitantes.
Ivan entrou na sala rapidamente, fechando a porta atrás de si. Ele encontrou Sua ainda no chão, pálida como um papel e tremendo.
— Sua? O que aconteceu? — Ele correu até ela, notando a marca de mordida no ombro, perfeitamente visível através do tecido rasgado do uniforme. — Que porra é essa? Ela te atacou com uma tesoura? Ela chamou alguém?
Sua levantou o olhar para o irmão, os olhos roxos cheios de uma compreensão amarga.
— Ivan... a gente é muito burro.
— Do que você está falando?
— Ela não é humana, Ivan — Sua disse, a voz falhando. — A Mizi... ela é uma de nós. E ela é muito mais velha, ou muito mais forte, do que a gente imaginava. Ela me usou como um lanche, Ivan! Ela planejou tudo!
Ivan ficou em silêncio, a ficha caindo lentamente. A garota popular, a garota que falava palavrão e agia como se não tivesse uma preocupação no mundo, era na verdade o predador alfa daquele território.
— Ela é uma vampira? — Ivan perguntou, uma mistura de choque e um estranho fascínio surgindo em seu rosto. — Aquela... aquela boneca de chiclete?
— Uma vampira manipuladora e perigosa — corrigiu Sua, levantando-se com esforço. — E agora ela sabe quem somos. E pior: ela sabe que o sangue de vampiro é o prato favorito dela.
Enquanto isso, no pátio, Mizi se juntava a Marty e Vianna. Ela parecia outra pessoa. A palidez havia sumido, substituída por um brilho saudável nas bochechas.
— Caraca, Mizi! A soneca fez milagres, hein? — disse Marty, entregando-lhe um sanduíche. — Você parece pronta pra conquistar o mundo.
— E eu estou, Marty — Mizi deu uma mordida generosa no sanduíche, sentindo-se maravilhosa. — Eu só precisava de um... suplemento vitamínico.
Ela olhou para o lado e viu Till, Luka e Hyuna sentados em uma mesa próxima. Till a observava, como sempre. Mizi, em um impulso de bom humor, deu um tchauzinho para ele e soltou um beijo no ar.
Till quase caiu do banco, ficando vermelho como um pimentão, enquanto Hyuna caía na gargalhada e Luka balançava a cabeça, confuso com a mudança súbita de humor da garota.
Mizi sorriu para si mesma. A vida na Escola Anakt acabara de ficar muito mais interessante. Ela tinha dois novos brinquedos para observar, um estoque de sangue de alta qualidade garantido e ninguém, absolutamente ninguém, desconfiava da verdade.
Afinal, quem suspeitaria da garota de cabelo rosa?
Lá no fundo do corredor, Ivan e Sua caminhavam para o refeitório, mantendo a cabeça baixa pela primeira vez desde que chegaram. Eles achavam que tinham entrado em um curral cheio de ovelhas.
Não poderiam estar mais enganados. Eles tinham entrado na toca do lobo. E o lobo usava saia curta e gravata frouxa.