Let me .... You
O Elo de Sangue e o Silêncio Interrompido
O ar dentro da pequena sala de materiais de limpeza era pesado, impregnado com o cheiro químico de desinfetante barato e a poeira acumulada nas prateleiras de metal. Mas, para Mizi e Sua, o mundo exterior — com seus corredores barulhentos, escândalos sociais e amigos confusos — havia deixado de existir no momento em que a porta se fechara.
O beijo, que começara como uma confirmação calma e quase terna da cumplicidade delas, mudou de natureza em um batimento cardíaco. A necessidade, alimentada pela adrenalina do confronto no corredor e pela fome constante que as unia, explodiu. Sua não era mais a presa passiva; ela envolveu as mãos na nuca de Mizi, puxando-a para mais perto, os dedos enterrados nos fios rosa e azul com uma urgência que beirava o desespero. Ela queria sentir tudo: o calor, o gosto, a força esmagadora da veterana.
Mizi respondeu na mesma moeda. Suas mãos desceram das bochechas de Sua para sua cintura, apertando o tecido do uniforme social com força antes de deslizarem para baixo, apertando a curva da bunda de Sua com uma possessividade bruta. O impacto fez Sua soltar um arquejo contra os lábios de Mizi, e o equilíbrio de ambas vacilou. Elas tropeçaram, os corpos colados, até que as costas de Sua atingiram a prateleira de metal com um baque surdo, fazendo os baldes de plástico chacoalharem acima delas.
— Mizi... — Sua tentou pronunciar o nome entre os beijos, mas mal teve tempo de recuperar o fôlego antes que Mizi a tomasse novamente.
Era um ciclo vicioso. Elas se separavam por frações de segundo, apenas o suficiente para que o oxigênio queimasse em seus pulmões, para logo depois se chocarem de novo. Sua agora segurava o rosto de Mizi com as duas mãos, os polegares traçando a linha de sua mandíbula enquanto se esfregava contra ela, buscando um contato que aliviasse a tensão elétrica que corria por seus membros.
Mizi, percebendo a entrega total da garota, deu um passo à frente, encaixando-se entre as pernas de Sua. Ela elevou o joelho, pressionando-o firmemente contra a intimidade de Sua, por cima da saia preta.
— Ah! — O gemido de Sua foi alto, ecoando nas paredes estreitas da sala.
Mizi aproveitou a abertura para aprofundar o beijo, sua língua invadindo a boca de Sua com uma autoridade que exigia submissão. O prazer era agudo, misturado à dor latente das mordidas anteriores, criando um coquetel sensorial que deixava Sua completamente à mercê da outra. Elas se separaram mais uma vez, as testas coladas, as respirações sincronizadas em um ritmo errático.
— Você... você não tem ideia do que está fazendo comigo — ofegou Sua, os olhos roxos nublados de desejo.
Mizi não respondeu com palavras. Em vez disso, ela enterrou o rosto no pescoço de Sua, no ponto exato onde a pele ainda estava sensível. Ela começou a distribuir beijos e pequenas sucções, não para tirar sangue, mas para marcar, para sentir a pulsação frenética da vida sobrenatural sob a pele pálida. Sua ficou estática, a cabeça pendendo para o lado, as mãos apertando os ombros de Mizi contra si, como se temesse que, se a soltasse, o mundo voltaria a ser cinza e vazio.
Foi nesse momento de vulnerabilidade absoluta que três batidas curtas e pesadas ecoaram na porta de madeira.
— Sua? Você está aí dentro? — A voz de Ivan soou abafada, mas carregada de uma preocupação irritada. — Já faz tempo demais. Se aquela maníaca te matou, eu juro que vou queimar este ginásio!
Sua deu um solavanco, tentando se recompor, mas Mizi não se afastou. Pelo contrário, ela continuou a trilhar o pescoço de Sua com os lábios, mantendo a pressão do joelho entre as pernas da garota.
— Ivan... eu estou... aqui... — Sua respondeu, mas a voz saiu quebrada e trêmula, uma consequência direta do que Mizi estava fazendo com ela.
— Sua? Por que você está falando assim? — A maçaneta girou e Ivan entrou, a luz do corredor invadindo o cubículo escuro.
O rapaz parou bruscamente, a expressão de preocupação transformando-se em um choque indignado. Ele viu a irmã prensada contra a prateleira, o uniforme desgrenhado, e Mizi, com o rosto enterrado no pescoço dela como um parasita insaciável.
— Mas que porra é essa? — Ivan exclamou, fechando a porta atrás de si para que ninguém mais visse a cena. — Eu achei que ela estava te drenando, não... isso!
Mizi finalmente se afastou de Sua, embora tenha mantido uma mão possessiva no quadril da garota. Ela olhou para Ivan com um sorriso preguiçoso e desafiador, limpando o canto da boca com o polegar.
— Relaxa, "cunhadinho" — disse Mizi, o tom de voz carregado de deboche. — Pelo menos eu não mordi ela desta vez. Você é realmente um estraga-prazeres de primeira categoria, sabia?
— Estraga-prazeres? — Ivan deu um passo à frente, apontando para as duas. — Vocês estão no meio da escola! Vianna está lá fora parecendo que foi atropelada por um caminhão emocional e metade dos alunos está apostando se vai ter um duelo de vampiros no pátio!
Mizi revirou os olhos e começou a ajeitar a gravata frouxa, preparando-se para sair. Mas, antes que pudesse dar o primeiro passo, sentiu um aperto firme em seu pulso. Ela olhou para baixo e viu os dedos de Sua entrelaçados nos seus.
Sua olhou para o irmão com uma determinação que ele raramente via.
— Ivan — disse ela, a voz agora mais firme, embora o rubor ainda estivesse presente em suas bochechas —, é melhor você achar alguém para passar o resto do intervalo. Ou vá comer seus doces em paz.
Sem esperar por uma resposta, Sua entrelaçou sua mão na de Mizi. O gesto, embora simples, carregava um peso enorme. Era a primeira vez que Sua tomava a iniciativa de um contato público, de uma demonstração de união que ia além da necessidade de sobrevivência. Mizi sentiu um calor inesperado no peito, um tipo de satisfação que nenhum sangue jamais lhe proporcionara.
Elas saíram da sala de materiais de limpeza de mãos dadas. O corredor que levava ao ginásio estava relativamente calmo, mas, à medida que se aproximavam do pátio central, a presença delas tornou-se o centro de todas as atenções. Elas caminharam devagar, conversando em tons baixos, ignorando os sussurros e os pescoços que se viravam conforme passavam.
— Você tem certeza disso? — perguntou Mizi, apertando levemente a mão de Sua. — Amanhã a fofoca vai ser dez vezes pior.
— Eu não me importo — Sua respondeu, olhando para a frente. — Se eles vão falar de qualquer jeito, que falem a verdade. Ou pelo menos a versão da verdade que eles conseguem entender.
Enquanto as duas desapareciam em direção aos jardins da escola, Ivan permanecia parado no corredor, observando-as com uma mistura de cansaço e resignação. Ele soltou um suspiro longo, sentindo o peso da solidão sobrenatural. Ele precisava de açúcar. E, talvez, de uma conversa que não envolvesse pescoços rasgados ou dramas lésbicos.
Ele caminhou até o refeitório e comprou um pacote de donuts cobertos de chocolate. Sentou-se em uma mesa isolada, mas não ficou sozinho por muito tempo.
— Aquilo foi... cinematográfico — disse uma voz descolada.
Ivan levantou o olhar e viu Hyuna, acompanhada por Till e Luka. Hyuna sentou-se na frente dele sem pedir licença, enquanto Till parecia querer se fundir com o chão e Luka observava a tabela nutricional no verso de uma garrafa de suco.
— Sua irmã tem coragem — continuou Hyuna, roubando um pedaço do donut de Ivan. — E a Mizi... bom, a Mizi é a Mizi. Elas formam um casal estranhamente funcional.
Ivan olhou para Hyuna, depois para o Till, que parecia estar em um estado de choque vegetativo.
— Elas são um desastre ambulante — resmungou Ivan, mas não impediu Hyuna de pegar outro pedaço do doce. — E você? Veio aqui para me interrogar ou só para roubar minha comida?
— Um pouco dos dois — Hyuna sorriu, os olhos azuis brilhando de curiosidade. — Sabe, Ivan, você e sua irmã são... diferentes. E eu gosto de coisas diferentes.
Luka, que até então estava em silêncio, finalmente falou.
— A análise do comportamento social dos novos alunos sugere uma integração atípica, porém fascinante — disse ele, de forma formal. — Embora a demonstração de afeto no corredor tenha sido estatisticamente improvável para o perfil da Sua.
— É — murmurou Till, a voz rouca —, ela realmente parecia gostar da Mizi.
Ivan observou o trio. Pela primeira vez desde que chegara àquela escola, ele não sentiu a necessidade imediata de provocar ou de se esconder. Havia algo na energia caótica de Hyuna e na estranha lógica de Luka que o fazia sentir que, talvez, a vida humana não fosse tão monótona assim.
— Escutem — disse Ivan, empurrando o pacote de donuts para o centro da mesa —, se vamos ser o novo grupo de párias e fofoqueiros da escola, é melhor vocês saberem que eu não divido meus doces com facilidade.
Hyuna soltou uma gargalhada e deu um tapinha no ombro dele.
— A gente se vira, novato. A gente se vira.
Enquanto isso, nos jardins da escola, sob a sombra de uma grande magnólia, Mizi e Sua continuavam a caminhar. O mundo ao redor delas era um caos de segredos e mentiras, mas, naquele momento, o calor de suas mãos unidas era a única coisa que importava. Elas eram predadoras, eram monstros, eram o segredo mais bem guardado da cidade. Mas, acima de tudo, elas eram apenas duas garotas descobrindo que, às vezes, o gosto do abismo era exatamente o que precisavam para se sentirem vivas.